agosto 17, 2005
2005 - ano louco de concertos 'trad' #1

Ali "Farka" Touré no Keil do Amaral - o concerto do ano | (c) Mário Filipe Pires
Aos poucos, começo a recompor-me do louco período que percorre todo o mês de Julho e as duas semanas de Agosto. Se as férias foram feitas para descansarmos sobretudo o físico posso assegurar-vos que voltei ao trabalho muito mais cansado. Em três semanas, apanhei os dois primeiros dias do Africa Festival do Keil do Amaral. Fui ao Raízes do Atlântico do Funchal. Saí do avião vindo da Madeira para pegar de imediato no carro e zarpar para Sines. Os quatro dias e os 14 concertos (não fui a Porto Covo assistir a 34 Puñaladas) que vi na costa litoral alentejana deixaram-me literalmente atordoado. Foi, de facto, muito difícil dormir em Sines mais do que 4 horas por dia. Daí só ter conseguido chegar ao Andanças na Quinta-feira (e não na Terça conforme tinha previsto). Na sexta, lá fiz mais uns 250 kms rumo a Sendim (que mais parecem cerca de 500 kms), onde passei o Sexta-feira e o Sábado.
A experiência do Andanças foi tão arrebatadora que ainda lá voltei no Domingo, dia de encerramento. Na semana seguinte descansei na serra algarvia e acabei por não ter forças para ir a Porshes / Lagoa, à segunda edição do Sons do Atlântico, nem a Blasted em Tavira, nem a Mandrágora em Faro. Espero poder ver-vos o mais brevemente possível.
De entre cerca de cinco dezenas de espectáculos, destacam-se quase todos os momentos do FMM de Sines, sobretudo Amadou & Mariam, logo na primeira noite, pela virtuosa guitarra do maliano, pela tão coesa junção do casal negro com os restantes elementos de pele branca. Uma deliciosa caldeirada que combina com mestria a matriz das várias tradições da África Ocidental pulverizada de aromas pop, funk, electro e outros devaneios da música (extremamente) dançável do Hemisfério Norte, sem nunca descaracterizar o sabor do principal ingrediente.
Houve ainda o carrossel fantasmagórico de KTU que, apesar de não constituir nenhuma surpresa para quem já viu ao vivo o projecto Kluster, ganha e muito (em intensidade) com a inclusão dos dois ex-King Crimson; as mil e uma cores de Astrid Hadad que, em sessenta minutos, nos ofereceu um show de cabaret de deboche barato, um humorístico comício anti-Bush e um banho de cultura mexicana através de um infindável desfilar de trajes exageradamente kitsch; a ascenção à interzone com a Master Musicians of Jajouka, a fragilidade e a nudez (em que se viram mesmo os ossos) de Lula Pena.
Uns dias antes, os Zigaia (a banda de “covers” da tradição europeia dos quatro elementos dos Dazkarieh), o melhor do que vi no Funchal, mostram como pode ser livre e intensa a forma de pegar nas polskas, valsas e demais danças tradicionais europeias comummente interpretadas nos bailes deste circuito, instigando-nos também a ir tirar o pó aos discos dos Väsen e dos Hedningarna.
Na noite anterior ao embarque para o Funchal, o Anfi-teatro Keil do Amaral recebeu destacadamente o concerto do ano (muito provavelmente o da década). Ali Farka Touré fascina não só pela forma abrasadora e muito pessoal de tocar guitarra eléctrica, mas sobretudo pela forma de estar em palco (recuso-me a falar em pose). O largo sorriso que parece de um anjo a viver no paraíso. O chapéu que lhe parece dar um carisma e uma força semelhante ao cabelo de Sanção. Todas as suas expressões têm uma musicalidade muito própria que enriquecem sobremaneira a actuação do “mayor” de Niafunké. E nem é preciso falar nas mãos de seda de Toumani Diabaté…
[continua]
Publicado por Luís Rei às 11:42 PM | Comentários (0)
agosto 03, 2005
FMM de Sines # 15 - Konono nº1

Konono nº1 | © FMM/ Mário Pires 2005

Konono nº1 | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 04:47 AM
FMM de Sines # 14 - Kíla

a voz e o bodhrán tribal de Rónán Ó Snodaigh | © FMM/ Mário Pires 2005

Dee Armstrong | © FMM/ Mário Pires 2005

Colm Ó Snodaigh | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 04:36 AM
FMM de Sines # 13 - KTU

Kimmo Pohjonen possuído pelo demónio | © FMM/ Mário Pires 2005

A guitarra Warr de Trey Gunn | © FMM/ Mário Pires 2005

Kimmo Pohjonen | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 04:33 AM
FMM de Sines # 12 - Master Musicians of Jajouka

Entrando na Interzone com o M M of Jajouka | © FMM/ Mário Pires 2005

Master Musicians of Jajouka | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 04:26 AM
FMM de Sines # 11 - Samurai 4

Samurai 4 "will rock you" | © FMM/ António Melão 2005
Publicado por Luís Rei às 04:23 AM
FMM de Sines # 10 - Ba Cissoko

Ba Cissoko | © FMM/ Mário Pires 2005

A kora electrificada | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 04:20 AM
FMM de Sines # 9 - Hermeto Pascoal

a música de Hermento Pascoal segura o mundo | © FMM/ Mário Pires 2005
Palavras a reter do encontro da Capela:
Este canto vem de longe
A distância não sei dizer
Salve,salve a toda a gente
Que vive e deixa viver
Aqui vai o meu abraço
Com o Som e o Saber
Tirando da própria mente
As palavras pra dizer
A Música segura o Mundo
Enquanto a gente viver
Publicado por Luís Rei às 04:09 AM
FMM de Sines # 8 - Astrid Hadad

Astrid Hadad e o banho de cultura mexicana| © FMM/ Mário Pires 2005

Astrid Hadad dominadora | © FMM/ Mário Pires 2005

A "bushofóbica" Astrid Hadad encarnando, provavelmente, a rebeldia de Pancho Villa | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 04:01 AM
FMM de Sines # 7 - Marc Ribot & The Young Philadelphians

Marc Ribot | © FMM/ Mário Pires 2005

Jamaaladeen Tacuma | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 03:53 AM
FMM de Sines # 5 - Mahala Raï Banda

