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agosto 17, 2005
2005 - ano louco de concertos 'trad' #1

Ali "Farka" Touré no Keil do Amaral - o concerto do ano | (c) Mário Filipe Pires
Aos poucos, começo a recompor-me do louco período que percorre todo o mês de Julho e as duas semanas de Agosto. Se as férias foram feitas para descansarmos sobretudo o físico posso assegurar-vos que voltei ao trabalho muito mais cansado. Em três semanas, apanhei os dois primeiros dias do Africa Festival do Keil do Amaral. Fui ao Raízes do Atlântico do Funchal. Saí do avião vindo da Madeira para pegar de imediato no carro e zarpar para Sines. Os quatro dias e os 14 concertos (não fui a Porto Covo assistir a 34 Puñaladas) que vi na costa litoral alentejana deixaram-me literalmente atordoado. Foi, de facto, muito difícil dormir em Sines mais do que 4 horas por dia. Daí só ter conseguido chegar ao Andanças na Quinta-feira (e não na Terça conforme tinha previsto). Na sexta, lá fiz mais uns 250 kms rumo a Sendim (que mais parecem cerca de 500 kms), onde passei o Sexta-feira e o Sábado.
A experiência do Andanças foi tão arrebatadora que ainda lá voltei no Domingo, dia de encerramento. Na semana seguinte descansei na serra algarvia e acabei por não ter forças para ir a Porshes / Lagoa, à segunda edição do Sons do Atlântico, nem a Blasted em Tavira, nem a Mandrágora em Faro. Espero poder ver-vos o mais brevemente possível.
De entre cerca de cinco dezenas de espectáculos, destacam-se quase todos os momentos do FMM de Sines, sobretudo Amadou & Mariam, logo na primeira noite, pela virtuosa guitarra do maliano, pela tão coesa junção do casal negro com os restantes elementos de pele branca. Uma deliciosa caldeirada que combina com mestria a matriz das várias tradições da África Ocidental pulverizada de aromas pop, funk, electro e outros devaneios da música (extremamente) dançável do Hemisfério Norte, sem nunca descaracterizar o sabor do principal ingrediente.
Houve ainda o carrossel fantasmagórico de KTU que, apesar de não constituir nenhuma surpresa para quem já viu ao vivo o projecto Kluster, ganha e muito (em intensidade) com a inclusão dos dois ex-King Crimson; as mil e uma cores de Astrid Hadad que, em sessenta minutos, nos ofereceu um show de cabaret de deboche barato, um humorístico comício anti-Bush e um banho de cultura mexicana através de um infindável desfilar de trajes exageradamente kitsch; a ascenção à interzone com a Master Musicians of Jajouka, a fragilidade e a nudez (em que se viram mesmo os ossos) de Lula Pena.
Uns dias antes, os Zigaia (a banda de “covers” da tradição europeia dos quatro elementos dos Dazkarieh), o melhor do que vi no Funchal, mostram como pode ser livre e intensa a forma de pegar nas polskas, valsas e demais danças tradicionais europeias comummente interpretadas nos bailes deste circuito, instigando-nos também a ir tirar o pó aos discos dos Väsen e dos Hedningarna.
Na noite anterior ao embarque para o Funchal, o Anfi-teatro Keil do Amaral recebeu destacadamente o concerto do ano (muito provavelmente o da década). Ali Farka Touré fascina não só pela forma abrasadora e muito pessoal de tocar guitarra eléctrica, mas sobretudo pela forma de estar em palco (recuso-me a falar em pose). O largo sorriso que parece de um anjo a viver no paraíso. O chapéu que lhe parece dar um carisma e uma força semelhante ao cabelo de Sanção. Todas as suas expressões têm uma musicalidade muito própria que enriquecem sobremaneira a actuação do “mayor” de Niafunké. E nem é preciso falar nas mãos de seda de Toumani Diabaté…
[continua]
Publicado por Luís Rei às 11:42 PM | Comentários (0)
agosto 05, 2005
Intercéltico de Sendim arranca mais logo com os Mu

