outubro 21, 2005

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (21): MAHMOUD AHMED - ERÈ MÈLA MÈLA

O Etíope Mahmoud Ahmed vai ao Sons em Trânsito. A avaliar pelo seu concerto do WOMAD de Reading deste ano, prevê-se uma noite memorável. Recupero um texto do Cláudio Pedrosa sobre uma pedra basilar em qualquer discografia essencial de artistas oriundos do continente africano.


Para muita gente, a Etiópia e a Eritreia apenas evocam a brutalidade do regime Mengistu e as imagens dilacerantes de seres humanos subnutridos que encheram ecrãs de televisão durante a década de 80. No entanto, durante os anos 60 e até meados da década de 70, a principal metrópole da antiga colónia italiana, Addis Ababa, assistiu à erupção de formas musicais que combinavam a tradição etíope com instrumentos ocidentais perfumando o ar nocturno da capital com sons tão singulares quanto fascinantes. Ao longos dos últimos anos, e coincidindo com a maior abertura política, Francis Falceto, um apaixonado pela Etiópia e pelas suas músicas, tem conduzido o trabalho exemplar e verdadeiramente abençoado de resgatar do esquecimento as gravações desta época de ouro e dos seus heróis desconhecidos, Mahmoud Ahmed, Muluqen Mellesse, Tlahoun Gessesse, a Ibex Band ou a Roha Band.

Editados em CD pela Buda Musique, os volumes da série Ethiopiques compilam as poucas dezenas de álbuns e centenas de singles editados entre 1969 e 1978 e prensados em lugares tão improváveis como Índia, Quénia, Líbano ou Itália. A jóia da coroa, Era Mela Mela, do superlativo Mahmoud Ahmed (vol. 7 da série Ethiopiques), sempre circulou como um segredo bem guardado. Nos anos 80 teve mesmo direito a uma oportuna edição em CD (extraída directamente do vinil) pela divisão da Crammed dedicada ás músicas do mundo.

Mahmoud Ahmed não esgota a diversidade da música etíope e da Eritreia mas é, indiscutivelmente, o seu expoente máximo: a “alma” de Addis, o mestre do “eskeusta” – um arrepio de êxtase sobre os ombros etíopes que atrai a pista de dança. Ere Mela Mela, gravado em Addis Ababa entre 1975 e 1978, com a Ibex Band, é um disco prodigioso que deixa o ouvinte sufocado entre o desejo irreprimível de obedecer ao groove sinuoso e o suspense conferido pelo dramatismo e intensidade da voz de Mahmoud Ahmed. O resultado pode ser comparado a um híbrido febril de James Brown e de Nusrat Fateh Ali Khan, ambos mesmerizados por uma diabólica orquestra de sopros, possuídos por saxofones e ritmos sinistros que desfiam melodias através da famosa escala de cinco notas longamente intervaladas que conferem um carácter impreciso à música.

Ere Mela Mela representa, afinal, soul music assimilada à tradição musical etíope. E pouco interessa o que Mahmoud Ahmed canta a partir do momento em que a sua voz se instala como um poderoso condutor de emoções. A libertação catártica de fantasmas é uma linguagem universal.

Num registo mais pessoal, Ere Mela Mela abriu de par em par a minha paixão pela música do mundo que, antes, estava apenas entreaberta por aperitivos como Buena Vista Social Club e Desert Blues. Mais do que combinar coordenadas mais ou menos familiares, a audição desta música era, de facto, uma viagem (no tempo e espaço) a um lugar irreconhecível e inverosímil: Addis Ababa, década de 70, entre noites passadas em bares fumarentos e misteriosos numa África soturna e inesperada. Apetece regressar vezes sem conta. (Cláudio Pedrosa)

Publicado por Luís Rei às 06:05 PM

maio 06, 2004

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (31)
NJAVA - "VETSE"

Njava
Vetse
Hemisphere / EMI

Quem viu há uns anos os Njava ao vivo no Festival Cantigas do Maio, deve ter sentido que esteve na presença de um dos melhores grupos africanos em palco, notabilizando-se quer pelo calor e intensidade das vozes e danças de transe e circuncisão por parte de “Monika” e “Lala”, quer pelo virtuosismo de “Dozzy” que através do Marovany (caixa quadrada de madeira com dois sets de cordas dispostos paralelamente) criava sonoridades tão rápidas, fluídas e cintilantes quanto água a jorrar da fonte. Este quinteto constituído por dois irmãos e três irmãs serve-se da tradição do sudoeste de Madagascar para evocar a memória do pai Njava, que morreu num confronto étnico e que defendia a união das diferentes tribos daquela ilha situada perto da costa moçambicana. A residir na Bélgica, o colectivo Njava consegue o que, por exemplo, os Tarika não conseguem: manter a sua música completamente enraízada na tradição local, livre de instrumentos eléctricos, com uma linguagem moderna e uma sonoridade exótica, pura, alegre e sedutora aos ouvidos ocidentais. Vetse é, dois anos depois, a versão mundial do álbum Njava From South-Madagascar que foi editado em 97 pela Suchi Records somente no Japão. Se a edição nipónica inclui uma “sushi remix” de Jiboty, já esta edição mundial apresenta dois temas inéditos (Halatsà e Belina). Tanto um como outro álbum fazem parte da lista dos grandes álbum de world music dos anos 90.

Publicado por Luís Rei às 03:09 PM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (30)
MESTRE AMBRÓSIO - "FUÁ NA CASA DE CABRAL"

Mestre Ambrósio
"Fuá Na Casa De CaBRal"
Sony Music

Se Chico Science correspondia à renovação da música nordestina a partir de elementos exteriores como funk e hip hop, os Mestre Ambrósio partem de toda uma panóplia riquíssima de ritmos como o maracatu, coco de roda, baque solto, baque virado, forró, chote e siranda para dar uma visão mais enraizada do mangue beat (género musical apelidado pelos brasileiros do sul à nova música enraizada que vem do nordeste).
Ao segundo álbum, os Mestre Ambrósio aprofundam as suas raízes locais, numa amálgama sonora essencialmente construída à base de inúmeras percussões (pandeiro, alfaias, chocalhos, preacas, reco-reco, agogô, zabumba, caxixi, caixa com hit-hat top 13”, bombo 12”, etc), alimentada por uma rabeca de sonoridade vetusta, um fole de 8 baixos folião que comanda o forró pé de calçada (vertente urbana do forró pé da serra), além da guitarra e baixo responsáveis pelo formato híbrido de tradição e modernidade.
O universo dos Mestre Ambrósio é grande como o Brasil e profundo como a Amazónia. Entre os ritmos trazidos pelos escravos africanos, dilui-se a harmonia portuguesa e respira-se o ambiente misterioso da Mata Norte, complementado com uma dose lúdica e encenada do Cavalo Marinho - folguedo do norte de Permanbuco composto por dança, poesia, teatro que comporta várias personagens e cujo mestre de cerimónias é… Mestre Ambrósio.
Neste disco há um maior risco por parte da banda não só em assumir um lado mais popular, como também na exploração de outras paisagens (Chamá Maria é um misto de tango com melodias ciganas de leste) e inclusão de três temas já editados no álbum de estreia em versões que conseguem ter nova amplitude (Usina, Se Zé Limeira Sambasse Maracatu, Pé-de-Calçada). Quanto ao humor e sátira de Siba, continua irreprenssível. Tentem escutar a história de como Cabral descobriu o Brasil e logo se arrependeu.