Mahala Raï Banda | © FMM/António Melão 2005
Publicado por Luís Rei às 03:46 AM
FMM de Sines # 4 - Amadou & Mariam

Amadou & Mariam | © FMM/António Melão 2005
Publicado por Luís Rei às 03:43 AM
FMM de Sines # 3 - Mostar Sevdah Reunion + Ljiljana Buttler

Ljiljana "Grand Mama" Buttler | © FMM/António Melão 2005
Publicado por Luís Rei às 03:31 AM
FMM de Sines # 2 - Cristina Branco + Brigada Victor Jara + Segue-me à Capela

A pose roqueira de Cristina Branco | © FMM/António Melão 2005

A Cantiga do Bombo e a Brigada | © FMM/António Melão 2005

Catarina Moura da Brigada e das Segue-me à Capela | © FMM/António Melão 2005
Publicado por Luís Rei às 03:11 AM
agosto 02, 2005
FMM de Sines #1 - Terra de Descobertas

Noite de Sábado no Interior do Castelo de Sines | © FMM/António Melão 2005
Nunca um slogan turístico traduziu tão bem a realidade de uma pequena cidade do litoral alentejano que tem só 642 anos de história e é só a cidade-berço de Vasco da Gama. Sines é, de facto, uma “Terra de Descobertas”. Há mais de quinhentos anos, dali partiram navegadores que tornaram África e Ásia bem mais perto da Europa. De há sete anos a esta parte, continuam a traçar-se rotas que têm desbravado mares, montanhas e estepes longínquas. Se há pormenor que caracterize o FMM de Sines, talvez o maior seja a capacidade que a programação tem de surpreender pela positiva a maior parte daqueles que vão à descoberta de sonoridades desconhecidas. Ao falarmos com boa parte da assistência que desconhece as terminologias “folk”, “world music”, “músicas do mundo” e os seus protagonistas, facilmente percebemos que a grande maioria diz ter visto bons concertos, apesar de não conhecer a maior parte dos projectos em cartaz.

Palco da Avenida da Praia às 4h da manhã | © FMM/António Melão 2005
Não é da boca para fora que pessoas como Álvaro Costa consideram o FMM de Sines como o melhor festival de música em Portugal (que vai da folk / world ao pop / rock). Senão vejamos:
- O FMM de Sines deixou, há muito tempo, de ser um festival restrito ao público das músicas tradicionais, para se tornar num ponto de peregrinação obrigatória dos principais festivais de verão;
- Mescla com mestria artistas da tradição com uma abordagem jazzística, experimental ou roqueira e artistas provenientes do art rock e do jazz que dão novas tonalidades às músicas locais, o que faz com que haja uma convergência saudável de públicos;
- Há um saudável gosto pelo risco por parte de quem faz o alinhamento dos três dias de festival, apostando por vezes em artistas praticamente desconhecidos como cabeças-de-cartaz (caso de Amadou & Mariam no primeiro dia);
- Nesta edição (e nas últimas) não houve projectos para encher cartaz. É tão forte quem fecha a noite como quem a abre;
- A organização tem a dimensão de um grande festival pop /rock de Verão, proporcionando os mais variados serviços, como gabinete de imprensa, catering para artistas, jornalistas e convidados e não está (ainda) infestado de “cromos” das “cadernetas” do social;
- A organização está atenta ao mais pequeno detalhe. Além do bom som e da largueza de palco que caracterizam os concertos do castelo, há ainda a realçar a disposição de ecrãs de alta definição dentro e fora do recinto, a colocação de hortelã e outras ervas no piso evitando o banho de pó habitual em outros espaços, a preocupação em renovar a imagem dos cenários, do logótipo e de todo o merchandising (que belas t-shirts laranjas, azuis, cremes e castanhas) alusivo ao FMM de Sines.

Na noite de Sábado, muita gente ficou à porta do Castelo sem bilhete de entrada | © FMM/António Melão 2005
Em suma, o FMM de Sines é um óptimo “case study” para um trabalho de Marketing que tente analisar a anormal afluência de um público (cada vez mais massificado e que, provavelmente, não é cliente habitual de concertos de música tradicional) que cresce assustadoramente de ano para ano.
Fica uma interrogação: - Como poderá o FMM de Sines crescer de modo a responder à crescente adesão de público que tem sobrelotado o Castelo e composto de sobremaneira a Avenida da Praia, de modo a não deixar ninguém de fora, sem se descaracterizar?
Publicado por Luís Rei às 10:58 PM
novembro 05, 2004
Danças Ocultas - o ensaio, a noite do Forum Lisboa e o disco
A objectiva do Mário tirou mais umas quantas belas imagens, agora do ensaio de som dos Danças Ocultas, na tarde do passado Sábado no Fórum Lisboa. Ainda hoje colocarei aqui um texto sobre o brilhante disco "Pulsar" e o concerto de apresentação do terceiro álbum deste quarteto. Mais tarde o Mário fará o foto álbum e eu publicarei uma entrevista com Artur Fernandes.



Publicado por Luís Rei às 04:43 PM | Comentários (1)
outubro 13, 2004
IV Encontro Nacional de Gaiteiros (1)

Uma árvore que dá gaitas (c) Miguel Barriga
Vieram de autocarro dos mais diversos pontos do país: Trás-Os-Montes, Minho, Grande Porto, Zona de Coimbra, Península de Setúbal e Estremadura. No Fundão e na bela vila de Alpedrinha, houve muito mais do que o simples desfile de grupos de (ou com) gaiteiros.
Foi um belíssimo encontro de várias gerações de músicos profissionais, amadores e meramente curiosos. De louvar a iniciativa da Associação Gaita de Foles que, se por um lado, tem permitido mostrar ao país a verdadeira dimensão daquilo que a gaita-de-foles (ainda) representa nas festas de aldeia, sobretudo no centro e no norte do país, por um outro lado, tem unido músicos que, em muitos casos, não sabiam da existência de outros gaiteiros a residir a menos de meia centena de quilómetros de sua casa.
O que mais surpreende neste encontro é a constatação da existência de um considerável número de gaiteiros (entre 100 a 200) que tem animado “arruadas” há já, pelo menos, 30 / 40 anos.
É pena que os “media”, por alturas do Verão, batam sempre na mesma tecla e optem pelas estafadas reportagens aos intérpretes “pimba” na animação das festas de Agosto (como aconteceu recentemente na Revista Pública), do sistema sonoro que faz o artista e do seu modo de vida semelhante ao da formiguinha que amealha de Verão para sobreviver no Inverno.
É pena que uma concentração destas não tenha motivado sequer um único órgão de informação social para fazer o devido retrato, não apenas ao desfile e espectáculo nocturno (que é o menos importante nestas circunstâncias), mas que respire o ambiente rural e de calor humano que se viveu durante este fim-de-semana.
Publicado por Luís Rei às 01:30 PM | Comentários (1)
IV Encontro Nacional de Gaiteiros (2): o (re) encontro

