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março 23, 2005

Hoje é dia de Warsaw Village Band

Mais um grande concerto que se antevê destes pagãos e xamânicos polacos. Apesar de terem efectuado uma óptima prestação em Sines, em Julho de 2004, a noite de hoje poderá ser melhor. O sexteto não terá a imposição de uma plateia ávida de dança e festa. Por isso, a banda poderá apresentar repertório mais intimista e menos "hardcore".

Excerto de entrevista realizada em Julho de 2004:

Tradição Musical na Masóvia

Toda a música música na Masóvia é proveniente dos tempos medievais, mas os interpretes são católicos ortodoxos. Nunca pensaram em paganismo.

A vida social nesta terra era muito dura. A Masóvia sempre foi uma das partes mais pobres da Polónia. Por isso é que a sua música é tão dura e tão bárbara. As pessoas não tinham dinheiro nem oportunidade para ver se deslocar e para ver o mundo além Masóvia. Inevitavelmente, era uma sociedade fechada. É por isso que temos nesta área uma tradição à base do violino e da percussão porque eram os instrumentos mais baratos.

Na Masóvia, em celebrações como casamentos, o mais importante era o violino. Toda a gente podia tocar ritmos básicos de percussão. Não era tão importante porque toda a gente sabia como tocar.
Apenas vejo influencias medievais nesta música. O mesmo acontecia com o baixo. O ritmo era simples.

O Mar Báltico

Sempre houve muita influência da Suécia na Polónia, devido às sucessivas guerras entre ambas as partes. Há seiscentos ou setecentos anos atrás, um exército sueco ocupou parte da actual Polónia escutou a música da Masóvisia e introduziram algumas das suas danças na Suécia. É por isso que os suecos têm na Suécia a Polska [que quer dizer polaco na língua sueca]. Há uma história incrível de invernos muito rigorosos. Nessa altura, o mar Báltico encontra-se completamente gelado e as pessoas caminham através do gelo. No meio do mar Báltico foi construído um bar que recebia pessoas oriundas de ambas as margens que cantavam e tocavam. Facto que explica toda essa troca de influências.

“White Voice”

A “White Voice” é a forma mais natural de canto na Polónia oriunda das montanhas. Toda a gente consegue cantar assim, seja na montanha ou na planície. É a maneira mais fácil de cantar. E a mais popular. Tem é de ser cantado bem alto e bem projectado.

Tocar simples e de forma intensa

Por vezes, quando oiço Ali Farka Touré a tocar njarka, isto é, um instrumento simples de apenas uma corda, sinto-o como se fosse o Jimi Hendrix. Não é preciso adicionar mais nada ao seu instrumento, à forma como toca. Esta é a maior força da Warsaw Village Band. Tocamos instrumentos esquecidos como a Suka polaca.

A Promoção via BBC e WOMEX

O prémio da BBC foi para nós uma agradável surpresa e, sobretudo, uma boa forma de promoção. Foi como uma porta de entrada para o resto do mundo, tal como a possíbilidade de tocarmos no WOMEX, Nunca pensamos em ser estrelas da “world music”, em tocarmos em grandes festivais. Há bandas que não tocam muito bem, mas tem um bom “background”. Nós estamos no início. Agora temos mais chances de tocar em várias partes do mundo.

Crónica da noite de Sines:

bárbaros e pagãos

Três vozes intensas e misteriosas cantando em uníssono em polaco, num ritual de chamamento a longas distâncias, como faziam no passado os pastores polacos. Dois violinos crepitantes que gelam o Báltico, unindo a Polónia à Suécia da “old fiddler tradition”. Um violoncelo tenso e incisivo, que dá o “drone” hipnótico à folk da Warsaw Village Band. Um saltério menos onírico do que o dos suecos Frifot, mais ligado à terra e a grandes cavalgadas punk / hardcore. Uma “frame drum” tocado como se fosse um tambor xamânico dos Sámi e um “kit” de percussão simples, constituído por um bombo, um prato e (por vezes) ferrinhos, o quanto baste para que o som seco e rico em variações rítmicas – que fazem lembrar os ritmos das “brass bands” ciganas de leste - ganhe protagonismo. Há um nervo bárbaro e pagão aliado a um profundo conhecimento das tradições musicais da região da Mazóvia, com um desejo de inovar, que torna WVB numa das mais frescas e interessantes propostas da folk (em confronto com o rock e a dança) do norte e do centro da Europa sedento de inovação, alinhando-a à movimentação “ethno-punk”, ao lado de Hedningarna, Garmarna, Alamaailman Vasarat, Vasmalom e Besh’o’Drom.

