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maio 04, 2005

CISSOKO - "Diam": a terapia da kora

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Cissoko
Diam
(Ma Case / Megamúsica)

O que mais impressiona no griot senegalês Ablaye Cissoko, que segue as pisadas do conterrâneo e malogrado Kaouding Cissoko, na forma virtuosa de tocar kora (não tanto na abordagem da tradição mandinga em que este cruza outros instrumentos e outras músicas, mas na forma virtuosa com que o faz), é a capacidade de se apresentar a sua nobre arte, o mais despida possível, tão singela quanto bela e generosa. É um disco essencialmente centrado na harpa de 23 cordas da África Ocidental e na sua sussurrante voz. Atributos que ampliam toda a beleza, fragilidade e sensualidade que emana de uma tradição monárquica e declamatória, com mais de cinco séculos de existência e que não se coaduna com o formato de canção e do single dos habituais três minutos a que a rádio nos habituou.
Os músicos africanos, sobretudo os griots que escaparam à fúria homogeneizadora dos produtores franceses e alemães dos anos 90, parecem agora mais livres na interpretação desta música de rara beleza (Obrigado World Circuit, Nick Gold e Lucy Duran) que vive mais do instinto, do improviso, da capacidade de nos transportar sensorialmente à savana africana e à sociedade tribal que não tinha ainda sido subjugada pelo colonizador europeu, de forma a perdermos totalmente a noção do tempo cronometrado por horas, minutos e segundos.
Se Kaouding Cissoko falava, no seu último álbum "Kora Revolution", de uma revolução operada por este instrumento que já conheceu inúmeras fusões e experiências (por exemplo, com o flamenco por Toumani Diabaté, com o jazz pela Kora Jazz Trio e o uso electrificado e mais roqueiro de Ba Cissoko), Ablaye propõe-nos a contra-revolução, o retiro, a procura da simplicidade e de uma sonoridade livre de miscigenações e influências exteriores, oferecendo-nos cerca de uma hora de um ambiente sereno e contemplativo, cuja terapia de relaxamento é provavelmente mais eficaz e barato do que a frequência de um SPA recomendado por Marisa Cruz. [8/10]

Publicado por Luís Rei às maio 4, 2005 05:19 PM