dezembro 18, 2005
Kimi Djabaté: o griot do Bairro Alto

Kimi Djabaté apresenta o disco “Teriké” esta terça-feira (dia 20), no Onda Jazz (23h) e no próximo dia 28 de Dezembro, no B.Leza (23h). Obrigatório para quem gosta de música afro-mandinga.
Como todos os griots, Kimi Djabaté nasceu no meio de uma comunidade repleta de músicos profissionais. É oriundo da aldeia de Tabato, na Guiné Bissau. Canta em língua mandinga e toca balafon desde os oito anos de idade. Vive em Portugal há mais de 10 anos. Tocou com gente de reconhecidos méritos como Mory Kanté Waldemar Bastos e Manecas Costa. Ultimamente, podíamos vê-lo em palco com o projecto Tama Lá que sempre deu um swing ocidental ao gumbé guineense e às canções afro-mandingas.
Kimi Djabaté pegou no repertório e nos músicos dos Tama Lá e lança o primeiro disco em nome próprio. Um registo carregado de potenciais “hits” onde a alma da música mandinga é modernizada sem cair no tal “som de Lisboa”. Pelo contrário, a fusão da música marcadamente mandinga com o trompete do alemão Johannes, a voz sensual e africanizada da italiana Ciara e, sobretudo a guitarra esguia, gingona, de rendilhado fácil (a fazer-nos recordar Franco) de Mamadi da Guiné Conacri, sem criar nada de excepcionalmente novo, consegue dar-nos um novo alento para voltarmos a escutar uma canção já conhecida. Por que a junção é bem sucedida. Por que Kimi, além de ser um virtuoso no balafon (aqui não nos apercebemos disso), enche um palco na forma expressiva e sanguínea como interpreta as suas canções.
Publicado por Luís Rei às 01:52 PM | Comentários (10)
maio 04, 2005
CISSOKO - "Diam": a terapia da kora

Cissoko
“Diam”
(Ma Case / Megamúsica)
O que mais impressiona no griot senegalês Ablaye Cissoko, que segue as pisadas do conterrâneo e malogrado Kaouding Cissoko, na forma virtuosa de tocar kora (não tanto na abordagem da tradição mandinga em que este cruza outros instrumentos e outras músicas, mas na forma virtuosa com que o faz), é a capacidade de se apresentar a sua nobre arte, o mais despida possível, tão singela quanto bela e generosa. É um disco essencialmente centrado na harpa de 23 cordas da África Ocidental e na sua sussurrante voz. Atributos que ampliam toda a beleza, fragilidade e sensualidade que emana de uma tradição monárquica e declamatória, com mais de cinco séculos de existência e que não se coaduna com o formato de canção e do single dos habituais três minutos a que a rádio nos habituou.
Os músicos africanos, sobretudo os griots que escaparam à fúria homogeneizadora dos produtores franceses e alemães dos anos 90, parecem agora mais livres na interpretação desta música de rara beleza (Obrigado World Circuit, Nick Gold e Lucy Duran) que vive mais do instinto, do improviso, da capacidade de nos transportar sensorialmente à savana africana e à sociedade tribal que não tinha ainda sido subjugada pelo colonizador europeu, de forma a perdermos totalmente a noção do tempo cronometrado por horas, minutos e segundos.
Se Kaouding Cissoko falava, no seu último álbum "Kora Revolution", de uma revolução operada por este instrumento que já conheceu inúmeras fusões e experiências (por exemplo, com o flamenco por Toumani Diabaté, com o jazz pela Kora Jazz Trio e o uso electrificado e mais roqueiro de Ba Cissoko), Ablaye propõe-nos a contra-revolução, o retiro, a procura da simplicidade e de uma sonoridade livre de miscigenações e influências exteriores, oferecendo-nos cerca de uma hora de um ambiente sereno e contemplativo, cuja terapia de relaxamento é provavelmente mais eficaz e barato do que a frequência de um SPA recomendado por Marisa Cruz. [8/10]
Publicado por Luís Rei às 05:19 PM
dezembro 06, 2004
6 de Dezembro: O Dia da Independência

Foi a 6 de Dezembro de 1917 que os Finlandeses conquistaram a independência, após um século de domínio Russo e cerca de 600 anos de anexação sueca.
Kiitos Paljon pela folk mais dinâmica da Europa:

Hedningarna - Kaksi

Niekku - 3

Tuulenkantajat - He!
Loituma - Things of Beaty

Tellu - Suden Aika

Värttinä - Oi Dai

Anna Kaisa-Liedes - Oi Miksi

Maria Kalaniemi - Ahma

Hannu Saha - Mahla

Martti Pokela - Tuulikumpu

Ottopasuuna - Suokaasua

Kimmo Pohjonen - Kluster

JPP - Huutokatrilli!
Publicado por Luís Rei às 02:00 PM | Comentários (3)
novembro 12, 2004
As Danças Ocultas no Pulo do Lobo
Desde o início se percebeu que, ao recuperarem a concertina, as Danças Ocultas iriam dignificar o instrumento. Dar-lhe o valor que merece. É de homem. Fazer apenas e só música a partir deste instrumento e explorar, consequentemente todas as suas características, como se fosse um construtor que sabe qual o tipo de pele e de madeira a utilizar. Exercitar o som do ar do fole como se fosse percutido. Integrar uma concertina-baixo construída para o efeito. Vaguear por um repertório universal, que tanto tem de tradicional como de clássico ou pop. Que tanto soa a Portugal, como a Norte da Europa, Norte de África ou América Latina.
Ao elegerem o italiano Riccardo Tesi como uma das suas influências – que boa memória tenho de um espectáculo deste italiano com o francês Patrick Vaillant no Raízes do Atlântico e do consequente belíssimo texto de Fernando Magalhães – as Danças Ocultas, mais do que tentar reinventar qualquer legado tradicional, assumem-se como alquimistas na arte do improviso. À semelhança dos polacos Kroke e de outros colectivos nórdicos (Accordion Tribe obligé), são mestres na arte de jogar com a imprevisibilidade, com o espaço e com o meio ambiente. Com a suavidade e a força, com o silêncio e a cacofonia (se bem que quase nunca cheguem a este extremo), a tristeza e a alegria, o ser introspectivo e o ser expansivo. Todas as semelhanças e os contrastes do universo numa ambivalência perfeita extraída dos foles.
“Pulsar” é muito mais do que “Ar” (o seu anterior registo). É pular o Pulo do Lobo, com todos os riscos inerentes. É saber dar um salto seguro para a frente, sabendo o chão em que se vai pisar. É, de facto, um regresso extremamente feliz este das Danças Ocultas. De longe, o melhor álbum do quarteto de concertinas de Águeda. Espero que desta vez não os comparem aos Madredeus. Quem o voltar a fazer, nunca conseguirá perceber que as Danças Ocultas fizeram mesmo um grande e distinto disco. E que é o único projecto da folk lusitana, além intérpretes de fado, com a consistência necessária para poder varrer a maior parte dos festivais de folk e de jazz da Europa e restante mundo ocidental.
[continua]
Publicado por Luís Rei às 01:46 PM | Comentários (3)
agosto 17, 2004
Los De Abajo - "Cybertropic Chilango Power"
Los De Abajo
Cybertropic Chilango Power
CD Luaka Bop / EMI 2002
Subcomandante Marcos caiu definitivamente nas graças da comunidade artística mundial. Oriundos da cidade do México, os Los de Abajo engrossam o numeroso contingente zapatista, onde constam nomes como Rage Against The Machine, Mundo Livre SA, Dusminguet, Lila Downs e Manu Chao. O octeto mistura o caos rítmico urbano com a simplicidade da música campesina latino-americana, numa explosiva mistura que evoca o génio miscigenador e criativo de Chico Science, sem contudo lhe chegar aos pés, devido à forma como este nordestino, falecido num triste acidente de viação, criava um híbrido de excepcional modernidade. Em “Cybertropic Chilango Power”, reina ainda uma certa anarquia sonora típica dos britânicos Chumbawamba, uma dose enérgica de punk latino, Manu Negra e Les Negresses Vertes obligé. Uma complexidade sonora, que vagueia de tema para tema, entre o pop, o rock, o hip hop, o ska, o dub, a cumbia colombiana, a salsa nova-iorquina, o cha-cha-cha e guajira cubano, ou o jarocho e a redubba norteña mexicana. É esta facilidade com que os Los de Abajo passam de uma malha funk de intrincada guitarra eléctrica, para uma guarjira bastante marcada pelo som cintilante do tres, que torna este segundo disco do grupo bem mais apetecível que o álbum de estreia homónimo, editado em 98. Uma rica babel sonora que serve de suporte de inflamadas mensagens políticas que, além de defender a causa indígena mexicana cuja luta extravasou as fronteiras regionais tornando-se num forte símbolo dos movimentos antiglobalização económica, também denuncia o promíscuo relacionamento entre o governo de Fox e os barões da droga. [7.5/10]
Nota: texto publicado originalmente no extinto sítio Musicnet, em 2002. No ano passado os Los de Abajo publicaram "Latin Ska Force", aquele que é o seu último disco.
Publicado por Luís Rei às 06:14 PM | Comentários (3)
julho 16, 2004
audição indispensável...
... para vibrar com mais uma vitória do Lance no "tour"...