Publicado por Luís Rei às 03:06 PM | Comentários (5)

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (29)
RICHARD THOMPSON - "MOCK TUDOR"

Richard Thompson
Mock Tudor
Capitol / EMI

Richard Thompson é como um escritor que, há medida em que vai envelhecendo, vai apurando o seu estilo, a sua forma de se exprimir e contar histórias. Depois de Industry, que abordava um tema já tão batido no cinema inglês, como a falência da revolução industrial, a decadência das cidades e as vidas que influenciou, Mock Tudor é um álbum conceptual, de memórias e visões do local onde Thompson nasceu: Londres. Descrições cronologicamente divididas em três partes, correspondendo aos 50 anos de vida e às experiências de vida quer nos subúrbios, quer no centro da cidade.
Musicalmente, Richard Thompson, tal como Billy Bragg, continua igual a si próprio, continuando a fazer um misto de rock e folk simples e directo, não cedendo a quaisquer inovações estéticas. Tom Rothrock e Rob Schnapt, os produtores que haviam trabalhado com Foo Fighters e Beck, parecem não ter tido grande margem de manobra. Thompson sabe o que faz e fá-lo com um misto de nervo e serenidade, intensidade e personalidade, alma e chama, sentindo e fazendo sentir as palavras que canta. Algo que nos faz recordar os bons velhos tempos dos Talking Heads, era Psycho Killer. É este o segredo de quem parece nunca envelhecer. Junte-se à belíssima Suzanne Vega.

Publicado por Luís Rei às 02:57 PM

maio 04, 2004

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (28)
LUAR NA LUBRE - "CABO DO MUNDO"

Luar Na Lubre
Cabo Do Mundo
Warner

Contrariando quem pensa que o facto de se assinar por uma multinacional poderá desvirtuar a criatividade de um projecto em função dos números de vendas e da imposição a prazo de álbuns feitos de encomenda, os galegos Luar Na Lubre apresentam-se em Cabo Do Mundo mais maduros e personalizados. Se o terceiro álbum (e primeiro para a Warner) Plenilúnio já era uma obra de antologia do folk da melhor casta Celta que se faz no país vizinho, Cabo Do Mundo segue-lhe os passos, como que a dizer que não basta inovar para criar um clássico. É sobretudo na cristalização da energia e fluidez que emana da excelente execução instrumental, plena de altos e baixos extremamente bem entrosados entre violino, flauta, bódran e bouzuki; e da subtileza vocal de Rosa Cedron acompanhada por finas orquestrações como seda, que reside toda a magia do grupo. Uma magia que parece ser uma dádiva de Druídas.
Apesar de terem os pés bem assentes na Galiza, os olhos e a alma dos Luar Na Lubre encontram-se voltados para o mar que congrega o universo musical do atlântico norte, o mesmo que acolhe os Milladoiro ou uns Berroguetto, mas sem estar tão apegada ao peso instituição que os primeiros carregam e sem enveredar por experimentalismos progressistas. Cabo Do Mundo é a confirmação de que os Luar Na Lubre são uma das bandas galegas da actualidade.

Publicado por Luís Rei às 03:29 PM | Comentários (2)

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (27)
MARLUI MIRANDA - "2 Ihu Kewere: Rezar"

Marlui Miranda
2 Ihu Kewere: Rezar
Pau Brasil / Dargil

Há mais de 20 anos que Marlui Miranda, etnóloga e compositora brasileira, pesquisa e interage com tribos de índios do Amazonas. Quatro anos antes de 2 Ihu Kewere: Rezar, editou Ihu Todos os Sons, uma réplica sonora algo experimental da grande selva visualizada maioritariamente por músicos da nossa civilização e que contou com a colaboração de, entre outros músicos brasileiros e não só, Gilberto Gil. 2Ihu Kewere: Rezar é, segundo as próprias palavras da autora, uma «catequese sonora ao inverso» criada no sentido de permitir uma saudável absorção da religião cristã. Algo que poderia servir de Missa aos Jesuitas no Sec. XVI, «por forma a traduzir os conceitos cristãos para o sagrado campo indígena». Gravado pela Orquestra Jazz Sinfónica e o Coral Sinfónico do Estado de São Paulo, esta Missa Kewere além de possuir uma base litúrgica cristã é “incendiada” pela força dos cânticos indígenas carregadas de misticismo, num duelo equilibrado entre o céu e a terra.

Publicado por Luís Rei às 03:10 PM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (26)
PATRICK STREET - "LIVE FROM PATRICK STREET"

Patrick Street
Live From Patrick Street
Green Linnet

A tradição irlandesa por ser a que tem maior exposição no contexto das músicas do mundo, pode bem apresentar sinais de desgaste e de uma certa saturação, pelo facto de ser pouco dada a inovações. No entanto, a par de novas bandas como Dervish e North Cregg, os veteranos Patrick Street mostram o porquê de baladas e jigs e reels continuarem a possuir ao fim de tantos anos a semelhante espontaneadade, beleza e força, quando abordados pelas almas gémeas de Kevin Burke, Jackie Daly, Andy Irvine e Ged Foley. Three Slides ou os sets iniciados por Jack The Bridge e McDermott’s Reel são exemplos de momentos onde vêm ao de cima todos os mecanismos que conferem uma cumplicidade constante dos quatro, visível nos frequentes golpes de rins provocados pelas mudanças de ritmo destas danças, intercalando baladas dominadas pela carismática voz de Kevin Burke e suas histórias tradicionais e de humor insólito. Notável é sobretudo a versão de Music For Found Harmonuim (que o falecido Simon Jeffes compôs para a Penguin Café Orchestra), domada inicialmente pela guitarra de Ged Foley, sem o habitual virtuosismo em acordeão de Daly, que surge apenas no desenvolvimento do tema.

Publicado por Luís Rei às 03:02 PM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (25)
IBRAHIM FERRER - "BUENA VISTA SOCIAL CLUB PRESENTS"

Ibrahim Ferrer
Buena Vista Social Club Presents Ibrahim Ferrer
World Circuit / Megamúsica


A música cubana nas suas múltiplas ramificações (son, bolero, guarija, etc) tem vivido dias de ouro, apesar de todas as imposições da administração repúblicana norte-americana, com múltiplos artistas de mais de 70 anos que nunca tinham saído da Ilha de Fidel Castro a dar a volta ao mundo em sucessivas “tournées”. O “boom” teve origem quando há alguns anos atrás Ry Cooder decidiu gravar com Ibrahim Ferrer, Ruben Gonzalez, Afro-Cuban All Stars, entre outros, o álbum Buena Vista Social Club. À semelhança do que já havia acontecido com Ali Farka Touré (do Mali) no álbum Talking Timbuktu, Ry Cooder trouxe uma maior amplitude instrumental, mais refinada aos ouvidos dos Europeus e Norte Americanos. Se Talking Timbuktu tinha anteriormente sido considerado um dos melhores discos de world music de então, esta nova aventura de Ry Cooder render-lhe-ia um Grammy, milhões de discos vendidos e até um documentário realizado por Wim Wenders. Tanto assim é, que a World Circuit, editora de Ali Farka Touré e outros artistas africanos de primeira linha como Oumou Sangaré, instalou-se demoradamente em Cuba e foi explorando o filão latino-americano com edições de Ruben Gonzalez, Afro-Cuban All Stars, não se esquecendo também dos clássicos fechados no baú do sótão, como Estrellas de Areito e Los Zafiros.
Quanto a este álbum a solo de Ibahim Ferrer com chancela de Buena Vista Social Club, tudo soa grandioso reflectindo a preocupação da editora em fazer uma grande produção. O som continua expandido e refinado, mostrando que não são precisas descargas (jam sessions) para se continuar a inovar dentro da música cubana, pairando no ar um pouco do génio de Arsénio Rodriguez, o pai do son cubano. Há secções de cordas, há secção de metais a soar de mansinho, há guitarras eléctricas cruas e que transpiram algum psicadelismo tropical, tudo muito sentido porque é a voz opulenta e algo noir de Ibrahim Ferrer que deve fazer-se ouvir e sentir. Um álbum onde se dá uma simbiose perfeita entre o presente, o passado, revelando que ainda há muito sumo para espremer no futuro.