Iconografia típica deste encontros: Bombos pintados com o nome do grupo e o respectivo número de telefone para posterior contacto(c) Miguel Barriga
Se, no primeiro encontro, houve uma certa relutância em os gaiteiros do norte dialogarem com os do sul e, sobretudo, os transmontanos reconhecerem que há quem toque gaita-de-foles para lá do Douro, neste quarto encontro nacional houve abraços, largos sorrisos entre os músicos que se reencontram nesta ocasião e a vontade de improvisar, de acompanhar quem quer que começasse a tocar uma moda ou um “hit” da rádio de outrora. Durante a tarde de sábado, quem “aterrasse” desprevenido na Praça do Município do Fundão, corria o sério risco de enlouquecer. Por onde andasse, ressoavam os bombos, as caixas e as gaitas. À medida que passeávamos pelo jardim, íamos ouvindo fados, marchas populares, muñeiras e outras danças da tradição europeia e mirandesa, temas “pimba”, “hits” de sempre do cançonetismo ligeiro português e brasileiro e, até mesmo, hinos da bola.
Publicado por Luís Rei às 01:28 PM
IV Encontro Nacional de Gaiteiros (3): o poder da rádio

Gaiteiro João Santos Pereira de Cantanhede num difícil exercício de interpretação do fado "Lisboa Menina e Moça"(c) Miguel Barriga
O omnipresente Malhão e Bailinho da Madeira, “nós Pimba”, pelos caminhos de Portugal (de quem era mesmo?), Zumba na caneca, bilu-bulu-biluzinho-tetéia, cheira bem cheira a Lisboa, os meninos à volta da fogueira. Há de tudo.
João Santos Pereira de Cantanhede toca gaita há 27 anos nas romarias e festas de aldeia “de norte a sul do país”. Interpreta «fados de Lisboa e de Coimbra, temas do Quim Barreiros.» Tudo «coisas que a gente ouve na rádio». Revela humildade ao reconhecer que «a malta não sabe música, aprende tudo de ouvido». Louvável a sua actuação no programa da noite no Fundão ao interpretar a solo o “Lisboa Menina e Moça” de Carlos do Carmo”.
Publicado por Luís Rei às 01:26 PM
IV Encontro Nacional de Gaiteiros (4): o cochicho da menina

Gaiteiros de Pinhal Novo
António Costa (Gaita-de-foles) de 73 anos e Manuel Jesus Carvalho de 70 anos (Clarinete), são músicos desde os 21 e os 16 anos, respectivamente. Vêm do Pinhal Novo. Longe vai o tempo em que faziam eles os bailes das festas de aldeia tocando em coretos. Hoje em dia participam apenas em arruadas. Apesar da idade força e fôlego não lhes falta. O enérgico e salutar cochicho da menina fartou-se da apitar e animou a malta.
Publicado por Luís Rei às 01:24 PM
IV Encontro Nacional de Gaiteiros (5): Ti Roque, agricultor e gaiteiro

"Ti" Roque depois do jantar (c) Miguel Barriga
Na zona de Torres Vedras habita o “Tio” Joaquim Roque de 68 anos. É produtor agrícola (cultiva e vende bróculos para a Europa) e toca gaita de foles há mais de meia década. É um dos poucos músicos que surge neste encontro a solo. É virtuoso, mas muito tímido também. No final do jantar de sábado, assim que acabou de tocar, encolheu-se e fugiu de vergonha, como um menino tímido. Quem o conhece, diz que ele tem tanto de criança como jóia de pessoa. «Quem tem a sorte de o levar a casa, nunca vem sem pelo menos uma saca de bróculos», afirma Miguel Pedreira da Associação Gaita de Foles.
Publicado por Luís Rei às 01:18 PM
IV Encontro Nacional de Gaiteiros (6): a sucessão

Fábio João (ao centro) e Vítor Costa (à esquerda) (c) Miguel Barriga
O mestre José Albuquerque faleceu no ano passado, mas legitimou a sucessão. Vítor Costa (27 anos) e Fábio João (19 anos) tocam desde tenra idade. São dois irmãos que fazem parte dos Três Unidos da Mealhada. À semelhança do seu avô, também participam em arruadas. Ofereceram-nos o seu cartão de visita através de um “set” do léxico futebolês que incluí melodias do “O melhor clube, SLB”, “Só eu sei por que não fico em casa” “Filhos do Dragão”, com um final que recupera o “Amanhã de manhã” das Doce (será saudosismo da novela Reinaldo?).
Publicado por Luís Rei às 01:16 PM
IV Encontro Nacional de Gaiteiros (7): o legado de Paulo Marinho

Alguns dos elementos dos Bardoada (c) Miguel Barriga
O músico da Sétima Legião e dos Gaiteiros de Lisboa e primeiro presidente da Associação que organiza este encontro, deixou obra feita. É responsável pela formação de boa parte dos músicos da Gaitafolia (a banda “oficial” da Associação) e pela introdução de um repertório mais europeu (que se demarca daquele que a geração mais velha interpreta), tendo deixado a semente para o aparecimento de um meritório projecto da Península de Setúbal. Os Bardoada são um grupo de percussão e de gigantes de cerca de 50 elementos que introduziram recentemente gaita-de-foles na sua formação e que recuperam boa parte desse legado de Paulo Marinho. À semelhança dos Rufinas de Rui Júnior, têm cerca de 40 crianças a aprender a tocar caixa. Também organizam o Festival Internacional de Gigantes de Pinhal Novo. Brindaram-nos com a “dança do urso”.
Publicado por Luís Rei às 01:04 PM
IV Encontro Nacional de Gaiteiros (8): a beleza de Alpedrinha

