fevereiro 13, 2004
Quem se lembra da Tuna Rural de Carvalhais?
Ficará para sempre gravado na memória um espectáculo singular que ocorreu no Forum Seixal, durante a edição de 96 do Festival Cantigas do Maio. Um grupo de duas dezenas de músicos idosos e de meia idade que se constituiu em 1918 – há quase 90 anos – liderados pelo Sr. António Lourenço, autodidacta que criou o seu próprio sistema de escrita musical, brindou-nos com uma noite de valsas, tangos, marchas e rebaldeiras. A surpresa foi grande, pelo misto de timidez e simpatia que irradiava de todos os músicos, pela sensação de viajarmos no tempo, uns 40 ou 50 anos atrás, a uma aldeia remota de trás-os-montes, onde estas gentes eram os principais animadores das festividades.
De acordo com o Público de hoje (secção Norte), a associação Arquivo de Memórias editou um CD com registos de Tunas das aldeias das serras do Marão Alvão.
Música das Tradicionais Tunas Rurais em CD
Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2004
Lançado pela Arquivo de Memórias
A Associação Arquivo de Memórias apresentou, em Vila Real, um CD com músicas das tradicionais tunas das aldeias das serras do Marão e Alvão, que pretende preservar esta arte popular em vias de extinção. Vítor Nogueira, um dos elementos desta associação criada em 2001, referiu que o CD "Tunas Rurais do Marão e do Alvão - a música do corpo e do espírito" apresenta 19 músicas das Tunas de Carvalhais, concelho de Santa Marta de Penaguião; Bisalhães, Campeã e Gontães, de Vila Real; e Ermelo, de Mondim de Basto. A recolha das músicas foi feita entre 1990 e 1995 e actualmente apenas continua a existir nos mesmos moldes a tuna de Carvalhais.
As tunas rurais são conjuntos que tocam apenas instrumentos de corda como violas, violoncelo e violino, e de sopro como flautas ou clarinete. Os músicos tocam valsas, marchas, tangos, polcas, mazurcas ou danças de salão, sendo muitas das músicas da autorias dos próprios agrupamentos. As tunas rurais surgem no final do século XIX, mas enraízam-se na região as serras do Marão e Alvão a partir do século XX, tornando-se durante muitos tempo na única forma de lazer e arte musical popular de muitas aldeias.
In Público
Publicado por Luís Rei às 06:28 PM | Comentários (15)
fevereiro 12, 2004
Ronda pela Imprensa: Anoushka Shankar e Brigitte Bardot defendem direitos dos animais
A intérprete de cítara indiana e filha de Ravi Shankar irá realizar no próximo dia 20 de Fevereiro, na cidade indiana do Mumbai, um concerto para angariação de fundos para a PETA (People For Ethical Treatment of Animals). Conforme relatório desta ONG que luta pelos direitos dos animais, morrem anualmente 10 a 15 por cento das espécies que se encontram em cativeiro na Índia, em cerca 258 jardins zoológicos, devido sobretudo à “zoochosis” (comportamento autodestrutivo de animais que se encontram privados da vida selvagem. Notícia integral no Hindustani Times
Por sua vez, a antiga actriz francesa pede aos muçulmanos a viver em França que diminuam a dor dos animais sacrificados nas festividades de Eid al-Adha, entorpecendo-os, através de um processo de “electronarcose”. Notícia integral na Reuters Brasil.
Publicado por Luís Rei às 07:30 PM | Comentários (1)
Ronda pela imprensa: A vida de Bob Dylan dá um filme
O realizador Todd Haynes vai realizar o filme biográfico de Bob Dylan, que tem, para já, o título provisório de "I'm Not There: Suppositions on a Film Concerning Dylan". Uma obra ambiciosa, onde este ícone da folk contemporânea americana de 62 anos, será representado por sete actores e uma actriz.
A notícia na Reuters / Yahoo Brasil
Publicado por Luís Rei às 07:01 PM
janeiro 29, 2004
os rodriguinhos de Santana
Leio no Diário Digital que Santana Lopes gosta de fado e tem intenção de propor, junto da UNESCO, a classificação de património mundial a esta norbre arte lusitana. Artistas como Mariza e Carlos do Carmo aplaudem. Até aqui tudo bem. Mas que dizer da ética e da arte de bem receber de um Presidente de Câmara que enquanto promove o fado lá fora, fecha a porta a artistas de outras tradições (merecedoras de igual classificação por parte da UNESCO) e que se cruzam com a autora de “Fado Curvo”, nos principais palcos internacionais das músicas do mundo? Até, porque, eventos como o Multimúsicas não são caros e podem pagar-se a si próprios. Haja vontade para os realizar e promover.