Publicado por Luís Rei às 02:55 PM

maio 03, 2004

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (24) - Väsen - "Världens Väsen"

Väsen
"Världens Väsen"
Xource

Apesar dos Väsen estarem ainda fortemente ligados à música da velha tradição de cordofones sueca, sobretudo ao desenvolvimento de melodias para diferentes nyckelharpas, sejam elas de tempos medievais ou deste século, regista-se uma grande abertura na sua sonoridade e que coincidiu com a entrada do percussionista André Ferrari. A estrutura continua a ser a mesma de Väsen, Vilda e Levande, contudo, tal como no trabalho Prisme da violinista norueguesa Annbjorg Lien (no qual Roger Tallroth, guitarrista dos Väsen, foi produtor), os horizontes locais alargaram-se e de que maneira.
André Ferrari é um músico que tem uma paixão incomensurável pela cultura índia e que exibe penas no cabelo e traje a rigor quando em palco. Acaba por ser o elo de ligação do passado dos Väsen a algo muito mais ambicioso, como a exploração de ambientes e ritmos indissociáveis de celebrações espirituais, desenterrados nas antigas civilizações da América Latina. Estes novos ritmos e ambientes embelezam e dão outra dimensão à música dos Väsen, que outrora se pautava por contornos demasiado híbridos, perdidos nessa velha tradição sueca. É o que acontece em "Shapons Vindaloo", tema que Ferrari escreveu e que é um exercício criativo de percussão, acompanhado pelos restantes elementos. Em praticamente todas as composições se nota o trabalho deste músico que vem ornamentar de forma mais pomposa as difíceis "polskas", dando-lhes contornos mais universalistas.
Pese algumas "divagações" que estravazam as raízes musicais dos Väsen, este disco é como que um grandioso rio onde vários e distintos afluentes vão desaguar. Todas as diferentes águas, transmutam-se e tornam-se numa só.

Publicado por Luís Rei às 01:21 PM | Comentários (3)

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (23) - Marc Ribot Y Los Cubanos Postizos - "S/T"

Marc Ribot Y Los Cubanos Postizos
"Marc Ribot Y Los Cubanos Postizos"
Atlantic, Warner

A evolução das diferentes franjas sonoras da ilha de Fidel também passa por cubanos postiços que se aventuram numa réplica "fake" da obra de Arsénio Rodriguez. O pai do son cubano que deixou importantes impressões digitais durante os anos 40 e 50, através da sua big band. Marc Ribot, outrora membro do ensemble downtown jazz nova-iorquino Longue Lizards e dono de um curriculum invejável no qual contam colaborações com Elvis Costello, Mariane Faithfull, John Zorn ou Tom Waits, faz-nos querer que Rodriguez inventou o rock'n'roll. Sob uma base rítmica mais tradicionalista, com um toque cool q.b., interpretada por gente com uma larga formação jazz, Ribot sucede-se em solos de guitarra eléctrica de sonoridade crua (característica em David Byrne), esticando até aos limites a simplicidade dos acordes de base. Marc Ribot com os Cubanos Postizos (re)constrói o lado mais nebuloso e criativo do son, onde se diluem diferentes escolas: do rock, passando pela música improvisada dos anos 80, até ao jazz.

Publicado por Luís Rei às 01:04 PM | Comentários (2)

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (22) ESTRELLAS DE AREITO - "LOS HEROES"

Estrellas de Areito
Los Heroes
World Circuit / Megamúsica

No início de um novo milénio, grande parte das orquestras de son, salsa e cha cha cha cubanas mantêm uma sonoridade agarrada ao passado, devido (em parte) à exemplar longevidade dos seus intérpretes. Mas há vinte anos atrás um grupo de cerca de 40 virtuosos instrumentistas e cantores fez aquilo que poderá ser hoje a música cubana de amanhã. No fim dos anos 70, seguindo o exemplo dos nova iorquinos Fania All Stars - parada de estrelas não cubanas que se notabilizaram pelas réplicas de son que faziam - Juan Pablo Torres ergue as Estrellas de Areito. Um autêntico laboratório de descargas (leia-se jam sessions) que combinava três gerações de músicos de diferentes áreas: das charangas às latin jazz bands. E se a ideia era a de engendrar uma plataforma para dar largas à criatividade e ao virtuosismo, isso foi conseguido. Vinte anos depois, a World Circuit seduzida pelo rotundo êxito de "Buena Vista Social Club" apresenta-nos "Los Heroes", um duplo álbum onde habita um espírito de improviso notável. Se os Estrellas de Areito não atingiram o êxito que se pensava, conseguiram dar novas coordenadas e liberdade para "desbloquear" a interpretação quadrada daquilo que se dançava nas salas de Havana.

Publicado por Luís Rei às 01:00 PM

outubro 26, 2003

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (20) VÁRIOS - "CLUB AFRICA" (VOL 1)

Vários
Club Africa
(Strut)

Por muitos anos que certas gravações possuam, conseguem manter uma certa modernidade e contemporaneadade, sobretudo em determinados contextos. “Club Africa”, à semelhança da primeira compilação seleccionada por Russ Dewbury - “Afrofunk” - surpreende pela forma como alguns registos resgatados ao início dos anos 70, conseguem oferecer uma brisa de frescura à cena de dança actual, necessitada de injecções de ritmos e melodias de raiz, neste caso afro-latinas. Uma das matrizes influentes no trabalho de produtores da actualidade como Masters Of Work, Soul Ascendents e Frederic Galliano.
“Club Africa” não é mais do que o resultado de uma conjuntura em que alguma dessa modernidade é-nos revelada pela descoberta de outras músicas (re) localizadas no tempo e no espaço, como o funk, rock, soul e disco latino em “Barrio Nuevo” e do ska, rocksteady e dub jamaicano em “100%; 200% Dynamite” (ambas da editora Soul Jazz). Neste exercício selectivo de extremo bom gosto, “Club Africa” vem dar razão a Gilles Peterson da Talking Loud, quando reedita (há bem pouco tempo) parte da obra (em dois volumes de seis discos) de Fela Anikulapo Kuti, o mago do afro-beat. Sem este exemplo maior de genialidade e intemporalidade, “Club Africa” reúne mais ou menos obscuros (em termos do conhecimento do grande público), em que sobressai o nome da sul-africana Miriam Makeba, cuja carreira musical foi, à semelhança de Fela, marcada pela contestação ao regime político do seu país - neste caso o Apartheid - valendo-lhe um exílio nos Estados Unidos e Ghana por mais de 30 anos.
Aqui encontramos o pulsar de escaldantes ritmos africanos em confronto ora com devaneios jazzísticos que se servem estridentes secções de metais e possantes linhas de baixo, ora com uma linha soul / funk em que se nota o peso dos teclados e a fluidez de aerofones mais frágeis que introduzem uma certa frescura ao sufocante calor que emana de “Club Africa”.