Tactequete, o bizarro grupo de percussão que se apresenta em Sendim com Eliseo Parra
Este é, sem dúvida, um ano de cartazes ambiciosos. À semelhança do FMM de Sines, também o Intercéltico de Sendim apresenta este ano o seu cartaz mais extenso e mais consistente. Mas nem por isso aquele que apresenta o projecto mais forte de sempre deste certame. Esse, é de origem sueca - Hedningarna - e passou por Tierras de Miranda na 5ª edição deste Intercéltico. Se bem que também não assentasse nada mal semelhante título aos castelhanos La Musgaña (que se apresentaram na mesma edição de 2004).
Este ano, por opção da organização, o festival centra-se nas tradições ibéricas (não havendo por isso as habituais incursões pelas ilhas britânicas), com o norte de Espanha a dominar claramente a contenda. Apesar de tudo, há mais uva e menos parra. Isto é, ao que parece, evitam-se projectos mais verdes como Antubel ou Liorna que se apresentaram em 2002 e aposta-se em nomes mais consistentes (se atendermos ao conjunto das seis propostas que actuam no palco principal - Parque das Eiras).
Mu, projecto de um almadense - Hugo Osga - sediado no Porto, vencedor do concurso de novos valores da folk nacional, "Arribas Folk", encarrega-se de dar início a esta sexta edição. Com um disco de estreia na bagagem para promover recentemente editado ("Mundanças"), os Mu são actualmente um dos projectos mais interessantes que se movimentam no ciclo das danças tradicionais europeias. Quem teve oportunidade de os ver (ainda) ontem à noite no Andanças, saboreou um projecto que, apesar de praticamente não interpretar repertório português, reinventa com mestria danças balcânicas e eslavas, com o seu toque surreal e de banda roufenha, nómada e circence.
Num contexto em que se cola muito facilmente ao som balcânico a Kusturica, de referir que a fantasia dos Mu está muito mais próxima de um Jean-Pierre Jeunet, do que do músico-realizador Sérvio. A banda portuguesa perfeita para trabalhar na banda sonora de um novo "Delicatessen".
Quanto aos La Bruja Gata são, provavelmente, a banda folk da comunidade madrilena mais interessante depois dos La Musgaña. A sua música é apátrida, apesar de soar a Europa do Norte e também de certo modo a Berrogüetto, assenta sobretudo no acordeão de Javier Palancar e no clarinete de José Rámon, para além da intrincada sanfona de Rafa Martín, um dos membros fundadores de La Musgaña. Sobre eles recaem as melhores expectativas.
Já Xosé Manuel Budiño, poderá revelar-se a desilusão deste festival. Ninguém põe em dúvida a sua exímia técnica no domínio da Gaita de Foles. A Carlos Núñez também não... e no entanto... palavras para quê?
O grande medo desta actuação de Budiño centra-se, essencialmente, no seu último disco, "Zume de Terra", onde o gaiteiro galego mescla a tradição da região onde nasceu com ritmos electrónicos e samplers étnicos. Algo já pisado e repisado pelos Transglobal Underground, Loop Guru e demais pandilha da Nation Records.
No dia seguinte e depois de uma tarde animada no palco Mirai Qu'alforjas (ver programa completo), sobem ao palco Sons da Terra os Les Violines da Catalunha. Curiosa formação de música tradicional europeia (e não só) onde, como próprio nome indica o violino é rei pela acção de três instrumentistas. Facto que não invalida de contarem também com um percussionista, acordionista e contra-baixista. Além de muitos ecos da tradição nórdica de Kaustinen (Finlândia) e Dalarna (Suécia), destaque para o assombroso mix de composições dançáveis da La Bottine Souriante.
Seguem-se os asturianos N'Árba. Parecem-me bons músicos, mas falta-lhe o factor novidade. Seguem a linha folk da sua região, dominada por uma grande velocidade de execução e linha melódica muito próxima das ilhas britânicas, com demasiados ecos escoceses. Algo que também já está intrincado na indentidade de projectos asturianos como Llan de Cubel e Llangres.
O melhor guarda-se para o fim. Eliseo Parra, músico veterano que já grava desde 1971 e que já passou por Portugal em duas ocasiões (através do Mestiçal Peninsular da d'Orfeu e do Sete Sóis Sete Luas), é, não só, uma das vozes mais expressivas de Espanha, como um dos mais estudiosos e interessantes músicos do outro lado da fronteira. Veio do rock, participou em projectos de jazz, foi companheiro de Maria del Mar Bonet e de Paxariño e já recriou praticamente todo o tipo de repertório de todas as regiões de Espanha. Desde a música sefardita da Andaluzia, ao legado basco com colaborações interessantes com Oskorri e Alboka. A complementar a presença deste "monstro" que procura sempre a inovação sem se perder em lugares comuns, a troupe de percussão exótica catalã Tactequete, que deve levar três baterias para cima do palco e um sem-número de pequenos instrumentos capazes de recriar todo o tipo de sons da selva. Das plantas aos animais. É a cereja em cima do bolo.
Programa completo
Dia 5 - Palco Sons da Terra (Parque das Eiras): Mu (Porto) - 22h, La Bruja Gata (Madrid) - 23h, Xosé Manuel Budiño (Galiza) - 24h.
Dia 6 - Palco Sons da Terra (Parque das Eiras): Les Violines (Catalunha) - 22h , N'Arba (Astúrias) - 23h, Eliseo Parra + Tactequete (Castela, Leão) 24h;
Palco Mirai Qu'Alforjas (Largo da Igreja): Fiesta de Los Rigaleijos (Tierra de Miranda) - 16h30, La Bandina'l Tombo (Astúrias) - 17h, Ritual Mágico-Céltico (Astúrias) - 21h30, Gaiteiros de Moimenta (Vinhais) 22h;
Taberna dos Celtas (Caminho do Prado): Biba La Gaita! Ui! - 01h30
Dia 7 - Igreja Paroquial (Largo da Igreja): Coro de Canto Gregoriano de Penafiel - 14h00
Taberna dos Celtas (Caminho do Prado): Biba La Gaita! Ui! - 01h30 + Gaiteiros de Moimenta (Vinhais)
Publicado por Luís Rei às 09:42 AM
agosto 03, 2005
FMM de Sines # 15 - Konono nº1

