junho 17, 2005

Borghettinhos


Entendimento perfeito entre Borghetti e Daniel Sá

O mundo não é pequeno. O mundo é grande, muito grande. Se fosse pequeno, não permitia que um génio do fole como é o gaúcho Renato Borghetti se apresentasse pela primeira vez em Lisboa como um ilustre desconhecido. Não permitia que quem se baba com os discos do Chango Spasiuk, quem pede estátuas para Pohjonen na praça pública e quem se delicia com os subtis rendilhados de seda de Riccardo Tesi, ou com os devaneios corporais de Kepa Junkera, ignorasse
Renato B-O-R-G-H-E-T-T-I. É isso mesmo. BORGHETTI. Fixem o nome, sff. E, melómanos convictos, não percam o próximo espectáculo de Borghetti na capital e arredores. Se houver o próximo. O homem merecia uma Aula Magna repleta para o idolatrar. Dói ver um músico do seu calibre, acompanhado de outros três notáveis tecnicistas e (quase) irmãos gémeos (Daniel Sá – guitarra eléctrica, Hilton Vaccari – guitarra acústica e Pedro Figueiredo – flautas e sax soprano) do mágico da gaita-ponto, numa sala despida, com apenas 30 a 40 pessoas na assistência.

Com Renato Borghetti, a tradição gaúcha do xote, do vanerão, da rancheira e da milonga é sofisticada e elegante. Nunca perde a ligação uterina com as entranhas do Sul do Brasil. Entra desalmadamente pelo Uruguai e pelas pampas argentinas de Missiones e de Corrientes, terra do chamamé. Faz um voo de águia picado, ao forró nordestino de “Asa Branca” dando um crivo mais sulista, serena-nos com a delicadeza da musette francesa e de valsas do norte da Europa. Com o seu jeito de estrela pop, de cabelos compridos e chapéu levemente descaído numa das faces, dá um ar de inveterado sedutor, mas nunca se perde com poses. É, acima de tudo um virtuoso, um intérprete sanguíneo de gaita-ponto (misto de concertina e acordeão de botões). À semelhança do basco Kepa, todo o corpo mexe. Mas o seu instrumento é bem maior do que a trikitixa. O fole é longo, abre-se como um bandoneon. Por vezes, Renato parece ter o diabo de Piazzola no corpo. É impulsivo, dramático, perde-se em borghettinhos (leia-se rodriguinhos) e pára instintivamente. Joga com o silêncio, dialoga com a guitarra eléctrica, com a flauta. Há devaneios jazzísticos, mas nunca se perdem as coordenadas do folclore gaúcho.

Hoje à noite ainda o pode ver em Águeda e amanhã na Festa da Cereja do Fundão.

Publicado por Luís Rei às 05:18 PM

abril 28, 2005

Sétima Legião no Frágil: A gloriosa dança dos heróis

Poderá um concerto que, não foi mais do que uma reunião de velhos amigos, despertar um forte sentimento nostálgico capaz de fazer-nos recuar (como se viajássemos numa maquineta inventada por H.G. Wells) vinte e pouco anos atrás, ao enigmático universo urbano depressivo britânico do início dos anos 80? Poderá um concerto em 2005 fazer-nos reviver, através de uma sucessão de flashes mentais, o prazer de colocar uma agulha no vinilo de "Movement" dos New Order? Aquele tempo em que a Motor (que ainda não era Bimotor), o Arco Iris, a One Off vendiam verdadeiras pérolas a preços exorbitantes? O Blitz no Dafundo - o Pires estava mesmo ao meu lado - num corredor a perder de vista, mesmo ao pé do Auto Sport, escrito com máquinas de escrever manuais e a ostentar orgulhosamente uma Siouxsie na capa? O Som da Frente às quatro da tarde e os nossos dedos a carregarem insistentemente no rec + play do nosso gravador de cassettes? As edições da Fundação Atlântica? Pode, se a banda, sem qualquer compromisso com a apresentação de um novo álbum, oferecer-nos aquilo com que eles mais se identificam. Isto é, um alinhamento curto (não mais de uma hora dividida por 12 temas), que privilegiou os momentos mais emblemáticos de um dos álbuns essenciais da história da pop portuguesa: "A Um Deus Desconhecido".

O que importa se a bateria abafava os outros instrumentos, se o Abelho mal se podia mexer e não tinha espaço para gastar as suas pilhas alcalinas em intermináveis sprints? Se o Pedro Oliveira nunca disfarçou as suas deficiências na colocação de voz (habituámo-nos a ouvi-lo desta forma e seria muito estranho se ele aprendesse verdadeiramente a cantar)? Que gozo deu ouvir "Procession" dos New Order, "ceremony" da Joy Division, "Downs" dos próprios - composição assumidamente inspirada nestes mitos de Manchester.

Que gozo deu ver o bom gosto de Ricardo Camacho em certos momentos em que os teclados evocavam a eterealidade de alguns dos projectos da Factory, além estes monstros sagrados, caso dos injustamente ignorados The Wake, as sanguíneas arrancadas de Gabriel Gomes, o incisivo baixo de Rodrigo Leão (a fazer lembrar não Bill Laswell, mas algumas das bandas do eixo 4AD, como os também injustamente esquecidos Low Life da Escócia), a troca de posições em Sete Mares (Gomes nos tecados, Camacho na Guitarra num verdadeiro momento punk rock britânico). Uma noite memorável complementada por um DJ que passou clássicos como "What Difference Does It Make" dos Smiths, "Spell Bound" de Siouxsie and The Banshees, e "Blue Monday" dos New Order. Que saudades da Jukebox da Rua do Diário de Notícias e dos primeiros anos de Incógnito.

alinhamento Sétima Legião | Frágil | 27 de Abril:

Factor Humano
Porta do Sol
Além-Tejo
Downs
Ceremony
Procession
Partida
Manto Branco
Tango do Exílio
Noutro Lugar

Encore
Sete Mares
Glória

Publicado por Luís Rei às 11:54 PM | Comentários (6)

agosto 17, 2004

Que Mala Suerte

Já não bastava o facto de a RTP os ter apelidado Los Abajos, em rodapé no Jornal da Noite. Já não bastava o facto de dois dos músicos dos Los de Abajo terem ficado em Inglaterra devido a problemas com ligações aéreas, facto que fez o concerto de Paredes de Coura de ontem (hoje) transitar das onze da noite para as três da manhã. O enorme dilúvio que se abateu sobre esta localidade minhota impediu que a banda mexicana tocasse mais do que meia-hora - e foram constantes os problemas de som em palco durante esse período de tempo – até que a parte lateral do palco cedesse por excesso de água. Recorde-se que já morreram músicos electrocutados em palco, como por exemplo, Carlos Rivolta, o antigo baixista dos Dusminguet, em Abril de 2002, no... México. Esfuma-se desta forma a oportunidade de testar uma banda mais ligada às sonoridades além pop /rock anglo saxónico num festival de Verão, produzido pela Música no Coração. É claro que os Hedningarna já estiveram no Sudoeste há uns anos. É claro que já houve a tentativa falhada de criar um palco específico para o efeito. Mas Cheikh Lô e Geoffrey Oryema não foram as melhores apostas.
Resta desejar aos Los de Abajo melhores condições atmosféricas nos Açores, para o espectáculo de dia 22 no “Maré de Agosto”, e a todas as organizações que produzem concertos de Verão ao ar livre maior precaução neste tipo de situações porque o tempo está, de facto, a mudar. Se a chuva em Glastonbury ou em Roskilde é um dado (quase) adquirido com que os promotores têm obrigatoriamente que contar, também parece que é isso que tem de acontecer em Portugal.

Publicado por Luís Rei às 06:15 PM | Comentários (1)

agosto 16, 2004

FMM De Sines: Femi Kuti



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fogo artificial

Os cinco / dez minutos iniciais, com um “loop” rítmico contínuo a servir de banda sonora para a habitual descarga pirotécnica, revelaram que Femi Kuti era o actor perfeito no fecho do melhor FMM de Sines que até hoje pude assistir. Se o mote era a festa, o filho de Fela não se fez rogado. Em palco “dá o litro”, quer no saxofone, quer nas teclas, quer quando canta ou exercita movimentos algo epilépticos. A banda é eficaz, os metais mortíferos e as três meninas da cor do bolo de mel Madeirense (mais dançantes do que coristas) são os bibelôs perfeitos de um “produto” que provoca a nossa testosterona e torna o afrobeat, conforme o conhecemos nos anos 70, nada selvagem, muito mais domesticado, plástico – contaminado de hip hop e soul, previsível e quadrado. Fela, se fosse vivo, certamente continuaria a achar que a música do filho é uma merda. Femi Kuti gostou do ambiente de Sines. O público dançou freneticamente. Valeu pela festa. [8/10]

Publicado por Luís Rei às 07:11 AM | Comentários (4)

FMM De Sines: Tom Zé



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Génio à solta

A pergunta que se impõe: - Por que é que, depois da Expo 98, ainda ninguém tinha trazido Tom Zé ao nosso país? Estarão os promotores de espectáculos demasiado ocupados em fazer novos espectáculos com Lamb, Gotan Project e Massive Attack?
Apesar de uma banda algo fraquinha, Tom Zé é um performer notável que parece ter nascido em cima de um palco. Parece que não precisa dos músicos que o acompanham para nada. Ele e a sua guitarra bastavam. O ar franzino e gozão cativa-nos de imediato. Pelos desconcertantes jogos de palavras. Pela ironia que tanto nos faz rir num momento (Companheiro Bush), como em outro momento, nos esfrega com um pano bem sujo a dura realidade dos países em vias de desenvolvimento ceifados pela “globarbarização” (a história da menina que é forçada pela mãe a prostituir-se – O PIB da PIB) e, noutro, nos transporta ao nosso ser animal, primitivo, que se orienta pelos ciclos lunares. Magnífica a Lua Cheia visível ao pé da estátua de Vasco da Gama iluminando toda a baia da Praia de Sines. Pelo criativo e hilariante papel de feirante que vende os seus discos. Pela forma como veste o fato de macaco e cria ritmos com uma rebarbadora.
[10/10] para o performer
[7.5/10] para a banda que o acompanha

Publicado por Luís Rei às 07:09 AM | Comentários (4)

FMM De Sines: Rokia Traoré



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graciosidade divina


Rokia Traoré é, provavelmente, a artista feminina africana mais interessante da actualidade. Além de nos fazer crer que não é necessário viver em África (reside há já vários anos em Amiens – França) para continuar a beber da água pura da fonte. Consegue inovar nas estruturas rítmicas e melódicas da música tradicional da África Ocidental, em especial do grupo étnico Bambara, assumir pose de songwriter cantando na sua língua nativa temas actuais especialmente dirigidos às mulheres (juntando a sua causa à da diva do Wassolou – Oumou Sangaré), sem ser vítima da “francofonização” que atinge a maior parte dos músicos africanos que optam por viver no país de Piaf. Ao seu lado viu-se uma banda extremamente eficaz onde pontificam a dupla de executantes de pequenos n’gnonis que solam como se tivessem uma kora nas mãos em sintonia com um balafon gigante. As grandes âncoras que edificam a casa rústica da região de Beledougou, decorada com modernos atavios pelo baixista / guitarrista de serviço Christophe Minck, o único elemento de sangue branco. É ele a peça chave que abre a música aos rendilhados de baixo e de guitarra ocidentais sem a ferir na sua autenticidade. Foi pena que o realizador das imagens que passavam nos écrans ao lado do palco e fora do castelo (quase) nunca o chegassem a captar, mesmo quando solava e empolgava a assistência. Que dizer de Rokia... bela, frágil, leve como uma pluma nos temas mais calmos em que pegava na sua guitarra. Graciosa, extasiante, demoníaca, quando exibia movimentos de dança de gestos perfeitos. Nunca a música do Mali foi tão sensível e tão avassaladora. O encore final, em jeito de trance / techno acústico não sairá tão cedo da memória daqueles que souberam saborear o espectáculo de Rokia Traoré. Magnífico. [9/10]

Publicado por Luís Rei às 07:07 AM

FMM De Sines: Septeto de Robert Rodriguez



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Cuba rabina

Robert Rodriguez, baterista e percussionista cubano, demonstrou como são ténues as fronteiras entre o jazz, o danzon cubano e a música klezmer das comunidades judaicas que, por vezes, dão um certo ar de tango apocalíptico made in Balcãs, como é apanágio de Boris Kovac. É certo que em Nova Iorque (através da Radical Jewish Culture que a editora Tzadik promove) e não só, há um sem número de executantes que têm universalizado a linguagem musical yiddish, levando-a para os domínios do rock, da electrónica, da dança e das músicas improvisadas. Aqui, o encontro entre o ritmos caribenhos e as melodias do leste da Europa, é perfeito. A isso deve-se o domínio técnico elevado não só de Rodriguez, como também da contrabaixista Jennifer Vincent (a fazer lembrar as cordas de Orlando Cachaito Lopez que parecem saltar das colunas de som) em despique com o virtuosismo do clarinete de Oscar Noriega (um dos elementos mais influentes deste septeto) e com a irreverência do violino (que chega a estar carregado de ruído, como se de uma guitarra eléctrica se tratasse ) de Meg Okura. [8.5/10]

Publicado por Luís Rei às 07:03 AM | Comentários (1)

FMM De Sines: David Murray Creole Project, com Pharaoh Sanders



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o espírito de “kah”