Publicado por Luís Rei às 02:16 AM | Comentários (1)

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (19) MATT DARRIAU PARADOX TRIO - "SOURCE"

Matt Darriau Paradox Trio
Source
(Knitting Factory / Megamúsica)

Ao longo de três álbuns, um dos expoentes máximos da downtown nova-iorquina - Matt Darriau – une a linguagem jazz a um grande caldeirão de influências ancestrais, que registada na simbiose de culturas de um vasto império como o Otomano. Um álbum que poderia ser uma facção modernista da ecléctica música klezmer de origem judaica em diálogo com o jazz, mas que é muito mais que isso. Source absorve uma enorme variedade de ritmos e danças do Mediterrâneo e das Balcãs de origem romena, turca, búlgara ou grega, filtradas pelas composições (maioritariamente) próprias de Matt Darriau. Tais arranjos encontram-se devidamente embebidos nestas tradições, facto que não impede alguma rudeza e um (por vezes) um certo improviso na sua interpretação. Algo que, pela incessante necessidade de uma leitura pessoal da música klezmer, poderá soar a uma resposta a certos trabalhos como os dos Klezmatics - Lorin Sklamberg tem também o seu tempo de antena neste disco ao cantar em turco e yiddish. À semelhança de Marc Ribot que deu novas tonalidades à música cubana de Arsénio Rodriguez no último disco com a orquestra Cubanos Postizos, este é um disco feliz. Oferece uma nova amplitude ao legado tradicional balcânico e mediterrânico.

Publicado por Luís Rei às 01:57 AM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (17)
TAJ MAHAL + TOUMANI DIABATÉ - "KULANJAN"

Taj Mahal + Toumani Diabaté
Kulanjan
(Hannibal)

Kulajan é o resultado da união entre um homem do blues com quase meia centena de discos editados, Taj Mahal, e um dos maiores virtuosos do kora, Toumani Diabaté que, depois de aventuras com os Ketama, continua a senda de gravações com músicos de outras latitudes. Este é um disco que o blues man tinha desejo de fazer há algum tempo, desde que visitou o Mali e ficou convencido que os seus antepassados se encontravam entre a grande família Kouyate (um dos clãs principais de Griots do império Mandinga).
Kulajan é acima de tudo o encontro feliz entre o blues e aquilo que ambos consideram ser o seu predecessor: duas das tradições que encontramos no Mali (a música dos Griots - mais meditativa - e os ritmos wassoulou dos respeitados caçadores, mais dançável, que marca a origem do funk). Um encontro entre a guitarra e os instrumentos que a precederam, o kora e ngoni. Uma viagem às raizes africanas do blues made in USA, decalcada num sentimento melancólico comum, feito de um serpenteado notável de cordas. Um casamento perfeito a que não faltam as damas donores, isto é, mais seis músicos da mesma família ou casta, de onde se destaca um outro instrumentista de kora, Ballake Sissoko, homem que editou este ano com Toumani Diabaté o dueto de cordas New Ancient Strings. Os restantes músicos têm aqui um papel importante sobretudo na interpretação de ritmos e melodias wassoulou através de kalamengoni (harpa dos caçadores) e balofon (xilofone de madeira) e nas exuberantes vozes que parecem chegar ao céu.

Publicado por Luís Rei às 01:24 AM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (16)
VÁRIOS - "THE COMPLETE UK UPSETTER SINGLES COLLECTION (VOL 1 E 2)

V / A
The Complete UK Upsetter Singles Collection (vol 1 and 2)
(Trojan)

Aos 66 anos, Lee Perry é e continua a ser um dos maiores génios criativos que a Jamaica viu nascer. Líder dos Upsetters e prolífico produtor, durante a época de ouro entre 69 e 73, gravou na sua editora Upsetter cerca de 200 títulos em mais de 100 edições, que a etiqueta britânica Trojan agora recupera. Nestas duas compilações encontram-se documentados numa centena de faixas a assinatura pessoal de um músico que afirmava não ser deste mundo. Os seus actos faziam-nos acreditar nele, quando afirmava ser um extra-terrestre. Usualmente, plantava discos no seu jardim, dançava em cima das mesas de mistura e foi o principal responsável pelo incêndio que ocorreu no seu estúdio durante a década de 80. Factos que explicam em parte uma presença regular em sanatórios. Mas toda a sua loucura, fez de Lee Perry um autêntico visionário. Nestas duas compilações encontra-se material em bruto de um reggae em fase de decomposição, a meio caminho para aquilo que iria suceder a seguir com os álbuns Rythm Slower e Blackboard Jungle: a crescente ramificação de estilos que deu origem ao ragga, dancehall e dub. Lee Perry afirma que o acto de «produzir não é coisa que aprendes, nasce contigo». Daí se explique, em parte, toda a veia intuitiva, a aura de misticismo e o estado mental de abstracção, a permitir que o ritmo flutue na mente, como se de um “big joint” (a imagem da capa não engana) se tratasse. Em suma, uma obra essencial que documenta o período mais criativo de Lee “Scratch” Perry e uma “biblia” de referência na compreensão da história do dub.

Publicado por Luís Rei às 01:10 AM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (15)
MERCEDES PEÓN - "ISUÉ"

Mercedes Peón
Isué
Resistência / Sabotage

O mais interessante que a Galiza nos tem oferecido em termos de música folk, sempre foi dominado pelo lado depurado de interpretar a rica tradição de muñeiras, foliadas e alvoradas. Quer pelos Milladoiro que estão para a música galega como dos Chieftains estão para a irlandesa – uma instituição intocável pelo extenso trabalho até hoje produzido a quem se desculpa um álbum menos conseguido – quer pelos Luar Na Lubre que impõem uma perfeição onírica às entranhas da pura tradição local, sem terem necessidade de correr riscos.
Demarcando-se do terreno pantanoso de um dos maiores aventureiros galegos – Carlos Núñez – cuja brilhante técnica de gaita de foles tem sido abafada pelo mau gosto das suas composições, Mercedes Peón assume-se como uma das principais estetas da revolução da folk do Norte de Espanha, ao lado dos excessivamente progressistas Berrogüetto. Mas Peón vai muito mais além do que a banda do brilhante instrumentista Anxo Pintos.
“Isué”, o álbum de estreia da cantora, compositora, gaiteira, pandeireteira, dançarina e responsável por algumas recolhas de temas aqui incluídos, subverte a habitual rigidez de abordagem à música galega de forma brilhante, tornando-se num legítimo candidato ao estatuto de “Kaksi” ibérico. Partindo de uma base assaz regional, na qual se pode escutar que o “Galego que non fala a língua da sua terra non sabe o que tem de seu”, Mercedes Peón parte em busca do mundo que a rodeia: da confluência melódica arábico-mediterranico-balcânica em “De Seu”, ao transe rítmico tribalista e quente da África Negra e Muçulmana, às abrasadoras e misteriosas vozes xamânicas de gélidas latitudes, sem esquecer de arriscar numa experiência tecno-pop (“Sombra de Luz”) menos feliz e no tom festivo ska-folk algo gasto (“Adorno”), com alguns contornos saudosistas evocativos dos Pogues.
“Isué” é, para concluir, um puzzle que prima pela diversidade e Mercedes Peón é uma compositora-cientista em constante experimentação e refutação de teorias, nunca esquecendo a base de todo o seu trabalho: as recolhas que fez em solo Galego.