Sem recorrer a quaisquer instrumentos electrificados ou electrónicos em palco (coisa que já não acontece em disco), a WVB tocou quase sempre como uma banda hardcore, extremamente rápida na execução e na duração das composições escolhidas a dedo de “People’s Spring” (2002) e de “Uprooting” (2004, álbum acabado de editar e sobre o qual publicarei futuramente uma entrevista com a banda). Arrebataram corações pouco sintonizados com a folk do Báltico, cumprindo plenamente o seu objectivo. O de chegar ao público mais festivo, à espera de se divertir, perdendo com isso o resto do repertório mais ascético e calmo. Curiosamente, foi num desses raros momentos contemplativos, apenas com a violoncelista e violinista (aqui, envergando um violino medieval “suka”) que a WVB se mostrou mais sedutora, quebrando o ímpeto repetitivo dos tiques punk (curiosamente, um dos percussionistas envergava uma t-shirt da banda hardcore D.R.I.) usados ao longo de quase todo o espectáculo. Apesar de tudo, a WVB merece voltar, de preferência em locais fechados, de forma a preocuparem-se mais com o público que os vai ouvir, não com aqueles que estão sedentos de queimar as calorias em excesso provenientes dos hamburgueres ou dos nacos com molho de natas e dos “sundays” que ingeriram ao jantar. [8.5/10]

Publicado por Luís Rei às março 23, 2005 06:59 AM

Comentários

Eh pá,
Onde é que está na fotografia o cromo que toca Xilofone?...

Publicado por: artur fernandes às março 23, 2005 09:21 AM

não é "o" cromo. é a senhora cromo :D

Publicado por: yggdrasil às março 23, 2005 10:17 AM

onde tocam? ou é dia deles porquê?

Publicado por: ana às março 23, 2005 10:36 AM

Olá Ana, hoje a WVB actua no Fórum Lisboa. Se reparares há um banner a anunciar um concerto logo a seguir ao cabeçalho, antes do primeiro post.

Publicado por: yggdrasil às março 23, 2005 11:00 AM

Olá Luis! Sabes se ainda há bilhetes para hoje?

Publicado por: tó às março 23, 2005 11:22 AM

Bom dia Tó. Sê bem aparecido.

Penso que ainda haverá bilhetes nas bilheteiras do Fórum. Se a minha afirmação não corresponder à verdade, o Nuno B encarregar-se-à de a rectificar.


Publicado por: yggdrasil às março 23, 2005 11:38 AM

Ok, obrigado; vou para esses lados à hora de almoço, vou ver o que se arranja... se conseguir, a gente vê-se lá logo mais

saudações

Publicado por: tó às março 23, 2005 11:43 AM

Boa sorte e até logo.

Publicado por: yggdrasil às março 23, 2005 02:17 PM

Consegui :) E ainda há bilhetes disponíveis, caso haja por aí mais retardatários.

até logo

Publicado por: tó às março 23, 2005 02:41 PM

Até logo. O Concerto promete. Tenho esperança de que será diferente (para melhor) de Sines, dado as limitações que eles tinham do público e de tocarem ao ar livre.

Publicado por: yggdrasil às março 23, 2005 02:42 PM

eu gostei MUITO do de Sines; acho que foi mesmo o que mais gostei no FMM todo. Estou curioso para ver como vai ser numa sala fechada, com a malta sentada :) Em Sines foi uma grande festa.

Publicado por: tó às março 23, 2005 04:06 PM

Bem, o concerto foi mesmo fabuloso.

Acho que quando se ouve tocas assim é que se toma consciência que a electricidade muitas vezes é uma desculpa para a falta de ideias!

Publicado por: Mário às março 24, 2005 10:12 AM

Palavras sábias, Mário. Perdeste um outro grande momento da noite. O Vasco Casais dos Dazkarieh a tocar nickelharpa (acompanhado pelo bouzouki que tem um som muito semelhante à Mandola de ALe Möller) à porta do Fórum Lisboa, depois da uma da manhã. Para quem, como eu, tem uma certa adoração pela tradição sueca, deu gosto escutar algumas polskas que os Väsen imortalizaram.

Publicado por: yggdrasil às março 24, 2005 11:00 AM

belo, belo, concerto :) cheio de coisas boas (aquele blues polaco foi delicioso). Pena não ter havido mais gente; eles bem tentaram pôr o pessoal a dançar, mas só conseguiram no fim.

no fim ainda comprei o Uprooting, autografado pela Sylwia e pela Magdalena :)

Publicado por: tó às março 24, 2005 11:32 AM

Xiça!

:(

Também queria discos autogrfados!

Publicado por: Mário às março 24, 2005 11:41 AM


ah, e autografado em polaco :) esqueci-me de lhes perguntar o que está lá escrito, mas deve ser boa onda.

Elas foram vender CD para o balcão ao lado de uma das entradas assim que o concerto acabou; havia muita gente a comprar, e elas estavam meio atarantadas, porque além de fazer os trocos ainda tinham que dar autógrafos :) foi giro.

Publicado por: tó às março 24, 2005 11:53 AM

O blues à boa maneira do Mali foi mesmo muito bom... aquele violino a tentar fazer o mesmo som hipnótico do njurke que o Ali Farka Touré toca... mágico... como mágico foi também o duelo violoncelo - suka das duas meninas (como já havia sido no final de Sines).

Publicado por: yggdrasil às março 24, 2005 12:23 PM

Acreditem que vende-se mais cds durante o final de um bom concerto do que durante um ano (mal)expostos nas lojas.

Publicado por: yggdrasil às março 24, 2005 12:26 PM

Já coloquei fotos do concerto :)

Publicado por: Mário às março 28, 2005 09:46 AM

...o gajo que imita o Ale Moller é o Peixoto, Luís.
Sim, porque o Bouzouki não toca sozinho!
abraço
nuno

Publicado por: Nuno Barros às março 28, 2005 07:14 PM