Vários
The Rough Guide to the Music of France
(World Network / Megamúsica)
1. Rue du temps - Les Ogres de Barback
2. Memoire d'homme - Lo'jo
3. Mefi (Chaabi mix) - Massilia sound system
4. A madama - La Talvera
5. Pr'amor - Marilis Orionaa
6. Sanctus - A Filetta
7. Le garcon jardinier - Gabriel Yacoub
8. La mariole - Gariel Yacoub & Friends
9. Quand sera-t-elle mariee? - Trio Patrick Bouffard
10. La bourree des capucins - Alvard / Gineston / Gueniffet / Siquier
11. Paris musette - Jo Privat & Didier Roussin
12. C'est la goutte d'or qui fait deborder la valse - Les Primitifs du Futur
13. Les amants de Paris - Edith Piaf
14. A toi - Leo Ferre
15. Legende - Romane & Angelo Debarre
16. Cayenne - Bagad Men Ha Tan & Doudou N'Diaye Rose
17. Deomp d'an unvet (Pach pi) - Eugenie Goadec & Louise Ebrel
18. An dro / Neg la cho - Carre Manchot
19. Fuite de fantaisie 1 - Marcel et Son Orchestre
20. Filles du hameau - La Kinkerne
21. Javalse - Drailles
22. C'est ainsi - Dedale
Publicado por Luís Rei às 07:13 PM | Comentários (1)
julho 15, 2004
Thomas Mapfumo + Wadada Leo Smith- "Dreams and Secrets"
Thomas Mapfumo / Wadada Leo Smith
Dreams and Secrets
(Anonym Records)
Thomas Mapfumo é, a par do falecido Fela Kuti, um dos artistas africanos que se tornou num símbolo de luta contra os sucessivos governos do seu país. O criador da música chimurenga (luta na língua nativa shona), condenou a opressão do regime de Ian Smith na antiga Rodésia e é actualmente uma das vozes que se erguem contra as políticas de desespero e corrupção de Robert Mugabe. A perseguição política ao “leão” reflecte o facto de algumas das suas músicas terem sido censuradas na rádio estatal e de recentemente ter procurado asilo nos Estados Unidos.
Wadada Leo Smith, nasceu no Mississipi, é trompetista e move-se nos territórios do free e avant jazz. Já trabalhou com Lester Bowie, Don Cherry, Carla Bley e Charlie Haden. Algumas das suas composições já mereceram a interpretação do Kronos Quartet. Com o guitarrista Henry Kaiser que também colabora em “Dreams and Secrets”, prestou tributo a Miles Davies através do álbum “Yo Miles”.
“Dreams and Secrets” reflecte duas personalidades que apesar de se encontrarem em campos musicais distintos, sempre procuraram o contacto com outras áreas. Thomas Mapfumo, através da junção de ritmos reggae e do uso de instrumentos eléctricos na música espiritual shona para mbira. Wadada Leo Smith, através dos seus estudos de músicas do mundo (africana, japonesa, indonésia e europeia). No entanto, aquilo que prometia um encontro feito de interacção África-Estados Unidos, chimurenga/avant-jazz, acaba por resultar num álbum onde estas duas personalidades quase nunca chegam interagir entre si. Se o catálogo Axion de Bill Laswell já nos revelou discos onde as personalidades conseguem não sobressair em benefício do resultado final (a verdadeira fusão), “Dreams and Secrets” vai revelando dois universos distintos que pouco se cruzam. Um álbum que acaba por ser um “dois em um”.
Wadada Leo Smith actua amanhã no Festival de Novas Músicas "Ó Da Guarda", que está a decorrer até ao dia 18 na cidade da Guarda.
Publicado por Luís Rei às 01:02 AM
maio 20, 2004
Rough Guide to Fado
Finalmente, o fado é bem tratado pela editora World Network que publica os famosos Rough Guides. Depois de há uns anos ter feito uma primeira incursão por terras lusitanas em que compilou quase exclusivamente material da editora Movieplay, eis que nos chega uma nova colecção de fado bem mais abrangente e pertinente, que será editada em meados de Junho: Amália, Cristina Branco, Joana Amendoeira, Ana Moura, António Bernardino, José Afonso, Vicente da Câmara, Tristão da Silva, Alfredo Marceneiro, Ana Sofia Varela, Filipa Pais, António Chainho, Artur Paredes, Hermínia Silva, Fernando Maurício, Maria da Fé, Carlos Zel, Maria Teresa de Noronha, Carlos do Carmo, João Pedro, Kátia Guerreiro e António Zambujo.
É pena que, contudo, não inclua nomes como o de Mafalda Arnauth, Mariza e de Célia Barroca.
Publicado por Luís Rei às 06:19 PM | Comentários (5)
David Darling & The Wulu Bunun: Formosa e selvagem

David Darling & The Wulu Bunun
“Mudanin Kata”
(Riverboat / Megamúsica)
Este homem – David Darling - foi à Ilha Formosa (Taiwan) e gravou um disco que é um hino à primavera e à beleza selvagem, à (pouca) pureza que o mundo de hoje nos reserva. “Mudanin Kata”, mais do que um registo arqueológico de captar as riquíssimas polifonias vocais da tribo aborígene Bunun da aldeia de Wulu, resulta numa feliz combinação de um virtuoso instrumentista avant-garde de Violoncelo, com essas tais vozes que nos recordam os Pigmeus da África Central e os sons de uma natureza virgem (aves, muitas aves, insectos e até gorilas). Contrariamente a projectos como Baka Beyond, Darling não transporta estas vozes para um território ocidental que lhe é familiar, deixa-se contagiar pelos cânticos de trabalho e de caça - mantras que parecem budistas - desta tribo tocando violoncelo de forma o mais low profile possível. Não há fusão. Somente justaposição de ideias, de sons que se encontram unidos no universo astral. É uma daquelas obras que ficava muito bem alinhada no catálogo da Winter & Winter. “Mundanin Kata” é, a par do projecto “Lambarena”, a experiência mais bem sucedida de união entre o universo da música clássica / erudita e vasta área da música tradicional. Bate aos pontos qualquer Yo Yo Ma, Nigel Kennedy ou projectos como “Mozart to Egypt”. (9/10)
PS: David Darling e 23 cantores da tribo Bunun iniciam hoje (até ao final do mês) uma digressão inglesa de seis datas; Brighton, Bristol, Kendal, Salisbury, Liverpool, London.
“We chose to do the recording in a valley, far away from the village, as this would enable us to reduce outside interference and take full advantage of the natural sounds of the surroundings. Aside from cornfields and a small wooden hut, the only thing visible in the distance was an endless stretch of mountains and a blue sky dotted with white clouds. We set up a microphone in the shade of a tree, and the sounds of the birds and insects that accompanied us from dawn until well through the afternoon became part of the music. We recorded all of the singing and part of the cello accompaniment in our valley recording spot, then used a forest location to record David’s solo. After returning to the studio in the United States, we recorded more layers of cello music until the cello was able to become an integral part of the final product – a vehicle of sorts to bring the voices to the other end of the universe.”
Shu-Fang Wang (a produtora)
Publicado por Luís Rei às 04:55 PM
maio 10, 2004
PULP FUSION: filhos da fruta
Vários
"Pulp Fusion" - Vol1 a Vol4
Nestas quatro compilações poderia encontrar-se boa parte do sumo sonoro que proporcionasse maior virilidade às imagens captadas por Quentin Taratino em “Cães Danados”, “Pulp Fiction” ou “Jackie Brown”. Sem aditivos nem conservantes, sem ficção mas muito real, a colecção “Pulp Fusion” é mais um importante documento que confere a importância da música negra dos anos 70 em toda a sua amplitude, como fonte de pilhagem sonora de grupos rap e hip hop dos anos 80 e 90 como NWA, Eric B & Rakim e Onyx. À semelhança de outras compilações do género (“Africafunk”, “Club Africa”, “Racubah” ou “Oulele”), “Pulp Fusion” poderá ser um dos guias espirituais de projectos inseridos nas novas correntes de dança soul, jazz, funk, como Soul Ascendants, Faze Action ou Cinematic Orchestra. Mas se as quatro compilações acima referidas concentram-se mais no funk de ida-e-volta entre África e o Novo Continente, a série “Pulp Fiction” assume as múltiplas fusões entre o funk que cresceu nos “guettos” americanos e aí adquiriu múltiplas ramificações.
Além das omnipresentes e gordas linhas de baixo, “Pulp Fiction” dispersa-se por ritmos latinos de salsa e funk’n’flute (para perceber melhor a influências dos “guettos” espânicos no funk, soul, disco é obrigatório conhecer a compilação “Barrio Nuevo”), absorve influências do jazz, como be bob de Dizzy Gillespie, a facção mais electro de Herbie Hancock, ou o calor tropical dos brasileiros Azymuth. Apresenta-nos uma Tina Turner indomada na fase quanto mais-me-bates-Ike-mais-mais-selvagem-fico em “Bold Soul Sister” de 74. Desdobra-se na soul, quer através do pricadelismo de Minnie Riperton e de (outro brasileiro) Emir Deodato, quer por um formato sexy conduzido pela antiga mulher de Miles Davis, Betty Davis.
“Pulp Fiction” oferece-nos funk do bom, do puro, dos anos 70, numa riqueza híbrida que contempla ainda traços sonoros influenciados pela estética cinéfila Spaghetti Western, através de Booker & The MG’s.
Publicado por Luís Rei às 03:08 AM
maio 04, 2004
Unblocked: Music of Eastern Europe: A Leste da Europa

"Unblocked: Music of Eastern Europe" (edição Ellipsis Arts, distribuição Megamúsica) é um excelente cartão de visita em formato de triplo CD que documenta a música tradicional proveniente dos estados que formavam outrora a República da União Soviética. Um verdadeiro "melting pot" de culturas caracterizado por várias etnias, raízes linguísticas, alfabetos e religiões. Numa altura em que recebemos na União Europeia dez novos estados membros, é pertinente olharmos para a música de cada país. Mas, para já, começamos pelos nomes inscritos em "Unblocked".
Báltico
Lituânia: Lithuanian Suite
Letónia: Valdis Muktupavels; Klinci; Skandinieki; Ave Sol
Estónia: Helene Poeldaru: Linnamuusikud
Do Danúbio aos Cárpatos:
Eslovénia: Tolovaj Mataj; Katice
República Checa: Martin Hrbác; CeskoMOravská Hudební Spolecnost;
Eslováquia: Pavel Bielcik; Terchovská Musika Rozcutec
Hungria: Miskolc Romafolk; Zengö Group; Márta Sebestyén with the Ökrös Ensemble; Újstílus; Szaszcsavas band
Em breve, abordarei aqui cada projecto.
De referir que esta preciosa peça de colecção reúne ainda músicas de outros estados que (ainda) não fazem parte da Europa comunitária: Bielorússia; Ucrânia, Rússia, Croácia, Sérvia, Bósnia e Herzegovina, Macedónia, Albânia, Bulgária, Roménia e Moldávia.
Publicado por Luís Rei às 05:17 AM | Comentários (1)
maio 03, 2004
Välkommen Till Sverige