Konono nº1 | © FMM/ Mário Pires 2005

Konono nº1 | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 04:47 AM
FMM de Sines # 14 - Kíla

a voz e o bodhrán tribal de Rónán Ó Snodaigh | © FMM/ Mário Pires 2005

Dee Armstrong | © FMM/ Mário Pires 2005

Colm Ó Snodaigh | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 04:36 AM
FMM de Sines # 13 - KTU

Kimmo Pohjonen possuído pelo demónio | © FMM/ Mário Pires 2005

A guitarra Warr de Trey Gunn | © FMM/ Mário Pires 2005

Kimmo Pohjonen | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 04:33 AM
FMM de Sines # 12 - Master Musicians of Jajouka

Entrando na Interzone com o M M of Jajouka | © FMM/ Mário Pires 2005

Master Musicians of Jajouka | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 04:26 AM
FMM de Sines # 11 - Samurai 4

Samurai 4 "will rock you" | © FMM/ António Melão 2005
Publicado por Luís Rei às 04:23 AM
FMM de Sines # 10 - Ba Cissoko

Ba Cissoko | © FMM/ Mário Pires 2005

A kora electrificada | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 04:20 AM
FMM de Sines # 9 - Hermeto Pascoal

a música de Hermento Pascoal segura o mundo | © FMM/ Mário Pires 2005
Palavras a reter do encontro da Capela:
Este canto vem de longe
A distância não sei dizer
Salve,salve a toda a gente
Que vive e deixa viver
Aqui vai o meu abraço
Com o Som e o Saber
Tirando da própria mente
As palavras pra dizer
A Música segura o Mundo
Enquanto a gente viver
Publicado por Luís Rei às 04:09 AM
FMM de Sines # 8 - Astrid Hadad

Astrid Hadad e o banho de cultura mexicana| © FMM/ Mário Pires 2005

Astrid Hadad dominadora | © FMM/ Mário Pires 2005

A "bushofóbica" Astrid Hadad encarnando, provavelmente, a rebeldia de Pancho Villa | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 04:01 AM
FMM de Sines # 7 - Marc Ribot & The Young Philadelphians

Marc Ribot | © FMM/ Mário Pires 2005

Jamaaladeen Tacuma | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 03:53 AM
FMM de Sines # 6 - Lula Pena

O bater acelerado do coração, a fragilidade e a nudez de Lula Pena | © FMM/ Mário Pires 2005
Publicado por Luís Rei às 03:49 AM
FMM de Sines # 5 - Mahala Raï Banda

Mahala Raï Banda | © FMM/António Melão 2005
Publicado por Luís Rei às 03:46 AM
FMM de Sines # 4 - Amadou & Mariam