Confronto de gerações: Lenga Lenga e Toni das Gaitas(c) Miguel Barriga
À noite, em Alpedrinha, a “tribo” Lenga-Lenga de Miranda, que havia vindo directamente de Coimbra (onde decorreu no mesmo dia o Primeiro Encontro Internacional de Gaiteiros), vchegou a todo o gás. Num cenário típico de Bairro Alto ao fim de semana (sem o ambiente pesado de certas esquinas), com toda a gente nas ruas estreitas, entrando e saindo das inúmeras lojas das residências de portas abertas que serviam doces caseiros, jeropiga e outras iguarias típicas da Gardunha, foram os principais protagonistas da folia que se estendeu madrugada dentro. Entre o repertório típico mirandês, também se escutou Nirvana e Deep Purple (“Smoke on The Water”). Não se espantem, por isso, se começaram a aparecer bandas rock a tocar apenas com percussão e gaita de foles (a substituir a guitarra eléctricá). Estes “bárbaros” dão-lhe forte.

Chocalheiros em Alpedrinha(c) Miguel Barriga
No domingo houve desfile com largada de ovelhas e chocalheiros. Que bem que se esteve no campo.
Publicado por Luís Rei às 01:00 PM | Comentários (3)
junho 11, 2004
Uxu Kalhus: solteiros e bons rapazes

Em mais um trabalho de cooperação Crónicas da Terra / Retorta, o Mário Filipe Pires documentou em imagens o "baile dos solteiros" que ocorreu há umas semanas atrás no Chapitô. Podem consultar mais um photo magnífico photo álbum, aqui.Em breve, as crónicas concluem a parte do trabalho que falta: a publicação de uma entrevista que coincidirá com o lançamento do seu álbum de estreia.

Publicado por Luís Rei às 02:00 AM | Comentários (2)
junho 09, 2004
Ainda a polémica "Mariza no RiR"
O texto que escrevi sobre o concerto da Mariza no RiR, provocou uma série de reacções, aqui e no Forum Sons, pelo que decidi publicar uma nova posta, como resposta a vários leitores.
Não posso deixar de concordar com algumas críticas que a Valeria aponta à Mariza, que não são de agora. Tem sido feitas várias vezes sempre que se noticia por aqui algum feito desta moçambicana que outrora cantava zouk e agora canta fado. É curioso que, assim que acabei de “postar” este texto, pensei que não faltaria muito para a Valéria vir dizer mal da Mariza. E a profecia concretizou-se.
Vamos por pontos:
1 . Nunca gostei muito dos discos da Mariza. Prefiro muito mais qualquer disco da Mafalda Arnauth ou da Cristina Branco, aos dois discos dela até agora editados. Anteriormente, já tive ocasião de comentar a minha indignação sobre o facto de a Mariza ser tão apreciada em Inglaterra – a Lucy Duran do programa World Routes da BBC radio 3, quase que tinha orgasmos a falar bem da Mariza – e haver um (quase) completo desconhecimento em todos os meios (Rádio, revistas da especialidade como Folk Roots, Songlines, etc) acerca da Mafalda e da Cristina. No concerto de Domingo compreendi porque é que a Mariza tem um peso muito maior lá fora, sobretudo em Inglaterra, e as outras não, apesar de editarem discos muito mais interessantes. Um aparte: dificilmente escuto um disco dos Xutos e Pontapés, mas tenho de concordar com quem afirma que eles continuam a ser a melhor banda portuguesa de rock em cima do palco. Dá gosto ver toda aquela cumplicidade entre os elementos da banda e entre o colectivo e o público.
2. No texto que escrevi, penso que se encontra implícito uma mudança radical de opinião no princípio e no fim do concerto. Durante uma hora e meia ela vergou-me. Se tivesse visto os 15 / 20 minutos iniciais do espectáculo, provavelmente concordaria com a opinião da Venon e da Valéria em que diz “que ela é tão cativante como um sumo de laranja “sun quick”, ou que ela é uma “artista de plástico”. Nessa fase inicial estava a uns 100 metros do palco e não estava a gostar nada mesmo de uma certa atitude arrogante de quem tem o “rei na barriga”. Como tinha passe de jornalista, fui para o fosso dos fotógrafos que separa o palco do público. Já nessa posição, não gostei mesmo nada dela quando se referiu a um NOVO tema que iria publicar no próximo disco: “Nem às paredes Confesso” :D
Mas, ao fim de hora e meia, rendi-me totalmente à Mariza. Porque foi perdendo a arrogância e tornando-se ela própria. Porque emocionou o público e emocionou-se com ele. Entregou-se a 100%. Esteve em cinco encores e acredito que por vontade dela estaria ali a noite toda. Foram quase duas horas (atenção que os concertos quer na tenda raízes quer no palco mundo por norma não excederam uma hora) com momentos de pura magia. Por isso, Venon, houve muitas cabeças, mesmo muitas cabeças naquela noite que pensaram de forma diferente. O facto de se assistir ao concerto integral e estar-se na primeira fila, não é o mesmo do que ver-se parte do espectáculo e a 100 metros do palco (não sei se foi esse o teu caso). Não sei como foi o concerto dela com o Carlos do Carmo, ontem no Casino Estoril. Se não tivesse visto o de domingo e se tivesse visto só este, provavelmente teria uma opinião semelhante à vossa.
3. A Valéria, mais uma vez, diz que “0 sucesso de Mariza ,é o mesmo de qualquer banda de covers do Elvis ou dos Beetles. O reportório é rei e senhor. Porque ele já faz parte do imaginário do publico. Difícil é fazer sucesso com o original, com o "novo"”. Eu pergunto: quantas bandas ou cantores existem por aí que interpretam covers de artistas conhecidos, que animam noites baseado no repertório e que ninguém as conhece e que não passarão nunca do circuito dos pequenos bares?
4. Ainda a Valéria, refere-se à máquina de promoção que ela tem por trás. Que máquina é essa? A editora dela é holandesa e muito pequenina – World Connection. Será que eles têm dinheiro para pôr anúncios na tv ao novo disco da Mariza? Fazer cartazes para afixar em todas as ruas de Amesterdão? Claro que não têm. Quanto muito têm bons conhecimentos pessoais, como organizadores de festivais, directores de revistas da especialidade, radialistas, etc. Mas se eles têm todos esses conhecimentos, aquilo que fizeram com a Mariza também podiam tê-lo feito com outros artistas do seu catálogo, como por exemplo a cabo-verdiana Teté Alinho ou a galega Uxia. De que vale uma boa máquina de promoção se o artista não tiver “appeal”? Quantos artistas mediáticos não são triturados por essa máquina promocional?
5. O ódio e o preconceito são inimigos da lucidez.
Publicado por Luís Rei às 04:04 PM | Comentários (11)
junho 08, 2004
Cdt no RiR (22): Mariza e a terapia do fado