Reisaren é o resultado do diálogo entre dois músicos nórdicos de eleição, que trabalham sob uma matriz musical oriunda dos vales noruegueses de Setesdal. O notabilizado Ale Möller (mandola e flautas) dos projectos suecos Nordan e Frifot, e o norueguês, Gunnar Stubseid (harding fele).
Reisaren, mais do que uma prova de virtuosismo e criatividade por parte destes dois músicos, demonstra, acima de tudo, uma exemplar forma de entrosamento de duas fortes personalidades do folk nórdico que, sem recorrer a grandes inovações estéticas, edificam um registo de excelência, em que a capacidade comunicativa, o olhos nos olhos entre estes dois músicos, é a base do ir mais além.
Kalabra e Sälta (quarteto entretanto já extinto) são dois grupos da nova geração, cujos elementos, de vinte e poucos anos, são na sua maioria oriundos da Real Academia de Estocolmo.
Apesar dos dois elementos Ulrika Bodén (voz e flauta) e Sebastian Printz-Werner (percurssões) serem comuns a ambos os projectos, estes seguem caminhos distintos, mas com a mesma finalidade. São duas propostas distintas para dar novas tonalidades à engrenagem sueca.
Os Sälta são mais um daqueles grupos que aborda a temática da infelicidade e do desamor, tão característico das baladas medievais nórdicas. Seja o Rei que vai à bruxa e fica a saber que tanto ele como a mulher morrerão em breve, estando como consolação duas cadeiras no céu para os acolher; ou simplesmente a história do cavaleiro que pega no seu cavalo com o objectivo de conquistar riqueza, acabando por não conseguir mais do que a roupa que traz vestida.
Ambientes de tragédia, misturados com alguma ironia e muito bem condimentados pela também cândida voz de Ulrika Bodén, que canta como um anjo num Inferno. É aqui que o potente e cavernoso piano preparado de Risto Holopainen, se de dar expressividade, não sendo alheio a certas trocas de olhar com trabalhos mais antigos de Nick Cave, como From Her To Eternity ou First Born Is Dead. A ideia é excelente e dá, certamente, uma nova cara às muitas que a folk actual sueca possui. Contudo, existe ainda uma certa fragilidade na abordagem da improvisação e na construção de algo mais sólido e seguro. De qualquer forma, esta é mais uma obra de peso, que revela um futuro bastante promissor a este quarteto.
Já nos Kalabra que integra Simon Stalspets, Ulrika aborda de forma mais alegre e descontraída a felicidade e os prazeres da vida. As canções, escritas por membros do grupo, exprimem sensações de se estar enamorado, ou as das habituais baladas medievais com final feliz. É exemplo disso a história de uma pequena que desafia os seus medos (e de seus pais) e segue um monstro que simboliza o amor inacessível e proibido. Quando acorda de manhã, encontra um príncipe a seu lado.
Musicalmente, os Kalabra dão um seguimento mais pop à vertente folk-jazz iniciada por Ale Möller. O alto e barítono saxofone de Amanda Sedwick, o marcado e "afunkalhado" baixo de Erik Metall, as percussões a tocar o Afro (que têm o dom de nos fazer lembrar o nosso Zé Salgueiro), acompanhados por uma série de instrumentos da tradição nórdica, como as longas flautas de madeira sem buracos (que os Hedningarna também usam), a nyckelharpa, o berimbau e o bouzouki (da família dos bandolins), dão corpo ao compromisso existente entre o jazz e a intemporalidade do folk, que tanto pode evocar os "Kulnings/Callings" (cantos para a recolha dos animais de pasto) de outrora, como apostar na escrita contemporânea.
Kalabra, um disco que sofre de problemas semelhantes ao de Sälta, mas que, tal como este, nos convida a estarmos atentos ao evoluir deste projecto, porque a renovação da folk nórdica irá passar certamente por aqui.
Ainda no Jazz, Dan Gisen Malmquist é um clarinetista que tocou outrora com Ale Möller nos Filarfolket e que actualmente participa na Avadå Band. O seu perfil, de meio trintão a caminho dos quarenta, dá-lhe para exibir uma postura mais calma e despretenciosa, assente na fusão entre o jazz e a música tradicional mais ligeira. Ambos os discos possuem a capacidade de nos surpreender, trasportando-nos por diversos ambientes. Desde algo que evoca a lamechice de um Kenny G e da música de hotel, passando pelas gélidas sonoridades pejadas de mistério que os Groupa tão bem sabem fazer, até canções charmosas a que Karin Parrot exemplarmente se encarrega de dar voz. Ela, que parece ter saído de um filme sobre a Segunda Guerra Mundial, canta com uma sensualidade "Lili Marlene" num cabaret parisience, decorado a vermelho.
Vattenringar, álbum inicialmente editado em 92, totalmente instrumental e não tão inventivo quanto Nattljaus serviu de tubo de ensaio para este recente disco, que se mostra verdadeiramente ambicioso na procura de ambientes melodicamente ricos e com uma grande dose de sentimentalismo à mistura. É um daqueles discos que vai entrando a pouco e pouco na nossa sensibilidade.
Com os Trio Patrekatt entramos no forte universo das cordas suecas, que se encontram ao serviço das polskas, Scottis e valsas. Um universo demasiado híbrido, em que os músicos da "old fidler tradition" executam longas dissertações de violino, tendo por isso o dom de nos criar alguma sonolência.
Nos Trio Patrekatt de Markus Svensson (que também integra os Kalabra) tais danças são executadas através de duas nyckelharpas e um violoncelo, instrumento que vem introduzir alguma inovação a este universo. As nyckelharpas, mais recentes, muito mais melodiosas e de sonoridade mais aguda que as de tempos medievais, são confrontadas com a grave sonoridade do violoncelo que funciona quase como instrumento de resonância ou como se de cordas "drone" se tratasse. Aqui e ali observamos algumas tentativas de tornar as incontornáveis polskas mais universais e modernas, sobretudo quando os instrumentos são abordados de forma mais suja, como se fossem os finlandeses Apocalyptica em versão soft.
North Sea Music do escocês Aly Bain (Ilhas Shetland), da sueca Hanne Kjersti Yindestad e dos noruegueses Tellef Kvifte, Leiv Solberg e Henning Somemerro, é um disco que assenta na recuperação de composições que viajaram ao longo de séculos pelos países do mar do Norte.
Antes da rádio e da TV, a música e as palavras foram transportadas por mar. A língua inglesa falada nas ilhas Shetland (Escócia), ainda hoje possui muitos termos do norueguês. Tais marcas denunciam a ocupação deste povo nórdico até ao sec XV, reflectindo-se também musicalmente em "Wynadelpa", com Aly Bain a demonstrar através de harding fele (o violino tatuado norueguês) todas as semelhanças entre estes dois povos.
Norh Sea Music, uma súmula de reels, callings, polskas, baladas e valsas, que viajaram e foram sendo adaptadas de país para país, recebendo uma rica herança multi-cultural. "I´ll Give My Love a Cherry" é o exemplo de uma balada irlandesa que viajou com a emigração até aos Estados Unidos e que regressou ao país de origem com um certo aroma de blues.
Diálogo, e do mais harmonioso que é possível, é coisa que acontece no projecto Swap dos suecos Ola Bäckstrom e Carina Normansson (violinos) e dos britânicos Karen Tweed e Ian Carr (acordeão e guitarra), quatro músicos que se têm notabilizado nos seus países de origem. Ola Bäckstrom, pelo seu trabalho a solo, Carina Normansson pela coordenação de uma "spelemmanslag" da região de Dalarna e Karen Tweed e Ian Carr pelas suas múltiplas colaborações em projectos britânicos de primeira água, como a banda de Kathryn Tickell e os Poozies.
Neste disco que reúne composições de ambos os lados do mar do Norte, salta ao ouvido a forma quase perfeita como reels irlandeses se encontram em sintonia com as polskas suecas, num trabalho onde o desenraízamento das origens musicais, se encontra ao serviço de uma banda sonora que balança incessantemente entre as ilhas britânicas e a Escandinávia. Mais um trabalho memorável em que comunicação e entrosamento falam mais alto, oferecendo uma outra dimensão ao sangue musical que corre nas veias destes quatro músicos.
Habituados que estamos ao cruzamento da música de raíz nórdica com todo o tipo de manifestações sonoras, Bazar Blå é mais um novo projecto sueco que propõe um novo alargamento da fronteira da polska e da composição para nickelharpa (violino com um sistema de chaves sueco). Numa modalidade comparável à dos Väsen (não tão enérgica), a música dos Bazar Blå divaga entre a sumptuosidade e delicadeza da folk sueca, assaz marcada pelos rasgos criativos da nickelharpa de Johan Hedin, cuja interpretação navega entre o rústico e o clássico. Sonoridade essa suportada pelo baixo de Björn Meyer oferece uma cadência mais jazzística e, sobretudo pela amplitude universal das percussões - caxixi, tabla, darbouka, bendir, djembe, entre outras - de Fredik Gille. Mais um feliz cruzamento entre a melodia nórdica, o jazz e os ritmos do mundo.
Emma Härdelin (vocalista dos Garmarna), Kjell-Erik Eriksson (violinista dos Hoven Droven) e Janne Strömstedt (órgão) trocam-nos as voltas neste trio. Longe do som duro e sombrio que caracteriza os outros grupos de que fazem parte, os elementos dos Triakel apostam na simplicidade e doçura das canções recuperadas dos antigos baús dos seus avós. Hinos, baladas, valsas e polskas cantadas que gravitam em torno da frágil mas extremamente harmónica voz de Emma, cujas palavras suecas escorregam tão bem nos nossos ouvidos como se de uma faca aquecida em manteiga se tratasse. O violino e o órgão, esses, escutam-se lá muito atrás, de mansinho, para não perturbar esta diva precoce. Por isso mesmo, se este álbum nos oferece Emma na maior candura, deixa-nos a amarga sensação do não ir mais além pelo lado instrumental (visceral), que estávamos habituados sobretudo em Garmarna.
Publicado por Luís Rei às 06:29 PM | Comentários (2)
fevereiro 19, 2004
Kora Jazz Trio: será que o jazz nasceu em África?
Kora Jazz Trio
"Kora Jazz Trio" [2003]
(Melodie / Megamúsica)