Publicado por Luís Rei às 12:30 AM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (14)
TARAF DE HAÏDOUKS - "BAND OF GYPSIES"

Taraf de Haïdouks
Band of Gypsies
(Crammed / Megamúsica)

Depois de dez anos de intensas digressões à volta do mundo, a Taraf de Haïdouks (grupo de justiceiros) fizeram justiça pelas próprias mãos. Entraram pela primeira vez, de forma apoteótica na capital Romena, para gravar o seu quarto disco ao vivo. Uma super produção que demorou três noites, onde contaram com a presença de convidados especiais de vulto: a Koçani Orkestar Brass Band da Macedónia e o turco Tarik Tuysuzoglu. Quem conhece a Taraf de Haïdouks como referência incontornável da música cigana e da folk que sopra de leste, poderá minimizar tal feito. Apesar da banda criar simpatias com gente ilustre como o actor Johnny Depp, que chegou a pagar cerca de vinte mil contos (cem mil dólares) para os ver no seu bar Viper Club e com o estilista japonês Yamamoto que já vestiu todos os seus elementos, a Taraf de Haïdouks é praticamente desconhecida na Roménia. Se na era Ceausecsu, os músicos ciganos eram constantemente vigiados pela polícia política, para não cantarem as baladas medievais mitológicas que pudessem descrever actos heróicos de outrora e consequentemente desvalorizar a política comunista, hoje em dia esses mesmos ciganos que detêm o mais baixo nível de vida na Roménia, continuam a ser alvo de actos racistas generalizados. No entender da população branca, são eles os responsáveis pelo contínuo mau estar económico e social que o país tem sofrido nestes dez anos da era pós-Ceasusescu. As consequências variam: desde a impossibilidade de as crianças frequentarem a escola e outras instituições públicas, ao acto de fogo posto nas suas casas perpetrado pela população branca. Sem acesso à educação, as crianças ciganas de Clejani podem não saber ler e escrever, mas desde cedo aprendem instintivamente a tradição dos “lautari”. Afinal, é esta a forma mais eficiente de ganharem dinheiro em todo o tipo de celebrações: casamentos, aniversários, baptizados e funerais.
Bela Bartók poderá acusar os ciganos de corromperem a verdadeira folk dos camponeses da Europa de Leste. No entanto, a Roménia só tem de agradecer-lhes pelo facto de nunca terem parado de tocar e terem continuado a cantar clandestinamente (e a passarem de pais para filhos) as canções que Ceausescu proibiu e cujos registos magnéticos queimou, dando um importante contributo para a preservação de parte dessa cultura. Daí que tenhamos de concordar com a opinião do mestre da tabla indiana Zakir Hussain quando diz que, sem os ciganos a história musical do nosso planeta seria diferente, comparando-os a abelhas que voam por todo o planeta e que misturam o pólen musical que recolhem de diferentes flores. Afinal, foram eles que transportaram da Índia o conhecimento de várias percussões, que se foram desenvolvendo com a diáspora cigana: a dumbak no Líbano, a Tar na Núbia ou a Darbouka na Turquia.
A Taraf de Haïdouks e o sublime registo “Band of Gypsies” acaba por fazer bom uso das palavras mobilidade, espontaneidade, diversidade, cumplicidade e despique que caracterizam cada concerto. O confronto entre gerações (a dos 70/80 anos e dos 20/30 anos) provoca a dualidade entre a balada cantada e sentida com a mesma mágoa do blues e as composições instrumentais tocadas a todo o gás, como se o pendular pendulasse (a cerca de 300 kmh). O caldeirão culturas consegue fazer aquilo que os diversos chefes de Estado não têm conseguido: unir toda a extensa região das Balcãs através da música - da Jugoslávia, Hungria e Roménia, até à Bulgária, Macedónia, Turquia - com o Norte de África. Todo o seu tecnicismo e improviso põe à prova a capacidade de criar empatia em qualquer palco do mundo. Sente-se que a Taraf de Haïdouks precisa do calor do público, como uma acendalha numa fogueira, para entrar em combustão e dar toda a energia e virtuosismo selvagem que têm e não têm. Além da capacidade que eles possuem de tocar todo o dia e toda a noite, visível há meia-dúzia de anos em Faro quando se encontravam em rodagem de um documentário sobre a banda, os treze elementos funcionam como uma equipa bem oleada, sem estrelas, cujo cúmulo da coesão é conseguirem mudar de contra-baixista a meio de uma composição, sem prejuízo para o espectáculo. A todas estas características visíveis aos olhos de quem teve a oportunidade de os ver ao vivo em Portugal, de realçar neste disco o duelo que a Taraf perpetua com a Koçani Orkestar, com as cordas dos romenos e os metais dos macedónios a amplificarem ainda mais o tom de êxtase selvático, mas puro das celebrações ciganas. Por tudo isto, a Taraf de Haïdouks tornou-se na principal embaixatriz da cultura musical da Roménia, para desgosto do cidadão comum deste país. A justiça feita por justiceiros tem destas coisas.

Publicado por Luís Rei às 12:18 AM | Comentários (1)

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (13) NITIN SAWHNEY - "BEYOND THE SKIN"


Nitin Sawhney
Beyond The Skin
(Outcaste)

Asiático nascido em Inglaterra, Nitin Sawhney é um exímio fusionista que além de dominar na perfeição o universo dançável ocidental, traz consigo a riqueza de uma cultura como a indiana que o leva a afirmar com toda a razão que artistas do sangue dele «têm mais para dizer e um vocabulário mais forte». Sawhney é um artista multi-talentoso conhecido ora por guitarrista de flamengo, ora pianista jazz, percussionista indiano, compositor clássico e DJ, tendo já trabalhado em Teatro, Dança, TV, Rádio e Cinema. Factos que reflectem um Universo mutante e multicultural presente em Beyond The Skin. Álbum que abre com Broken Skin, uma canção soul elegante de orquestração sensual para a voz da também britânico-asiática Sanchita Farruque, acompanhada por ambientes de tablas e vocais próprios da tradição de Bengal, que inicia o discurso anti-nuclear deste disco-manifesto. Letting Go amplia as variáveis fusionistas presentes ao longo dos temas-equações deste álbum, ao unir outra voz - Tina Grace - num ambiente que poderia ser o de Pure dos Golden Palominos, decorado com uma guitarra acústica de flamengo e voz indiana. Algo a que Homelands dá continuidade ao unir as vozes Qawwali dos sobrinhos de Nusrat Fateh Ali Khan - Rizwan Muazam - com o mesmo flamenco, as orquestrações luxuosas e agora outra voz melosa e calorosa, a de Nina Miranda a cantar em português. Do rap de Spek dos Dream Warriors (em Pilgrim) embelezado por um swarlin (violino indiano), a momentos intensos de piano (Tides), ou à conjugação perfeita de um drum’n’bass mortífero que estende o tapete à voz telúrica da indiana Swati Naketar, na pura tradição thromi (Nadia), sem esquecer os ritmos vocais kathak, sobre um ambientes electrónicos experiementais (Serpents) que evoluem para uma obscuridade à tensão pré-milenar (Anthem Without Nation). Beyond The Skin é um álbum de perfeições, de pormenores elaborado por quem domina as linguagens musicais do Ocidente e Oriente.