Mariza © 2004 - agência zero
Mariza é um ícone da pop que canta fado. Cresceu desmesuradamente nestes dois últimos anos. A tenda Raízes, uma das mais discretas de todo o festival, foi pequena demais para receber tamanho monstro mediático. O seu concerto foi, de longe, o mais concorrido dos 23 que ocorreram durante os seis dias de festival neste palco. Mas, o mais extraordinário na sua actuação, foi a forma como conquistou de imediato uma assistência que se dividia entre a classe média-alta de meia idade e uma considerável chusma de imberbes sub 24, habitues de festivais rock. Por esta avalanche de pessoas pouco comum neste pacato local e por toda a empatia e ambiente que se gerou entre a Diva e a plateia, ela merecia ter estado no Palco Mundo, a sós com o seu trio e não apenas no dueto com Daniela Mercury em versão electrónica de “Garota de Ipanema”, conforme havia acontecido na noite anterior.
É muito fácil embirrar-se com Mariza. Começou por comunicar de forma excessivamente teatral com a plateia, falando formalmente e com a voz colocada, como se estivesse a ler um texto para um documentário, por exemplo, ao contar a sua história de moçambicana que veio viver para a Mouraria com apenas três anos. Exibiu gestos excessivamente expressivos. Atacou algum do repertório mais óbvio de Amália. Trocou de vestido durante uma “guitarrada” em que brilharam os músicos que a acompanham: Luís Guerreiro em Guitarra Portuguesa, António Neto em Guitarra Acústica e o (também) moçambicano Fernando de Sousa em baixo acústico. Levou uma cadeira para o centro do palco, afastou a saia, colocou a perna em cima do assento e mostrou a meia de riscas lilás e preta, numa pose de dançarina de cabaret, ao abordar a vida da primeira fadista, Maria Severa. Comentou o seu penteado. Reconfortou a plateia com frases feitas: “- vocês são o melhor público do mundo”; “- Lisboa é a cidade mais bonita do mundo”. Gozou com Britney ao parecer auto-vangloriar-se dos seus poderosos dotes vocais: “- sem tretas. Isto não foi playback”, após uma arrancada de fazer calar o ruído dos aviões que muito frequentemente utilizavam o corredor aéreo da Bela Vista. Gritou “Portugal, Portugal, Portugal” em apoio à selecção. Apesar de tudo, Mariza conseguiu superar todos estes gestos que parecem tirados de um manual de como construir uma figura proeminente do show business. Como uma dama que se liberta dos espartilhos de fino aço, da pose, e se torna mais autêntica e mais genuína, Mariza deixou-se contagiar pela sede que a plateia tinha de ouvir fado. Inúmeras foram as vezes que a cantora parava a meio de uma canção para ouvir aqueles que a escutavam, como por exemplo, em “Oiça Lá Ó Senhor Vinho”. A cumplicidade foi tal que Mariza parecia estar do lado de lá e a assistência sob o domínio dos holofotes a acompanhar o trio. Foram momentos extremamente humanos e emotivos que levaram as lágrimas aos olhos de quem estava de apoio ao palco. Fascinante a forma como duas, três ou quatro mil almas sorveram o fado até à última gota. Num país em crise, com falta de auto-estima, Mariza devolveu-lhes o orgulho e serem portugueses. Ao quinto, repito, quinto encore, remata em beleza com as palavras “Lisboa Menina e Moça” comummente interpretadas por Carlos do Carmo. Mais emotivo era difícil. A fadista não irá esquecer-se desta noite tão depressa. [8.5/10]
Publicado por Luís Rei às 01:45 AM | Comentários (11)
CdT no RiR (21): a miscigenação brasileira segundo Trio Curupira e Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda © 2004 - agência zero
Um bandolim tocado como uma “surf guitar”, sacando acordes que parecem saídos de um disco de Dick Dale? Isso é Hamilton de Holanda. Um flautista de jazz que ora se desdobra em pianista, ora vai para um órgão (seria Hammond?) e consequentemente arranca solos de melódica? Isso é André Marques. Um baterista mediano que, de vez em quando, pega numa guitarra que parece um rajão madeirense e busca a pureza de uma catira? Isso é Cleber Almeida. Sob influência do Deus Hermeto Pascoal, o Trio Curupira toma como base o legado musical da floresta amazónica e dos manguezais de Permambuco - xote, baião, maracatu, frevo – desembocado num jazz exploratório que se perde em solos intermináveis – sobretudo de Hamilton Holanda, que espreme as cordas do seu instrumento. Satisfatórios nos momentos de maior simplicidade e pureza, sofríveis quando imprimirem se encantam pela puro exibicionismo técnico e se embriagam por intermináveis solos que cortam o cordão umbilical com o legado. Para quê complicar? Passaram despercebidos entre a assistência.
[6.5/10]
Publicado por Luís Rei às 01:44 AM
CdT no RiR (19): Tucanas experimentam os ritmos