Toumani Diabaté há muito que havia aproximado o universo africano da música mandinga, ao flamenco. O projecto Kora Jazz Trio dos senegaleses Abdoulaye Diabaté (piano) e Moussa Cissoko (percussões) e do guineense Djeli Moussa Diawara (kora) faz agora a revisão da música milenar dos griots à luz do jazz. Conforme acontece com os blues no Mali, o jazz parece ter nascido na África Ocidental. Há neste disco uma conjunção feliz que torna o todo maior que a soma das partes. Um duelo continuo de virtuosos, dominado pelas composições a meias de Diabaté e de Diawara, em ambiente de contemplação a Charlie Parker (fabulosa a versão de “Now Is The Time”).
Em “Kora Jazz Trio” os dois músicos, através dos seus solos de piano e kora + voz, parecem esticar, cada um para o seu lado, uma corda. Cissoko, o percussionista, resigna-se ao papel de árbitro, ou de assistente de um jogo de ténis, que passa o encontro a mover a cabeça para ambos lados.
Sem perder a essência africana, há nas composições do pianista um sentimento mais "jazzy", de “hot club” fechado, nocturno e asfixiante, filiado em Abdullah Ibrahim. Já o contador de histórias imperiais e intérprete de Kora, transmite-nos a luminosidade abrasadora da ilimitada paisagem da savana local. É na conjunção de opostos e na confrontação dos antagonismos que reside a beleza deste disco. Escutem-nos, porque ninguém sai daqui magoado. (8/10)
Publicado por Luís Rei às 01:35 PM | Comentários (1)
novembro 18, 2003
Ciganos eléctricos e (pouco) selvagens
Vários
Electric Gypsyland
Crammed / Megamúsica

O que o cinema faz. Desde “Underground”, a música cigana de leste extravasou o restrito circuito de festivais folk, da imprensa escrita e de programas de rádio especialmente vocacionados para a divulgação de músicas do mundo. O espírito tresloucado, o apelo irresistível à dança das brass bands e das taraf ciganas que nos chegam do leste, conquistaram a ‘club culture’ alemã e o coração de alguns produtores de música electrónica. “Electric Gypsyland” é, pois, um exercício de distintos estilos edificado a várias mãos. Alterna o mau (Bucovina Club – excessivamente techno; Bigga Bush – dub inconsequente; Mercan Dede – apenas um mísero didgeridoo), com o razoável (Arto Lindsay e Señor Coconut – algo frios e maquinais) e o bom (já a seguir). Parte de uma matéria prima (extremamente) limitada, que se restringe aos grupos do selo Crammed: Taraf de Haidouks, Koçani Orkestar e a recente aquisição, Mahala Rai Banda. O que faz com que haja alguma repetição na revisão do repertório. “Siki Siki Baba” da Koçani é revisto por três vezes (Señor Coconut>, Gaëtano Fabri e Mercan Dede), “L’orient Est Rouge” ainda da brass band macedónia por duas vezes (Lightning Head e Bigga Bush).
O céu limpo e solarengo que se abate algures entre a Roménia e a Macedónia, é-nos oferecido pela sequência Dj Dolores Vs Taraf – Shantel Vs Mahala e Juryman Vs Taraf (de novo), além de Modern Quartet Vs Koçani. Quatro propostas onde a ‘hora’ romena que é “Dumbala Dumba”, dilui-se em ritmos de drum’n’samba; onde “Lest Sexy” exala a faceta sensual e extremamente dançável da música cigana dos balcãs, amplificada pela quase ausência criativa de Shantel, que se limita a dar mais intensidade ao ritmo; onde o espírito de bom selvagem, hipnótico, de quem conta uma história de sublevação camponesa, enquanto dedilha as cordas de um violino, é totalmente transfigurado pelo electro jazz de Juryman, muito marcado por uma bateria intensa e deambulante; e onde um clarinetista búlgaro, com uns dedinhos mágicos à Ivo Papasov, encontra um tapete vermelho de electrónica refinada a seus pés. Mais e melhor seria até seria possível. Era necessário que se respirasse com maior intensidade o espírito de bom selvagem e se reproduzissem os sons que marcam o pulsar do dia-a-dia no seio de uma comunidade cigana: os acordes de acordeão ao fundo da sala, os cães a latir, os pregões das vendedoras, etc. (6/10).
Publicado por Luís Rei às 11:48 PM | Comentários (15)
outubro 28, 2003
EARTH-WHEEL-SKY-BAND: A cavalo, sem freios, da Sérvia ao Rajastão.

Earth Wheel Sky Band
Waltz Rromano
Asphalt Tango
O início não engana. Estes Sérvios querem conduzir-nos de volta ao berço da civilização cigana. Poderia tratar-se de uma viagem através do Expresso do Oriente com paragem no Rajastão, mas esta é uma aventura selvagem, feita a cavalo, sem freios. Se, praticamente, pouco se deu por eles no anterior álbum “Rroma Art” (edição Sabotage), “Waltz Rromano” soa aos nossos ouvidos como o detonar de uma bomba de neutrões. Exagerado? Este é, provavelmente, o álbum mais interessante de 2003 (e um dos melhores de sempre) feito por músicos de etnia cigana. Olah Vince, raposa velha que tocou recentemente na orquestra LaDaABa de Boris Kovac, impõe o estilo feio-porco-mau-durão-e-mafioso, quer na sua voz de “vibratto”, quer no toque epiléptico de guitarra e de violino. Um álbum feito de virtuosismo, de explosões, de sonoridades vetustas (sobretudo o de cymbalom) e de uma capacidade e uma versatilidade ímpar que os ciganos têm de ir a todas. Não falta o nervo do rock sem recurso a instrumentos eléctricos (“Choro Rrom”), as variações de acordes de guitarra sobre “Misirlou Twist” de Dick Dale, para o trompete de Boban Markovic brilhar (“Vranje-Rromans), ou o mergulho no berço da civilização Rromani num interessante diálogo entre cítara indiana, violino e cymbalom. Essencial. Ao nível da Taraf de Haïdouks. (9/10)
Publicado por Luís Rei às 07:31 AM | Comentários (1)
outubro 24, 2003
Boban Markovic - a Loucura pós "Underground" continua
Boban Markovic Orkestar
Boban I Marko
(Piranha / Megamúsica)

Numa semana em que o Público edita o DVD do filme “Underground”, é obrigatório escutar o novo álbum do sérvio Boban Markovic. Mais um registo dominado pela fantasia, magia, pujança, espírito selvagem e lúdico (se bem que aqui um pouco mais sofisticado) tão característico nas brass bands de leste. Há festa grossa encapotada num formato pop de inspiração 'bregoviquiana' (“Od Srca”). Mas há muito mais inflexões jazzísticas em mortíferos e intermináveis solos e duelos com o seu filho de 14 anos, Marko. E muito mais quebras e variações rítmicas e melódicas. Num salto de elefante deixamos o aroma contemplativo que sopra da Ásia Menor e embarcamos num brass’n’samba acabado de ser servido por uma banda de metais do Suriname, que não pede licença para nos pôr a dançar ("Sanja Samba"). Irresistível. Ainda escutam os discos de Emir Kusturica e de Goran Bregovic? Esqueçam-nos! Prefiram o genuino. O autêntico. (8/10)
Publicado por Luís Rei às 03:26 AM | Comentários (3)
outubro 22, 2003
BIDAIA: Vespeiro basco

Bidaia
Oihan
(Resistencia / Sabotage)
Nem só de trikitixas e txalapartas é feita a folk basca. A par destes dois instrumentos, a alboka (que, curiosamente, dá nome ao interessante grupo de Joxan Goikoetxea) assume tão ou maior protagonismo no Euskadi. A sua sonoridade estridente, semelhante à bombarda bretã, casa na perfeição com a sanfona ocitana de Caroline Philips, oferecendo-nos um autêntico vespeiro a azamboar os nossos ouvidos. Ressonância amplificada pela acção do cordofone percutido local e milenar, Ttun-ttun (da família dos saltérios), feita com um nervo próprio do rock sem, contudo, ceder à tentação de amplificar instrumentos. Pequenos pormenores suficientes para falarmos da filiação Blowzabella e Hedningarna (apenas no pendor dançável e ressonante, se bem que não haja quaisquer vestígios de uma fusão acústica – eléctrica, mas a atitude paira por cá). Contudo, os Bidaia vão mais longe. Não há frente sem dorso. Não há música profundamente arreigada sem olhar para o resto do mundo. Apesar de cantarem em euskera, marcando firmemente a sua identidade, a música dos Bidaia viaja pelo mundo e pelo tempo. O saxofone e o contrabaixo imprimem um pendor mais jazzístico. As percussões de Jabi Area – darbouka marroquina e, sobretudo o cajon andaluz – dão-lhe uma cadência árabe-andaluz, que serve um propósito comum: o apelo irresistível à dança. Uma banda perfeita para o Andanças. (8/10)
Publicado por Luís Rei às 07:11 AM
outubro 20, 2003
Tejedor: Dêem-nos a Lua!

Tejedor
Llunáticos
(Resistencia / Sabotage)
A música folk, sobretudo no norte de Espanha é um fenómeno de massas. Os gaiteiros e as gaitas de foles continuam na moda. Os festivais crescem como cogumelos. Os grupos que clamam o pan-celtismo e as ligações trans-atlânticas com as ilhas britânicas multiplicam-se, havendo a possibilidade de se disputar vários campeonatos: da superliga, às distritais. No meio de tanta parra e pouca uva, o colectivo dos irmãos asturianos Tejedor é um nome a reter. Devolvem-nos o prazer de escutarmos a folk que parecia encontrar-se numa encruzilhada. José Manuel Tejedor (o gaiteiro de exímia técnica) poderia seguir os mesmos passos de Núñez e de Hevia, mas não o faz. Ainda bem. É certo que há neste disco, como também no primeiro “Tejedores de Suaños”, leves tentações de ceder ao fácil (são inevitáveis os inenarráveis teclados planantes e os “beats” de dança), mas com um certo controle. Se a folk é um poço de força, mestria técnica e emotividade, os irmãos Tejedor têm também a sua quota parte de culpa. São espantosos os diálogos entre a gaita de foles e o acordeão diatónico (de Javier) que, por si só, já asseguravam uma memorável gravação. Mas há mais. Muito mais: a abertura, “Gaites del Infiernu” é auspiciosa: gaitas, sanfonas, albokas, nickelharpas em chamas, numa resposta a “Bok Espok” de Kepa Junkera; o aroma asturiano feito de ritmos rápidos, ágeis e escorreitos (típico em Llangres e Llan de Cubel), de uma certa aragem escocesa e que põem a nu toda a beleza acústica do bouzouki e das guitarras acústicas de Igor Medio (membro dos Felpeyu que, na sombra de José e Javier executa um notável trabalho); a calorosa voz de Eve Tejedor interpretando deliciosos romances; e ainda há tempo para acabar em beleza com um solo de gaita de três minutos (“Floreu de Remis”) de nos tirar o fôlego. Mesmo assim, pouco, para quem provou cerca de vinte minutos da mesma receita em Sendim. (9/10)
Publicado por Luís Rei às 01:25 AM | Comentários (2)
outubro 18, 2003
O poético mundo de Filipa Pais