Chamem-lhes exibicionistas e intérpretes de jazz em processo de fermentação. Para mim, David Murray com Pharaoh Sanders e o Creole Project III foram, provavelmente, autores de alguns dos melhores momentos que passaram pela edição deste ano do FMM de Sines. Solos explosivos de Murray e Sanders embebidos no free-jazz que se desdobra em soul – funk e que recebe todo o misticismo de Guadalupe das “gwo ka drums” de Francois Ladrezeau e Klod Kiavue, cujas vozes e percussões nos conduzem para um terreiro de prática espiritual de descendentes de escravos africanos. Pelo meio, houve tempo para saborear outros grandes executantes como o trompetista Rasul Siddik, ou o guitarrista Hervé Sambe, e aprofundar a viagem que se estende a todo o continente americano, com passagem obrigatória pela “Bahia”. O único ponto negativo, foi o tempo excessivo (cerca de duas horas) dos músicos em palco. Numa noite a três, essa leviandade acabou por atrasar em demasia a actuação de Tom Zé e demais festividades na Avenida da Praia. [9/10]

Publicado por Luís Rei às 07:02 AM

FMM De Sines: Warsaw Village Band



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bárbaros e pagãos

Três vozes intensas e misteriosas cantando em uníssono em polaco, num ritual de chamamento a longas distâncias, como faziam no passado os pastores polacos. Dois violinos crepitantes que gelam o Báltico, unindo a Polónia à Suécia da “old fiddler tradition”. Um violoncelo tenso e incisivo, que dá o “drone” hipnótico à folk da Warsaw Village Band. Um saltério menos onírico do que o dos suecos Frifot, mais ligado à terra e a grandes cavalgadas punk / hardcore. Uma “frame drum” tocado como se fosse um tambor xamânico dos Sámi e um “kit” de percussão simples, constituído por um bombo, um prato e (por vezes) ferrinhos, o quanto baste para que o som seco e rico em variações rítmicas – que fazem lembrar os ritmos das “brass bands” ciganas de leste - ganhe protagonismo. Há um nervo bárbaro e pagão aliado a um profundo conhecimento das tradições musicais da região da Mazóvia, com um desejo de inovar, que torna WVB numa das mais frescas e interessantes propostas da folk (em confronto com o rock e a dança) do norte e do centro da Europa sedento de inovação, alinhando-a à movimentação “ethno-punk”, ao lado de Hedningarna, Garmarna, Alamaailman Vasarat, Vasmalom e Besh’o’Drom.
Sem recorrer a quaisquer instrumentos electrificados ou electrónicos em palco (coisa que já não acontece em disco), a WVB tocou quase sempre como uma banda hardcore, extremamente rápida na execução e na duração das composições escolhidas a dedo de “People’s Spring” (2002) e de “Uprooting” (2004, álbum acabado de editar e sobre o qual publicarei futuramente uma entrevista com a banda). Arrebataram corações pouco sintonizados com a folk do Báltico, cumprindo plenamente o seu objectivo. O de chegar ao público mais festivo, à espera de se divertir, perdendo com isso o resto do repertório mais ascético e calmo. Curiosamente, foi num desses raros momentos contemplativos, apenas com a violoncelista e violinista (aqui, envergando um violino medieval “suka”) que a WVB se mostrou mais sedutora, quebrando o ímpeto repetitivo dos tiques punk (curiosamente, um dos percussionistas envergava uma t-shirt da banda hardcore D.R.I.) usados ao longo de quase todo o espectáculo. Apesar de tudo, a WVB merece voltar, de preferência em locais fechados, de forma a preocuparem-se mais com o público que os vai ouvir, não com aqueles que estão sedentos de queimar as calorias em excesso provenientes dos hamburgueres ou dos nacos com molho de natas e dos “sundays” que ingeriram ao jantar. [8.5/10]

Publicado por Luís Rei às 06:47 AM

agosto 15, 2004

Festival Raízes do Atlântico



Os irlandeses Téada

Apesar de o cartaz ter sofrido alterações nada agradáveis de última hora (a não inclusão de Hednignarna conforme estava previsto), o “Raízes do Atlântico” atingiu a maturidade na forma como se relaciona com os madeirenses e, sobretudo, com os turistas estrangeiros de meia idade que se encontravam, noite após noite, em número considerável. O espaço do auditório do jardim esteve sempre repleto, sobretudo na noite das Tucanas. Quem chegava em cima da hora, tinha a tarefa dificultada de ver os espectáculos nas melhores condições. Na impossibilidade de se conseguir lugar sentado, os restantes amontoavam-se como podiam, atrás uns dos outros, tornado-se difícil ver-se um espectáculo em perfeitas condições. A questão que coloca é a seguinte: como será a partir daqui? Haverá um novo conceito de festival? Explorar-se-ão nos espaços e outras localidades além Funchal, como por exemplo, a sala do Casino do Funchal, o Engenho e o espaço da praia de Porto da Cruz? Mudar é preciso.

Os madeirenses

Como tem sido apanágio deste festival, o contigente madeirense apresenta-se em número considerável garantindo mais de 50% do cartaz. Já que dificilmente actuam no continente e fora do país, que façam o gosto ao dedo, pelo menos, na terra onde nasceram. Os nomes repetem-se, mas o repertório e direcção artística (sobretudo de Xarabanda e Banda d’Além) renovam-se. É pena que não haja músicos da craveira de Vítor Sardinha ou intérpretes estrangeiros do conservatório local que possam oferecer um cariz mais experimental da música e dos instrumentos madeirenses.

Os Xarabanda, encarregues de encerrar esta edição, foram uma agradável surpresa. Apresentaram-se com o Coro do Porto Moniz (muito bom o momento das vozes masculinas, menos bem com todo o coro). A revisão do legado madeirense continua algo redondo e previsível, se bem a direcção artística melhorou consideravelmente. Há ainda gente nova com valor a cantar e a feliz integração de um acordeonista Sérvio – Slodoban Sarcevic - que poderá no futuro dar maior audácia criativa ao projecto liderado por Rui Camacho. Ele que esteve também muito bem ao demarcar-se da reivindicação de mais (ainda mais?) apoio monetário aos projectos de música tradicional madeirenses proferida por Jorge de Sousa dos Encontros da Eira. [4/10]

Com o discurso reaccionário proferido várias vezes durante o espectáculo deste projecto da Camacha, que se dá ao trabalho de contabilizar à unidade o número de CDs vendidos até ao momento (13.794 – treze mil, setecentos e noventa e quatro), ficámos com a sensação de os músicos locais serem uns mendigos e das mouriscas serem seriamente perseguidas pelo lápis azul. Musicalmente, o Encontros da Eira é o projecto mais conservador. Tal como outros projectos congéneres, há sangue novo a correr, mas parece amordaçado pela intenção de não mexer uma virgula que seja ao seu repertório. [6.5/10]

Mantendo a mesma intenção em desenterrar e polir semelhante arqueologia musical, a Banda D’Além é contudo mais ambiciosa, sobretudo em disco. Neste espectáculo convidou um quinteto de cordas. Belíssimo a versão que criaram do Bailinho da Madeira, justificando plenamente o apoio monetário que eventualmente recebem Governo Regional (não sei quanto será, nem estou minimamente interessado em saber). Contudo, Mário André é para o bem e para o mal um líder que comete alguns excessos. Há nele um certo espírito do açoriano Zeca Medeiros, tornando-o algo dramático, assaz expansivo. Às vezes, ele transmite uma certa vitalidade ao espectáculo que falta, por vezes, aos seus músicos, outras vezes (a maior parte) acaba por criar tempos mortos, prolongando a actuação para além dos limites do razoável (1h45m, quando estava estipulado 1h). [6/10]



Banda D'além

Falar de Melian é falar de uma verdadeira salganhada auditiva que, na maior parte das vezes, não tem pés nem cabeça. Há bons músicos (como por exemplo o violoncelista húngaro Lásló Szapesi), momentos interessantes, sobretudo acústicos e instrumentais (quando o violoncelo e viola de arame se juntam), mas tudo descamba quando tentam ser uma banda ethno-gotic-metal. Sofia Relva é um equívoco. Na ânsia de protagonismo, puxa pelas cordas vocais como uma cantora de hard rock, dá voltas e voltas ao auditório. Ficava-lhe melhor o papel de Aimee Lee numa Chuva de Estrelas ou numa Operação Triunfo. Deixe lá os rapazes trabalharem. [3/10]



Os Marroquinos Nass Marrakech

Publicado por Luís Rei às 05:58 PM | Comentários (7)

agosto 01, 2004

Sines: o Alentejo que não dorme

O FMM de Sines está de parabéns pela forma como tem sabido crescer e fazer evoluir progressivamente o conceito deste festival. Em termos musicais, desde o primeira edição até à sexta, corrigiu-se o cartaz e o seu carácter abrangente, que também chegou a apresentar nomes do pop / rock lusitano como os Clã. Este continua a ser necessariamente festivo, sem ser corriqueiro, tendo deixado de apostar nos nomes mais óbvios (Carlos Núñez). Nesta sexta edição houve, como habitual, a feliz integração do jazz com um cartaz apelativo das músicas de raiz (David Murray, Roberto Rodriguez), a festa total do afro-beat de Femi Kuti, que se misturou com o fogo de artifício, a folk medieval do Norte da Europa com visões futuristas (Warsaw Village Band), a oportunidade de vermos toda a graciosidade e elegância de uma artista africana no seu pico de forma (Rokia Traoré) e de, seis anos depois, podermos deleitar-nos com a irreverência, desalinhamento e criatividade de Tom Zé, que tem sabiamente sabido envelhecer. Já para não falar do projecto “Terra de Abrigo” e dos exercícios vocais da mediterrânica Savina Yannatou a que, infelizmente, não pude assistir.
Além de ciclos de cinema, de espectáculos ao fim de tarde na capela e de conferências / debates, as actividades foram alargadas até de madrugada. O FMM conquistou a Avenida da Praia (onde este ano já tinha sido comemorado o 25 de Abril com Fausto e os galegos Diplomáticos), com mais um concerto por noite e animação a cargo de vários DJ’s. Durante três dias, Sines foi a “cidade que não dorme”, uma espécie de “big apple” freak alentejana. O mercado dos paus de incenso, das velas, das indumentárias hippies, da sangria a copo, dos artesãos errantes, a par do comércio das farturas, bifanas e cachorros, estendeu-se para lá da zona circundante do castelo, ocupando grande parte da avenida. A música enlatada da MTV e da Sol Música que habitualmente se escuta nas esplanadas de verão, foi substituída nos bares de praia pela selvajaria cigana de leste. Todo o folclore que se vê nas ruas antigas da cidade, recordou-me os saudosos tempos em que o WOMAD de Cáceres se realizava na zona medieval desta cidade da Extremadura espanhola.
O festival tem sabido crescer. De gratuito passou a ter bilhetes pagos (a preços simbólicos de cinco euros) limitados a quatro mil entradas. Mesmo assim, os ingressos esgotam-se e muita gente fica à porta. O circuito de ecrãs montados dentro e fora do castelo reduzem a frustração de não se poder ver in loco os artistas em cartaz. Coloca-se aqui a pertinente questão: como poderá o FMM de Sines crescer ainda mais e albergar todos aqueles que não conseguem arranjar bilhete? É necessário arranjar novos espaços, novos palcos, se possível em ambientes fechados.
O FMM afirma-se no cartaz de festivais nacionais pela forma como tem conseguido “sudoestizar” os festivais de músicas do mundo. Em conversa de rádio na Antena 1, o Álvaro Costa refere que se utilizam aqui muitos truques de festivais de rock. O Gonçalo Frota do Blitz é da opinião de que há muito boa gente farta dos mesmos nomes que continuamente vêm a Portugal e que querem algo de diferente e que o FMM oferece. Por isso mesmo, Sines recebe imensa gente que não é “cliente habitual” de festivais de músicas do mundo. É o evento desta área que credencia mais jornalistas, sobretudo da imprensa e da rádio.
Uma nota de grande interesse: A Antena 1 esteve durante os três dias a transmitir, durante a noite, em directo a partir do “backstage” do festival. Depois de Sines, a equipa liderada por Álvaro Costa estará presente também no festival Andanças. Resta agora saber se se seguirá o “Sons em Trânsito”. Há luz ao fundo do túnel.

[continua com a apreciação dos projectos em cartaz]

Publicado por Luís Rei às 06:07 PM | Comentários (13)

julho 19, 2004

a graça de Rabih e o vozeirão de Argentina

Tive uma imensa pena de não ter estado presente este fim de semana no teatro São João do Porto.A Cristina da Janela foi ao espectáculo de Rabih Abou-Khalil, com Camané e Argentina Santos e gostou muito.

Em discurso informal, via e-mail: "O camané foi perfeito, penso que costuma ser assim. A Dona Argentina foi uma revelação, faz uns truques com a voz que me encantaram, principalmente quando reduz, parece que mete a voz toda para dentro, canta mesmo com a alma e ela estava tão comovida. Foi de facto muito bonito. Na segunda parte, o deslumbramento de Rabih que é um homem cheio de humor. Fez umas apresentações muito engraçadas dos elementos que o acompanhavam e que são excelentes. No fim, o Camané apareceu e cantou duas canções com eles. As letras são do Jacinto Lucas Pires, difíceis de cantar, sobre uma melodia oriental. Resultou estranho e hipnótico :)"

Publicado por Luís Rei às 07:41 PM | Comentários (4)

junho 23, 2004

Lura e Tcheka. Alguém Foi?