Publicado por Luís Rei às 12:07 AM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (12)
CHEIKHA RIMITTI - "NOUAR"

Cheikha Rimitti
Nouar
(Sono / Megamúsica)

Khaled, Faudel e Cheb Mami popularizaram o raï (música pop de origem argelina), mas todos eles foram beber inspiração à “mãe” Cheikka Rimitti, dona de uma sólida e extensa carreira que remonta aos anos 30. Apesar de viver em França, Rimitti tem o querer suficiente para não se deixar impressionar pelas maravilhas das técnicas de produção locais que transformam a música de muitos magrebinos em verdadeiros sabonetes.
Apesar dos seu 77 anos, Cheika Rimmitti consegue modernizar a tradição de Oran (vila argelina do qual os seus “filhos” degenerados também são oriundos), através da vivência pacífica na orquestra de instrumentos ocidentais (teclados, baixo, trompete) e locais (darbouka, bendir, gasba, tar). Elementos que guardam um dos tesouros mais profundos da África muçulmana: a sua voz tão sofrida quanto intensa e poderosa, própria de quem refere que “o infortúnio foi o meu professor”.

Publicado por Luís Rei às 12:00 AM | Comentários (5)

outubro 25, 2003

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (11)
ROKIA TRAORÉ - "WANITA"

Rokia Traoré
Wanita
(Indigo)

Ao segundo disco, Rokia Traoré e já um dos maiores tesouros que nos chega do Mali. Com a profundidade e simplicidade do estilo abluesado de Ali Farka Touré, que oferece paisagens sonoras à beira do rio Niger, mesmo à entrada do Sara, sem perder de ouvido o balanço frenético dos ritmos wassolou característicos em Oumou Sangaré, Rokia Traoré mostra a Youssou N’Dour que se podem fazer discos em África que agradem a ouvidos ocidentais, sem alterar geneticamente a raiz local. Num estilo hipnótico e repousante que serena os espíritos mais malignos, esta nova diva merece que acreditemos em anjos negros. Divinal.

Publicado por Luís Rei às 11:52 PM

julho 08, 2003

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (10)
MIRIAM MAKEBA - "GUINEA YEARS"

Miriam Makeba
Guinea Years
Sterns / Mundo da Canção

Aos 72 anos, pode dizer-se que Miriam Makeba já viveu – como os gatos – 7 vidas, no mínimo. Resistiu a tudo. A 4 (quatro!) divórcios. À morte da sua filha. A acidentes de viação e aviação. À perseguição dos Afrikaans e do FBI, devido à sua luta pelos direitos civis dos negros. A 30 anos de permanente exílio. Ao “apartheid” e às contra-ofensivas governamentais norte-americanas dirigidas ao “black power”. Makeba não esmoreceu, antes pelo contrário. Foi a porta-voz do presidente guineense (de Conacri) Sékou Touré em Nova Iorque e embaixatriz africana da ONU, trabalhando de perto com a FAO (Food and Agriculture Organisation), no sentido de fazer lobbying pela diminuição da fome no mundo. Aquela que o governo sul-africano apelidava de subversiva, mesmo que cantasse canções de amor, conquistou o prémio de paz Dag Hammarskjold (antigo secretário geral das Nações Unidas) de 86.
À parte da carreira político-social, na música, Makeba coleccionou recordes. Não pelos mais de 40 discos que gravou, mas por ter sido a primeira artista africana a conquistar um grammy em 65, com “An Evening With Harry Belafonte”; e a atingir o top ten de singles norte-americano em 67, com “Pata Pata”.
“The Guinea Years” é uma antologia que retrata o tempo em que Makeba viveu exilada na Guiné-conacri, entre as décadas de 70 e 80. Depois de ter enfrentado problemas com a justiça norte-americana, devido ao matrimónio que havia contraído (em 68) com o líder radical dos Panteras Negras, Stokely Carmichael. Um disco que mostra acima de tudo a grande veia soul-jazz, a expressividade vocal de uma artista que cresceu a ouvir Duke Ellington, Billie Holiday e Ella Fitzgerald, e a extrema habilidade para cantar em nove línguas (francês, inglês, arábico, xhosa, kikongo, maninka, fula, nyanja e shona). Em suma, a excelente Miriam Makeba que ainda nos brindava com o seu melhor. Ainda não tinha descambado para a afro-pop fácil e plástica de “Homeland” (2000). Hipnótico. Belo. Indispensável.

Publicado por Luís Rei às 12:53 PM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (9)
LÚNASA - "MERRY SISTERS OF FATE"

Lunasa
Merry Sisters of Fate
(Resistencia / Sabotage)

Por mais que se tente revolucionar a música tradicional de raiz celta, fundindo-a com sonoridades de outras etnias, com o rock, ou com a electrónica, o melhor é deixar tudo como está, que está bem. Projectos como o dos Kíla, Peatbog Fearies, Búrach, Shooglenifty, Afro Celt Sound System, Cappercaillie e de Eliza Carthy na sua veia pop, nunca merecerão outro estatuto que não o epíteto entre razoável e com algum interesse. Enquanto algumas das propostas mais interessantes do território escandinavo apresentam-se sob o domínio da miscigenação entre a raiz e a novidade de sujeito indefinido, a renovação musical bem sucedida na Irlanda tem origem na pura e dura tradição.
Não alterando um milímetro àquilo que já tinham apresentado em 98, no álbum de estreia homónimo (e que era sublime), os Lúnasa assumem-se como os filhos pródigos da memorável Bothy Band de Donal Lunny e de Matt Molloy. Sem alterar a estrutura, o quinteto injecta sangue puro e irreverente nas veias de uma velha senhora que continua jovem, emotiva, capaz de correr de forma perfeita a várias velocidades, sem nunca perder o ritmo. Os Lúnasa escrevem assim a mesma história de uma forma pessoal e actual. O contrabaixo do ex-Waterboys, Trevor Hutchinson, é um dos principais protagonistas de uma secção rítmica reformada, isenta do (quase) incontornável Bodhran, e excelentemente bem complementada pelo guitarrista Donogh Hennessy. Ambos criam as fundações ideais para que as flautas e gaitas irlandesas de Kevin Krawford e Cillian Vallely em mútuo entendimento com o violino de Seán Smyth, edifiquem as paredes e o telhado de uma casa irlandesa, concerteza, de novos traços arquitectónicos, decorada aqui e ali por um clarinete ou uma “lap steel guitar”, mas que se confunde com a típica paisagem rural.

Publicado por Luís Rei às 12:47 PM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (8)
ORLANDO CACHAITO LOPEZ - "CACHAITO"