Filipa Pais
À Porta do Mundo
(V&A)
É um caso raro. Com uma carreira tão profícua e quase uma década após ter editado álbum de estreia a solo “L’Amar”, Filipa Pais lança finalmente o seu segundo disco, “À Porta do Mundo”. É, de facto, uma porta para um mundo imaginário e inocente (as imagens remetem-nos para o universo de Principezinho de Exupery), fantástico, belo, poético. Um universo amadurecido e com os pés bem assentes na terra. Há ecos de tradição (“Não Se Me Dá Que Vindimem”, “Altinho”, “José Embala o Menino”) e das medievais Cantigas de Amigo de D. Sancho I, moldados pela contemporaneidade dos elegantes arranjos de João Paulo Esteves da Silva, criando um luxuriante universo para a voz cristalina e, por vezes arabizada (marcas da Lua Estravagante) de Filipa. O disco é feito de subtilezas que é preciso descobrir: Há a poesia de Cesariny, Reinaldo Ferreira e Hélia Correia. Há adufes que retumbam e bandolins a saltitar como a pulga, acordeões ora alegres e festivos, ora trágicos e sombrios, uma límpida guitarra infinita que se prolonga além horizonte, uma gaita de foles que pede licença para entrar, o toque mais clássico de violino de Manuel Rocha (bem diferente do registo da Brigada Vítor Jara), o virtuosismo de Yuri Daniel (contra-baixo) e de J.P. Silva (Piano) em “Cantiga de Amigo”. É mais um daqueles discos que irá manter acesa a discussão do que é ou não é Música Popular Portuguesa. Não há fronteiras estanques. Os mais puristas que torcem o nariz às experiências mais clássicas da Ronda dos Quatro Caminhos, têm de perceber que o mundo actual é feito de contaminação e miscigenação. E nunca como aqui o universo da música tradicional se encontra tão próximo do jazz. E ainda bem.
Publicado por Luís Rei às 06:18 PM | Comentários (2)
outubro 16, 2003
Faltriqueira: As cinco mulheres da Galiza

Faltriqueira
Faltriqueira
(Resistencia / Sabotage)
Na Galiza, os gaiteiros e as pandereteiras são tantos e tantas que, às tantas, acabam por formar grupos de gaitas e de pandeiretas (com tarrañolas incluídas). As cinco Faltriqueira, são o resultado daquilo a que se pode chamar um casamento feliz entre a tradição vocal “alala” e toque de transe mortífero das pandeiretas, que nos fazem lembrar os nossos adufes de Monsanto, ou os bendires do norte de África. Como jovens que são, arrepiam caminho fugindo da rígida tradição, em direcção à fusão bem conseguida pelo produtor basco (do lado francófono) Pascal Gaigne. A matéria prima é de primeira qualidade: emotivas, quentes e frescas vozes que possuem a mesma força e vivacidade das finlandesas Värttinä (fase "Oi Dai" - "Seleniko"). Uma flecha de cupido apontada ao nosso coração. É amor à primeira audição. A partir daqui, Gaigne dá-nos o universo luso-galaico (sim, porque como boas galegas que são estas meninas interpretam “As Sete Mulheres do Minho” de Zeca e a “Cantiga Bailada” recolhida na discografia da Brigada Vítor Jara) em confluência com o resto do mundo. Há temperos árabes (alaúde, saz, darbukas), da áfrica negra (djembé) e sul americanos (cajón, berimbau), à mistura com orquestrações mais clássicas (oboé, violoncelo, violino). Mas, o melhor é mesmo o confronto Galiza-País Basco. Kepa Junkera e Oreka Tx escolheram as armas do costume: trikitixa e txalaparta. O duelo de “Labrada de Cortellas” é sublime. Como magnífico é quase todo o disco, que peca apenas, aqui e ali, pelos excessos de Pascal Gaigne. Perde-se em floreados, por vezes, desnecessários.(9/10)
Publicado por Luís Rei às 02:48 AM | Comentários (10)
outubro 12, 2003
SUSHEELA RAMAN: Beleza anglo-indiana

Susheela Raman
Salt Rain
(Narada / EMI – VC)
A globalização regulamentada pelas leis de mercado não nos oferece apenas efeitos negativos e “darwinistas” às culturas não ocidentais. Há medida em que as fronteiras se esbatem e que certos acordes e melodias têm a capacidade de recuar cem ou duzentos anos no tempo, a música torna-se num fenómeno global de difícil catalogação estilística e temporal. Assim acontece com Susheela Raman.

Ela é, à semelhança de muitos filhos de pais orientais que emigraram para a Europa, uma inglesa de sangue indiano que viveu a maior parte da sua vida na Austrália, tendo regressando a Londres há quatro anos atrás. Tal como acontece com Nitin Sawhney, a dificuldade de Susheela Raman encontrar a sua verdadeira nacionalidade é equilibrada pela facilidade que a cantora carnática tem em dominar uma linguagem musical multi-culturalista. Só que, à abordagem electrónica de Sawhney, Suseela Raman que já foi vocalista do projecto dançável anglo-indiano Joi, responde com um disco acústico. A surpresa ainda é maior quando reparamos que o compositor do disco é Sam Mills, antigo elemento do projecto industrial e experimental britânico, os 23 Skidoo. Longe das coordenadas sonoras deste projecto ícone dos anos 80, Sam Mills tornou-se num músico ocidental apaixonado pelo Oriente e por África. Viveu na Índia e gravou “Real Sugar” para a Real World, com o cantor espiritual Paban das Baul de Bengal, além de também ter participado no projecto anglo-africano Tama. É o álbum “Real Sugar”, onde ritmos electrónicos de trip hop e drum’n’bass servem de matriz de acolhimento da voz profunda de Paban das Baul, que Susheela Raman tomou como referência para trabalhar com Sam Mills.
A história repete-se mas, curiosamente, quase sem recurso à tecnologia, apesar do pendor dançável de algumas canções. Em “Salt Rain”, Susheela Raman apresenta todas as credenciais de uma cantora carnática, em que a toda a técnica adquirida ao longo do tempo é complementada pela inconformidade de não se cingir apenas e só à rigidez sul-indiana da música de Tamil, fazendo com que este disco seja um verdadeiro laboratório de experimentação.
“Maya”, que tem por inspiração uma raga indiana, é condimentado por uma base ritmica reggae e um aroma klezmer, a que não e alheio o clarinete do grego Manos Achalinotopoulos, capaz de evocar a negritude mágica e nostálgica do “duduk” (oboé ancestral) do arménio Djivan Gasparian. Ambiente que também perfuma “Kamashi”, num duelo intenso com a enigmática e intensa voz de Raman.
“Trust in Me” aparece moldado por uma espécie de cha-cha-cha oriental, comandado pela percussão do egípcio Hosam Ramzi, onde a trágica e cinematográfica voz de Raman situa-se entre o Bollywood típico e as 1001 noites árabes. Em “O Rama” é suficiente a simplicidade da lira queniana de Ayub Ogada para servir a voz da diva num dos momentos mais brilhantes do disco (a par de “Kamashi”). Apesar de haver momentos em que Raman se eleva ao mundo astral, “Salt Rain” também apresenta algumas debilidades, próprias do risco que se corre em tentar fundir geografia e tempo. É o caso de “Woman” e “Salt Rain”, em que a cantora revela o seu lado pop / songwriting algo banal, e de “Song to the Siren”, uma pálida versão do tema escrito e interpretado por Tim Buckley, com uma voz tão inebriante quanto embriagada. Elizabeth Frazer fez bem melhor que Raman na versão dos This Mortal Coil.
(texto originalmente publicado em Dezembro de 2001 no extinto site Musicnet)
Nota: Em breve, publicarememos nova recensão crítica ao segundo álbum de Susheela Raman, "Love Trap".
Publicado por Luís Rei às 11:38 PM
julho 23, 2003
GALANDUM GALUNDAINA: "QUE SEIA UN EISITO I 1 PURMEIRO DE MUITOS I BUONOS, CHENOS D'ALMA"
GALANDUM GALUNDAINA
"1 PURMEIRO"
Emiliano Toste / Mundo da Canção
Para o bem e para o mal, as Tierras de Miranda continuam bem longe das principais redes de estradas nacionais e a piscar o olho ao vizinho de Aragão, onde à semelhança desta zona raiana transmontana está enraizada a tradição da fraita (flauta pastoril de três orifícios) e tamboril, tocado em simultâneo. Ir de Lisboa a Miranda do Douro é uma verdadeira aventura de pelo menos seis horas de viagem que, apesar de tudo, vale a pena ser feita. O planalto transmontano é deslumbrante. A riquíssima cultura, apesar vetada ao esquecimento do poder central, tem sido o baluarte da identidade de um povo culturalmente homogéneo, que tem o desplante de falar uma outra língua: o mirandês (até existe blogue sobre o assunto). São os benefícios da interioridade, que têm preservado um filão precioso de gaiteiros, tamborileiros e vozes sexagenárias e septuagenárias, oportunamente registadas em suporte digital pela editora Sons da Terra de Mário Correia. À profusão de antigos mestres de cerimónias, tem-se assistido ao interesse crescente dos jovens músicos pela recuperação das mais enraizadas cultura mirandesa. No epicentro de todo este crescente orgulho regional visível no rosto de uma nova geração de músicos, encontram-se os Galandum Galundaina, secundados por Lenga Lenga e pelo grupo de “rock agrícola com mentalidade de tractor” Pica Tomilho. Músicos de altos estudos e professores de música, os Galandum Galundaina exibem todo o rústico e pastoral de composições cantadas em mirandês e tocadas com gaita de foles transmontana, tamboril, caixa de guerra, conchas de Santiago e castanholas. Em bom tempo perceberam que não iam a lado nenhum com as experiências mais jazzísticas de hotel, de há uns cinco anos atrás. Depois disso, o quarteto recuperou o seu lado genuíno e de excelentes animadores de rua (dois dos seus maiores trunfos), apostando em regar a raiz, tornando-se mais forte e consistente, do que a querer ser a folha de plátano que dura apenas uma Primavera. “1 Purmeiro” demonstra que os Galundum se encontram agora numa encruzilhada. Depois deste álbum, será difícil criar um novo registo sonoro que não soe um pouco como uma sequela. Apesar de tudo, prefiro vê-los e ouvi-los neste registo, de preferência nas arribas do Douro e em cima de um burro.
Nós tenemos muitos nabos
Nós tenemos muitos nabos
a cozer nua panela,
nun tenemos sal nien unto
nien presunto nien bitela
Mirai qu'alforjas, mirai qu'alforjas
uas mais lhargas, outras mais gordas
uas de lhana, outras de stopa
Ls chocalhos rúgen, rúgen
ls carneiros alhá ban
an chegando a Ourriêta Cuba
ls carneiros bulberan.
Mirai qu'alforjas, mirai qu'alforjas
uas mais lhargas, outras mais gordas
uas de lhana, outras de stopa.