Tive pena de falhar a noite de ontem de apresentação dos novos discos dos cabo-verdianos Lura e Tcheka, no Maria Matos. Alguém foi? Querem comentar?

Publicado por Luís Rei às 01:32 PM | Comentários (3)

junho 22, 2004

O açafrão e a pimenta dos Dazkarieh



Dazkarieh, Ruinas do Carmo, 17 de Junho

O poder da televisão. Ainda há cerca de um mês os Dazkarieh haviam tocado na Comuna, numa sexta-feira à noite para não mais de cem pessoas. Com “spots” a passar insistentemente no meio das transmissões do Euro 2004, as Ruínas do Convento do Carmo acabaram por ser um espaço pequeno de mais para receber tanta gente. E, quem foi, não deu por mal empregue nem o tempo, nem o dinheiro. Pelo contrário. Os Dazkarieh esforçaram-se por fazer um concerto de encher a vista e o ouvido. Foi, sem dúvida, o melhor dos três que até hoje presenciei.

A capa do primeiro disco não engana. Há, nos Dazkarieh, uma mistura de inúmeras cores e especiarias que fazem da sua música uma mostra de acepipes típicos de várias cozinhas. De África, ao subcontinente Indiano, até à América Latina. Por vezes, excessivamente condimentados e tão picante que o nosso poder gustativo perde sensibilidade. A confecção mais simples, à base de um fio de azeite, um dente de alho e uma folha de louro, revela-se a melhor opção, quando se quer realçar o sabor dos alimentos. Mas, gabe-se todo o poder inventivo do chef Vasco Casais que explora ingredientes de todo o mundo, por conta própria, por vezes com uma certa ingenuidade e entusiasmo em excesso, acabando por criar, aqui e ali, combinações algo redundantes. Deixemos os tachos e as panelas e vamos à música.

O “harmonium” que usualmente os Sufis usam na sua música devoção qawwali marca um início contemplativo, como que a apelar aos deuses protecção e orientação para a hora e meia que se segue. Mais terreno, o bouzouki de Vasco em “Abour Safar” (do disco homónimo de estreia) conduz-nos ao Báltico. Logo de seguida, as odaliscas Mónica e Carolina exibem toda a sensualidade das danças do médio oriente, a partir de ritmos nubianos que colidem com tiques de flamenco (cajon e guitarra), cantares que evocam os ciganos das balcãs num tom que ainda (infelizmente) não perdeu os tiques “Dead-Can-Dancianos”, apimentados uma dispensável gaita de foles (“Dazambra”). Em território celta, “Naco” revela um apreciável contingente do “Andanças”, que se organiza em roda para a “dança do círculo”. Momento chave em que se dá o primeiro contacto com um de vários músicos convidados: o violinista ucraniano Denys Stetsenko. Se a música dos Dazkarieh peca somente pela sua desmesurada ambição em querer unir todo o mundo em apenas hora e meia, Denys, Celina Piedade, Júnior dos Terrakota, Pulga e Carlos Mil-Homens, foram as cartas certas do baralho para que essa premissa dos Dazkarieh não fosse assim tão descabida.

Elegante e elástico, Denys foi a estrela maior. Do seu violino inflamado saíram solos rasgados em território celta (“Naco”), em ritmos quebrados dos balcãs(“Búlgara”), no acompanhamento do flamenco estonteante de Pulga (palmas) e Carlos Mil-Homens (Cajon), em “Buleria”. Celina foi igual a si própria. Não lhe fica mesmo nada mal o epíteto de vai a todas. Tudo soa bem no seu acordeão Saltarelle. Quer as danças da tradição europeia, quer os devaneios afro-latinos que pretendem repescar ambientes andinos (“Andina”), mas que acaba por derivar numa espécie de “funana” sul americano, quer num semi-forró (“Brazil”), de um qualquer sanfoneiro nordestino (de preferência, um Jackson do Pandeiro). Mais discreto, Júnior trouxe o seu balafon para solar em “Zahrany”. Louve-se o amor que os Terrakota têm pelas tradições africanas mandinga e wassolou, mas notou-se em Júnior a falta de uma técnica mais apurada, como por exemplo, a do guineense Kimi Djabaté do projecto Tama Lá. Louve-se o trabalho e a atitude do colectivo Dazkarieh: o Vasco, tecnicamente bom em bouzouki e (agora mais intensamente) em flauta transversal; o Filipe que com o seu sorriso desconcertante parece gozar mais ao sentir a receptividade do público, do que propriamente a fazer o seu papel de percussionista; o calo do Nuno Patrício; a versatilidade do contra-baixista que chega a fazer deste instrumento um hit gardon húngaro e se desdobra no harmonium e nas tablas.

Apesar da necessidade de focarem melhor a objectiva, de forma a não terem uma imagem mais abrangente mas tremida, a noite das Ruínas do Convento do Carmo deixou no ar o sentimento de que vamos ter em Julho um muito bom disco distribuído nos dias 13 e 20 com o Blitz. Já só faltam três semanas.


Alinhamento

1 – Intro
2 – Abour Safar
3 – Dazambra
4 – Gaitas
5 – Naco
6 – Zahrany
7 – Rosa de Lava
8 – Naty
9 – Búlgara
10 – Buleria
11 – Sansorgui
12 – Troll
13 – Andina
14 – Miu’ra

Encore

15 – Brazil
16 – Miafarê Boi

Publicado por Luís Rei às 05:42 AM | Comentários (13)

abril 07, 2004

Tama La: griots em Portugal

Mercado da Ribeira (Lisboa), 27 de Março

José Duarte poderia ter ido ao Mercado da Ribeira à procura de “swing”. Decerto que encontraria um enorme filão à conta do projecto Tama La de Kimi Djabaté. O som era assaz sofrível, o palco pequeno demais para oito músicos, o concerto começou mais de uma hora após o horário previsto o que obrigou a uma sessão de baile africano forçado com aquela musiquinha feita de teclados chungosos. Mas o que é que isso importa quando temos os Tama La a servirem um repasto de música afro-mandinga modernizada de muito bom gosto? Kimi é grande. De ascendência griot, Kimi nasceu numa aldeia de músicos da Guiné Bissau - Tabato. Aos três anos já “mexia” no balafon, mas apenas aos oito iniciou o estudo mais sério do instrumento com o seu pai, Braima Djabate. À semelhança do que acontece com os Terrakota, Kimi não usa o balafon no chão, utiliza um suporte de sintetizador, para poder tocar de pé, cantar e saltar (constantemente), imprimindo uma força contínua genuína, antípoda de forçada, em tudo o que faz. Ao seu lado, um guitarrista da mesma família, Mamadi Djabate, abre espaços ao “groove” funk instalado através de solos que parecem saídos das grandes orquestras da África Ocidental – Baobab e Bembeya Jazz. O rapaz tem “dedos de diamante”. À melodia afro, junta-se a orgânica europeia de alguns dos elementos, numa fusão que roça a perfeição: a voz secundária da italiana Chiara Picotto, admirável como canta na língua mandinga, injecta uma dose de frescura; o alemão Johannes Krieger (um dos trompetes da Tora Tora Big Bang) adiciona-lhe a alegria saudosista das grandes bandas de jazz errante, que salpicam sonoridades latino-americanas. Lá atrás, Hugo Menezes (a sua nacionalidade é portuguesa, mas o seu DNA deve ser de um negro latino-americano), vai solando ora em djembe ora em congas, fazendo-se ouvir mais alto que o baterista Marte Antunes.

Kimi Djabate, a par de Maio Coope (do projecto Djumbai Jazz) e de Manecas Costa (entrevista pronta a sair nas Crónicas), são valores seguríssimos da música guineense que procuram a inovação, quer da música da África Ocidental mandinga, quer do estilo gumbe “made in” Guiné, adicionando-lhes novos temperos europeus sem descaracterizar a raiz, demarcando-se contudo do “som de Lisboa” (conforme designação de Manecas) que domina os espaços africanos nocturnos da Capital. Acabam por não agradar nem a “gregos nem a troianos”, ora porque fogem ao arquétipo dominante, ora porque vivem “guetizados” e não conseguem chegar ao público português, que – comparativamente com os povos do norte e centro da Europa, sobretudo franceses, alemães e holandeses – sempre se revelou mais intolerante para com a música africana. Apesar de tudo, fica o aviso para os promotores de festivais de músicas do mundo. Para quê gastar desnecessariamente parte do orçamento com artistas de segunda ou terceira categoria, quando têm músicos desta estirpe ao virar da esquina? É preciso descobri-los.

Publicado por Luís Rei às 09:37 AM | Comentários (2)

abril 02, 2004

Antevisão do Intercéltico do Porto


Kíla z@zerostudio.net


Definitivamente, o palco do Coliseu do Porto já era. Esta edição do Intercéltico volta ao Rivoli, local onde conheceu, provavelmente o maior momento de glória destas catorze edições: The Chieftains de há onze anos atrás. Pode pensar-se que os Celtas estarão em vias de extinção. Certamente que a descentralização – Lisboa, Arcos de Valdevez e Montemor-o-Novo – acaba por reduzir a romaria habitual de inícios de Abril à invicta. Mas ver o Intercéltico sem ir ao Porto, é como comer uma caldeirada de Peixe na Serra da Estrela, ou uma Chanfana de Cabra em Sesimbra. Não faz lá muito sentido.

Mais do que ver um grupo irlandês, galês, escocês ou bretão, por muito interessante que seja, o mais importante sempre foi o ar que se respirou, sobretudo no Terço e nas Grutas dos Celtas. Assim como o importante num festival galego é podermos participar numa queimada.

O WOMAD de Cáceres nunca mais voltou a ser o mesmo desde que o retiraram da zona medieval desta cidade da Estremadura espanhola. Não se vive um festival na sua plenitude sem o ambiente que o rodeia. Ponto final, parágrafo.

Posto isto, resta tentar averiguar o que vale musicalmente a edição catorze deste festival.

Expandindo o território celta. Os Muszikás repetem a sua presença e voltam a servir de elo de ligação entre um universo marcadamente britânico e o centro / norte da Europa (como já havia sido efectuado também com os finlandeses Värttnä). Vale sempre a pena rever estes húngaros, por muitas actuações a que já tenhamos assistido. Não pela estrela da companhia, Marta Sebéstyen – quem já viu concertos com cantora substituta quase nem dá pela falta da senhora -, mas sobretudo pelos fulminantes arranques de Mihaly Sípos e constantes duelos mortíferos com Lásló Porteleki, pel via mais indomável da música judaica e cigana da Reserva Natural da Transilânia e dos Cárpatos.

O culto da Tradição. Este ano cabe aos Atlántica da Cantábria fazer o papel de “quanto mais festivo, mais purista”, epíteto usualmente reservado às formações irlandesas que fecham o festival. O projecto originalmente composto pelo espanhol Marcos Bárcena (boa voz e subtil no bouziki e na guitarra) e pela Inglesa Kate Gass (violino e tin whistle) assume que faz “música celta a partir da Cantábria”. Interpretam com rigidez canções, jigs e reels irlandeses entre temas populares da região montanhosa do norte de Espanha – “Ay Lere Leré” e “Vira Lá Montaña” – que requerem a participação vocal massiva da assistência. Picam o ponto ainda na Galiza, na região francesa da Ocitânia e num certo country /western nortea-americano (“Blue Moon of Kentucky”). A festa está garantida.

Os transgressores. Poucos são os projectos irlandeses que re-inventam a tradição local pouco dada a novas nuances. Os Kíla, a pouco e pouco, têm levado a água ao seu moinho. “Luna Park” corrige os erros e a imaturidade de discos anteriores como “Mind The Gap” e “Tog e Bo Gog”, de há mais de meados de 90.
Não são uns Hedningarna irlandeses, mas a sua folk electrificada pisa ritmicamente África e o universo árabe, apesar de harmonicamente ser mais celestial e menos terrena. Ideal para sonharmos com druidas e sacerdotisas que se escondem nas florestas sagradas. Está mais elegante e coerente, com um certo ar progressivo (sem vestígios de naftalina), fazendo corar de inveja os Dervish (se comparados com o tema que fecha “Spirit”). Resta saber se resolveram o problema de uma certa desorganização em palco que os afectou num Cantigas de Maio de há uma meia-dúzia de anos atrás.

Os portugueses. A avaliar pelos dois temas já disponibilizados do novo álbum que se avizinha, o Realejo deixou a estética mais clássica de câmara para assumir uma postura predominantemente dançável, sem perder os traços profundos da música tradicional portuguesa. Cavaquinho, gaitas de fole e sanfona, coabitam agora com ritmos “funk” marcados pelo baixo eléctrico, servindo de fundações às (agora) canções interpretadas pela agradável voz de Catarina.

Os At-Tambur, de promessa passaram a certeza. Sérgio Crisóstomo (violono) e Tiago Costa-Freire (flautas doces) são as estrelas da companhia e da boa prestação deles dependerá a da banda. Esperemos que continuem virtuosos na interpretação das danças europeias, mas que, sobretudo, se libertem de uma certa rigidez própria da formação clássica e explorem mais as coordenadas traçadas em composições como “Sueca”.

Os Frei Fado Del Rei irão passar em resumo cartoze anos de existência (curiosamente, tantos quanto as edições do Intercéltico). A sonoridade é épica e nobre. A voz de Carla Lopes própria de uma musa inspiradora dos grandes feitos, as cordas parecem torrões de açúcar prontos a serem devorados. Só que aqueles teclados... causam uma certa amargura.


