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outubro 21, 2005

[entrevista]Chango Spasiuk: voar no fole

Pôs o chamamé nas bocas do mundo. Depois de um espectáculo único no Porto, regressa a Portugal para participar no II Festival Internacional de Acordeão de Torres Vedras. Chango Spasiuk abre o evento no próximo dia 4 de Novembro.

Nem só de tango é pintada da tradição argentina. Há vida no domínio do fole para além do Mestre Piazzolla. Chango Spasiuk é, a par de Raul Barboza, um dos expoentes máximos do chamamé, a tradição rural que anima os bailes das regiões do norte da Argentina de Corrientes e Missiones. "Amigo íntimo" do vanerão, rancheira e milonga do Sul do Brasil.

Chango é acordonista há cerca de 20 anos. Já editou mais de meia-dúzia de álbuns na Argentina. Mas a Europa só o conhece há cerca de um ano, por via do primeiro lançamento internacional, "Tarafero de Mis Pagos", editado pela etiqueta alemã Piranha, que lhe valeu o prémio revelação dos "World Music Awards" da BBC Radio 3.

- O álbum "Tarefero de Mis Pagos", editado pela editora alemã Piranha, é o seu sétimo disco. Foi devido a este trabalho que a BBC lhe atribuiu o Prémio "newcomer". Não acha exagerado atribuírem um prémio revelação a quem já editou sete discos e a quem já tem mais de 20 anos de carreira?

- Creio que a BBC premiou-me não apenas por este disco, mas por uma série de situações que revelam a minha música e a minha proposta.
Tenho vinte anos de carreira, a história do chamamé é grande e profunda, mas sou novo nesse circuito europeu das músicas do mundo.

- O que é a conquista de um prémio desta natureza representa em termos de carreira musical? Mais concertos? Maior notoriedade?

- Mais uma oportunidade de alguém que nunca teve contacto com o chamamé prestar atenção a esta música e que a sinta como nova.

- O tango e o bandoneon de Astor Piazzolla são conhecidos em todo o mundo. O chamamé só agora se está a notabilizar por via do seu trabalho. Muito poucos são aqueles que conhecem a obra de Raúl Barboza. A que se deve esta sobre-exposição do tango e a ignorância quase total que os europeus têm do chamamé?

- Bom, historicamente o tango teve um desenvolvimento muito grande, durante todo o Século XX. Desenvolveram-se as orquestras, a dança, o cinema… no topo de todo este desenvolvimento, encontra-se Piazzola que, penso, esgotou todas as novas possibilidades estéticas desta música.
Toda a nossa música folclórica não tenha tido um desenvolvimento colectivo com essas características. Somente figuras individuais como Mercedes Sosa e Dino Saluzzi. Quanto à ignorância que existe na Europa relativamente ao chamamé, garanto-lhe que é uma questão de tempo. Talvez nunca chegue a ser uma música de massas. Na própria Argentina, existe um grande desconhecimento de todo este universo do qual se escuta apenas uma parte.

- Será que a pouca divulgação do chamamé tem a ver com o facto de este género musical ter sido desprezado pela gente dos grandes centros urbanos dado tratar-se de música rural e de indígenas (dos Mbya-Guaranis)?

- Pode ser.

- No chamamé que interpreta há semelhanças muito próximas com o tex-mex que o Flaco Jimenez toca, e com algum forró do nordeste brasileiro. A raiz é europeia, ambas são músicas rurais e de animação de bailes. O que é que as distingue?

- São músicas rurais, mestiças e que se dançam. O que têm em comum é o acordeão, desde o de botões ao de piano. Mas no chamamé há mais elementos africanos nos ritmos 6/8 e 3/4. Também convivem juntamente a alegria e a melancolia sem estarem separadas. Digo sempre que o chamamé é uma música desgarradamente alegre. Isto faz com que seja uma música menos linear.

- Há quem diga que consegue pintar a terra vermelha e toda a vegetação de Corrientes com o seu acordeão. Será que a sua música é o reflexo do meio-ambiente de onde é proveniente?

É impossível que uma só pessoa, um só acordeão, possam expressar todo um universo que compreende Missiones, Corrientes, Entre Rios, Chaço, Santa Fé, Formosa, Sul do Brasil e parte do Paraguai. Tão pouco, quero crer que sou o seu representante. Simplesmente, este mundo onde nasci e onde me criei, encontra-se dentro de mim e reflecte-se na minha música. Às vezes subtilmente, às vezes descaradamente.

- "Tareferos de Mis Pagos" é um álbum que, além de revelar toda a alma do chamamé e intensidade com nos transmite os cheiros, o calor e a humidade de Corrientes, procura inovar um estilo musical rural. Quando é que sentiu necessidade de dar arranjos mais sofisticados à música que sempre interpretou?

Foi uma busca pessoal e de caminhos paralelos. Num dos caminhos, sou uma ferramenta que cumpre uma etapa da história do chamamé, no outro tomo essa linguagem para expressar-me e ir atrás de necessidades pessoais e artísticas, que às vezes necessitam de arranjos complexos. Outras vezes de um desenvolvimento que se quer simples. Para mim, não há conflito entre tradição e vanguarda.

- Agora que tem uma carreira internacional mais intensa, o que é que mudou na direcção musical dos seus concertos para audiências internacionais?

- Nada mudou. O repertório e a formação continuam os mesmos: além do meu acordeão, há duas guitarras, dois cajons e percussão, um violino e um bandoneon. Estou mais atento e assumo com mais responsabilidade a oportunidade de mostrar esta música e de estar à altura das palavras de Atahualpa Yupanqui quando nos diz: “el arte es uma antorcha que usan los pueblos para ver la bellesa en el camino”.

- Vê-se num futuro próximo a participar num projecto multinacional e avant-garde, como por exemplo algo próximo de Accordion Tribe? Era capaz de aliar o seu acordeão com a electrónica, à semelhança do que o finlandês Kimmo Pohjonen tem feito nestes últimos anos?

- Estou sempre aberto a muitas coisas. Associa-se sempre vanguarda a algo de complexo e confuso. Para mim, vanguarda é poder fazer algo de construtivo para os que me rodeiam. Procurar algo que nos alimente e que seja intemporal. Como disse Kadinsky, “la obra que en el futuro en vês de decir yo fui… seguirá diciendo yo soy”.

Publicado por Luís Rei às outubro 21, 2005 06:11 PM

Comentários

Foi uma excelente notícia saber que Chango Spasiuk vem a Portugal. Tomei conhecimento da sua existência e do seu trabalho de forma fortuita, no canal Mezzo, vai para quatro anos. Tratava-se de um documentário fantástico cujo propósito foi reunir Chango, Raúl Barboza e Tilo Escobar, três grandes intérpretes argentinos do Chamamé. Desse documentário guardo, em especial, o momento em que os três se reencontraram em casa de Chango (Raúl Barboza vive em França) para tocarem em conjunto uma música que me deu prazer descobrir e sentir, e que aconselho a escutarem.
A imagem que tenho de Chango é a de uma pessoa especial, que nos fala da "sua" música e da sua vida de uma forma que nos cativa e nos faz sentir mais humanos.

Merece a pena conhecer a sua página na internet. Também na internet se poderá encontrar outras entrevistas a respeito da sua vida e carreira musical (em http://www.voxpopuli.com.ar/diario/chango.shtml, por exemplo).
Vê-lo em Portugal será uma oportunidade a não perder.
Encontramo-nos no Porto?

Publicado por: Francisco Pimenta às junho 1, 2005 02:29 AM