Nota: Durante os dias 30 de Julho e 1 de Agosto, no arranque de mais uma edição do Festival Intercéltico de Sendim, terá oportunidade de descobrir as Terras de Miranda por aldeias, caminhos e estradas mouriscas e ouvir os Galandum Galundaina, montado num asininolocal, que acabou de merecer a protecção da Comunidade Europeia (parabéns pelo seu trabalho engenheira zootécnica Luísa Samões). O programa está disponível no sítio dos Galandum Galundaina .
Publicado por Luís Rei às 04:44 AM | Comentários (8)
julho 15, 2003
LILA DOWNS: NA LINHA DA MORTE
LILA DOWNS: NA LINHA DA MORTE

Nasceu no outro lado da fronteira. No lado de lá da linha. Lugar que maioria dos mexicanos deseja alcançar. A razão pela qual muitos deles perderam a vida.
Filha de um professor de arte e pintor norte-americano e de uma indígena mexicana de etnia Mixteca, Lila Downs é uma espécie de Manu Chao no feminino. Antes da glória de “Burn It Blue”, tema gravado em dueto com Caetano veloso para a banda sonora do filme “Frida”, editou o álbum “La Linea” (o seu terceiro disco).
Mais um manifesto anti-globalização, “La Linea” põe a nú a política económica global da NAFTA, a imigração precária num mundo de (apenas e só) livre circulação de bens financeiros e as situações desumanas que se vivem em solo mexicano. Aborda as questões da exploração do trabalho feminino nas “maquiladoras”, a falta de direitos civis dos mais de 10 milhões de indígenas que aí vivem, o infortúnio daqueles que pagam com a vida o facto de tentarem passar a fronteira entre o México e os EUA.
Além de um discurso inflamado pela defesa dos pobres e excluídos, Lila Downs exibe uma abrangência sonora notável, centrada sobretudo no universo latino-americano. Sem nunca esquecer as suas raízes índias – ela própria veste-se a rigor e vive numa comunidade mixteca – Lila Downs, ora exibe a sensualidade serena de excelsas vozes hispano-americanas como Susana Baca e Toto La Momposina, ora revela o seu lado negro de tragédia e dramatismo inspirado em Lhasa, ao qual não falta a referência à lenda de “La Llorona”.
Entre arranjos jazz e pop tão sofisticados como aqueles que moldam “Eco de Sombras” de Baca, Lila Downs apresenta várias facetas em “La Linea”. A clássica, rígida e sóbria, centrada na cultura popular mexicana, em cumbias e boleros. E a experimentalista e irreverente, ironizando a má sorte daqueles que tentam passar a linha com rancheras (“El Bracero Fracasado”), decompondo o intervencionismo de Woody Guthrie, revestindo todo o dramatismo das suas palavras com ritmos de hip hop e reggae, dando uma leitura afro-cubana - num jeito semelhante ao dos norte-americanos Pink Martini - a “Perhaps, Perhaps, Perhaps”. Uma obra tão interessante, quanto desequilibrada.
Lila Downs estará em Portugal, no próximo sábado, dia 19 de Julho, para abrir o ciclo “Noites no Palácio” (Jardins do Palácio de Cristal, Porto). A 25 do corrente mês, apresenta-se no festival “Tom de Festa (em Tondela)
Publicado por Luís Rei às 11:30 PM | Comentários (3)
abril 16, 2003
NUSRAT FATEH ALI KHAN: Ecos do paraíso
Nusrat Fateh Ali Khan
Final Studio Recordings
American Recordings / Sony Músic
Vários Artistas
Hommage a NFAK
World Network / Megamúsica
Em Pleno dia Mundial da Voz, vale a pena recuperar uma das melhores vozes de sempre: a do paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan e o seu último disco de estúdio. Aproveito para recuperar dois textos escritos há já algum tempo. O primeiro para o sítio já extinto Músicnet e o segundo o antigo suplemento "Vidas" do semanário "O Independente"
Nusrat Fateh Ali Khan, durante a sua vida, contraiu bastantes inimigos no Paquistão por ter subvertido as rígidas regras da música qawwali de devoção a Deus, que os místicos islâmicos Sufis interpretam. As experiências que fez entre a rigidez da tradição qawwali e diversas áreas do mundo ocidental (rock, dança, experimentalismo) com gente tão ilustre quanto Michael Brook, Eddie Vedder e Massive Attack, entre outros, transformou-o num Judas aos olhos do universo islâmico. Este pioneirismo, apesar de contestado por muitos, serviu de motor de arranque para outros mestres do qawwali fazerem também eles outras experiências na área da pop dançável, casos de Shabaz e e dos sobrinhos de Nusrat, Rizwan-Muazzan Qawwali.
“The Final Studio Recordings” é, como o próprio nome indica, a última gravação em estúdio de NFAK, que ficou incompleta devido à trágica morte do cantor paquistanês provocado por ataque cardíaco em 1997. Produzido por Rick Rubin, com créditos firmados na área do rock e mais recentemente country, “The Final Studio Recordings” é uma surpreendente inversão de trajecto artístico de NFAK. Um regresso às origens e à música de amor e louvor ao profeta Maomé no formato mais puro – vozes, harmonium e tablas – isento de malabarismos de estúdio, próximo de registos como “Shahen-Shah” (1989). NFAK em fase terminal de vida e com a voz um pouco mais rouca, consegue manter a toda a potência e requebros hipnóticos do seu canto que, durante a sua vida terrena, nunca foi deste mundo. NFAK, enquanto foi vivo, afirmou que uma boa festa qawwali terá necessariamente de lançar um feitiço sobre a audiência, apesar de esta não compreender a língua. Em mais de duas horas de verdadeiro transe distribuídas por um CD duplo, o mestre cumpre a sua função: a de ser reduzir a distância entre o criador e a sua audiência, seja qual for o credo desta.
Nusrat Fateh Ali Khan a quem o coração atraiçoou no passado dia 16 de Agosto de 1997, morreu feliz. Com o sentimento de ter cumprido a sua missão na terra.
Nusrat, como Sufi que era, procurava na música e nos poemas da sua tradição espiritual levar a palavra de Alá aos quarto cantos do mundo.
Na compilação "Sufi Soul" (Network 97) pode ler-se as seguintes palavras de NFAK: "Quero transmitir a mensagem de paz e amor ao mundo e trazer a palavra de Deus bem próximo do povo. Para nós, a música dos Sufis é como uma ponte que une vários povos. Convida todos a darem as suas mãos. É o caminho da reconciliação."
De facto, se olharmos para a notável carreira de NFAK, chegamos à conclusão que este "quarto tenor" espalhou pelo mundo as mensagens do Islão e do Sufismo, impregnadas de amor e devoção, afecto e tranquilidade. Algumas das matérias base dos poemas que interpreta, muitos deles escritos há mais de 500 anos.
Venerado como um semi Deus no Paquistão, NFAK cedo foi descoberto no Ocidente por Peter Gabriel. O seu nome é sinónimo de metáforas que demonstram ligações indissociáveis entre Ocidente e Oriente, tradição e modernidade, sagrado e profano, por culpa das suas múltiplas experiências com músicos de áreas tão diversas como o rock, o trip hop, a dança e o experimentalismo.
Os seus trabalhos com Michael Brook, Massive Attack, Eddie Vedder, Bally Sagoo e Peter Gabriel, apesar de levarem as mensagens dos Sufis para fora do seu ambiente, foram responsáveis pelo surgir de inimigos no seio da comunidade de músicos qawwali (música de devoção dos Sufis), que sentiram a sua cultura contaminada.
A sua exemplar técnica vocal, plena de improviso em múltiplas inflexões, foi provavelmente melhor compreendida no Ocidente. Entre os inúmeros fãs de NFAK, Jeff Buckey foi aquele que melhor descreveu e interiorizou o sentimento de escutar um disco daquele que é considerado por muitos o Pavarotti asiático. Vale a pena ler as palavras de Jeff publicadas na compilação de NFAK "The Supreme Collection Vol 1", editada pela label americana Caroline Records dez dias depois da morte deste carismático paquistanês. Disco que viria a ser dedicado à memória de Jeff Buckey que morreu afogado, a 29 de Maio de 97, cerca de três meses antes do coração de NFAK ter batido pela última vez.
Jeff contava-nos que "a primeira vez que ouvi Nusrat Fateh Ali Khan estava em Harlem, em 1990. Eu e o meu companheiro de quarto ouvíamos música em volume muito alto. Nessa altura andávamos imersos no toque da maré ondulante dos ritmos sombrios de tablas do Punjab, espicaçados pelo sincronizado bater de palmas que irrompia de cima e de baixo num ritmo rígido e perfeito. (…) De repente escutámos uma, depois dez vozes pairando no ar como se tratasse de um bando de gansos ascendendo ao céu em formação. Finalmente a voz de NFAK. Parte Buda, parte demónio, parte anjo louco… a sua voz era suave e escaldante, simplesmente incomparável.