Ver Programação do Intercéltico no Porto, em Arcos de Valdevez, Montemor-o-Novo e Lisboa, aqui

Publicado por Luís Rei às 02:54 PM | Comentários (3)

março 18, 2004

Djumbai Jazz - a savana e o deserto

Galeria ZDB, 13 de Março

A imagem que tenho da música africana das comunidades imigrantes residentes em Portugal não é lá muito boa. Se, por um lado, a RDP África, à excepção de Nuno Sardinha e de alguns oasis de fim de semana, do tipo “A Hora das Cigarras”, encharca-nos com kizombadas, kuduros e outros ritmos plásticos, rarefeitos de sintetizadores primários, por outro lado, a oportunidade de se escutar música ao vivo em Lisboa é, na maioria dos casos, repleta de artistas cabo-verdianos que dão mais importância ao acessório (sumptuosos arranjos pop) do que propriamente à alma e à essência na interpretação de mornas e coladeras.

Depois de assistir à merecida ascensão internacional de Manecas Costa (o que é que este rapaz precisa para que, por cá, se olhe para ele?), fiquei agradavelmente surpreendido com os também guineenses Djumbai Jazz. Se outros grupos que optam por descarnar as raízes das suas tradições – Jovens do Hungu com o semba de Angola, ou Netos do N’Gumbe com o gumbe da Guiné Bissau – evidenciando fragilidades harmónicas, em detrimento do totalitarismo rítmico, os Djumbai Jazz conseguem equilibrar os dois pratos da balança. Maioritariamente constituído por músicos de origem griot, corre-lhes nas veias a música clássica, delicada e contemplativa da cultura milenar e nobre do império mandinga. Galisa é o principal encantador ao tecelar de forma virtuosa melodias de seda na sua kora. A ligação estética, melódica e técnica com tantos outros intérpretes – Toumani Diabaté, Ballaké Sissoko, Djeli Moussa Diawara, Mory Kante – é inevitável. Já na guitarra eléctrica de Sidi, reflecte-se o sol e a areia abrasadora e infinito espaço a céu aberto do deserto do Sahara, trazendo consigo toda a carga emocional dos blues dos nómadas – Tinawiren, Tartit - e do mestre Ali Farka Touré. Maio Coope, cantor e percussionista, vai dando uns safanões ao intimismo instalado, misturando e dançando ritmos frenéticos de gumbe, que o outro percussionista – Cabum – tão bem alimenta. Os elementos não estão sozinhos e há uma agradável interacção com outros músicos – Hugo Menezes em percussão, o irmão de Galisa, também Galisa (apelido familiar) inevitavelmente em Kora e Kimi Djabate. Este último, balafonista no projecto Tama La (necessário vê-los ao vivo urgentemente), salta, liberta largos sorrisos que se reflectem em toda a assistência, imprimindo um ritmo avassalador em “Ye Ke Ke”, próprio da highlife ganesa.

É uma pena estes rapazes estarem em Portugal. Vão para Londres, para Paris! Conheçam o Ian Anderson, a Lucy Duran e o Nick Gold. Aqui não se safam. E vocês merecem entrar no circuito europeu de festivais de músicas do mundo.

Publicado por Luís Rei às 11:15 PM | Comentários (2)

março 15, 2004

Uxu Kalhus: Não há Cinderela que resista

É difícil um baile / concerto proporcionar tanto gozo à assistência de “pé de chumbo”. Quem está completamente fora do mundo das danças tradicionais, não está habituado a ver uma horda de gente a participar na dança, em roda, aos pares, a bater palmas no tempo exacto, sabendo exactamente o que fazer assim que escuta um passo doble, uma mazurca, um chote, ou um bourré. É bonito de se ver.

Há-que dar os parabéns à organização Pedexumbo pela forma como ao longo desta última meia-dúzia de anos tem efectuado sucessivos workshops de dança em todo o país, organiza o Andanças e, acima de tudo, consegue de ano para ano alargar a legião de dançarinos que são, por si só, público mais do que suficiente em qualquer actuação de um projecto à imagem de uns Uxu Kalhus, ou de uns At-Tambur.

Curiosamente, partindo de um repertório comum, os Uxu Kalhus encontram-se nos antípodas dos At-tambur. Enquanto estes últimos investem numa vertente de música popular a piscar o olho ao formato clássico de câmara, vestindo o fato e a gravata, os Uxu Kalhus incorporam toda uma série de estilos provenientes da Índia, de África e da Jamaica, num tom fulminantemente informal, de indumentária “freak”, suja com as diferentes camadas de terra em se rebolam.

Uma chotiça contaminada por dub, uma valsa em ritmo afro mandinga com mantras indianos pelo meio, um saraquité afunkalhado, o “I will survive” de Gloria Gaynor cantado entre um passo doble, o “Misirlou” de Dick Dale, o “D’artacão” em versão thrash, entre mais uma dança europeia. Os coelhos que os Uxu Kalhus tiram da cartola foram infindáveis numa noite, como sempre, em que o gozo de tocar, de transgredir é mais forte. Nem eles, nem nós, damos pelo avançar dos ponteiros do relógio. De repente reparamos que já passaram mais de três horas. Quase quatro. E acaba por saber a pouco. Nada de cansaço, somente sorrisos rasgados e a vontade de continuar. O capital de simpatia do colectivo é extremamente elevado: pela doce Celina que nos encanta, ora quando interpreta “Saraquité”, “Erva Cidreira” ou “Regadinho”, ora quando acelera com o seu acordeão numa valsa e quando faz do seu instrumento uma melódica em cima de um ritmo dub; pelo Paulo Pereira e o seu virtuosismo em ralchpfeifen, aerofone medieval de palheta dupla e de sonoridade aguda a fazer lembrar uma bombarda bretã; pela mortífera secção rítmica afro indígena de Nuno Patrício, Hugo Menezes e Miguel Casais; pelo groove e funk do baixo de Eddy Cabral; pela guitarra eléctrica, estridente e propositadamente foleirona, de recorte hard’n’heavy, de Vasco Casais, que funciona bem no ambiente inflamado de declarada desbunda, questionável, contudo, quando transposto para disco.

É notável como o duo CPPP (Celina / Paulo), a essência espiritual deste projecto que já vem de longe – dos próprios CPPP e de Bailia – funciona tão bem com aquele bando de prevaricadores que conspurcam com ska, thrash e ritmos afro as lineares danças europeias e lusitanas, incitando-os porém, a fazer ainda pior. Fica a sensação de que eles, assim como os Irmãos Catita, não querem ser levados muito a sério. Apenas divertirem-se em comunhão com a turba ágil e certeira nos passos de dança. Resta saber como será o álbum que se avizinha. Como conseguirão eles transpor toda esta folia? Este gozo para uma rodela de plástico, onde esta mágica interacção com os dançarinos não é captada?


Os Uxu Kalhus também contagiaram o Vítor Junqueira do Juramento Sem Bandeira e o João Gonçalves que tirou as fotos e as publicou no Forum Sons.

Publicado por Luís Rei às 04:56 AM | Comentários (3)

dezembro 05, 2003

KLEZMATICS: alegria rabina

Sons em Trânsito, Teatro Aveirense, 29NOV03


De vez em quando, excelentes músicos têm direito a fazer disparates. Os Klematics cometeram tal acto, recentemente, ao gravar o tema meio gospel “I Ain’t Afraid”, em memória do 11 de Setembro. Não é que o motivo e a letra da canção não sejam nobres - “I ain’t afraid of your Allah(...), I’m afraid of what you in the name of god”, mas os arranjos são uma verdadeira xaropada. É a veia gay de Lorin Sklamberg no seu melhor. Mas gosto imenso deste tipo, à parte dos seus tiques afeminados (que até acabam por ter uma certa graça). É um excelente acordeonista e um dos principais motores criativos dos Klezmatics. Posto isto, que dizer da actuação desta calejada banda klezmer nova iorquina? Fabulosa nos momentos mais festivos. Meio chatinha nas baladas interpretadas por Lorin e nos devaneios religiosos. Ia com um certo pé atrás relativamente aos Klezmatics, pois a única vez que os vi ao vivo foi há cerca de cinco anos atrás (não estive no Cais do Gás há 3 anos), durante a apresentação do álbum “The Well”, de parceria com a diva israelita Chava Albertstein. Aí haviam sido mornos, morníssimos. Cabaret da coxa a mais.
Em Aveiro, (como em Lisboa, segundo comentários que ouvi) mostraram todos os dotes que se lhe reconhecem: a energia da festividade casamenteira hasídica, interpretada por reputados músicos da escola “downtown” nova iorquina. “Man In The Hat”, logo de início, tema de abertura do melhor álbum dos Klezmatics (“Jews With Horns” - 94), foi um bom prenuncio para a cavalgada que se seguiu e que empolgou toda a assistência para hora e meia de celebração. Bonita a forma como o público do Teatro Aveirense chamou a banda ao palco para os encores: entoando os “oi oi ois” típicos da klezmer festivaleira em “Tepel”.
Os metais de Matt Dariau e de Frank London enchem todo o palco. Não só pela força e virtuosismo dos instrumentistas, mas pela forma de estar em palco. Matt, embora mais recatado, é extremamente eficiente e virtuoso. Sinta-se a elegância do clarinete baixo em “Perents-Tants” em despique com o trompete de London. Ele que é uma das figuras mais fascinantes do universo das músicas do mundo e que detém larga maioria do capital de carisma dos Klezmatics. Não só em palco, tocando trompete com uma mão e teclados com outra, como fora dele, sobretudo ao falar de forma mais expressiva na mímica, do que na fonética. Lisa Gutkin, violinista, é outro dos principais polos enérgicos. A sua extrema boa disposição e solos flamejantes há muito que já fizeram esquecer Alicia Svigals. Magníficos. Venham cá mais vezes.

Publicado por Luís Rei às 05:19 PM | Comentários (2)

SUSHEELA RAMAN: entre o céu e o inferno

Sons em Trânsito, Teatro Aveirense, 29NOV03

Estiveram duas Susheelas Ramans distintas em palco. Uma etérea de voz límpida e deslumbrante, quando resgata os espirituais indianos. Uma outra terrena, roqueira e assaz vulgar, quando investe pela vertente pop/rock ocidental (de torcer o nariz a temas como “Woman” e à versão de Tim Buckley de “Song To the Siren” que, felizmente, não foi interpretada). Se, durante o festival, assistimos a boa parte de projectos bem melhores ao vivo do que em disco (Ojos de Brujo são o exemplo mais gritante), na actuação de Susheela deu-se o inverso. Não é que os músicos sejam maus, antes pelo contrário. Sam Mills, desde os 23 Skidoo, passando pelo projecto do indiano Paban das Baul e pelos Tama do Guineense Toumani Diakité, é um dos músicos de fusão que mais admiro. O baixo de Hilaire Prenda é também ele todo muito compassado e incisivo, fazendo lembrar o toque peculiar de Jah Wobble. O percussionista guineense, Djanuno Dabo (antigo companheiro de infância de Manecas Costa nos Africa-Livre e actual membro de Tama), é eficaz, apesar da sua sonoridade algo frágil, que tem mais a ver com a delicadeza da kora do que com a força bruta dos djembes. Possui um talento vocal escondido que foi utilizado somente uma vez no belíssimo “Sarasa”. Este homem devia ir mais vezes lá para a frente, assumir parte das despesas. Evoca as fusões norte-sul bem sucedidas, entre a sueca Ellika Frisell e Solo Cissokho, ou entre este músico senegalês e a norueguesa Kirsten Braten Berg.
Ambos exibiram uma certa agilidade sonora, vagueando por ritmos dub, ambientes klezmer, pela beleza acústica da sonoridade mandinga e pelas levitantes ragas (infelizmente a sonoridade de cítara indiana era pré-gravada e repetitiva).
Se Susheela se tivesse limitado à fusão Índia – Universo Mandinga, talvez tivesse tirado melhor proveito da sua actuação e causado bem melhor impressão. Só que, Susheela investiu por várias vezes por universos mais sinuosos, com poses de vocalista de banda de hard rock, totalmente desajustadas para com a música que interpreta. Nesses momentos, sentia-se que não tinha banda para o som que ambicionava apresentar. Aqui, o colectivo revelava todas as suas fragilidades. Além de se notar a ausência de um baterista (onde estavas Tony Allen?), ou de uma percussão mais forte (Dhol do Punjabi, por exemplo), faltavam também os metais e as guitarras estridentes (onde estavas Albert Kuvezin?). Levam trabalho de sobra para casa.