Tucanas © 2004 - agência zero
Não fugindo muito ao último espectáculo delas a que assisti - o da festa do Avante (ver apontamento) - o quinteto feminino “de percussão criativa” voltou a apresentar as mesmas virtudes e os mesmos defeitos que podem ser superados a médio prazo.
Mais uma vez, sobressaiu a forma ágil com que interagem entre si, quer a percutir nos bidons de plástico (como se de taikos se tratassem) e de chapa, quer a experimentar a essência do ritmo a partir do bater de mãos em diversas partes do corpo - coxas, ombros, boca, etc – combinando os movimentos através de coreografias lúdicas (quando dão palmadas nas costas mutuamente) e guerreiras. O entrosamento entre ambas é notável. Há instrumentos de cariz industrial pós-punk (já referidos) e rústicos que saíram directamente de África: cabaça de água, dumba e surdão. Goza-se de um certo espírito tribal, enfatizado com o exercitar de ritmos vocais que evocam os tempos áureos do projecto de Marie Daulne, as Zap Mama. Só falta mesmo cantarem canções como “O Tempo Perguntou ao Tempo” de forma mais convicta. [7.5/10]
Set List:
Estruturas Primavera
Viajante
Intro Baldinho
O Tempo Perguntou ao Tempo
Gangambô
Domingo
Surdim
Bodykakalimbé
Crá
Molhar o Pé
Fusão
Dji Dji
Passeio do Pintinho
Tucanas
É de Loucos
Publicado por Luís Rei às 01:37 AM
junho 05, 2004
CdT no RiR (14): Souad Massi e a sensualidade árabe

Souad Massi © 2004 - agência zero
Os discos têm altos e baixos. O concerto de Souad Massi é de uma consistência e profissionalismo notáveis. Além de uma excelente voz, tem atrás de si um grupo de músicos de primeira divisão, com destaque para o guitarrista francês e director musical Jeff Kellner. As baladas em árabe deixaram o público indiferente, o interlúdio de darbouka (Rabah Khalfa) e bateria (Mokhtar Samba) e a mistura de flamenco, raï e zouk deveras mais mexido, conduziram a um final arrebatador. Massi também teve direito a encore. [9/10]
Publicado por Luís Rei às 01:18 AM | Comentários (4)
CdT no RiR (13): A força bárbara dos Gaiteiros de Lisboa

Gaiteiros de Lisboa © 2004 - agência zero
Não houve grandes novidades no espectáculo de Gaiteiros de Lisboa, a não ser a inclusão de Pedro Calado (substituindo o Paulo Charneca) e o rap de Pac Man em "Trângulo-Mângulo" (apenas tinha escutado o Puto Pac em "Terra de Ninguém"). Num festival dominado pelos pesos pesados do hard'n'heavy, valeu essencialmente pela força bárbara das percussões, capaz de deixar em êxtase os adeptos do metal (talvez a única banda sem guitarras eléctricas que dá para fazer mosh) que exigiram dois encores. Como não havia mais repertório ensaiado, repetiram "Nós Daqui e Vós Dali". [8.5/10]
Publicado por Luís Rei às 12:58 AM
CdT no RiR (12): Trio Madeira Brasil e o chorinho que não pegou

Trio Madeira Brasil © 2004 - agência zero
Três bons músicos. Muitos rendilhados de guitarra e bandolim, de chorinho a tocar, por vezes, no fado. Houve uma incursão por "loro" de Edberto Gismonte, sentiram-se, aqui e ali, ecos de Baden Powell. Faltou a imaginação do primeiro e a mestria do segundo. Melhores em quarteto (com percussão) do que em trio, passaram pela tenda Raízes e o público nem deu por eles. [6/10]
Publicado por Luís Rei às 12:34 AM
junho 04, 2004
CdT no RiR (11): Faltriqueira amam Zeca Afonso

Faltriqueira © 2004 - agência zero
O álbum de estreia destas quatro galegas é excelente. Ao vivo podem ser bem melhores. Sobretudo se não tiverem uma banda mediana a acompanhá-las e se não tiverem o virtuosismo de Kepa em trikitixa e Oreka TX em Txalaparta. Bastava que tivessem vindo apenas as quatro meninas e que somente exibissem o canto "a la la" e tocassem pandeiretas. Notava-se a diferença nesses interlúdios de cerca de um minuto. Pelo meio escutaram-se "as Sete Mulheres do Minho" de Zeca Afonso e a "Cantiga Bailada" da Brigada. [7/10]
Publicado por Luís Rei às 11:54 PM
maio 31, 2004
CdT no RiR (10): Cobertura Exaustiva da Tenda Raízes
As fotos já estão, os textos integrais sobre cada actuação chegarão até ao final do dia. Para já, ficam as notas de Domingo:
Manecas Costa (9/10)
Terrakota (7.5/10)
Klezmatics (8.5/10)
Angelique Kidjo (7.5/10)
Publicado por Luís Rei às 11:58 AM
Cdt no RiR (9): A força soul / funk e o desenraizamento de Angelique Kidjo

A invasão de palco consentida por Angelique Kidjo © 2004 - agência zero
Há muito que Angelique Kidjo se libertou das suas raízes. À pop africana de cariz ocidental, junta-lhe uma combinação apimentada de soul, funk e ritmos cubanos. A estética é discutível. A sua energia em palco é inesgotável. Grande expressividade de movimentos. Tem indicutivemente swing. É pena a orientação musical.
Publicado por Luís Rei às 07:29 AM
Cdt no RiR (8): Klezmatics de anões a monstros

Frank London - Klezmatics © 2004 - agência zero
O som não ajudou, a falta de público - a ver Xutos - também não. Aos poucos a banda foi crescendo e arrancaram um final memorável. Os suspeitos do costume: Matt Dariau e Frank London.
Publicado por Luís Rei às 07:21 AM
Cdt no RiR (7): Terrakota é uma grande família

Terrakota © 2004 - agência zero
Em vésperas de lançamento de novo disco gravado no Senegal, os Terrakota fizeram retornar os ritmos jamaicanos reggae / dub à "mãe África. De Kingston à Núbia ou ao coração do Wassolou, corre sangue negro nas veias do grupo.
Publicado por Luís Rei às 07:17 AM
Cdt no RiR (6): Manecas Costa e a fome de palco

Manecas Costa © 2004 - agência zero
Manecas Costa até "comeu a relva", tal a fome de um palco português que sentia. Um concerto de raiva de um músico assaz rodado internacionalmente que agarrou de início uma plateia maioritariamente sub 16, que estava ali claramente para ver as principais atracções do Palco Mundo.
Publicado por Luís Rei às 07:07 AM | Comentários (1)
maio 30, 2004
CdT no RiR (5): Manu Dibango + Ray Lema ou a beleza serena de África