Publicado por Luís Rei às 12:52 PM | Comentários (2)
janeiro 27, 2004
o mundo utópico de Gilberto Gil

Gilberto Gil confirmou a sua presença no Festival Rock in Rio de Lisboa, para o dia de abertura do festival (29 de Maio). Ainda bem para nós. O Grão de Areira noticiou recentemente que o cantautor brasileiro encerrou o Fórum Social Mundial do Mumbai de guitarra na mão. O Blog da ATTAC aproveita ainda a ocasião para recuperar o discurso de tomada de posse de Gilberto Gil, enquanto Ministro da Cultura do governo de Lula da Silva, publicado na Folha Online.
Não podia concordar mais com as passagens do discurso que vos deixo. No entanto, resta-me perguntar se Gilberto Gil não terá sido tocado pelo dom utópico de Thomas Moore.
"Mas o mercado não é tudo. Não será nunca. Sabemos muito bem que em matéria de cultura, assim como em saúde e educação, é preciso examinar e corrigir distorções inerentes à lógica do mercado que é sempre regida, em última análise, pela lei do mais forte. Sabemos que é preciso, em muitos casos, ir além do imediatismo, da visão de curto alcance, da estreiteza, das insuficiências e mesmo da ignorância dos agentes mercadológicos. Sabemos que é preciso suprir as nossas grandes e fundamentais carências".
"Cultura, como alguém já disse, não é apenas "uma espécie de ignorância que distingue os estudiosos". Nem somente o que se produz no âmbito das formas canonizadas pelos códigos ocidentais, com as suas hierarquias suspeitas. Do mesmo modo, ninguém aqui vai me ouvir pronunciar a palavra "folclore". Os vínculos entre o conceito erudito de "folclore" e a discriminação cultural são mais do que estreitos. São íntimos. "Folclore" é tudo aquilo que não se enquadrando, por sua antiguidade, no panorama da cultura de massa é produzido por gente inculta, por "primitivos contemporâneos", como uma espécie de enclave simbólico, historicamente atrasado, no mundo actual. Os ensinamentos de Lina Bo Bardi me preveniram definitivamente contra essa armadilha. Não existe "folclore" o que existe é cultura."
"Não cabe ao Estado fazer cultura, mas, sim, criar condições de acesso universal aos bens simbólicos. Não cabe ao Estado fazer cultura, mas, sim, proporcionar condições necessárias para a criação e a produção de bens culturais, sejam eles artefactos ou mentefactos. Não cabe ao Estado fazer cultura, mas, sim, promover o desenvolvimento cultural geral da sociedade. Porque o acesso à cultura é um direito básico de cidadania, assim como o direito à educação, à saúde, à vida num meio ambiente saudável. Porque, ao investir nas condições de criação e produção, estaremos tomando uma iniciativa de consequências imprevisíveis, mas certamente brilhantes e profundas já que a criatividade popular brasileira, dos primeiros tempos coloniais aos dias de hoje, foi sempre muito além do que permitiam as condições educacionais, sociais e económicas de nossa existência."
"o papel [da cultura é o] de contribuir objectivamente para a superação dos desníveis sociais, mas apostando sempre na realização plena do humano".
Será que o mundo rico e civilizado estará interessado em reduzir esse fosso que separa o hemisfério norte do hemisfério sul? Será que os governos dominados por políticas neoliberalistas estarão assim tão interessados em educar e dar cultura ao povo?
Publicado por Luís Rei às 11:37 PM | Comentários (1)
janeiro 09, 2004
Colecção única de fado do Início do Sec. XX:
A CML quer comprá-la a um coleccionador inglês, por 1249000 Euros
Do Público:
Uma Colecção Única
Por F.M.
Quinta-feira, 08 de Janeiro de 2004
A colecção de Bruce Mastin inclui cerca de 5000 registos áudio, em
discos de 78 rotações, mais de metade já identificados como gravações
das primeiras décadas de fado, em estado óptimo de conservação, que o
britânico terá comprado há mais de 50 anos num armazém português (ver
PÚBLICO de 2-05-2003).
Outros exemplares do espólio incluem gravações, também do início do
século XX, de teatro de revista, música popular, discursos e dois
discos contendo uma reprodução da Proclamação da República
Portuguesa, em 1910, gravada no ano seguinte.
