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dezembro 16, 2004
Parabéns, Mariza

Mariza © 2004 - agência zero
Hoje, Mariza comemora mais um aniversário. Desconheço a sua idade. Apenas sei que dia 16 de Dezembro é aquele em que veio ao mundo. Curiosamente, é também a data de encerramento da extensa digressão mundial de "Fado Curvo" que, ainda este mês, a levou à Russia durante três dias. Não quero discutir se o fado está ou não na moda, se o repertório é ou não demasiado decalcado de Amália. Apesar de não me puxar para ouvir os discos de Mariza em casa ou no local de trabalho, aproveito para reviver o concerto inesquecível do Rock in Rio.
Mariza é um ícone da pop que canta fado. Cresceu desmesuradamente nestes dois últimos anos. A tenda Raízes, uma das mais discretas de todo o festival, foi pequena demais para receber tamanho monstro mediático. O seu concerto foi, de longe, o mais concorrido dos 23 que ocorreram durante os seis dias de festival neste palco. Mas, o mais extraordinário na sua actuação, foi a forma como conquistou de imediato uma assistência que se dividia entre a classe média-alta de meia idade e uma considerável chusma de imberbes sub 24, habitues de festivais rock. Por esta avalanche de pessoas pouco comum neste pacato local e por toda a empatia e ambiente que se gerou entre a Diva e a plateia, ela merecia ter estado no Palco Mundo, a sós com o seu trio e não apenas no dueto com Daniela Mercury em versão electrónica de “Garota de Ipanema”, conforme havia acontecido na noite anterior.
É muito fácil embirrar-se com Mariza. Começou por comunicar de forma excessivamente teatral com a plateia, falando formalmente e com a voz colocada, como se estivesse a ler um texto para um documentário, por exemplo, ao contar a sua história de moçambicana que veio viver para a Mouraria com apenas três anos. Exibiu gestos excessivamente expressivos. Atacou algum do repertório mais óbvio de Amália. Trocou de vestido durante uma “guitarrada” em que brilharam os músicos que a acompanham: Luís Guerreiro em Guitarra Portuguesa, António Neto em Guitarra Acústica e o (também) moçambicano Fernando de Sousa em baixo acústico. Levou uma cadeira para o centro do palco, afastou a saia, colocou a perna em cima do assento e mostrou a meia de riscas lilás e preta, numa pose de dançarina de cabaret, ao abordar a vida da primeira fadista, Maria Severa. Comentou o seu penteado. Reconfortou a plateia com frases feitas: “- vocês são o melhor público do mundo”; “- Lisboa é a cidade mais bonita do mundo”. Gozou com Britney ao parecer auto-vangloriar-se dos seus poderosos dotes vocais: “- sem tretas. Isto não foi playback”, após uma arrancada de fazer calar o ruído dos aviões que muito frequentemente utilizavam o corredor aéreo da Bela Vista. Gritou “Portugal, Portugal, Portugal” em apoio à selecção. Apesar de tudo, Mariza conseguiu superar todos estes gestos que parecem tirados de um manual de como construir uma figura proeminente do show business. Como uma dama que se liberta dos espartilhos de fino aço, da pose, e se torna mais autêntica e mais genuína, Mariza deixou-se contagiar pela sede que a plateia tinha de ouvir fado. Inúmeras foram as vezes que a cantora parava a meio de uma canção para ouvir aqueles que a escutavam, como por exemplo, em “Oiça Lá Ó Senhor Vinho”. A cumplicidade foi tal que Mariza parecia estar do lado de lá e a assistência sob o domínio dos holofotes a acompanhar o trio. Foram momentos extremamente humanos e emotivos que levaram as lágrimas aos olhos de quem estava de apoio ao palco. Fascinante a forma como duas, três ou quatro mil almas sorveram o fado até à última gota. Num país em crise, com falta de auto-estima, Mariza devolveu-lhes o orgulho e serem portugueses. Ao quinto, repito, quinto encore, remata em beleza com as palavras “Lisboa Menina e Moça” comummente interpretadas por Carlos do Carmo. Mais emotivo era difícil. A fadista não irá esquecer-se desta noite tão depressa. [8.5/10]
Publicado por Luís Rei às dezembro 16, 2004 03:57 AM
Comentários
Pois...
Votos de Feliz Natal.
E muitos parabens pelo contéudo desta página que faz a diferença, e que é um autentico serviço publico cultural neste país.
Publicado por: valeria mendez às dezembro 16, 2004 01:40 PM
Boas festas também para ti, Valéria. E, mais uma vez, obrigado pelos elogios.
Publicado por: yggdrasil às dezembro 16, 2004 02:56 PM
Ainda bem que a Mariza arrasta atrás de si tantos fãs como anti-fãs. Aliás, uma grande vantagem da sua pessoa é que se fala, fala, fala, fala, e toda a publicidade acaba sempre por ser boa. Isto porque tem de haver um termo de comparação com os bons, que não é o caso dela. Ela canta músicas de fado, e só isso.
.... talvez hoje esteja muito irritadiça.
Bom, mas há coisas boas. Por exemplo o facto de eu não vir aqui há já algum tempo e de esta nova make up estar um espaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaanto! Boa!
Publicado por: Venon às dezembro 16, 2004 03:15 PM