Ray Lema + Manu Dibango © 2004 - agência zero
Publicado por Luís Rei às 02:27 AM | Comentários (1)
maio 29, 2004
CdT no Rir (4): a excelência técnica de Thierry "titi" Robin

Thierry "titi" Robin © 2004 - agência zero
Thierry Robin, bretão, de alma cigana, é um músico de real excepção. Pertence à restrita casta de exímios improvisadores de cordas e de delicados artesãos que embelezam a sua arte com infinitos rendilhados. Além de exímio executante de alaúde, bouzouki e guitarra, que o coloca num pedestal semelhante ao do sueco Ale Möller, do grego Ross Daly, ou de um outro francófono - Patrick Vaillant –, Robin é um verdadeiro alquimista da composição, um Merlin dos tempos modernos, que consegue juntar, num único caldeirão, as músicas ciganas que vão de Espanha à Ásia Central, passando pelos Cárpatos e pelo Báltico. A sua poção mágica torna um qualquer Assurancetourix (o irritante bardo da aldeia gaulesa de Astérix) num tenor peso-pesado romano.
É notável como o flamenco, que parece um género musical confinado à Península Ibérica, é a locomotiva através do qual Robin e os seus músicos efectuam uma enriquecedora viagem sem freios, pela linha do Oriente. A guitarra e o alaúde de Robin, a divina voz cigana (de flamenco) do espanhol Pepito Montealegre, que chega a roçar o céu qwwalli e a fazer a devida vénia ao mestre Nusrat, quebram fronteiras terrestres. A combinação perfeita destes elementos com percussões afro-latino-americanas-e-arábico-andaluzes (com destaque para o cajon e “ocean drum”) de um talentoso instrumentista brasileiro Zé Luís Nascimento e com o acordeão de Francis Varis algo “brastchtiano”, contaminado quer pela delicadeza melódica da bal musette francesa (pouco), quer pelo desvario cigano dos balcãs (muito), constituem a fórmula de uma música que viaja livremente como o ar, através do tempo e da geografia. Fantástica a versão longa (de 10 minutos, pelo menos) de "La Petite mer" com que Thierry Robin encerrou a sua actuação.
Que “Titi” (o instrumentista, não a batata frita) regresse a um palco nacional o mais breve possível.
1 - Mehdi ( T. R. )
2 - Ton Deux Visage ( T.R.)
3 - Patchiv ( T. R. )
4 - Anita ( R. R. )
5 - An Sumia ( Frid Seadna - T. Robin)
6 - Ma Gavali-rumba ( T. R. )
7 - La Petite ( Joseph Seadna - T Robin)
Publicado por Luís Rei às 11:29 PM | Comentários (4)
Cdt no RiR (3): Havana Abierta, um equívoco cubano

Havana Abierta © 2004 - agência zero
São cubanos, mas poderiam passar por colombianos, mexicanos ou até mesmo espanhóis. Dos Havana Abierta pouco son, guagancó ou cha cha cha se escutou. Ao invés, não faltou funk, rock’n’roll e blues de uma formação que apostou tudo nos décibeis e na electricidade, em detrimento da pureza acústica. São gingões, têm um estilo que mescla as facções surf e hip hop. Até aqui, nada em contrário. Só que o som… é, talvez, o reflexo do isolacionismo em que a Ilha de Fidel continua mergulhada. Sente-se que a banda pensa que está a fazer uma verdadeira revolução, que são uns rapazes inovadores, mas a verdade é que a banda que quer chegar aos grandes palcos do rock, não passa de uma simples banda de bar de covers. Um equívoco. [3/10]
Publicado por Luís Rei às 11:24 PM
CdT no RiR(2): At-tambur impressionam na abertura do segundo dia

At-tambur © 2004 - agência zero
Não podia ter começado da melhor forma o segundo dia de actividades da Tenda Raízes do Rock In Rio, com os At-tambur. Privados de uma das antigas “estrelas” da companhia – Sérgio Crisóstomo, que já não tocou no Intercéltico do Porto – os At-tambur recrutam não um, mas dois seguríssimos valores que expandem a “folk” tingida de tons jazzy, com tiques clássicos. Fransisca Fins, a nova violinista que integra a Sinffonieta de Lisboa, é f-a-b-u-l-o-s-a. Excelente técnica, completo entrosamento com os restantes elementos. Faz esquecer Sérgio Crisóstomo. Ele que era até há bem pouco tempo, a par de Tiago Costa Freire (flautas doces) uma das referências maiores deste projecto. Se ao At-tambur juntarmos ainda a Celina “vai-a-todas” Piedade, temos aqui um super-grupo. O seu acordeão enche o palco. Apenas e só o seu acordeão. Que isto fique bem claro.
Na Tenda Raízes, ao ar livre, propensa a maior informalidade, os At-tambur despiram o fato e a gravata, arregaçaram as mangas das camisas pretas e brindaram-nos com a “folk” europeia e tudo à volta, mais solta e agressiva. Nunca “Arabesca” havia soado de forma tão potente e eléctrica (apesar de os instrumentos do grupo serem exclusivamente acústicos). Nunca “Sueca” soou tão hedningarniana. “Dulcima” (nome provisório de um tema que irá figurar no novo disco) foi o doce açucarado de uma actuação extremamente feliz e pouco recomendável a hipoglicémicos. É a bússola cujo ponteiro aponta o caminho certo da renovação da tradição, sem complexos. Há canção, tensão, suavidade. Um verdadeiro carrocel de emoções. Falta apenas a Margarida Simas perder uma certa timidez em palco e deixar uma certa postura angelical. [8.5/10]
Publicado por Luís Rei às 07:11 PM | Comentários (3)
As Crónicas da Terra no RiR (1): a breve incursão de sexta-feira