Publicado por Luís Rei às 11:53 AM

dezembro 04, 2003

KIMMO POHJONEN: Clube de combate


Sons em Trânsito, Teatro Aveirense, 28NOV03

O início não poderia ser mais prometedor. Uma viagem de cerca de meia-hora ao centro da terra, à galáxia mais próxima, ao fundo do oceano. Composições sobre compisições que davam a sensação de se tratar de um espectáculo "ad infinitum", sem pausas. A música (?) que sai do fole cromático, amplificado e “loopado”, “samplado” e percutido pelo islandês Samuli Kosminen é feita de contrastes, como o universo visto pela sabedoria oriental milenar que ambos parecem advogar, ou não fossem trajados como verdadeiros samurais, sem sabre. A sua música (?), dizia, oferece-nos o céu e as trevas, granadas e cravos, o sol e a lua, a inquietação e a tranquilidade, a tradição e a improvisação, o yin e o yang. É feita de terrorismo sonoro e de harmonia, de momentos de uma interpretação plena de virtuosismo da folk finlandesa, que descamba de imediato em ruído sónico e em vozes possuídas por demónios, amplificadas por espasmos físicos do músico que tornam a sua actuação tão arrebatadora quanto arriscada. Se há algum nome para descrever violência física, sonora e visual, esse nome já sabem qual é. A sua irreverência, enorme capacidade em andar como um trapezista numa corda sobre um abismo, traz-nos ao nosso imaginário o momento em que num longínquo ano de 80 e tal, Adolfo Luxúria Canibal rasga inconscientemente com uma lâmina uma das pernas. Com Kimmo não foi tão grave. No entanto, não evitou uma lesão no tornozelo que o impediu de realizar espectáculo seguinte em Moscovo. No site dele lê-se: “Dec 6: Moscow Russia - B2 (cancelled due to injury)”.
Mas um concerto de Kimmo Pohjonen é muito mais do que ver um experimentador do acordeão secundado por um manipulador sonoro. O som “surround” e o jogo de luzes adquirem especial importância. Os strobes apontados à assistência violentam-nos. Sentimo-nos como se estivéssemos a desfrutar de um espectáculo de Fura dels Baus (o “Suz o Suz” na Estufa Fria). Leva-se com visceras e mais visceras na cara, ficamos com a roupa toda molhada, mas saímos dali satisfeitos. Kimmo não vai tão longe. Mas a sua atitude em palco, combinado com os sons que extrai do seu acordeão e os efeitos visuais, proporcionam-nos a sensação de termos sido linchados, sem necessidade de limparmos um pingo de sangue ou de reparar uma costela que seja. Quando é que é o próximo combate?

Publicado por Luís Rei às 06:23 AM

novembro 27, 2003

Ojos de Brujo: United Colors of Flamenco

Sons em Trânsito, Teatro Aveirense, 22Nov03

“Incendiaram o palco”. “Deitaram aquilo abaixo”. Lugares comuns que tão bem se aplicam a um projecto que, desde o segundo “round”, agarrou uma plateia e um balcão bastante distinto da noite anterior, composto por estudantes espanhóis do Erasmus, Galegos, rastas, freaks e hippies da tribo “Manu Chao”, etc. Os Ojos de Brujo trouxerem consigo uma verdadeira legião de fãs, conhecedores dos dois discos (“Vengue” e “Bari”) e das letras de algumas canções. Arrepiante a explosiva ovação final. O caso não é para menos. Há muito que não me lembrava de assistir a um espectáculo tão intenso, do primeiro ao último minuto. Sem qualquer tipo de quebra. Partindo sempre de uma base de flamenco e sucedâneos - bulerias, rumbas catalãs (o farol que os ilumina), os Ojos de Brujo parecem barco à deriva em mares tão difusos quanto complementares de funk, hip hop, dub, reggae, à procura da rota marítima para o berço da civilização cigana (a Índia). Lá vêm eles pela milésima vez com mais uma fusão inconsequente. O tempo de Transglobal Underground e de Loop Guru já passou, podiam dizer vocês. Só que, nos Ojos de Brujo, tudo parece perfeito. A alma cigana encontra-se bem presente. Ramon (o guitarrista e uma das principais figuras do projecto) é um músico grande, grande. Toca com o nervo e o virtuosismo daqueles ciganos de leste que animam festas durante dias seguidos. Parte uma corda da sua guitarra e toca como se nada tivesse acontecido. Acompanha com as mãos e todo o corpo, os ritmos demolidores que saem do arrebatador despique de três cajons e de momentos de percussão vocal carnática (que Trilok Gurtu popularizou entre os seguidores da movimentação “asian underground”) em “Zambra”. Já a carismática Marina desdobra-se, ora em pura cantora rumbera, ora em inquieta “rapper”. Uma panfletária de espírito zapatista. Denuncia as injustiças do sistema capitalisa e luta pelos direitos dos sem-abrigo e dos “sem papeis”. É ela o principal elo de ligação entre a nobre tradição andaluz e a cultura de rua, bem amplificada por um baixista tão “swingante” quanto “afunkalhado” (saído picante escola de Kiedis) e por um eficaz MC e domador de pratos. É, aliás, este domínio da cultura de “la calle” numa “Barcelona Zona Bastarda”, onde fervilham tantos e tantos interessantes projectos, que faz dos Ojos de Brujo uma das mais intensas e bem sucedidas propostas de fusão. Excelentes em palco, bons em estúdio.

Publicado por Luís Rei às 03:31 AM | Comentários (1)

novembro 25, 2003

Cibelle: O camaleão e a Leoa

Sons em Transito, Teatro Aveirense, 21Nov03

É com um certo sabor a injustiça que leio algumas críticas ao concerto de Cibelle, na imprensa nacional de referência. Se um diz mata, o outro diz esfola. Houve quem gastasse mais de metade do pouco espaço que tem, para referenciar o extenso rol de azares e problemas técnicos dessa noite. Será que Cibelle garantirá um lugar no Guiness na categoria do concerto mais desastrado até hoje realizado? Houve de tudo: problemas nos microfones, um comprometedor curto-circuito, uma correia de uma guitarra à tiracolo que caiu (como se isso não acontecesse regularmente – vá lá, o guitarrista não partiu nenhuma corda). Só faltou mesmo evocar a carta astral como forma de argumentar que os músicos não deveriam ter saído do hotel naquela noite. Estranho que, quem esboçou tantos pormenores num pequeno texto, não soubesse distinguir um vibrafone de um xilofone, nem tivesse conhecimento de que Suba é o nome de um falecido produtor jugoslavo e não a designação de um projecto musical. O outro escriba disse simplesmente – curto e grosso - que eles valeram zero. Ponto final. É a “puta da subjectividade” em forma.

É certo que Cibelle ainda tem pouca experiência de palco. É certo que o espectáculo teve incidentes a mais, desde falhas contínuas no som dos microfones a um comprometedor curto-circuito que fez parar o espectáculo durante uns cinco minutos. É certo que Cibelle, aqui e ali desafina um pouco e até chega a dar um ar de menina mimada. Mas, gabe-se-lhe o profissionalismo com que foi contornando os problemas que encontrou pela frente; como foi quebrando, um a um, os “galhos” e o gelo da assistência, improvisando, contando pequenas histórias e pegando nas congas, durante o hiato do curto-circuito; como tornou elástica a sua música e a sua actuação, balançando entre a densidade noise das guitarras e dos sintetizadores analógicos e a simplicidade de um violão acompanhando a despida voz de Cibelle, numa singular canção baiana. Apesar de uma certa ingenuidade, Cibelle “agarrou sempre o touro pelos cornos”. Se alguns erros mais se notaram, deveram-se à inquietude, à constante necessidade de experimentação da jovem cantora. Ela que sempre que podia, tinha dois micros na mão. Um de amplificação normal, o outro ligado a um pedal de reverberação, de forma a projectar ecos contínuos na sua voz. Por vezes, sentia-se o espírito Mutantes a rondar por ali.
Cibelle em palco mistura a pele de camaleão com a alma de leoa. A pedalada dela é enorme. As pilhas duram, duram e duram. Pensamos se ela não estará dopada, tal a entrega e ausência de cansaço que demonstrou ao longo de uma hora e meia. A secundá-la, uma discreta e eficiente banda de seis elementos. Meticuloso o egípcio Tarek Abou-Chanab na criação de ambientes densos e oníricos, através do seu vibrafone e de teclados analógicos. O mesmo se pode dizer do guitarrista brasileiro, Filipe Pagani ao mostrar um vasto leque de guitarras languidas, plenas de distorção e wah wah. E do baterista italiano, Vladimiro Carboni, ao exibir um mancial rítmico assaz diversificado, em todo semelhante ao resultado final: uma “middle of nowere village” que cruza ambientes electro-jazz, sombrios e intimistas, acabados de sair dos estúdios berlinenses da editora Compost, algumas pinceladas de bossa nova e de samba revistos a partir da Europa e algum ruído e um certo espírito “screamadélico”. Apesar de tudo, valeu.

Publicado por Luís Rei às 05:10 AM | Comentários (7)

setembro 29, 2003

AS SETE VIDAS DOS DAZKARIEH


Não sei onde é que eles foram arranjar o nome. Mas na capa do disco de estreia deste colectivo lisboeta, pode ler-se que Dazkarieh é "uma palavra mágica de origem praticamente desconhecida. Talvez signifique o arrebatar de energias que se dê quando vários mundos, essências e influências se tocam, capaz de nos fazer fluir por entre momentos intimistas e outros de grande expansividade". Palavras certeiras que funcionam como um adequado "Mission Statement" da banda. Quem os viu a semana passada ao vivo no antigo Cine Plaza da Amadora e quem escuta o seu disco de estreia, é levado pelo ar, por vários universos, como se tivesse sido arrebatado por um furacão que passa repentinamente pelo Mediterrâneo, pela Europa de Leste e por África. A música dos Dazkarieh sente o pulsar do universo. É apátrida e intemporal. Vagueia por todo o lado, por várias épocas, não se fixa em lado nenhum. É um encanto e um arrebatamento de contradições. Assenta na comunhão entre a veia tribal de Filipe Neves, comandante de uma "orquestra" de percussões africanas e a criatividade e a delicadeza harmónica Vasco Ribeiro Casais, em bouzouki, flauta e gaitas. Louve-se o risco e a ambição de criar a música de raiz pelas próprias mãos, sem qualquer repertório de recolha, louve-se a ousadia de nada ecoar a portugalidade (apesar de Vasco prometer explorar as nossas tradições no próximo álbum que estão neste momento a preparar). Mas nem tudo o que luz é ouro. Por vezes, os confrontos entre o tribalismo negro e o "classicismo" da folk europeia ao serviço das antigas casas de dança, é inevitável. Não tanto em disco. Mas mais visível ao vivo. Isso desculpa-se, se atendermos ao facto de os Dazkarieh apresentarem na passada semana sete novos elementos (de onde se destaca o fulgor à irlandesa do violino de Maria Gonçalves), restando apenas os dois elementos e principais mentores do projecto, já referidos. No final do espectáculo houve quem os congratulasse por se parecerem com os Dead Can Dance. Também, mas essa faceta é apenas uma pequena porção do puzzle sonoro que os Dazkarieh apresentam. Há vozes femininas oníricas, que nos levam a deitarmo-nos nas nuvens e a contemplar a terra (qual Lisa Gerrard em Cly). Mas a ligação ao solo, quer através de um certo xamanismo, quer através do poder do tambor e da fantasia medieval-celto-mediterrânica (um pouco ao estilo de Ghalia Benali), ávida de tecnologia para ser o ingrediente perfeito numa pista de dança trance / house, provoca-nos estados de espírito bem mais turbulentos. Um projecto com uma grande margem de progressão que precisa apenas de tornar um pouco mais consistente o seu espectro sonoro, balizando um pouco melhor o raio de inspiração.

Publicado por Luís Rei às 06:10 AM | Comentários (2)

setembro 17, 2003

AT-TAMBUR:A VELHA (NOVA) EUROPA

At-Tambur, teatro Gil Vicente, 13 de Setembro

Gostei de ver os At-Tambur no passado Sábado em Cascais. Além de me ter sido dado a oportunidade de conhecer mais um teatro histórico (o Gil Vicente, tão bonito quanto o Lethes de Faro), o projecto mostrou em palco todas as credenciais de se tratar, actualmente, de uma das mais interessantes propostas nacionais de miscigenação de várias correntes e épocas da folk europeia. Longe vão os tempos em que se limitavam a servir de banda de animação de bailes de música tradicional, popularizados pelo Festival Andanças. Nessa noite assistimos a uma banda personalizada. Que sabe muito bem planear um espectáculo. Foi bonito ver-se a coreografia de duas bailarinas em .Arabesca. e o sapateado à .River Dance. (às três dançarinas só faltou mesmo uma posição mais hirta e conseguirem chegar com os pés à altura das suas cabeças) em .Jig Horizonto / Dança do Urso..
Um jig? Um scotish? Um bourre? Uma mazurca? Não os podem acusar de não serem portugueses. Nem tão pouco de serem irlandeses, suecos ou franceses. Tudo soa a At-Tambur. Com os defeitos e as virtudes relevados em disco e confirmados em palco. Não é por acaso que um projecto que trabalha sobre uma matriz de música tradicional granjeia facilmente a simpatia de uma rádio como a Antena 2, sendo uma presença assídua no programa da manhã de Vítor Nobre. Os At-Tambur, tem uma abordagem clássica do seu repertório, influenciada, certamente, pela rígida formação de alguns músicos, que os torna algo formais. No entanto, a postura em palco de um certo distanciamento, não condiz com a sua vontade de inovar, de reescrever à sua imagem uma dança klezmer (.Israelita.). Sérgio Crisóstomo (violino) e Tiago Costa-Freire (Flautas), dois dos músicos mais bem formados (na escola clássica), foram os principais transgressores do formalismo que o projecto respira. Sérgio, o .carregador de piano. e o principal pirómano, foi impulsionador mor das saudáveis explosões que fizeram levantar o público das cadeiras. Tiago, o criativo que tem asas . ele voa, voa, voa . é o músico vagabundo, de toque nervoso e mais rápido que a sombra. Anda por toda a parte. Ele é uma das principais almas dos At-Tambur. Escute-se os aerofones em .Arabesca. e .Sueca.. Por aqui passa a sede que o colectivo tem de revolução. O Tiago é, pois, a candeia que os ilumina.
Mais discretos, mas não menos importantes, de realçar também o interessante trabalho da dupla bateria e contrabaixo que, em registo jazzístico, estendem o tapete rítmico, com uma grande dose de classe e subtileza, contribuindo decisivamente para a idiossincrasia dos At-Tambur. A cereja em cima do bolo.