Orlando Cachaito Lopez
Cachaito
World Circuit / Megamúsica

Buena Vista Social Club foi a engrenagem que furou o bloqueio cultural a Cuba, resgatando inúmeros músicos talentosos da geração de ouro (anos50) que, antes da revolução de Fidel e Guevara e da caça às bruxas de Kissinger, brilharam em palcos de todo o mundo. Este projecto-álbum, foi a chave mestra que abriu os ouvidos do mundo à música cubana e deu também uma nova projecção internacional a músicos de idade avançada que já tinham há muito arrumado os seus instrumentos no sótão. Casos de Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Ruben Gonzalez e Omara Portuondo.
Se estas figuras de primeiro plano tem interpretado a solo o politicamente correcto da música cubana, o homem-ritmo, Orlando ‘Cachaito’ Lopez, responsável pelo contra-baixo das sessões Buena Vista, subverte todas as regras que, todos os outros elementos da sociedade Buena Vista, respeitam religiosamente.
Orlando ‘Cachaito’ Lopez, de 70 anos, é membro de uma família de 16 contrabaixistas, havendo quem diga são bem mais numerosos - cerca de 100. É o filho de Orestes Lopez e sobrinho de Israel ‘Cachao’ Lopez. Ambos estiveram na vanguarda das revoluções musicais cubanas, entre os anos 30 e 50, ao criarem o ritmo mambo e ao desenvolverem a música improvisada (descarga).
“Cachaito”, é um álbum onde as raízes encontram-se bem debaixo de solo cubano, mas as folhas andam ao sabor de outros ventos. Há em ‘Cachaito’ (o artista) o deslumbramento por Mingus e Coltrane que se reflecte nas constantes descargas ao longo do disco. O improviso empreendedor de uma nova linguagem, reveste-se de jazz latino, de uma fervorosa secção de percussões (congas, timbales, bongos) e até de dub e hip hop, sem nunca perder o Norte. Além da forte carga jazzística onde brilha o trompete do sul-africano Hugh Masekela, “Cachaito” (o álbum) é perfumado pelo órgão hammond do jamaicano Bigga Morrison em contemplação saudosista da sonoridade típica de Jackie Mitto (“Tumbanga”), e pelos beats manipulados no gira-discos do DJ francês DeeNasty (“Cachaito en Laboratory”).
Orlando ‘Cachaito’ Lopez criou um livro de estilo a seguir pela nova geração de músicos cubanos que olha além mar das Caraíbas.

Publicado por Luís Rei às 04:43 AM | Comentários (1)

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (7)
SUSANA BACA - "ECO DE SOMBRAS"

Susana Baca
Eco de Sombras
(Luaka Bop / EMI)

Quem teve a oportunidade de assistir à actuação de Susana Baca no festival Cantigas do Maio, há uns anos atrás, verificou que a sua música pode ser comparada a um prato de alta cozinha francesa. A voz de Baca reúne todos os ingredientes que lhe conferem o título de diva afro-peruana: simpática por natureza, proporciona-nos estados de espírito antagónicos, ora de uma fragilidade radiante de criança, ora de profundidade e sentimento trágico, cuja aura sombria se encontra embebida no fado e no tango, tornando-a para muitos numa espécie de Cesária Évora das Américas.
Bastaria a Susana Baca uma simples guitarra para nos fazer render à forma como interpreta a sua poesia. Mas a sua música tem muito mais que a já por si só sedutora voz. É feita de uma complexidade acústica notável, vivendo muito de preciosidades rítmicas, marcadas por instrumentos como o cajón, quijada, yembe, que os escravos negros reconstruíram, quando chegaram ao Perú. A prestação do colectivo sul americano já é, por si só, sublime. E que dizer agora do confronto que Susana Baca e a sua banda teve, neste disco, com outros músicos de estúdio, de quadrantes que vão do jazz e da pop à música improvisada?
“Eco de Sombras” resulta num trabalho de grande sensibilidade artística, não só porque a base é consistente e dela emana o peso e a alma da música dos escravos peruanos que Baca recuperou, através das extensivas recolhas que efectuou, como também o recheio – vulgo arranjos “ocidentais” – intensificam o ambiente que se vive em “Eco de Sombras”. É a cereja em cima do bolo que não peca por excesso (facto comum nas fusões que hoje em dia se fazem). A guitarra de Marc Ribot é mágica, feita de pequenos pormenores que imprimem maior amplitude ao refinamento sonoro do disco, comparável àquilo que Ry Cooder fez em Buena Vista Social Club. John Medeski (piano e órgão), Cyro Baptista (percussões), Greg Cohen (contra-baixo) e Rob Burger (acordeão e órgão), que absorveram a música de Baca, contribuem também para uma obra que roça a perfeição.

Publicado por Luís Rei às 04:38 AM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (6) JUNE TABOR - "ALEYN"

June Tabor
Aleyn
Topic / Megamúsica


"Aleyn" continua na linha a que esta senhora nos habituou. Pleno de charme, beleza e sensibilidade à flor da pele, "Aleyn" é um álbum soturno, carregado de uma densa nuvem negra, que percorre diferentes ambientes que se relacionam como um puzzle.
São histórias de amores infelizes, de solidão, de abandono e de sangue, muito bem contadas pela maturidade e profundidade de June Tabor. O jogo da voz sôfrega com as pausas e os silêncios, por forma a dar mais autenticidade ao seu quadro sombrio, é perfeito. E aqui a novidade é o facto de June Tabor se aventurar por terras klezmer com a interpretação de "di nakht". Trata-se de um tema escrito em Nova Iorque em 1929 por dois emigrantes judeus e que reflecte o isolamento e o desespero daqueles que se fixaram nos Estados Unidos.
O suporte instrumental, como tem sido hábito neste "colar de pérolas", assenta que nem uma luva na palavras e pausas de June Tabor. Exploram-se, através do piano de Huw Warren, momentos siderais de profunda calma. O clarinete e sax de Mark Lockeheart e o contrabaixo de Dudley Phillips dão uma vertente mais jazzística associada à cortina de fumo própria de cabarets. É preciso não esquecer o exímio trabalho de Andy Cutting em acordeão diatónico, que ora salta para a frente da "orquestra" para dar o devido andamento, ora está lá atrás a dar pequenos retoques de maior preciosismo e naturalidade ao aspecto sombrio desta verdadeira obra-prima.

Publicado por Luís Rei às 04:27 AM

julho 03, 2003

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (5) GJALLARHORN - "CALL OF THE SEA WITCH"

Gjallarhorn
Call of the Sea Witch
Finland Innovator / Warner

Com sede em Vaasa, os Gjallarhorn fazem parte dos seis por cento de fino-suecos a viver na Finlândia, mas cuja língua nativa é o sueco. Daí que a música que este grupo pratica, denuncie bem as marcas que este povo deixou aquando da sua ocupação. Apenas uma das baladas é de raíz fino-úgrica que reporta aos tempos medievais do Kalevala. Todas as outras são cantadas em sueco, e também em norueguês. Enquanto grupos como Värttinä e Hedningarna parecem agora sofrer do síndroma "já-fizemos-o-álbum-da-nossa-vida-e-agora?", os Gjallarhorn, sem uma pesada cruz como “Oi Dai” ou “Kaksi” para carregar, apresentam-se como uma fresquíssima revelação da folk destas gélidas paragens, sem necessitar de recorrer às novas tecnologias. Desprovidos de pretensões em atingir uma plenitude criativa e subversiva de um Kaksi, os Gjallarhorn arquitectam um disco totalmente acústico, mas não menos inovador, que possui uma capacidade ímpar de nos surpreender. Ateus como os Hedningarna, vão buscar a essência da sua música às raízes da terra e ao mar profundo da Yggdrasil (árvore de sabedoria) Viking. Eles, que estão, na costa Finlandesa, a dialogar com a outra costa Sueca através do golfo da Ostrobótnia. Daí que, ao longo de Ranarop - Call of The Sea Witch, não nos seja de todo estranha a presença de temas e ambientes marinhos. Um disco praticamente voltado para o mar, erigido na cidade marítima de Vaasa, onde nos encontramos (de barco) a três horas da Suécia. Veja-se o título do disco que é dedicado a Ran, a deusa dos oceanos na mitologia nórdica e protectora deste trabalho, ou "Herr Olof", uma balada sobre um Rei que se apaixona por uma sereia, musa que o convida a descer ao fundo do mar para visitar o seu condado, sem esquecer Sjöjungfrun och Konungadottern/The Mermaid and the Princess que aborda a mesma temática. Aqui, Jenny Wilhelms (a voz e um dos violinos) tem o dom de nos hipnotizar com o seu sumptuoso e cândido canto, próprio de uma menina de 23 anos, qual sereiazinha de Hans Christian Andersen, acompanhada pela melodia compassada das marés que se confundem na suavidade da harpa e na gravidade do didgeridoo de Jakob Frankenhaeuser (que aprendeu a tocar o fálico instrumento na Austrália).

