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agosto 05, 2005
Intercéltico de Sendim arranca mais logo com os Mu

Tactequete, o bizarro grupo de percussão que se apresenta em Sendim com Eliseo Parra
Este é, sem dúvida, um ano de cartazes ambiciosos. À semelhança do FMM de Sines, também o Intercéltico de Sendim apresenta este ano o seu cartaz mais extenso e mais consistente. Mas nem por isso aquele que apresenta o projecto mais forte de sempre deste certame. Esse, é de origem sueca - Hedningarna - e passou por Tierras de Miranda na 5ª edição deste Intercéltico. Se bem que também não assentasse nada mal semelhante título aos castelhanos La Musgaña (que se apresentaram na mesma edição de 2004).
Este ano, por opção da organização, o festival centra-se nas tradições ibéricas (não havendo por isso as habituais incursões pelas ilhas britânicas), com o norte de Espanha a dominar claramente a contenda. Apesar de tudo, há mais uva e menos parra. Isto é, ao que parece, evitam-se projectos mais verdes como Antubel ou Liorna que se apresentaram em 2002 e aposta-se em nomes mais consistentes (se atendermos ao conjunto das seis propostas que actuam no palco principal - Parque das Eiras).
Mu, projecto de um almadense - Hugo Osga - sediado no Porto, vencedor do concurso de novos valores da folk nacional, "Arribas Folk", encarrega-se de dar início a esta sexta edição. Com um disco de estreia na bagagem para promover recentemente editado ("Mundanças"), os Mu são actualmente um dos projectos mais interessantes que se movimentam no ciclo das danças tradicionais europeias. Quem teve oportunidade de os ver (ainda) ontem à noite no Andanças, saboreou um projecto que, apesar de praticamente não interpretar repertório português, reinventa com mestria danças balcânicas e eslavas, com o seu toque surreal e de banda roufenha, nómada e circence.
Num contexto em que se cola muito facilmente ao som balcânico a Kusturica, de referir que a fantasia dos Mu está muito mais próxima de um Jean-Pierre Jeunet, do que do músico-realizador Sérvio. A banda portuguesa perfeita para trabalhar na banda sonora de um novo "Delicatessen".
Quanto aos La Bruja Gata são, provavelmente, a banda folk da comunidade madrilena mais interessante depois dos La Musgaña. A sua música é apátrida, apesar de soar a Europa do Norte e também de certo modo a Berrogüetto, assenta sobretudo no acordeão de Javier Palancar e no clarinete de José Rámon, para além da intrincada sanfona de Rafa Martín, um dos membros fundadores de La Musgaña. Sobre eles recaem as melhores expectativas.
Já Xosé Manuel Budiño, poderá revelar-se a desilusão deste festival. Ninguém põe em dúvida a sua exímia técnica no domínio da Gaita de Foles. A Carlos Núñez também não... e no entanto... palavras para quê?
O grande medo desta actuação de Budiño centra-se, essencialmente, no seu último disco, "Zume de Terra", onde o gaiteiro galego mescla a tradição da região onde nasceu com ritmos electrónicos e samplers étnicos. Algo já pisado e repisado pelos Transglobal Underground, Loop Guru e demais pandilha da Nation Records.
No dia seguinte e depois de uma tarde animada no palco Mirai Qu'alforjas (ver programa completo), sobem ao palco Sons da Terra os Les Violines da Catalunha. Curiosa formação de música tradicional europeia (e não só) onde, como próprio nome indica o violino é rei pela acção de três instrumentistas. Facto que não invalida de contarem também com um percussionista, acordionista e contra-baixista. Além de muitos ecos da tradição nórdica de Kaustinen (Finlândia) e Dalarna (Suécia), destaque para o assombroso mix de composições dançáveis da La Bottine Souriante.
Seguem-se os asturianos N'Árba. Parecem-me bons músicos, mas falta-lhe o factor novidade. Seguem a linha folk da sua região, dominada por uma grande velocidade de execução e linha melódica muito próxima das ilhas britânicas, com demasiados ecos escoceses. Algo que também já está intrincado na indentidade de projectos asturianos como Llan de Cubel e Llangres.
O melhor guarda-se para o fim. Eliseo Parra, músico veterano que já grava desde 1971 e que já passou por Portugal em duas ocasiões (através do Mestiçal Peninsular da d'Orfeu e do Sete Sóis Sete Luas), é, não só, uma das vozes mais expressivas de Espanha, como um dos mais estudiosos e interessantes músicos do outro lado da fronteira. Veio do rock, participou em projectos de jazz, foi companheiro de Maria del Mar Bonet e de Paxariño e já recriou praticamente todo o tipo de repertório de todas as regiões de Espanha. Desde a música sefardita da Andaluzia, ao legado basco com colaborações interessantes com Oskorri e Alboka. A complementar a presença deste "monstro" que procura sempre a inovação sem se perder em lugares comuns, a troupe de percussão exótica catalã Tactequete, que deve levar três baterias para cima do palco e um sem-número de pequenos instrumentos capazes de recriar todo o tipo de sons da selva. Das plantas aos animais. É a cereja em cima do bolo.
Programa completo
Dia 5 - Palco Sons da Terra (Parque das Eiras): Mu (Porto) - 22h, La Bruja Gata (Madrid) - 23h, Xosé Manuel Budiño (Galiza) - 24h.
Dia 6 - Palco Sons da Terra (Parque das Eiras): Les Violines (Catalunha) - 22h , N'Arba (Astúrias) - 23h, Eliseo Parra + Tactequete (Castela, Leão) 24h;
Palco Mirai Qu'Alforjas (Largo da Igreja): Fiesta de Los Rigaleijos (Tierra de Miranda) - 16h30, La Bandina'l Tombo (Astúrias) - 17h, Ritual Mágico-Céltico (Astúrias) - 21h30, Gaiteiros de Moimenta (Vinhais) 22h;
Taberna dos Celtas (Caminho do Prado): Biba La Gaita! Ui! - 01h30
Dia 7 - Igreja Paroquial (Largo da Igreja): Coro de Canto Gregoriano de Penafiel - 14h00
Taberna dos Celtas (Caminho do Prado): Biba La Gaita! Ui! - 01h30 + Gaiteiros de Moimenta (Vinhais)
Publicado por Luís Rei às agosto 5, 2005 09:42 AM