Publicado por Luís Rei às 04:51 AM

setembro 12, 2003

FESTA DO AVANTE: DOMINGO, 7SET03

RONDA DOS QUATRO CAMINHOS. Entre o céu e o inferno.

Ver a Ronda dos Quatro Caminhos apresentar ao vivo o disco .Terra de Abrigo. é já motivo mais do que suficiente para nos deslocarmos à Quinta da Atalaia. No entanto, é pena que, devido a questões puramente logísticas e de organização, um espectáculo que em circunstâncias normais seria sublime, acabou por se tornar numa frustrante experiência.

É admirável a forma como a Ronda conseguiu com .Terra de Abrigo. abanar a toda a sua estrutura e os tiques de música .pumba. (expressão inventada por António Pires do Blitz) à volta do ressoar dos bombos e das omnipresentes chulas. Não foi um prédio que caiu e outro que se ergueu dos escombros de uma certa acomodação tradicional-urbana de banda de bar, que se vinha a notar nos últimos discos. Remodelou-se, porém, uma nova fachada, com materiais semelhantes, mas com outras cores bem mais vivas. Não sendo tão ambiciosos no espectáculo como foram no disco . faltaram outras vozes como a Katia Guerreiro e Amina Alaoui, além de uma maior aproximação à música árabe-andaluz . a Ronda cumpriu aquilo que lhe competia fazer. Trouxe para o palco uma orquestra clássica . a Sinfonienta de Lisboa . para proporcionar ao cante alentejano uma maior aproximação entre o céu e a terra. Um puro exercício de levitação que a Ronda arbitrava. Aqui e ali, lá impunha as marcas do passado. Lá vinham as chulas e a dispensável voz de João Oliveira que, apesar de tudo, se conseguia tolerar.

Completamente inexplicável foi a decisão da organização da Festa em programar um concerto destes no pequeno palco do Auditório 1º de Maio. Será que o palco 25 de Abril estaria assim tão inacessível a um projecto responsável por um dos melhores discos de 2003 na área da música tradicional? Apesar de tudo, deu-se um milagre de física. Sessenta pessoas em palco, bem aconchegadas entre si, não foram suficientes para partir o estrado. A bancada da assistência também não caiu por acaso. No meio dos palavrões e dos encontrões (por sorte não chegaram a vias de facto) que alguns membros da assistência de meia-idade iam trocando entre si, devido a questões mínimas do deixa ou não deixa passar lá para cima, não se conseguia escutar NADA. Primeiro, porque estes singelos cidadãos . aptos de imediato a criticar a .malta jovem. do seu mau civismo, seja por que razão for . perturbaram, com um burburinho ensurdecedor, durante mais de um quarto de hora (tempo que demoraram a chegar os Seguranças), todos aqueles que estavam no interior do recinto. Segundo, porque o som também tinha as suas debilidades. As vozes demasiado elevadas, a orquestra demasiado baixa. Além disso, quem estava cá atrás . não se podia ir para a frente dado que a assistência deixou-se ficar sentada, não se levantando para permitir aqueles que ficam engalfinhados na entradas, pudessem também ir lá para dentro . levava com um som enrolado, de lata. Resta-nos a expectativa de vermos este espectáculo numa sala apropriada para a dimensão do projecto, com condições técnicas decentes e com um público minimamente educado. Tenho esperança que isso aconteça no CCB, no princípio do próximo ano.


REALEJO. A menina dança?

A seguir à Ronda, foram os Realejo que, apenas com cinco elementos, encheram e de que maneira o palco do Auditório 1º de Maio. Parece que Fernando Meireles concretizou aquilo que deixara subentender no tema final do primeiro disco .Sanfonia. (a .Cantiga 216.) e que desenvolvera a espaços no álbum seguinte, .Cenários.. O Realejo deixou a carapaça de frágil projecto folk de câmara, para se tornar numa banda de dança semi-acústica. A filiação Blowzabella continua a mesma. A inspiração subversiva dos Hedningarna assume-se de vez. A portugalidade no meio das composições de folk europeia para Sanfona também continua bem vincada, sobretudo nas mãos de Amadeu Magalhães. A grande surpresa que os Realejo agora apresentam é a ausência do violoncelo de Ofélia Ribeiro e a inclusão de um baixista que não se limita a marcar passo. Ele torna a música do Realejo muito mais .swingante.. Houve quem dissesse que o Realejo parecia os Shooglenifty. As raízes de ambos são bem distintas. Contudo, o projecto de Coimbra ganhou uma certa cavalgada rítmica, semelhante à desses escoceses. Pena é que o espectáculo não tenham durado mais do que uns míseros trinta e tal minutos. Soube a muito pouco.


GALANDUM GALUNDAINA E CRISTINA PATO. A desorientação à portuguesa

Houve, por parte da organização, uma tentativa desenfreada de cortar a direito, apesar dos atrasos habituais que vinham de trás. Esta não deixou a Ronda fazer o encore (o que motivou assobiadelas por parte da assistência), limitou o tempo de actuação do Realejo que acabaram de tocar às 17h25. A ideia era que não houvesse nenhuma actividade durante o discurso de Carvalhas que começou às 18h. Até aqui tudo bem. Horários são para cumprir e há que cortar a direito para recuperar o tempo perdido. O próximo concerto nesta sala começava às 19h30. Só que, a essa hora e, até às 20h30, não houve direito ao programado concerto de Galandum Galundaina. Houve sim sound checks dos músicos que vinham a seguir aos mirandeses. O facto de estes só começarem a tocar uma hora depois do previsto, alterou substancialmente aquilo que tinha programado: ver Galandum até pouco depois das 20h e ir para o palco 25 de Abril assistir a parte substancial de Cristina Pato. Tive azar. Se o Auditório 1º de Maio manteve nos três dias atrasos de uma hora, o 25 de Abril foi sempre certinho. Acabei por ver uns dez ou quinze minutos do primeiro e mais uns dez da segunda. Tive pena de ter perdido o resto de Galandum, porque exibiram a sua habitual genuinidade. O falar mirandês, a raça bruta das gaitas, do tamboril, dos bombos e das flautas pastoris. Levaram também consigo uma sanfona para interpretarem romances (dado inédito). Não tive pena nenhuma da Cristina Pato e arrependi-me de ter vindo para cima. A menina que ainda é muito verde (não de cabelo, que desta vez exibia a cor natural, mas de cabeça . isso notava-se no discurso dela) é bem pior em palco do que nos discos. Já sabia que fazia um misto de rock com folk galego. Só que há folk rock e folk rock. Resentidos e Siniestro Total são uma coisa, aquilo que Cristina Pato apresentou é outra. Bem distinta. Rock FM dos anos 80, pesado, xunga e sensaborão, ao serviço dos solos da gaiteira. Imaginem o cruzamento entre os Def Leppard e o Carlos Núñez. Prefiro mil vezes a Susana Seivane.

Publicado por Luís Rei às 06:28 PM

setembro 10, 2003

FESTA DO AVANTE: SÁBADO, 6SET03


CantAutores


DANÇAS OCULTAS. A magia das concertinas

No Sábado, cheguei e já os Danças Ocultas estavam em cima do palco do Auditório 1º de Maio. Perdi Segue-me À Capela. Mas a cerca de meia-hora que assisti do espectáculo das quatro concertinas encheu todas as medidas. São mágicas estas oito mãos. Como quem não quer a coisa, lá vão deambulando entre uma contemplação nostálgica de travo klezmer, servida entre um excerto sensual de bel-musette parisiense, ou entre uma composição mais lúdica que nos remete para a memória do espírito experimental e folião dos Verd e Blu da Gasconha. Volta e meia, puxa-se pelo fole, retira-se-lhe o sopro, marca-se o ritmo com a concertina como se esta fosse um baixo. Dá gosto ver a coordenação em palco dos quatro músicos. Parecem uma equipa profissional de ciclismo. Um a um, cada elemento vai à frente do pelotão puxar por ele. O esforço é bem doseado. Sabem revezar-se. Tudo isto com uma linearidade notável, embuído num espírito hipnotizante de chill-out. Damos por nós e perguntamo-nos: - O quê, já tocaram meia-hora? A .máquina. é orgânica, bem oleada, contemporânea e global. É, talvez, o projecto-lusitano-extra-vozes-de-fado que mais facilmente pode rodar pelos principais festivais europeus de músicas do mundo.

BRIGADA VÍTOR JARA. Metais de baixa

Foi dos poucos espectáculos que vi no palco principal (o 25 de Abril), gozando excepcionalmente de um concerto a começar à hora certa. Como sempre, Manuel Rocha exibiu todos os seus dotes de orador nato. Na Festa estava como peixe dentro de água, explicando (mais uma vez) a génese do nome do projecto que comemora o seu 30 aniversário, com a história do cantor chileno Vítor Jara que morreu nas garras de Pinochet. Foram, uma vez mais tudo aquilo que já tinha referido no rescaldo do Intercéltico do Porto . A única diferença é que o Sexteto de Tomás Pimentel estava tão lá atrás do extenso palco, que mal se escutava. Parecia que o som das percussões (sobretudo estas) e dos restantes instrumentos da Brigada estavam muito mais alto do que o dos metais. Perderam-se os pequenos grandes pormenores que fizeram da actuação no Intercéltico um espectáculo memorável. De facto, uma sala ou um técnico, fazem uma grande diferença.

CANTAUTORES: O nervo da canção

De novo no Auditório 1º de Maio e com um certo atraso. Que agradável surpresa foram os CantAutores. O álbum homónimo que lançaram este ano através da Associação Cultural D.Orfeu, com sede em Águeda, é um bom cartão de visita que reflecte bem o espírito do projecto em Palco. Repescando repertório de José Afonso, Fausto e Sérgio Godinho, Luís Fernandes (o director musical) evita os lugares comuns destes ícones da canção portuguesa, optado por um repertório maioritariamente menos divulgado. Sem serem muito inovadores, denota-se um certo cuidado nos arranjos orquestrais, ora mais clássicos, ora mais jazzísticos (às vezes, algo inspirados pela bossa nova . o começo de .Europa Nova Europa.). Salta ao ouvido a proximidade tímbrica entre Luís Fernandes e Fausto e entre Miguel Callaz e José Afonso, o bom gosto dos .vientos. (que expressão engraçada inventada pelos espanhóis): fagote, clarinete, trombone e flautas. Tudo isto regado com uma atitude de entrega ao espectáculo louvável, sobretudo da parte de Luís Fernandes, a transcender-se na interpretação da balada .Por Que Me Olhas Assim. e, sobretudo, em .Sete Mulheres do Minho. (que, infelizmente, não faz parte do alinhamento do disco), fazendo levantar da terra boa parte da assistência que se encontrava sentada. Um espectáculo sempre em crescendo que teve o seu climax maior com .um Homem Novo Veio da Mata., no encore. Outros destaques: .Barnabé. e .O Rei Vai Nu. (ambos de Sérgio Godinho).

Publicado por Luís Rei às 03:28 PM

FESTA DO AVANTE: SEXTA-FEIRA, 5SET03

Já não ia à Festa do Avante há alguns anos. A falta de nomes internacionais que me motivem a sair de casa tem sido uma constante. Este ano não foi excepção. Só que, esta 27ª edição dava-me a oportunidade de ver num só fim-de-semana uma mão cheia de grupos portugueses. Conhecer finalmente as Tucanas e os CantAutores. Ver pela primeira vez em palco a magia de Danças Ocultas. Reviver bons momentos do Cantigas do Maio e do Intercéltico do Porto, com as algarvias Moçoilas e a Brigada Vìtor Jará, acompanhada do sexteto de metais de Tomás Pimentel. Saborear ao vivo aquele que é um dos grandes discos da colheita de 2003 de música portuguesa: ?Terra de Abrigo?, da Ronda dos Quatro Caminhos?. Verificar a evolução do Realejo que, além de ter sofrido mudanças na sua formação, tem trilhado caminhos mais dançáveis, pondo de lado a anterior estética mais classicista.

TUCANAS. No início era o tambor.

A noite de sexta-feira foi aziaga. Tinha saído de casa pouco antes das nove, com esperança de ainda ver a Filipa Pais. Só que a ponte 25 de Abril e a falta de estacionamento na Amora não me deixou chegar antes das dez e meia. Mesmo a tempo de ver as Tucanas de início. Elas que arrastam consigo uma considerável audiência que sobrelotou o Auditório 1º de Maio, onde era dificílimo de entrar, em parte, por culpa daqueles que se sentavam no chão, roubando espaço ao interior e provocando um ajuntamento caótico nas saídas. Uma constante nos restantes dias.
Com uma agenda de concertos sobrecarregada e sem qualquer disco gravado, as Tucanas constituem um verdadeiro fenómeno de popularidade, construída palco a palco. O ?grupo de percussão criativa?, como elas próprias se autodefinem, apresenta-se extremamente bem oleado. Irrepreensíveis ao nível coreográfico. Sente-se que há trabalho de casa exaustivo (e quilómetros de estrada em cima), quer quando estão a bater na chapa e no plástico, quer quando vêm para a frente do palco e percutem com as mãos nas pernas, no peito e nos braços umas das outras. Bonito de se ver. O projecto é ambicioso. Explora ritmos tribais do coração de África. Resgata aos anos 80 o espírito pós punk e industrial de Neubauten e de Test Dept. Ecoa a Japão, através dos tais bidons de plástico, tocados como se fossem gigantes taikos. O ritmo é tribal, é ancestral, é primário, é agressivo e arrebatador. É lúdico, inocente e infantil. Como conceito é excelente. Só que, nestes moldes, dificilmente farão um disco audível do princípio ao fim, a não ser que convidem outros músicos, com outros instrumentos (aerofones e cordofones). Ah! Já agora, trabalhem mais essas vozes, sff!


