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abril 28, 2005

Sétima Legião no Frágil: A gloriosa dança dos heróis

Poderá um concerto que, não foi mais do que uma reunião de velhos amigos, despertar um forte sentimento nostálgico capaz de fazer-nos recuar (como se viajássemos numa maquineta inventada por H.G. Wells) vinte e pouco anos atrás, ao enigmático universo urbano depressivo britânico do início dos anos 80? Poderá um concerto em 2005 fazer-nos reviver, através de uma sucessão de flashes mentais, o prazer de colocar uma agulha no vinilo de "Movement" dos New Order? Aquele tempo em que a Motor (que ainda não era Bimotor), o Arco Iris, a One Off vendiam verdadeiras pérolas a preços exorbitantes? O Blitz no Dafundo - o Pires estava mesmo ao meu lado - num corredor a perder de vista, mesmo ao pé do Auto Sport, escrito com máquinas de escrever manuais e a ostentar orgulhosamente uma Siouxsie na capa? O Som da Frente às quatro da tarde e os nossos dedos a carregarem insistentemente no rec + play do nosso gravador de cassettes? As edições da Fundação Atlântica? Pode, se a banda, sem qualquer compromisso com a apresentação de um novo álbum, oferecer-nos aquilo com que eles mais se identificam. Isto é, um alinhamento curto (não mais de uma hora dividida por 12 temas), que privilegiou os momentos mais emblemáticos de um dos álbuns essenciais da história da pop portuguesa: "A Um Deus Desconhecido".

O que importa se a bateria abafava os outros instrumentos, se o Abelho mal se podia mexer e não tinha espaço para gastar as suas pilhas alcalinas em intermináveis sprints? Se o Pedro Oliveira nunca disfarçou as suas deficiências na colocação de voz (habituámo-nos a ouvi-lo desta forma e seria muito estranho se ele aprendesse verdadeiramente a cantar)? Que gozo deu ouvir "Procession" dos New Order, "ceremony" da Joy Division, "Downs" dos próprios - composição assumidamente inspirada nestes mitos de Manchester.

Que gozo deu ver o bom gosto de Ricardo Camacho em certos momentos em que os teclados evocavam a eterealidade de alguns dos projectos da Factory, além estes monstros sagrados, caso dos injustamente ignorados The Wake, as sanguíneas arrancadas de Gabriel Gomes, o incisivo baixo de Rodrigo Leão (a fazer lembrar não Bill Laswell, mas algumas das bandas do eixo 4AD, como os também injustamente esquecidos Low Life da Escócia), a troca de posições em Sete Mares (Gomes nos tecados, Camacho na Guitarra num verdadeiro momento punk rock britânico). Uma noite memorável complementada por um DJ que passou clássicos como "What Difference Does It Make" dos Smiths, "Spell Bound" de Siouxsie and The Banshees, e "Blue Monday" dos New Order. Que saudades da Jukebox da Rua do Diário de Notícias e dos primeiros anos de Incógnito.

alinhamento Sétima Legião | Frágil | 27 de Abril:

Factor Humano
Porta do Sol
Além-Tejo
Downs
Ceremony
Procession
Partida
Manto Branco
Tango do Exílio
Noutro Lugar

Encore
Sete Mares
Glória

Publicado por Luís Rei às abril 28, 2005 11:54 PM

Comentários

Rapaz

Brilhante o teu texto...tal como a música dos Sétima Legião, dos New Order ou dos Joy Divison, um verdadeiro regresso ao (nosso) passado, pois uma parte dessas tuas aventuras também foram as minhas...

Publicado por: pedro neves às abril 29, 2005 10:30 AM

Olá Pedro, desculpa não ter ainda respondido ao outro e-mail. Só falta aqui aquelas festas de garagem no Monte Abraão :D Mas isso diz mais respeiro às "guerras" do funky, da new wave e da Discoteca do Adelino Gonçalves. Que saudades da rádio dessa altura... e não havia muito mais do que a RDP e a Renascença.

Publicado por: yggdrasil às abril 29, 2005 11:16 AM

Pedro, comprei muito poucos discos na One Off mas lembro-me muito bem daquele dia em que fomos lá buscar o "Rum, Sodomy & Lash" dos Pogues.

Publicado por: yggdrasil às abril 29, 2005 11:18 AM

A dúvida que me assola é a seguinte: será que o pessoal da Sétima Legião tem consciência da verdadeira dimensão que ainda tem e do que efectivamente representa para não tão pouca gente assim? Não fui ao concerto... tenho muita pena; não sabia! Só não sou nostalgico da Sétima
porque ainda a ouço regularmente. Bons tempos!

Publicado por: LuisJ às maio 4, 2005 10:06 PM

deve ter sido de facto, um concerto fantástico. Pela segunda vez perdi um concerto de sétima legião. alguém sabe onde posso informar-me acerca de outras actuações? são raras, e gostaria mesmo de assistir a uma actuação deles ao vivo.

Publicado por: miguel às maio 4, 2005 10:57 PM

Bem, rapazes, já estou quase de lágrima nos olhos e a "nostalgia" do d.Sylvian brotou-me nos ouvidos! É bom sabermos que não estamos sozinhos e que outros amigos ouviam o Som da frente às 4 da tarde, e se calhar, antes disso, o Rolls Rock, tb do A.Sérgio, entre a meia-noite e as duas ! e lá me levantava ensonado ás 7 da matina para ir para a escola!Agora para a Discoteca do Gonçalves é que tinha pouca pachorra! Quanto á 7ª, era uma das pouquíssimas bandas nacionais que se podiam ouvir lá pelos inícios de 80, contando tb com os Xutos, claro, que até tiveram honras de fazer o tema de abertura e fecho do Som da Frente. Lembram-se? Mas voltando á 7ª e aos Pogues, é curioso notar como essas bandas fizeram mais para atrair público jovem (na altura...) á descoberta da musica tradicional que as supostas bandas de música popular portuguesa, que eu por exemplo, não ouvia.
Tenho pena também de não ter estado na última apresentação da 7ª, embora tenha presenciado as duas anteriores (Frágil/Fórum Lxª).E é verdade, liberta-se ainda hoje algo de mágico daquele grupo de amigos.
ps. o P.Marinho não tocou desta vez? É que os sons mais evocativos e "alternativos" em termos sonoros, saíam dos seus sopros...

Publicado por: jgomes às maio 9, 2005 12:59 PM