« Questionário de Músicas do Mundo (perg. #482) | Entrada | Fale com o Tom Zé no Forum Sons »

junho 21, 2005

[entrevista] Masters Musicians of Jajouka: o rock com quatro mil anos de existência

A trupe marroquina das montanhas Rif, Masters Musicians of Jajouka, é uma das principais atracções da noite que encerra o FMM de Sines (a 30 de Julho). Recupero uma entrevista com Bachir Attar publicada na extinta revista "On", na altura de lançamento do registo "Masters Musicians of Jajouka featuring Bachid Attar".

Depois de Brian Jones e Bill Laswell é a vez do indiano Talvin Singh gravar e produzir, provavelmente, o clã musical mais antigo do mundo. Apesar da tecnologia e das tablas empregue pelo anglo-indiano, os Master Musicians of Jajouka mantêm intacta toda a sua aura de misticismo e hipnose de uma música de transe capaz de curar moribundos.

Marrocos tem sido durante este Século XX um verdadeiro ponto de passagem e inspiração para artistas das diversas artes. Mark Twain, Jack Kerouac, Paul Bowles, William Borroughs, são alguns dos homens da escrita tocados nas suas obras pelas culturas árabe e berbere à beira Atlântico.

Em 1958, o pintor Brion Gysin descobriu, perto de Tanger, os Master Musicians of Jajouka durante as festividades de um dos eventos sagrados destes berbéres. O Pan Festival em memória de Bou Jeloud, um Deus animal representado nas cerimónias sagradas através de um figurante metade bode, metade homem (um pouco à selhança do mito grego do Minotauro) que dança freneticamente e cujo ritual anual propicia maior saúde aos aldeões. Gysin captou o espírito e a magia destes músicos de transe que, revezando-se, conseguem tocar interminavelmente durante dias.

Uma década depois, Brian Jones dos Rolling Stones aterra nesta aldeia berbére para registar aquele que seria o primeiro disco oriundo de Marrocos editado no mundo ocidental: "Brian Jones Presents The Pipes of Pan At Jajouka". Bachid Attar, filho do antigo líder Hadj Abdesalam Attar que herdou a chefia de um clã musical com mais de 600 anos revela que «ele ouviu cassetes gravadas pelo Brain Gyson e adorou. Disse-lhe que tinha de ir a essa vila e trabalhar na música. Gravou mais de 7 horas da nossa actuação, como se estivéssemos a tocar nas cerimónias da nossa aldeia, foi para Londres onde estava a trabalhar num disco dos Rolling Stones e aí mostrou a nossa música ao resto do grupo. Misturou o álbum e editou-o, em 71, pela editora deles.»

A partir daqui, o universo de Bachir Attar e dos Master Musicians Of Jajouka ampliou-se consideravelmente. Desde ha séculos, «a nossa música tem sido oferecida como oferenda aos sucessivos reis de Marrocos. Sempre serviu para celebrar actos de extrema importância para o nosso povo como casamentos, nascimentos, circuncisões e tomadas de trono».

São estes possantes ritmos e harmonias hipnóticas interpretadas através de instrumentos como ghaita (espécie de oboé), percussão, flauta e gimbri (alaúde de três cordas) que conferem aos cerca de 50 músicos que constituem o clã o estatuto de mágicos e curandeiros. É, à semelhança da tradição gnawa dos sufis uma música «que comunica com os espíritos, de forma a curar e a abençoar pessoas. Quando tocamos sentimos os nossos antepassados o tempo todo, porque esta música de família é um presente que nos foi oferecido por eles.»

Depois de mais de doze anos de estrada pelos quatro cantos do mundo, de outras visitas notáveis a Marrocos efectuadas por Bill Laswell que produziu o segundo disco do grupo "Apocalypse Across The Sky" e de Bachir Attar ter residido em Nova Iorque, onde gravou com Maceo Parker e tocou, por exemplo, com Lee Ranaldo dos Sonic Youth, é natural que os horizontes deste berbére agora sejam outros: «ao longo da minha vida, tudo tem influenciado o meu trabalho: a beat generation, o rock'n'roll, o jazz. O Brian Jones foi o primeiro a querer juntar a música de Jajouka à ocidental e à de diferentes culturas. Foi o primeiro com a mente aberta para a música marroquina. Através dele, conheci e toquei com muita gente do rock e do jazz, como o Ornette Coleman, os Rolling Stones no álbum "Steel Wheels". Também conheci os Aerosmith, os Guns N'Roses. Estive no Woodstock de 94 e toquei lá com o Santana.»

É por isso normal que Talvin Singh, mestre anglo-indiado do "tabla'n'bass", tenha subido as montanhas Rif para captar, uma vez mais, toda a aura de misticismo que envolve uma sonoridade, segundo Bachid, que não se cansa de pegar nas palavras de Burroughs, «soa a uma banda de rock'n'roll com 4000 anos de existência».

Talvin Singh, considerado por Bachir Attar «uma benção divina, integrou-se no clã e conduziu o processo sem restrições». É que «existe uma ligação histórica entre minha família que tem raízes indianas de há centenas de anos e Talvin Singh. É por isso que neste disco tocamos a música dos Jajouka com tablas. Houve uma ligação forte entre nós. É difícil encontrar alguém que perceba aquilo que fazemos. O Talvin trouxe o estúdio para a nossa aldeia e gravou a nossa música, tocou percussão, levou os registos para Londres e convidou-me a ir com ele, de forma a trabalharmos em estúdio. Neste álbum apenas três canções foram registadas integralmente na nossa aldeia, sem qualquer tratamento posterior, o resto do disco foi todo trabalhado no estúdio em Londres.»

Após esta experiência com Singh, Bachir Attar planeia gravar um disco a solo. Conforme confessa, «pretendo unir a minha cultura com influências indianas, americanas, europeias e africanas. Preciso de tempo para isso e para tentar contactar Keith Richard, David Gilmour e outros músicos indianos de cítara. Não há nada em concreto, são apenas ideias.» Oxalá, Bachir consiga pôr em práctica todos os seus projectos.

Publicado por Luís Rei às junho 21, 2005 05:30 PM