MOÇOILAS. O encanto rural

Injustamente, as Moçoilas foram vítimas dos atrasos e do mau alinhamento do palco do Auditório 1º de Maio, tocando para dezenas de pessoas, num espaço que pouco antes tinha rebentado pelas costuras. Os resistentes, esses, regozijaram com a graça das Mêçoilas na sua interpretação idiossincrática da tradição de repertório oral, maioritariamente, oriundo da Serra o Caldeirão. Singelas, donas de um divino encanto rural, de um delicioso sotaque do sul e um humor fresco e alcoviteiro, as quatro vozes enchem todo o palco. Instrumentos para quê? Não Precisam. Elas entram de mansinho, metem a primeira, segunda, terceira, quarta, quinta e disparam com um corridinho. Além de recuperarem repertório regional, as Mêçoilas chegam mesmo a adaptar versos para a realidade urbana actual (dando conta de vizinhas que vêem o canal 18) e propositamente para a Festa do Avante, cantando uma espécie de cartão de visita. Que pena não ter a letra aqui à mão. Levem-nas para o estrangeiro que elas merecem.


MARIA ALICE para quê complicar?

Não gostei de Maria Alice, apesar da calorosa voz desta. O desfilar de mornas e coladeras provenientes sobretudo do seu último disco, ?Lágrima e Súplica?, foi frio e distante do pouco público. Nota-se que há bons músicos, mas a atitude destes é demasiado previsível. Tentam construir uma sonoridade sumptuosa. Para quê um baterista e um percussionista na mesma banda? É que o som é demasiado linear para tanto aparato. De vez em quando, lá se chega à frente o guitarrista. Com um solo excessivamente cerebral, pouco emotivo. É a típica banda de animação nocturna, cujo fraque que envergam prende-lhes os movimentos. Oxalá perdessem metade da ?cagança? e tocassem com os pés descalços e de fato de macaco.

Publicado por Luís Rei às 04:50 AM

setembro 05, 2003

A CLASSE ECONÓMICA DE KEPA JUNKERA


Finalmente escrevo sobre o concerto de Kepa Junkera que ocorreu no passado fim de semana, na Fábrica da Pólvora. Não há dúvida que a Internet veio revolucionar a forma como se comunica e se informa. Poucas horas após o evento já circulava pela lista de discussão das Crónicas da Terra várias opiniões ao concerto do Kepa, muito tempo antes de qualquer jornal poder exibir o seu artigo (curiosamente, coisa que não vi em nenhuma publicação).
Daí que, passado quase uma semana e após várias críticas e refutação de críticas de assinantes e das opiniões veiculadas em blogs como a Janela Indiscreta e o Juramento Sem Bandeira, a minha visão acaba por ser muito redutora e complementar. No entanto, há muitos aspectos extra do concerto-de-sábado-à-noite que merecem ser abordados. Vamos por pontos.

1. Foi um concerto em crescendo, que não acrescentou nada àquilo que já tínhamos visto em outros palcos. Começou morno, acabou menos morno. Kepa continua a exibir todo o seu virtuosismo, mas desta vez houve menos gozo (além de o ouvir) em vê-lo tocar. Na Fnac, nos showcases que deu por altura do lançamento de Bilbao 00:00h, foi muito mais acutilante e imprevisível. Tocava com muito mais nervo. Sozinho, com a sua trikitixa, oferecia-nos um espectáculo simples, mas cheio de vitalidade e espontaneidade. Um regalo para os nosso olhos e ouvidos. Aquilo que se viu no Sábado, parece ter sido mais um (entre tantos outros) concerto de um músico cansado, acompanhado por outros músicos (à excepção da dupla de percussão basca - txalaparta - Oreka TX. Vale a pena ler o que o Vítor Junqueira escreveu sobre eles) senão cansados, vulgares, que se limitaram apenas a encher o palco e a música. Apesar de ter logo aos primeiros acordes o público consigo, Kepa abusou da interacção com o público. Momentos houve de uma certa graça quando ele, ao fazer de maestro, conseguia coordenar as palmas do público com o ritmo do baixo e da bateria (outro facto bastante comentado na lista de discussão). Mas devia tê-lo feito com brevidade. A sua acção arrastou-se, o que quebrou, de certa forma, o crescendo que se sentia no concerto de Kepa, enquanto belíssimo instrumentista.


2. A Fábrica da Pólvora tem sido palco em outros anos de espectáculos menos conseguidos de outros nomes que já tocaram por diversas vezes em Portugal. Estou a lembrar-me, por exemplo, do espectáculo do ano passado dos Rádio Tarifa. Não gostei mesmo nada. Além do vento insuportável que batia nos microfones, a guitarra eléctrica estava demasiado alta, comparativamente com o resto dos instrumentos. Em Maio deste ano, em Mértola, voltei a conciliar-me com a Rádio Tarifa. Por que será?

3. É certo que as Câmaras Municipais não nadam em dinheiro. Ao programarem concertos, tentam fazê-lo pagando o mínimo cachet possível. As bandas, porque necessitam de vender concertos para sobreviverem, aceitam.

4. Como o Nuno Barros dizia na lista de discussão, trazem ?uma versão portátil? daquilo que habitualmente fazem. Eu digo que se trata de uma versão económica. Há quem prefira em Portugal tocar apenas duas vezes por ano e cobrar três ou quatro mil contos por concerto. São opções. Mas a realidade dos músicos mais rodados da folk europeia é bem contrária. É obrigatório tocar, no mínimo, 200 a 300 vezes por ano, tendo de suportar um pouco de tudo: más condições técnicas, maus cachets, público que não sabe ao que vai, etc, etc, etc. Um desgaste tremendo que facilmente origina noites menos conseguidas.

5. Apesar da actuação de Kepa Junkera ter sido a que foi. A possível. Pena é que não tivesse havido interesse de nenhum jornal em cobrir o evento. Além de Kepa ser uma das principais figuras da folk europeia, acabou de lançar um duplo álbum ao vivo, denominado K que é, seguramente, o melhor disco da trilogia marítima Bilbao 00h00-Maren -K. Porque é o consumar do espírito exploratório dos dois anteriores álbuns. Onde há mais coesão e menos desequilíbrios. É estranho que isso aconteça a quem já recebeu elogios rasgados por diversos órgãos de imprensa nacional em Bilbao 00h00. Provavelmente, a editora ainda não enviou o disco para as redacções, nem marcou entrevistas.

6. Na lista de discussão, argumentou-se a falta do bandolim e do contra-baixo como uma das razões de um concerto menos conseguido nessa noite. Argumentou-se ainda que os músicos que tocam em Espanha são os mesmos que tocaram em Portugal. Isso poderá acontecer em alguns casos, no entanto, há concertos e concertos de Kepa. Depende da classe. Se é económica (como acima foi referido) ou se é executiva (como aconteceu nas três noites de Bilbao, onde K foi gravado). Quem o viu no sábado ficou com uma pálida ideia do que é o duplo álbum K.


O instrumento Alboka

7. Pelo que me foi possível escutar de K (alguns temas sacados no Soulseek), existe uma séria tentativa de criação de uma orquestra étnica (bem conseguida em muitos casos), como ponto interessante de disfarçar a limitação da trikitixa enquanto instrumento reconhecida pelo intérprete. Brilhantes os metais dos canadianos Bottine Souriante em Herrik Shaw. Interessante o duelo trikitixa vs mandolin com Patrick Vaillant (que tem habitualmente tocado em duo com um outro intérprete de concertina, o italiano Riccado Tesi). Onírico, a conjugação das vozes búlgaras (que talvez tenham demasiado protagonismo ao longo dos dois discos), com o Grupo coral basco Donostia e a Orquestra de Cordas Alos Quartet. Destaque ainda para a sonoridade da alboka de Ibon Koteron, mais um instrumento tradicional basco. Aerofone pastoril, constituído por dois chifres de vaca, com um conjunto de buracos entre eles e que produz uma sonoridade drone, tão ressonante quanto a sanfona. A propósito de Alboka, vale a pena conhecer um outro colectivo basco que se apresenta com o mesmo nome do instrumento. A escutar os álbuns de Alboka, Bi Beso Lur e Lorius.

Publicado por Luís Rei às 03:12 PM

julho 30, 2003

CHICO CÉSAR: UM ‘SANDOKAN’ EM TONDELA

O Familycat foi a Tondela ver o Chico César e saiu de lá encantado. Escreveu um pequena apreciação ao evento e publicou-o no Fórum Sons. Pedi-lhe para ‘postar’ esse testemunho aqui. Ele só podia dizer que sim.

Estive ontem em Tondela no lindíssimo espaço da ACERT onde ele deu um concerto encantador. Apenas ele, três violões, um humor contagiante e conversa delirante com um público primeiro curioso, depois surpreendido e, logo a seguir, completamente rendido.

O concerto recuperou o formato “Voz, Violão e Você” (em detrimento da banda completa, e ainda bem) idêntico ao que se encontra no clássico Aos Vivos. Só deu CHICO: uma figurinha atarracada, com aquele cabelo à Sandokan-depois-de-ter-enfiado-a-cabeça-na-turbina-de-um-Boeing-747, uma túnica negra e vermelha sem mangas, três violões, uma vontade enorme de conversar (fala pelos cotovelos: antes, depois, entre as canções, comenta as letras e os acordes, improvisa…), um rebuliço em palco que quase parece uma figura de desenho animado. One man show como já não se vêem muitos.

Começou, como já é hábito, apenas com a sua voz a interpretar Béradêro e, antes que nos recompuséssemos, já estávamos todos a cantar e dançar Mama Africa e a sussurrar À Primeira Vista. Praticamente, correu quase tudo de Aos Vivos e várias coisas do Cuzcuz Clã e seguintes. No meio de toda a festa, apenas achei que podia ter arriscado mais coisas do último Respeitem Meus Cabelos, Brancos que é, de longe, o melhor álbum de estúdio que ele gravou. Foi pena não ouvirmos Pétala Por Pétala ou Flor do Mandacaru.

Não tivemos a NÉ LADEIRAS mas a galega UXÍA subiu ao palco para um dueto seguida de uma maravilhosa FILIPA PAIS que partiu todos os corações da plateia ao cantar Onde Estará o Meu Amor. O momento mágico da noite.

Pelo meio ainda celebrou ZECA BALEIRO (Pedra de Responsa), JACKSON DO PANDEIRO (Sebastiana) e - depois de dois encores e com o público com muito pouca vontade de o deixar ir embora - CAETANO VELOSO com Irene a encerrar um medley final (eu quero ir minha gente / eu não sou daqui).

Magnífico! Não percam se tiverem a oportunidade de o ver ao vivo. (Familycat)

Publicado por Luís Rei às 10:28 PM

FESTIVAL RAÍZES DO ATLÂNTICO: UMA SEREIA EM MAR AGITADO


O Funchal recebeu, durante toda a semana que passou, a quinta edição do Festival Raízes do Atlântico. Como tantos outros, sofre as agruras dos orçamentos municipais ou governamentais disponíveis que, atendendo à conjuntura actual, tendem a ser mais curtos. Quem não tem cão caça com gato. Além de um nome de luxo – Cesária Évora – o evento contou com a participação de um grande contigente madeirense – Encontros da Eira, Pipi Noir e Xarabanda – e de um projecto a capella de Sintra (agradável surpresa estes Officium) que trabalha boa parte do espólio madeirense recolhido pelo projecto de Rui Camacho (Xarabanda).

A excelência da folk europeia


Na última noite, os catalães L’Ham de Foc exibiram todas as credenciais de um projecto a jogar nitidamente na liga dos campeões europeus da folk europeia, em contraste com os escoceses Mac Umba, divertidos mas tecnicamente limitados a militar na 2ª divisão B.
Custa a acreditar que os festivais do continente não tenham “pegado” nestes valencianos. Além de terem dois álbuns tão interessantes quanto complexos (“Cançó de Dona i Home” de 2002, bem melhor que “U” de 1999), a banda também é grande, muito grande, ao vivo. Num festival de entrada gratuita, repleto de espectadores acidentais, foi notório o enorme respeito por quem estava em cima do palco. Coisa que raramente acontece nos festivais de maior dimensão e de bilhetes (bem) pagos. Momentos houve, de pausa, em que se escutou... silêncio. Nem se ouvia tão pouco o vizinho do lado a falar. Nem as crianças a brincar ou a chorar. Nada. Foi bonito de se sentir. Para isso contribuiu o extremo profissionalismo dos músicos e dos técnicos de som e de luzes que conseguiram transformar metal em ouro, graças à simpatia de ambos e de uma notável disciplina em palco a fazer lembrar projectos indianos Ghazal, cujos mestres de cítara indiana acordavam diariamente os protagonistas por volta das três da manhã, para estes praticarem o instrumento.
A receita parece ser simples. À beira do mediterrâneo procura-se um ponto de contacto entre o contemporâneo e o medieval, colocam-se todos os ingredientes provenientes de Creta, do norte de África, da Pérsia, da folk italiana, albanesa e búlgara num único caldeirão. Serve-se tudo em bandeja de prata, num banquete que requer mais talheres do que uma refeição imperial. É impressionante a forma como os vários instrumentos vão desfilando ao longo de uma hora de êxtase. Há cordas para todos os gostos: alaúdes, sanfona, cavaquinho, mandola, cítara, saltério, bouzouki. Há “vientos” (como eles dizem): gaita galega, búlgara, dolçaina, didgeridoo, clarinete e outro tipo de aerofones aparentados com a bombarda bretã e o duduk arménio. Há também muita percussão: darbuca, bendir, pandeireta, menuda, tamborina de cordas e tablas. Excelente os cinco minutos de fama de Diego López, a sós com as tablas. Mas é em Efrén López e Mara Aranda que gira todo o universo dos L’Ham de Foc. Ele é a artéria que bombeia o sangue para toda a criação. Ela, a alma que ilumina esta viagem do fantástico à intemporal pangeia mediterrânica. Quando é que é mesmo o próximo concerto dos L’Ham de Foc?