A mistura do improviso na arte clássica do 'qawwali', combinado com o seu estilo audacioso e a sua sensibilidade, transporta-o para uma categoria só sua, acima de todos os outros que se movem na sua área… Para os verdadeiros qawwalis todos os significados na música existem simultaneamente e não há necessidade de um dogma religioso. Há apenas a peregrinação em direcção à luz que procuramos no fundo do coração, que é a casa de Deus. Existe apenas a pura devoção e um feroz virtuosismo para ganhar asas e planar através da música. De dar um beijo nos olhos de Alá e cantar o seu olhar de amor pelos homens."
Apesar de ter NFAK como pano de fundo, esta "Hommage à Nusrat Fateh Ali Khan" é uma compilação que abre com um tema do antigo mestre do qawwali e depois vagueia algures entre a Síria, o Azerbeijão, Uzebequistão, Irão, Senegal, Índia, Paquistão e Punbjab, através de músicos associados à tradição Sufi. Esta poderia ser uma espécie de segundo volume da colecção "Sufi Soul". Mas não é. A diferença está em que todos os grupos, apesar de não efectuarem quaisquer "covers" de NFAK, escolheram poemas apropriados à memória do paquistanês e musicaram-nos. Ao longo dos dois discos ouvem-se mensagens místicas como "hoje é o dia em que a minha alma parte do meu corpo", "o meu amado regressou a casa", "a vida não é a mesma sem ti", ou mais realistas como: "sei que nada regressa".
Tal como em "Sufi Soul", esta é uma oportunidade para tomarmos um primeiro contacto com alguns nomes que merecem alguma atenção por parte de quem tem o ouvido mais exercitado para tais devoções sonoras. Caso de Munadjat Yulchieva, uma blues woman do Uzebequistão, dona de uma profunda e intensa voz. Atributos que contrariam a tese de NFAK, quando afirmava que as mulheres não têm resistência para cantar qawwali. Outras descobertas felizes prendem-se com a calorosa voz do iraniano Sharam Nazeri, ou a curiosidade de escutarmos o senegalês Cheik Lô em andamento bem diferente do seu disco de estreia "Né La Thiass". Ele que faz parte do movimento Sufi senegalês Baye Fall.
"Hommage à NFAK" é uma compilação no estilo mais puro e duro da tradição Sufi. Bem longe do conceito de "Star Rise" lançado pela Real World no final de 97, disco que reúne remisturas de temas gravados por Nusrat e Michael Brook, assinadas por Asian Dub Foundation, Fun~da~Mental, Talvin Singh e Nitin Sawhnew, entre outros.
Dado a forma de jogar em muitos tabuleiros que caracterizou a carreira e obra de NFAK, só nos resta ficar à espera que um dia surja uma outra homenagem a este ícone Sufi. E essa, feita por gente como Eddie Vedder, Peter Gabriel, Mick Jagger (que se confessa fã de NFAK), Trent Reznor e até mesmo o malogrado Jeff Buckley (caso aproveitem uma versão de 20 minutos de "Hulka-Hulka" que este gravou nas sessões de "Live at Sin-é").
Publicado por Luís Rei às 09:57 PM
abril 14, 2003
KIMMO POHONEN, KROKE, BORIS KOVAC: A Santíssima trindade da folk europeia
Kroke
Ten Pieces to Save the World
(Oriente / Megamúsica)
Kimmo Pohjonen
Kluster
(Rocadillo / Mundo da Canção)
Boris Kovac & Ladaaba Orkest
Ballads at the End of Time
(Piranha / Megamúsica)
Kroke, Kimmo Pohjonen e Boris Kovac encontram-se no clube restrito dos compositores e intérpretes da folk do velho continente que, após terem estudado a fundo as suas tradições musicais (afinal, a matriz do seu trabalho), conseguem apresentar soluções inovadoras, extravasando a geografia e as compartimentações estanques a que muitos géneros estavam sujeitos pelos mais puristas, conferindo uma nova e empolgante dimensão ao seu legado, sem necessidade de ceder aos clichés das modas da miscigenação de ocasião, impostas pelo mercado editorial e pelos produtores de espectáculos.
Os polacos Kroke de sólida formação clássica e jazzística, para quem a música klezmer é um modo de vida, continuam a esbater todas as fronteiras da música característica da diáspora judaica, aprofundando a ruptura com o modelo de base um pouco mais conservador (mas que, mãos dos Kroke é bastante criativo, basta escutar o álbum ao vivo “Live at The Pit") assente na tríade violino, contrabaixo e acordeão. “Sounds Of The Vanishing World” (de 99) fê-los olhar para o Universo através de uma janela em Cracóvia. Em “Ten Pieces To Save The World” os Kroke tornam-se cidadãos errantes do mundo, sem contudo perderem as suas maiores referências. O sangue klezmer a continua a correr-lhes nas veias. Em “Cave”, tema inicial, mantém o mesmo tom frenético, a sublime técnica com que mudam frequentemente de ritmo e peça, incorporando agora instrumentos de sopro, guitarra e percussão (além daquela que Tomasz Kukurba improvisa com o seu contra-baixo), em flashes de flamenco e música mediterrânica de aroma turco que encaixam na perfeição, como num puzzle, entre andamentos klezmer de euforia e tristeza. Em “Cave”, escutam-se pingos a cair por entre ambientes electrónicos e soturnos de contemplação aos Boards of Canada. “Montains” repleto de altos e baixos como as montanhas e a folk norueguesa, revela-nos o lado mais clássico-contemporâneo por via das cordas. Um álbum inovador, com soluções simples onde uns assobios, um estalar de dedos, um dedilhar do contra-baixo e um acordeão manso, chegam para construir uma peça carregada de swing (“Take It Easy”).
Embuido do espírito da Sibelius Academy e de um dos mais carismáticos professores de música finlandeses, Heikki Leitinen que aconselha primeiro a estudar a fundo a tradição e posteriormente a efectuar trabalho exploratório, a ir mais além, Kimmo Pohjonen cedo se revelou como um dos mais criativos, rebeldes e consistentes músicos da folk europeia. Já no seu anterior projecto, os Ottopasuuna, testava o experimentalismo (sobretudo em “Suokaasua”), incorporando ruídos de correntes a serem arrastadas, decompondo melodias, sem perder a adocicada sonoridade da folk finlandesa. No seu projecto a solo, Pohjonen, transcende-se, projectando momentos de tensão e ambientes sombrios kalevaliano-cibernéticos. “Kluster” é a parte dois de “Kielo” onde a folk purista é literalmente implodida. Aqui Pohjonen usa o acordeão como um instrumento de destruição maciça, ocupando todo o nosso espectro sonoro, inquietando-nos, amordaçando-nos a alma. As notas que tira do fole contaminado por overdubs e samples do próprio acordeão usados como percussão, são como mísseis que explodem nas nossas colunas, anunciando o apocalipse de forma tão veemente quanto a israelita Meira Asher.
Boris Kovac apresenta a sequela de “Last Balkan Tango”, música pós-apocalítica para fazer dançar quem sobreviveu ao fim do mundo, carregada de nostalgia, humor negro e elegância, de coordenadas bem definidas no grande caldeirão balcânico da extrema pobreza cigana, mas a piscar o olho às vetustas e decandentes valsas, cha cha chas e tango de requintada ostentação, prato forte dos bailes nobres dos grandes salões imperiais da velha e rica Europa. Há na música deste jugoslavo um certo toque minimal e cinéfilo, tornando-o numa opção pertinente para criar os ambientes sonoros dos maravilhosos universos imaginários de Peter Greenway, em alternativa a Michael Nyman. São deliciosas as passagens em que se escutam vozes de rua que parecem ser italianas e que se erguem dos escombros de uma guerra nuclear, ou quando o jazz swingante rasga a toda a tristeza melancólica que atravessa o álbum e devolve-nos a alegria esfuziante de uma big band dos anos 40 / 50.
Publicado por Luís Rei às 05:41 PM
abril 10, 2003
WATERSON CARTHY + ELIZA CARTHY: A família inglesa que adoramos e detestamos
Waterson: Carthy
Dark Light
Topic / Megamúsica
Eliza Carthy
Anglicana
Topic / Megamúsica
Clientes habituais das listas de fim de ano referentes aos melhores álbuns de folk, o clã Waterson: Carthy assina provavelmente o disco mais inspirado deste colectivo. Um disco que reconcilia os portugueses que assistiram recentemente à arrogância de Martin Carthy no Teatro Camões com a real família da folk britânica. Nessa curta actuação, o melhor que se viu foi o espírito endiabrado do novo elemento Tim Van Eyken (em melodion) em perfeita sintonia com o violino da também irreverente Eliza Carthy (muito melhor aqui do que enquanto solista). Ora escute-se o set "Balancy Straw". "A Dark Light", recebe toda essa energia renovada e, contrariamente ao que o título possa transparecer, é o álbum mais luminoso dos Waterson: Carthy. Este tributo aos cantores britânicos que influenciaram a carreira destes músicos, tem o dom de colocar o registo vocal de Norma Waterson num tom menos sofrido do que é habitual. Sublime a graciosidade que emana do dueto entre mãe e filha (Eliza) em "Crystal Spring". Martin Carthy abandonou o autoritarismo denotado no "Festival da Música e dos Portos" e o seu ego diluiu-se num trabalho que resulta mais pelo colectivo do que pelas individualidades, apesar da sua marcante carreira que representará sempre o passado o presente e o futuro da folk britânica.
Em "Anglicana" Eliza passou bruscamente da rebeldia para a maturidade, assinando o melhor disco da sua carreira, que sucede ao pior "Angels and Cigarretes". Um registo que estava a levá-la para o gueto de um sub produto folk punk de linhagem Oyster Band e Pogues. Agora sim, Eliza edita um álbum cujos pais, Martin Carthy e Norma Waterson, podem orgulhar-se. "Anglicana" pode bem ser considerado uma extensão do trabalho do trio desenvolvido no projecto Waterson: Carthy. Tendo como objectivo recuperar antigas canções britânicas e com elas o profundo sentimento de "englishness", Eliza eleva-se ao Olimpo das grandes divas da folk da velha albion, exibindo uma segurança e um tom cristalino de voz notável, sobretudo em "Just As The Tide Was Flowing" e "Willow Tree", onde se encontra mais exposta. Em "Anglicana", a autora definitivamente convence-se que para modernizar melodias e arranjos, não é necessário interpretar a música popular no formato de uma banda rock. Basta deixar-se levar pela simplicidade e agilidade dos músicos que a acompanham, ora no som metálico das cordas de uma guitarra acústica ("Limbo"), ora com o acordeão em diálogo infernal com o violino ("No Man's Jig") e que nos remete para aquele universo irlandês, pleno de espontaneidade e vigor.
Publicado por Luís Rei às 02:10 PM