Rao Kyao © 2004 - agência zero
Sou um mesmo gajo do contra. Enquanto que na blogosfera se multiplicaram os blogues e os bloguistas a dizer que não iam ao Rock in Rio, as Crónicas encontram-se neste preciso momento no Parque da Bela Vista.
Durante os cinco dias de festival que faltam vou estar atento, sobretudo, ao palco Raízes. Ontem fiz uma rápida incursão. Perdi Ensemble Kaboul e Daby Touré. Vi um pouco do espectáculo de Rão Kyao. O suficiente para dizer que o novo álbum dedicado ao pão, vinho e azeite revela um flautista mais enraizado na música tradicional e clássica oriental. Há menos tiques da portugalidade fácil, mais espiritualidade indiana, capaz de evocar a quietude e misticismo de Hari Prasad Chaurasia.
Publicado por Luís Rei às 07:08 PM | Comentários (1)
janeiro 28, 2004
Retorta, repórter "embebed" em Terra de Abrigo
O Mário (Retorta) está de parabéns pela sua missão de repórter "embebed", durante os ensaios e o espectáculo da tarde da Ronda dos Quatro Caminhos, para a apresentação ao vivo de "Terra de Abrigo". Grandes, grandes fotos. Retorta, temos de arranjar uma nova "missão". ;)



Publicado por Luís Rei às 11:53 PM | Comentários (6)
julho 18, 2003
REPORTAGEM EM LISBOA NA FOLK ROOTS DE JULHO
Há uns dias, neste blogue, fiz o resumo da reportagem que a Folk Roots fez em Lisboa, em casas de fado e de música africana. Com a ajuda do António Rebelo da Janela Indiscreta, disponibilizamos as quatro páginas do artigo. Pode fazer o download do documento pdf, aqui.
Ps: definitivamente, a Folk Roots rendeu-se à lusofonia e à folk oriunda da Península Ibérica. Depois de Mariza e Manecas Costa terem sido capa desta publicação, é agora a vez das galegas Faltriqueira, na edição dupla de Agosto / Setembro (com CD incluído). Grupo que também tem sido extremamente elogiado nos programas de rádio da BBC Radio 3: 'Late Junction' e 'World Routes'.
Publicado por Luís Rei às 02:46 PM
julho 02, 2003
"BEYOND FADO", UMA REPORTAGEM EM LISBOA (FOLK ROOTS DE JULHO)
Na mesma edição da Folk Roots em que Manecas é o principal protagonista, é ainda apresentada uma reportagem em Lisboa, intitulada “Beyond Fado”. Finalmente, alguém reconhece que a música portuguesa não é só fado (claro que Andrew Cronshaw, jornalista da mesma revista e autor do capítulo referente a Portugal no Rough Guide de World Music há muito que nos tinha mostrado que há “bifes” bem informados), apesar de a incursão por várias casas de fado constituir parte significativa desta reportagem. Mas há também Gaiteiros de Lisboa e um respirar profundo da lusofonia africana na Capital.
O CENÁRIO E OS PROTAGONISTAS. Jon Lusk percorre o B.Leza, Petisqueira de Alcântara, Bacalhau de Molho, Ondeando (na Costa da Caparica) e En’Clave. Esta incursão, acompanhada em parte por Mariza, serviu para recolher impressões de Rui Vaz (Gaiteiros de Lisboa), António Zambujo, Waldemar Bastos, Tabanka Djaz e Bana.
Um reportagem curiosa e abrangente que aborda váriadíssimos assuntos: as diferentes influências que a música portuguesa recebeu, do norte e do sul; o aproveitamento político de Salazar do fado e dos ranchos folclóricos; a diáspora negra da África lusófona em Lisboa, no pós 74; a nova geração que começa a olhar para a tradição com outros olhos (sem contudo mencionar nomes – a grande pecha deste artigo).
A NEGATIVIDADE. Das impressões registadas por Jon Lusk, ressalta uma negatividade bem visível. Rui Vaz, esquecido que ainda há bem pouco tempo encheu a Aula Magna e é sempre bem recebido em festivais nacionais de músicas do mundo, refere que às vezes olham para os Gaiteiros “como se fôssemos estrangeiros”. Já António Zambujo, admite que os portugueses em geral “não se interessam pela sua própria cultura”. Waldemar Bastos além de se queixar de um mau entendimento com a Luaka Bop, e de afirmar que é difícil viver em Portugal (e que só por questões familiar tem reside cá), refere que em “Portugal não existe uma cultura aberta”. Esta olha com desdém para africanos que cantam fado. Apesar disso, Mariza (de raízes moçambicanas), continua a vender que se farta. Os Tabanka Djaz, vão ainda mais longe e falam em “racismo” entre os promotores de espectáculos das Câmaras Municipais, comentando ainda que “os portugueses escutam-nos com uma atitude colonial”. O repórter chegou a confessar-se surpreendido com tanto bota-abaixo.
FALTA DE AUTO-ESTIMA. É de facto muito estranha a nossa baixa auto-estima. A Folk Roots dá tempo de antena à “cidade dos Poetas” (como chega a ser mencionada por jornais ingleses) e os seus representantes gastam mais tempo a desabafar, do que a pronunciarem-se sobre as virtudes dos músicos e da música portuguesa. Talvez esta baixa auto-estima tenha a ver com aquilo que também foi referido no artigo: Cesária Évora, Waldemar Bastos, Tito Paris, Dulce Pontes (e muitos outros nomes) só ganharam algum espaço mediático em Portugal depois de terem conquistado a Europa. Será que esta baixa auto-estima reflecte-se na imprensa nacional, que prefere fazer capas com artistas estrangeiros que, por vezes nem 1000 discos vendem, e ignoram os músicos lusófonos até estes se notabilizarem lá fora?
POSITIVISMO. A única voz que trouxe algum alento ao derrotismo lusitano, foi a de Miguel Santos, da delegação londrina da Fundação Calouste Gulbenkian, que tem feito um notável trabalho de promoção dos artistas nacionais em Inglaterra, nomeadamente através da organização de duas edições do Festival Atlantic Waves. Diz ele que é preciso que apareça “gente que acredite que tenha talento e (...) que não tenha medo de fazer coisas”. Miguel Santos que gosta de se rever “como parte de uma nova geração que acredita que existe em Portugal talento e criatividade, tal como em outro país do mundo”. Assim é que se fala.
PS: A Folk Roots pode ser adquirida em Lisboa na loja do Mundo Da Canção, no Picoas Plaza. Para mais informações, consultem o site desta distribuidora: www.discantus.pt
Publicado por Luís Rei às 04:10 AM