« Questionário de Músicas do Mundo (perg. #479) | Entrada | Questionário de Músicas do Mundo (perg. #480) »
junho 17, 2005
Borghettinhos

Entendimento perfeito entre Borghetti e Daniel Sá
O mundo não é pequeno. O mundo é grande, muito grande. Se fosse pequeno, não permitia que um génio do fole como é o gaúcho Renato Borghetti se apresentasse pela primeira vez em Lisboa como um ilustre desconhecido. Não permitia que quem se baba com os discos do Chango Spasiuk, quem pede estátuas para Pohjonen na praça pública e quem se delicia com os subtis rendilhados de seda de Riccardo Tesi, ou com os devaneios corporais de Kepa Junkera, ignorasse
Renato B-O-R-G-H-E-T-T-I. É isso mesmo. BORGHETTI. Fixem o nome, sff. E, melómanos convictos, não percam o próximo espectáculo de Borghetti na capital e arredores. Se houver o próximo. O homem merecia uma Aula Magna repleta para o idolatrar. Dói ver um músico do seu calibre, acompanhado de outros três notáveis tecnicistas e (quase) irmãos gémeos (Daniel Sá – guitarra eléctrica, Hilton Vaccari – guitarra acústica e Pedro Figueiredo – flautas e sax soprano) do mágico da gaita-ponto, numa sala despida, com apenas 30 a 40 pessoas na assistência.
Com Renato Borghetti, a tradição gaúcha do xote, do vanerão, da rancheira e da milonga é sofisticada e elegante. Nunca perde a ligação uterina com as entranhas do Sul do Brasil. Entra desalmadamente pelo Uruguai e pelas pampas argentinas de Missiones e de Corrientes, terra do chamamé. Faz um voo de águia picado, ao forró nordestino de “Asa Branca” dando um crivo mais sulista, serena-nos com a delicadeza da musette francesa e de valsas do norte da Europa. Com o seu jeito de estrela pop, de cabelos compridos e chapéu levemente descaído numa das faces, dá um ar de inveterado sedutor, mas nunca se perde com poses. É, acima de tudo um virtuoso, um intérprete sanguíneo de gaita-ponto (misto de concertina e acordeão de botões). À semelhança do basco Kepa, todo o corpo mexe. Mas o seu instrumento é bem maior do que a trikitixa. O fole é longo, abre-se como um bandoneon. Por vezes, Renato parece ter o diabo de Piazzola no corpo. É impulsivo, dramático, perde-se em borghettinhos (leia-se rodriguinhos) e pára instintivamente. Joga com o silêncio, dialoga com a guitarra eléctrica, com a flauta. Há devaneios jazzísticos, mas nunca se perdem as coordenadas do folclore gaúcho.
Hoje à noite ainda o pode ver em Águeda e amanhã na Festa da Cereja do Fundão.
Publicado por Luís Rei às junho 17, 2005 05:18 PM