VÄRTTINÄ: Depois da pop, em busca de raízes carelianas
Värttinä
6:12
(Resistencia / Sabotage)
Ao longo de mais de vinte anos, os finlandeses Värttinä já sobreviveram a um pouco de tudo. À perda da antiga líder Sari Kaasinen. Às constantes mudanças na formação, quer no quarteto de vozes femininas, quer no sexteto de instrumentistas. À chegada de músicos oriundos de outras paragens além Raakkylaa (a localidade natal que marcou a sonoridade da banda). À pressão de carregarem consigo pelo mundo o epíteto de principal banda da folk finlandesa (e uma das referências obrigatórias da tradição Escandinávia). E, consequentemente, à tentativa de equilíbrio de forças entre as raízes da música de Carélia e à formatação pop. As raparigas da frente continuam com o mesmo vigor e calor vocal que sempre as caracterizou, agora um pouco mais controladas relativamente aos excessos de uma coreografia algo de festival da canção. A base rítmica continua sólida como uma rocha, excessivamente eficiente, com certo prejuízo para a espontaneidade. "6:12", álbum ao vivo editado por uma das mais excitantes bandas que se pode ver em cima de um palco, surge num momento chave em que os Värttinä parecem estar a fazer uma inversão na sua carreira: a pouco e pouco vão deixando de fazer concessões às leis de mercado, deixando os arranjos pop, para mergulharem a fundo nas suas raízes rúnicas milenares (como é visível por exemplo em "Aijö"), à semelhança do que tem acontecido com os Hedningarna. O anterior álbum de estúdio, "Ilmatar" (provavelmente o melhor depois da fase mais depurada que tem em "Oi Dai" a principal referência), deu o mote. Alguns dos temas em "6:12" parecem prenunciar essa hipótese. No entanto, os laços do passado recente ainda estão bem apertados. Daí que as expectativas sejam grandes, relativamente a um próximo álbum de originais.
Publicado por Luís Rei às 01:46 PM
abril 09, 2003
MALINKY: A revolução britânica
Malinky
Three Ravens
Greentrax / Mundo da Canção
A experiência diz-nos que a folk da Grã-Bretanha, ao contrario da nórdica, dificilmente se compadece com grandes inovações. Apesar de pertencer à nova geração de músicos escoceses, os Malinky demarcam-se de bandas como os Burach, Shooglenifty ou Peatbog Fearies, ao abordarem canções escocesas e composições instrumentais irlandesas pela via acústica. As inebriantes vozes de Karine Polwart e Steve Byrne, devolvem-nos a celestial experiência de escutar um disco dos Planxty. O bouzouky de Byrne, a "button box" de McCann e o violino de Bews evocam a destreza mágica do novo sangue de uns Dervish. Fazendo apologia de "a tradição deve ser como sempre foi", os Malinky não estão, contudo presos ao passado. Vão temperando a sua música com pequenas mas certas doses de especiarias (o sussurrar de fundo na canção em accapella "The Sound of a Tear Not Cries", o "drone" provocado pelo violino em "Three Ravens"). A par com os galeses Fernhill, os Malinky figuram no lote das novas bandas britânicas com um futuro mais promissor.
Publicado por Luís Rei às 06:36 PM
abril 03, 2003
ORCHESTRA BAOBAB: Os "All Star" africanos
Orchestra Baobab
Specialist In All Styles
World Circuit / Megamúsica
Aproveitando a oportunidade de a Orchestra Baobab tocar em Aveiro, no próximo dia 11 de Abril, aqui fica uma recensão crítica ao álbum que a banda senegalesa vem promover. Texto publicado em Dezembro de 2002 na revista Beija Flor Natural.
A história repete-se. Depois de Buena Vista Social Club, o produtor Nick Gold volta promover o encontro de lendas das músicas do mundo em idade de reforma. Depois de Cuba, o Senegal. A orquestra que tocou durante os anos 70 e 80 para as principais cerimónias da elite política africana, mantém intacta a sonoridade de banda de baile audível na reedição do duplo álbum "Pirate's Choice". A sua música é mutante. Tanto está embebida em raízes locais mbalax, mandinga e sobretudo da região Casamance (de clima ainda mais tropical), como sofre um processo de ida e volta a Cuba recebendo influências rítmicas de salsa, de son e de bolero. Sem perder todas as qualidades técnicas que os notabilizaram, tanto na complementaridade vocal das cinco vozes de diferentes etnias, como na força da secção de metais (por vezes com ecos de afro beat nigeriano) e na destreza do guitarrista Barthelemy Attisso e seus intermináveis solos que chegam a evocar a música surf de Dick Dale (sobretudo em "Bul ma Miin"), a Orchestra Baobab regressa pela porta presidencial. Um registo com ares de super produção onde não falta a presença de Ibrahim Ferrer e Youssou N' Dour. O produtor Nick Gold sabe o que faz e, possivelmente, conseguiu construir o próximo fenómeno das músicas do mundo, pós Buena Vista Social Club.
Publicado por Luís Rei às 05:03 AM
março 31, 2003
Drum'n'brass
Boban Markovic Orkestar
Live In Belgrade
Piranha / Megamúsica
King Naat Veliov & The Original Kokani Orkestar
Gypsy Folies
Plane / Megamúsica
Kokani Orkestar
Alone At My Wedding
Crammed / Megamúsica
Omnipresentes em qualquer celebração cigana de origem balcânica, conforme é possível constatar nos filmes do realizador Servo-croata Emir Kusturica, as brass bands são mais um espelho que reflecte a forma como os músicos desta etnia andarilha tornam extremamente flexível um formato simples (metais e percussões) que remonta às herméticas bandas militares turcas do Século XIX. Como é possível verificar em outro tipo de ensembles ou tarafs, os ciganos que cresceram sob a influência das memórias do Império Otomano são exímios a absorver melodias e ritmos de todos os quadrantes da "pangeia" balcânica, mediterrânica e asiática: Egipto, Turquia, Bulgária, Roménia, Macedónia, Grécia, Kosovo, Rajastão, Azerbaijão e Geórgia.
Boban Markovic é uma espécie de Mohamed Ali do trompete. "Live In Belgrade", gravado ao vivo no festival sérvio de brass bands da localidade Guca, revela porque é que Markovic tem sido imbatível nos duelos de pesos pesados de brass bands que o evento anualmente promove há já mais de 40 anos, forçando a organização a impedi-lo de voltar a participar, depois de ter conquistado por diversas vezes o trompete de ouro (principal galardão). Entre ritmos cocek, danças ora, uma composição de origem klezmer e a revisitação dos inevitáveis clássicos "Mesecina" e "Ederlezi", a música encorpada deste cigano Sérvio extravasa todas as fronteiras estilísticas. Além da notável técnica de Markovic que ora se perde em improvisos jazzísticos, ora em exímio controlo do fôlego, mantendo por mais de trinta segundos constante uma nota do seu trompete, de acrescentar ainda a atitude de banda indomável que nada deve à rudeza do rock e à crueza do funk, repescando por vezes ritmos de samba.
King Naat Veliov, outro exímio do trompete, abandonou o anterior projecto que liderava (a Kocani Orkestar), mas não conseguiu levar o nome da banda consigo. Facto que não o impediu mesmo assim de formar a Original Kocani Orkestar com familiares seus. O clã Veliov, ciganos de origem turca, prosseguem a matriz de "L'orient Est Rouge" (terceiro álbum da KO), introduzem a darbouka e deixam-se influenciar melodicamente cada vez mais pelo vento que sopra do continente Vermelho. Naat Veliov mantém o seu instinto mortífero de brincar com as constantes variações rítmicas numa melodia de, por exemplo, um 5/8 para um 11/8, conferindo-lhe um estatuto de um dos mais virtuosos músicos ciganos a par de Markovic e Ferus Mustafov.
Além das habituais brass bands de fanfarra que se ocupam nas principais celebrações ciganas de andar pelas ruas a conduzir os noivos e respectivas famílias aos devidos locais da cerimónia (no caso de um casamento), existe ainda na Macedónia a banda de banquete. Esta distingue-se da primeira pela inclusão de darbouka, clarinete, banjo (tocado como um oud), acordião e um cantor à estrutura inicial (bombo, tambor e trompete e tuba). Além da base brass, a Kocani Orkestar de origem ganha uma dimensão melódica e rítmica turca / búlgara mais acentuada, através de uma estrutura pop. No entanto, com a saída de Naat Veliov, esta formação perdeu uma certa capacidade explosiva e de improviso.
Publicado por Luís Rei às 04:31 AM
março 16, 2003
No Sahara, a música é um bálsamo para o espírito
Vários Artistas
Desert Blues 2
Network / Megamúsica
As fronteiras impostas pelos impérios coloniais do Ocidente dividiram África em quadrados feitos de regua e esquadro, aos quais se dão o nome de países, mas não conseguiram diluir os laços familiares e culturais do sistema tribal. Os griots não são fenómeno exclusivo do Mali, extendendo-se toda a África Ocidental (Senegal, Gâmbia, Guiné). Tal como os tuareges, longe de habitarem países como Marrocos, Argélia ou Líbia, são um povo oriundo do extenso deserto do Sara. Neste “oceano sem água”, a música é vagarosa, escarna a pele e o osso, até à alma, dos blues man islâmicos que cantam a rebelião e o ostracismo de quem nunca conheceu fronteiras nem governos tirânicos. A música, além de refúgio, é um bálsamo para o espírito. Tem poderes curativos (gnawa) e une a diversidade tribal dos mandigas, fulanis e sonrais do baixo Sara, onde o Rio Níger fertiliza a terra árida e conduz-nos à África de floresta densa e tropical. Aqui o tempo é marcado pelo nascer e pôr do sol. O melhor é mesmo contemplarmos o elevado grau de pureza que possuem as vozes sarauis (Tartit,Aziza Brahim), os ritmos do wassolou (Nahawa Doumbia) e as cordas acústicas de guitarra e cora dessa meca musical denominada Mali (Boubacar Traoré, Rokia Traoré, Habib Koite, Djelimadi Tounkará), se possível acompanhado de um chá de hortelã e menta, num qualquer terraço com vista para o areal de perder de vista. Mas esta sequela (“Desert Blues”) da mais bem sucedida compilação da editora alemã Network, não esquece a contaminação ocidental fusionista. Apesar de se poder pensar o pior do rai, Cheb Mami e Kadda Cherif Hadria apanharam as ondas jazzísticas do melhor que a tradição da cidade argelina e costeira de Oran. O lado da contaminação ocidental é ainda reforçado pela voz da etíope Netsanet Mellessé, que brota das profundezas da África negra, para um ambiente de obscuridade inimista tão característico na música que imortalizou Mahmoud Ahmed.
Publicado por Luís Rei às 06:31 PM