Publicado por Luís Rei às 05:48 PM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (4) TOUMANI DIABATÉ WITH BALLAKÉ SISSOKO
"NEW ANCIENT STRINGS"

Toumani Diabaté with Ballaké Sissoko
New Ancient Strings
Ryko Disc

Toumani Diabaté é um músico africano experimentado. Ao longo dos quatro anteriores trabalhos, fundiu as suas raízes ao flamengo dos Ketama, ao jazz e à folk britânica de um Danny Thompson, na série "Shongai".
Pegando em instrumentos tradicionais africanos como Kora (o pai da Harpa) e Ngoni (o pai da Guitarra) estes dois virtuosos instrumentistas oriundos do Mali edificam um álbum de rara beleza. Leve como um pluma, repleto de pequenos pormenores como se de uma peça de cristal Vista Alegre se tratasse, "New Ancient Strings" prova que a cultura Griot e a música do Império Mandinka que remonta ao Sec. XIII consegue, seiscentos anos depois, ecoar modernidade sem necessitar de recorrer a elementos externos. Duas mãos e dois instrumentos são o necessário para nos devolver à mãe de todas as civilizações.

Publicado por Luís Rei às 05:30 PM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (3)
ERNEST RANGLIN - "IN SEARCH OF LOST RIDDIM"

Ernest Ranglin
In Search of Lost Riddim
Palm Pictures


Ernest Ranglin é um músico que pronuncia a máxima do vinho do Porto. Pode dizer-se que aos 70 anos este jamaicano já experimentou de tudo, possuindo uma linguagem musical extensa que passa pelo calypso, ska, rock, reggae, blues, jazz ou son cubano. Talvez por isso tenha sabido adaptar-se à constante evolução da música da sua ilha natal, trabalhando com o produtor Lee Scracth Perry, ou sendo convidado por Bob Marley para seu director musical e professor. "In Search of Lost Riddim" é a concretização de um antigo sonho de regressar às origens. O disco surge como um diário de viagem pelo Senegal, onde Ranglin teve a oportunidade de contactar com músicos de primeira água. Casos de Baaba Maal e Mansour Seck. A intenção é oferecer-nos toda a pureza e riqueza dos ritmos e dos variadíssimos instrumentos acústicos (kora, djembe, ngoli, balafon, etc) que dialogam com a guitarra de Ranglin que parece voar nas suas mãos. Em "Search of Lost Riddim", Ernest Ranglin tem a virtude de fazer com que a música Senegalesa reequacione a sua forma de se adaptar ao progresso e à miscigenação ocidental, sem necessitar de perder autenticidade, como tem sido apanágio de alguns produtores franceses. Facto visível nos últimos trabalhos de Baaba Maal.

Publicado por Luís Rei às 04:58 PM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (2)
KROKE - LIVE AT THE PIT

Kroke
Live at the Pit
Oriente / Megamúsica

Quem já teve a oportunidade de ver os Kroke ao vivo, dificilmente os esquecerá. Podem não ser judeus, mas todo o sentimento que a diáspora de leste introduziu na música klezmer está bem presente. Só é preciso um contra-baixo, violino e acordeão para que tal réplica seja perfeita e reinvente tal conceito. Kroke é a palavra que se encontra no dicionário de yiddish cujo significado é Cracóvia. A cidade natal deste trio foi até 1939 um dos grandes centros culturais europeus da cultura judaica.
"Live At The Pit" apesar de ser um álbum ao vivo, reproduz apenas o som de palco, facto por si merecedor de nota máxima. Isto é, vinte valores no exame do professor Marcelo. Mas um espectáculo dos Kroke é muito mais que isso. Vive de uma forte presença dos músicos que se vestem tal e qual como os judeus mais ortodoxos, aliado a um virtuosismo e entrosamento notável, que convida a ir para fora, dentro da música klezmer. O sentimento é judaico, a energia, essa, parece ter sido roubada aos ciganos dos Balcãs, o dedilhar dos instrumentos denuncia a formação clássica e a grande rodagem de um grupo que toca em média mais de 250 vezes por ano. Ao longo da actuação de "Live At The Pit" somos ludibriados pelo inesperado. A facilidade com que a sexta velocidade sucede à primeira em "The Night In The Garden Of Eden", a descoordenação ordenada de "Sher" em que os músicos tocam em tempos diferentes em forma de gozo, são bem exemplo disso.

Publicado por Luís Rei às 04:53 PM

julho 02, 2003

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (1)
ALI ALI FARKA TOURÉ - "NIAFUNKÉ"

Ali farka Touré
Niafunké
World Circuit / Megamúsica

Antes da explosão cubana, através do projecto Buena Vista Social Club, Ry Cooder já tinha gravado “Talking Timbuktu” com Ali Farka Touré. Um álbum de grande cumplicidade que viria a conquistar um grammy. Se em termos artísticos, “Talking Timbuktu” representou a afirmação definitiva de um blues men do Mali que, a partir daí, intensificou os seus espectáculos pelos quatro cantos do mundo, em termos pessoais acabou por provocar uma certa negação da proeminente carreira artística, em detrimento de valores mais elevados. Longe de morrer de amores pelo mundo do espectáculo, muitas foram as vezes que Touré pensou em abandonar a vida de músico. Sentimento que se reflecte nas (últimas) raríssimas aparições ao vivo, fora do seu ambiente natural: a aldeia de Niafunké, situada na ponta do deserto do Sara e ao redor do Rio Níger, onde não existe electricidade nem água canalizada. Aí, Ali Farka Touré, pai de 11 filhos com 60 e muitos anos de idade, tem colocado o cultivo da terra acima da música, investindo todo o dinheiro que conquistou com esta actividade (para ele) secundária em máquinas agrícolas. Para quem sentia um certo desconforto em andar em sucessivas digressões mundiais por perder a essência da raiz, seria inevitável a gravação de Niafunké no «lugar de origem desta música - o Mali profundo», registado por um estúdio móvel que se alimentou de um gerador.
”Niafunké” é, provavelmente, o grande álbum da vida de Ali Farka Touré e um sério candidado a melhor álbum world da década de 90. Se em “Talking Timbuktu” a produção de Ry Cooder tinha criado uma maior amplitude sonora que ajudou à construção de grandes canções mais adocicadas ao ouvido ocidental, em “Niafunké” assiste-se ao regresso à terra e à sonoridade (mais trabalhada é certo) que primeiras gravações que “Radio Mali” (de 96) documentam. Um retorno de quem amadureceu a visão musical em palcos mundiais e de quem mexe na terra todos os dias. “Niafunké” pode não possuir canções tão melodiosas quanto “Talking Timbuktu”, mas ganha em autenticidade que se traduz não só na forma mais audaciosa de Toure tocar guitarra, como nos músicos que o acompanham. Os calorosos coros femininos, os ritmos turbulentos das calabash, do djembe e das congas a fazer lembrar o lado rítmico de uma Oumou Sangare, o som de transe do njarka (violino de uma corda), conduzem-nos a uma viagem de devoção e embriaguez, transmitindo-nos toda a pureza do Mali profundo, onde os blues nasceram.

Publicado por Luís Rei às 05:51 PM | Comentários (2)