Entre os três milhares de exemplares de discos de 78 rotações
gravados na primeira década do século passado, as primeiras de sempre
do fado, contam-se as vozes de Reinaldo Varela, José Bastos, Isabel
Costa, Almeida Cruz, Eduardo de Souza, Rodrigues Vieira, Delfina
Victor e Maria Victoria. Igualmente importantes do ponto de vista
musical e etnográfico são registos, mais tardios, de Maria Alice,
Manassas de Lacerda, Avelino Baptista, Estêvão Amarante, Madalena de
Melo, Maria Emília Ferreira, Júlia Florista e Maria do Carmo Torres,
bem como dos mais conhecidos Ercília Costa, Berta Cardoso, António
Menano, Edmundo de Bettencourt, Armandinho e Alfredo Duarte, o
popular Alfredo Marceneiro.
Para Londres seguirá um administrador da Empresa de Gestão de
Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), braço da Câmara Municipal
de Lisboa que gere vários equipamentos da cidade, entre os quais a
Casa do Fado, em Lisboa; dois técnicos da EGEAC para analisar o
material discográfico; José Moças, da Tradisom, editora que, diz,
fará a organização, digitalização e edição desta colecção de "peças
únicas" com apoio do Ministério da Cultura, e o seu advogado, José
Sardinha.
José Moças, que parte no domingo, diz que o coleccionador inglês não
vai baixar o preço - um milhão, duzentos e quarenta e nove mil euros.
Mas segundo lhe foi comunicado pela CML e o Ministério da Cultura, "a
decisão política está tomada".
"A Câmara Municipal de Lisboa, que tem interesse em comprar o
espólio, incumbiu-nos de o analisar e dar um parecer global sobre o
processo", disse ontem Maria Louro, um dos três administradores da
EGEAC.
Em aberto está também a hipótese de a Câmara Municipal de Coimbra
participar numa "joint venture", com consequente participação
financeira, dado o acervo incluir exemplares de fado de Coimbra, diz
Moças. Dada a diversidade do espólio, outras entidades poderão também
estar interessadas. "Não é só a questão da aquisição. A concretizar-
se a compra, tem que haver um objectivo e um investimento para o
manter", acrescenta Maria Louro. "A proclamação da República, por
exemplo, não interessará à Casa do Fado..." (ver caixa).
Especialistas prontos para estudar espólio
Os especialistas vão à residência e ao escritório do coleccionador
inglês - locais onde está o espólio e situados perto um do outro a
cerca de 70km de Londres.
"Na maioria são discos das duas primeiras décadas, aquelas que não se
encontram em lado nenhum", diz José Moças, e cuja "lista
pormenorizada" já enviou à Câmara de Lisboa. "Todos os sítios que
tenho contactado, arquivos nos EUA, em Inglaterra, seja onde for,
ninguém tem nada. Escusamos de andar à procura porque não há",
garante o representante da Tradisom com mal disfarçado entusiasmo. "O
que há em Portugal são discos em muito más condições e dispersos por
vários coleccionadores que ainda por cima nunca quiseram abrir mão de
nada".
Se o negócio se concretizar, mal o espólio de Bruce Mastin aterre em
Portugal, a Tradisom iniciará um trabalho de investigação, com
duração prevista de cinco anos (para a sua totalidade, três para os
espécimes de fado), por uma equipa "já constituída" de especialistas.
Já houve várias reuniões sobre o assunto, nomeadamente com João
Morais, chefe de gabinete do ministro da Cultura, Pedro Roseta, e com
Paulo Cunha e Silva, director do Instituto das Artes (IA). "O papel
do IA será dar apoio e um parecer técnico [através do gabinete de
música]. Estão a decorrer negociações entre o coleccionador inglês e
a Câmara de Lisboa e o IA está atento às negociações", disse ontem o
gabinete de imprensa.
Para o Ministério da Cultura, as negociações entre a câmara e o
proprietário do espólio são "um dado adquirido": "Neste momento não
há qualquer verba reservada no ministério para a colecção porque é
certo que será a autarquia a comprá-la. O ministério está a
acompanhar o processo através do IA", garantiu fonte do gabinete de
Roseta.
A compra permitirá que a génese do fado gravado seja ouvida pela
primeira vez em Portugal. A história desta música juntará assim
algumas pontas soltas. Mas não todas. José Moças identificou
entretanto outras arcas do tesouro: novas gravações inéditas, na
posse de coleccionadores brasileiros e americanos, de fado também do
início do século XX, de actuações de fadistas portugueses no Brasil e
EUA.
Publicado por Luís Rei às 06:15 PM | Comentários (2)