Amadou & Mariam | © FMM/António Melão 2005
Publicado por Luís Rei às 03:43 AM
FMM de Sines # 3 - Mostar Sevdah Reunion + Ljiljana Buttler

Ljiljana "Grand Mama" Buttler | © FMM/António Melão 2005
Publicado por Luís Rei às 03:31 AM
FMM de Sines # 2 - Cristina Branco + Brigada Victor Jara + Segue-me à Capela

A pose roqueira de Cristina Branco | © FMM/António Melão 2005

A Cantiga do Bombo e a Brigada | © FMM/António Melão 2005

Catarina Moura da Brigada e das Segue-me à Capela | © FMM/António Melão 2005
Publicado por Luís Rei às 03:11 AM
agosto 02, 2005
FMM de Sines #1 - Terra de Descobertas

Noite de Sábado no Interior do Castelo de Sines | © FMM/António Melão 2005
Nunca um slogan turístico traduziu tão bem a realidade de uma pequena cidade do litoral alentejano que tem só 642 anos de história e é só a cidade-berço de Vasco da Gama. Sines é, de facto, uma “Terra de Descobertas”. Há mais de quinhentos anos, dali partiram navegadores que tornaram África e Ásia bem mais perto da Europa. De há sete anos a esta parte, continuam a traçar-se rotas que têm desbravado mares, montanhas e estepes longínquas. Se há pormenor que caracterize o FMM de Sines, talvez o maior seja a capacidade que a programação tem de surpreender pela positiva a maior parte daqueles que vão à descoberta de sonoridades desconhecidas. Ao falarmos com boa parte da assistência que desconhece as terminologias “folk”, “world music”, “músicas do mundo” e os seus protagonistas, facilmente percebemos que a grande maioria diz ter visto bons concertos, apesar de não conhecer a maior parte dos projectos em cartaz.

Palco da Avenida da Praia às 4h da manhã | © FMM/António Melão 2005
Não é da boca para fora que pessoas como Álvaro Costa consideram o FMM de Sines como o melhor festival de música em Portugal (que vai da folk / world ao pop / rock). Senão vejamos:
- O FMM de Sines deixou, há muito tempo, de ser um festival restrito ao público das músicas tradicionais, para se tornar num ponto de peregrinação obrigatória dos principais festivais de verão;
- Mescla com mestria artistas da tradição com uma abordagem jazzística, experimental ou roqueira e artistas provenientes do art rock e do jazz que dão novas tonalidades às músicas locais, o que faz com que haja uma convergência saudável de públicos;
- Há um saudável gosto pelo risco por parte de quem faz o alinhamento dos três dias de festival, apostando por vezes em artistas praticamente desconhecidos como cabeças-de-cartaz (caso de Amadou & Mariam no primeiro dia);
- Nesta edição (e nas últimas) não houve projectos para encher cartaz. É tão forte quem fecha a noite como quem a abre;
- A organização tem a dimensão de um grande festival pop /rock de Verão, proporcionando os mais variados serviços, como gabinete de imprensa, catering para artistas, jornalistas e convidados e não está (ainda) infestado de “cromos” das “cadernetas” do social;
- A organização está atenta ao mais pequeno detalhe. Além do bom som e da largueza de palco que caracterizam os concertos do castelo, há ainda a realçar a disposição de ecrãs de alta definição dentro e fora do recinto, a colocação de hortelã e outras ervas no piso evitando o banho de pó habitual em outros espaços, a preocupação em renovar a imagem dos cenários, do logótipo e de todo o merchandising (que belas t-shirts laranjas, azuis, cremes e castanhas) alusivo ao FMM de Sines.

Na noite de Sábado, muita gente ficou à porta do Castelo sem bilhete de entrada | © FMM/António Melão 2005
Em suma, o FMM de Sines é um óptimo “case study” para um trabalho de Marketing que tente analisar a anormal afluência de um público (cada vez mais massificado e que, provavelmente, não é cliente habitual de concertos de música tradicional) que cresce assustadoramente de ano para ano.
Fica uma interrogação: - Como poderá o FMM de Sines crescer de modo a responder à crescente adesão de público que tem sobrelotado o Castelo e composto de sobremaneira a Avenida da Praia, de modo a não deixar ninguém de fora, sem se descaracterizar?
Publicado por Luís Rei às 10:58 PM