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dezembro 10, 2004
[entrevista] Lhasa - Eterna Nómada

Lhasa é uma eterna viajante, mas tem residência fixa em Montreal (Canadá). Nasceu entre os Estados Unidos e o México, em trânsito. Em 97, depois de cinco anos a tocar na América em bares com o homem que viria a descobrir o seu talento vocal, Yves Desrosiers, edita “La llorona” e o que se sucede – reconhecimento internacional e extensa tournée – deixa-a a de rastos, refugiando-se em França. Estada dividida entre a vida errante do Circo com as suas irmãs, na companhia Cirque du Soleil, e a paz de Marselha onde foi gravando, durante três anos, “The Living Road”. Lançado no Canadá em 2003 (chegando à Europa só em 2004), o segundo álbum de Lhasa de Sela extravasa toda a imagem de sacerdotisa mítica mexicana que encanta e atraiçoa os homens. Uma obra que expõe a carne, o osso e a alma, de quem não se contenta a revelar a sua intimidade apenas na língua castelhana. Podemos torcer o nariz ao início, mas cedo compreendemos a sua essência e aceitamos que ela nos cante em francês, inglês, árabe, ou mesmo, português, apesar de não dominar ainda estes dois últimos idiomas.
A sua vida, desde a infância, tem sido a de uma verdadeira nómada. No entanto, parece parar para escrever e gravar as suas canções. É mesmo necessário deixar-se estar no mesmo sítio para gravar um disco, mesmo que o título seja “The Living Road”?
Não sei. Nunca viajei porque queria viajar, sempre viajei porque tinha qualquer coisa para fazer. Quando viajo toda a minha vida vai comigo, não deixo a minha casa e vou viajar, excepto quando estou em digressão. É mudar de casa. Não sei se é necessário parar para escrever. Apenas preciso de espaço e de tempo para escrever canções e é mais fácil quando se está em casa.
O que é que fez em Marselha?
Tinha um namorado. A minha irmã vivia lá. A minha mãe veio e esteve connosco. Tinha uma série de amigos.
E o seu pai? Continua a vê-lo?
Vive em Nova Iorque, vejo-o quatro vezes ao ano.
Quando estava a escrever as canções de “La Llorona”, sempre que tinha um bloqueio criativo, telefonava ao seu pai e ele declamava-lhe poemas que a ajudavam. Também teve a ajuda do seu pai neste disco?
Não tive a ajuda do meu pai porque estava longe dele. Talvez no próximo disco.
Em “The Living Road”, além das várias línguas em que agora canta, houve uma outra mudança significativa: a do guitarrista, produtor e arranjador Yves Desrosiers, por François Lalonde e Jean Massicotte. O que é que isso implicou no método de gravação deste disco?
Comecei a tocar junto com o Yves em bares, desde 92, durante cinco anos. Na altura da gravação de “La Llorona”, tínhamos uma relação musical e de amizade muito próxima. Eu não tinha experiência de gravação, mas ele sim. Como me conhecia muito bem, fez quase tudo sozinho. Não estive muito tempo em estúdio, estava ocupada com outras coisas. Confiei nele completamente. Com o François e Jean, aprendi imenso com eles. Estive mais envolvida no processo de gravação e, desta vez, e trabalhamos como um trio, todo o dia, durante sete meses.
Sentia-se com dificuldade em respirar, já que o Yves a conhecia tão bem?
Trabalhei com ele durante 8 anos. Foi muito bom.
Um dos motivos do vosso desentendimento foi o facto de o Yves se interessar cada vez mais pela música mexicana e de a Lhasa sentir uma maior necessidade de criar canções em várias línguas. Será que o papel de cantora mexicana era demasiado redutor para o seu modo de vida nómada?
Queria fazer um disco mais pessoal. Não seria honesto para mim ser apenas uma cantora mexicana. Deixei o México quando tinha 11 anos. A minha primeira língua é o inglês e agora vivo em França a maior parte do tempo. Tornou-se mesmo necessário fazer o disco desta forma. As canções começaram a sair nestes idiomas. “The Living Road” representa aquilo que sou.
Durante esses sete meses que “The Living Road” demorou a ser gravado, houve uma escolha criteriosa de diferentes músicos para cada canção, como se estivesse a montar um cenário apropriado para contar uma história. Como é que o processo se desenrolou?
Cada canção foi feita como se de um pequeno filme se tratasse. Os instrumentos eram os actores. Escolhia que sons queria que contassem determinada história. Houve diferentes guitarristas, baixistas, trompetistas, diferentes sons. Os dois produtores tocaram muito. Trabalhámos os três sempre juntos. Olhávamos para os arranjos, víamos que faltava ali qualquer coisa e chamávamos os músicos. Fomos construindo cada canção como se fosse uma fina peça de joalharia, como se fosse filigrana.
Quando é que sente que uma canção está terminada?
É difícil explicar. Tudo fica claro. Não há perguntas entre nós. É um processo muito misterioso. São como peças de um puzzle que ficam juntas.
A fase que antecedeu este álbum, obrigou-a a fazer uma ruptura com o passado. Teve de fazer uma escolha que acabou por ser, para si, uma espécie de renascimento. Que escolha foi esta?
A verdade é que o tempo entre os dois álbuns foi muito período muito difícil para mim. Senti-me muito confusa e muito perdida. Não sabia como haveria de voltar à música. Tinha medo de tudo. Sentia uma grande tristeza em mim. Nessa altura, o facto de ter entrado em estúdio para gravar este disco, foi como uma tábua de salvação. A música salvou a minha vida. Sabe como é estar a nadar e de repente ver uma bóia para se agarrar? A gravação deste disco foi essa bóia. Foi muito divertido gravar este disco com estas duas pessoas. Foi uma experiência muito intensa e bonita. Tivemos uma óptima relação de amizade. Quando o álbum acabou de ser gravado estava muito melhor.
Este tem sido um ano de muito trabalho para si. Já fez muito mais do que cem espectáculos. Não receia sentir-se novamente exausta?
Alguns dias estou cansada, estou com medo, estou contente. Agora compreendo mais a vida. Há dias em que tenho mais energia, outros menos. Agora, é mais simples compreender isso. Sei que sou sou uma cantora. É isto o que faço. É muito intenso, gasta-nos muitas energias. Durmo bastante. Tomo conta de mim. Levo agora as coisas de forma mais comedida, não tão dramática como antigamente. Tenho uma perspectiva maior de vida. Sei que é isto que quero fazer. Sei que amanhã haverá um outro concerto. É a vida de cantora. Temos de nos manter com os pés no chão. É fácil deixarmo-nos abater pelo perfeccionismo.
Publicado por Luís Rei às dezembro 10, 2004 07:34 AM