Samba com whisky

A seguir, os Mac Umba tinham por missão oferecer-nos a boda de um peculiar “casamento” entre as gaitas escocesas das terras altas e a percussão brasileira em andamento de samba. Humanamente são do melhor que há. Tecnicamente, não escondem a limitação harmónica e rítmica. Pobres em cima de um palco, ricos a animar uma festa de rua.

Mais música menos palavra

Na passada quinta-feira, a instituição madeirense Xarabanda, que tem feito um trabalho incansável de recolha e de formação de novos músicos, não gostou da forma como a organização os recebeu. Um dos interlocutores, Rui Camacho, fez estalar o verniz. Queixou-se do som da organização, da falta de apoios monetários para as bandas madeirenses (só faltou chamar-lhes cubanos), a um repórter mais habituado a transcrever declarações dos intervenientes e da assistência, do que propriamente a escrever um parágrafo que seja de análise ao concerto. É verdade que houve problemas de som, mas Rui Camacho terá de olhar primeiro para a forma caótica como é montado um espectáculo dos Xarabanda. Gabo-lhes o mérito de apresentaram uma verdadeira orquestra de cerca de uma dezena de violas de arame e rajões, tocados por alunos da sua associação. Há (novas) vozes femininas apreciáveis, um bom mestre de cerimónias (Roberto Moniz). Mas é intolerável a forma como se perde tempo a entrar e sair do palco em cada canção, quebrando toda a possível dinâmica de um espectáculo pensado para ir crescendo momento a momento. Como é possível não sair de nove ou dez músicos em cima do palco um rasgo mais ousado de criatividade, quebrando a linearidade como denominador comum?
No final, a machadada final na nossa paciência. Com todo o respeito pela Dona Isabel Gonçalves, que é uma das fundadoras dos Xarabanda... mas não deveria esta senhora tocar percussão e cantar apenas fora dos palcos? Assim é difícil que o mar passe a ponta de São Lourenço, como deseja Rui Camacho. Vai continuar a bater e a voltar para trás.

Publicado por Luís Rei às 12:32 AM

abril 08, 2003

13º Intercéltico do Porto: Sinal Menos

MERCEDES PEÓN

Quem tinha a obrigação de defender um dos mais interessantes álbuns de folk editados recentemente, não podia apresentar um concerto destes. A actuação de Mercedes Peón foi a negação de tudo aquilo que “Isué” (o excelente álbum) representa: a diversidade da música tradicional galega aberta a miscigenações árabes e navegando aqui e ali por águas britânicas. O som não era o melhor, é certo, com total prejuízo para as gaitas e para a voz secundária. Mas, a constante opção por converter todos os temas num formato rock algo saudosista de guitarra eléctrica estafada e um baixo intensamente decalcado que, em vez de marcar o ritmo de forma discreta, tornou-se numa presença omnipresente e de grande protagonismo. Já alguém dizia que juntar comida boa com comida estragada, dá comida estragada e não comida assim-assim. Foi o que aconteceu. Nem zumbidos de sanfona, nem um pouco da riqueza dos instrumentos locais feitos com matéria natural (pinhas, conchas, etc). Apenas uma ENCHADA e uma pedra num batuque incipiente. Tudo, ou quase tudo foi remetido para o formato básico guitarra-baixo-bateria, com alguma gaita e pandeireta à espaços. Se quiséssemos escutar rock galego, ficaríamos bem melhor servidos com grupos como os Ressentidos ou os Siniestro Total.

Publicado por Luís Rei às 03:58 PM

13º Intercéltico do Porto: Sinal Intermitente (2)

SHANTALLA

Foram vítimas da gritante falta de público no primeiro dia e da inesperada ausência da vocalista (e “bohdran player”) escocesa, Helen Flahenty. Não fizeram gala das mortíferas mudanças de tempo entre “jigs” e “reels”, que exibem nos seus dois discos editados pela belga Wild Boar Music (para breve, uma recensão crítica a “Seven Evenings, Seven Mornings”), acabando por se tornar nuns filhos de um Druída menor. Faltou vivacidade, alguma técnica sobretudo às uillean pipes de Michael Horgan e um melhor entrosamento entre o quarteto e a vocalista-bombeira contratada para a ocasião: Niamh Parsons, dona de uma excelente voz, que já esteve no Intercéltico há uns sete anos atrás com os Arcady. Ela que é uma representante da facção de mais clássica da folk das ilhas britânicas, trouxe sobretudo maior serenidade ao grupo, quando deveria incutir exactamente o contrário. Mais um colectivo que não deixou saudades.

Publicado por Luís Rei às 03:55 PM

13º Intercéltico do Porto: Sinal Intermitente

GAITEIROS DE LISBOA

A noite foi aziaga para os Gaiteiros de Lisboa. O som não era o melhor. E o acerto dos aerofones também não. O factor novidade também não se fez sentir, num espectáculo que não acrescentou pouco acresentou às actuações da Aula Magna e de Sendim, já lá vai quase um ano. As percussões (mais um momento magnífico de José Salgueiro secundado por Paulo Charneca) e alguns dos temas de “Invasões Bárbaras” (como “o Menino Está na Neve”, “Lhoba”, “Nós Daqui Vos Dali”) foram a espaços despertando, mais pela técnica da força, do que pela força da técnica, o interesse da audiência que enchia a plateia (a tribuna encontrava-se vazia) do Coliseu. No entanto, alturas houve em que os Gaiteiros iam passando completamente ao lado do público, que não deu pelo rebentar do “Macaréu” nem pelo chilrear do pardal. Talvez por isso não tenha havido “Trângulo Mângulo” nem tão pouco “Subir Subir”, no encore. Apesar de este ter sido um concerto desinspirado e, talvez, pouco ensaiado, tal facto não mancha o estatuto de melhor e mais audacioso projecto de música de cariz tradicional em Portugal. No entanto, momentos destes não ajudam nada quem já devia, há muito, ter-se afirmado no circuito de folk / world europeu. Com um pouco mais de consistência que se consegue com mais ensaios, doseando melhor a criatividade e passando para um patamar técnico um pouco mais elevado, os Gaiteiros de Lisboa podem tornar-se, finalmente, numa das bandas de ponta da folk europeia. Sofrem um pouco do síndroma de alguns génios do futebol português: muito criativos e sedutores mas, por vezes, pouco eficazes.

Publicado por Luís Rei às 03:52 PM

13º Intercéltico do Porto: Sinal Mais (2)

FOUR MEN AND THE DOG

Privados do seu entretainer mor, Gino Lupari, os irlandeses Four Man and The Dog, fizeram pela vida e mostraram-nos aquilo que melhor sabem fazer: cruzar o melhor da música tradicional irlandesa com algum bluegrass americano e algumas pinceladas de rhythm & blues (poucas). Sem efectuarem um espectáculo que prometera ser vistoso e interacção com o público, os músicos refugiaram-se na execução de mortíferas danças polkas, jigs e reels, com o bodhram a marcar os ritmos de constantes e deliciosos despiques entre violino e banjo (por vezes eram dois). Apesar de o banjo nos fazer saltar à memória os saloons, os chapéus de cowboy e as vertiginosas perseguições de cavalos, o banjo, como fez questão de frisar, Gerry O’Connor tornou-se um instrumento muito popular na Irlanda, devido à acção de Barney MacKeena dos Dubliners. Para o final, o grupo reservou-nos uma nova leitura de “Music For Found Harmonium” de Simon Jeffs, provavelmente o tema não tradicional mais interpretado por bandas folk, num registo assaz acelerado e repleto de emotividade, numa tríade violino-acordeão-guitarra de encher a alma.

Publicado por Luís Rei às 03:43 PM

13º Intercéltico do Porto: Sinal Mais

BRIGADA VÍTOR JARA

Na antevisão, dizia-se que apesar do rigor, elegância e seriedade, a Brigada Vítor Jara dificilmente conseguiria apresentar arranjos arrojados do cancioneiro nacional. Pois enganei-me redondamente. Com a responsabilidade de abrir o festival e perante uma plateia despida de público (no primeiro dia), a Brigada deu provavelmente o melhor concerto que me recordo de ter visto deste colectivo. Arriscaram e trouxeram o sexteto Tomás Pimentel, com quem estavam a trabalhar há cerca de cinco dias, para o seu novo discon que, pelo que aqui foi revelado, promete. Se o colectivo da Brigada já é enorme, imagine-se mais uma meia dúzia de músicos em cima do palco. Uma verdadeira big band de cerca de 20 elementos que, apesar de não ter solistas, foi trabalhando o legado de mais de três décadas de canções com o requinte de um joalheiro habituado a manusear peças de filigrana, ora através de arranjos jazzísticos subtis que davam uma visão tridimensional ao legado popular, eficazmente acompanhado pelo pianista de serviço (que borrava um pouco o quadro quando optava pelos tapetes ambientais do sintetizador), ora em registos contidos de fanfarra. Um regalo para os ouvidos. Manuel Rocha, o porta-voz do grupo manteve a sua postura de excelente mestre de cerimónias, quer apresentando com à vontade os temas que se iam sucedendo, quer borrifando a assistência com um certo humor mordaz, ao explicar a génese do nome da banda, afirmando que tinham optado pelo lado dos “maus”, já que na outra trincheira estava o General Pinochet. Ainda sobre a situação crítica que se vive actualmente, Manuel Rocha afirmava ter um certo receio «de plantar um campo de trigo nas Lajes, pois temia ser vítima de danos colaterais». Mais do que pertencer a determinado eixo, a Brigada fez questão de frisar que pertence a «meio qualquer coisa».

Publicado por Luís Rei às 03:38 PM

13º Intercéltico do Porto: Sinal Mais Mais

ALTAN

Que melhor banda poderia escolher a organização para fechar com chave de ouro mais uma edição do Intercéltico senão, provavelmente, o melhor colectivo irlandês da nova geração (apesar de estes já contarem com cerca de 20 anos de estrada)? Embora os mais recentes registos discográficos já não tenham a frescura e o efeito surpresa daqueles de há dez / quinze anos atrás (como por exemplo “Red Crow” ou “Island Angel”), os Altan, perante a plateia e tribuna do Coliseu praticamente cheios, cedo começaram a desferir golpes certeiros com sets de “jigs” e “reels”, causando a rendição imediata do público que nem sequer regateou aplausos eufóricos de pé, logo no segundo embate, num Intercéltico que até aqui ainda não tinha fervido verdadeiramente de emoção como em outros anos. A arma secreta dos Altan reside no toque certeiro, ágil e contagiante do acordeonista “voador”, Dermot Byrne, mais rápido do que a sua própria sombra, em infernal despique com os violinos inflamados de Mairead, a mentora e vocalista do colectivo de Donegal, e Ciarian Tourish. Razão tinham os antigos cristãos noruegueses em queimar tal instrumento por o considerar obra do demónio. Para por água na fervura, Mairéad alterna as danças demoníacas com baladas onde o seu registo vocal parece já não ser o mesmo de há uns anos atrás (ou pelo menos aquele que escutamos nos discos), no entanto é suficiente para nos transmitir a ideia de paraíso na terra, depois de experimentarmos o Inferno. Brilhante.

Publicado por Luís Rei às 03:30 PM

13º Intercéltico do Porto: Sem romper com a tradição

Longe da euforia dos outros anos, O Intercéltico completou a sua 13ª edição com um contigente notável de músicos irlandeses, sem bretãos, onde também se notou a ausência da continuidade das festividades em tons oficiais. Sim porque a festa continuou no Valentino’s com membros dos Galundum Galundiana.
Apesar de a primeira noite ter sido algo despida de público (será a crise? será a sobre oferta de espectáculos musiais? Será o facto de o Intercéltico ter este ano começado a uma quinta-feira?), o último dia que oferecia os Altan como cabeça de cartaz devolveu a animação e entusiasmo de edições anteriores. Apesar de este ano não ter havido a abertura a outros horizontes como aconteceu o ano passado com a tunisina Ghalia Benali (e em outros anos com Värttinä (Finlândia), Garmarna (Suécia) e Muziskás (Hungria), pela boa saúde do festival, as Crónicas da Terra recomendam que se retome tal prática, alargada a leste (Kroke, Vasmalom, Besh’o’Drom), aos países nórdicos (Frifot ou qualquer projecto que envolva Ale Möller e Lena Willemark, Kimmo Pohjonen, Mari Boine) ou ao novo sangue britânico (Malinky – Escócia, Ferhill – Gales, Poozies – Inglaterra, Swap – Inglaterra / Suécia). LR

Publicado por Luís Rei às 03:24 PM