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dezembro 01, 2004
[entrevista] Kimmo Pohjonen - Guerra e Paz
Hoje em Coimbra, amanhã em Lisboa, depois de amanhã no Porto. Depois do SET de 03, Kimmo Pohjonen regressa com Samuli Kosminen para voltar a apresentar o projecto "Kluster". Apertem os cintos, protejam-se. A sessão de "wrestling" de acordeão vai começar.
Kimmo Pohjonen é, actualmente sinónimo de ebulição e revolução musical oriunda de um prolífico norte à beira do Báltico, que já nos deu a conhecer tantos projectos que extravasam a folk, como os ateus Hedningarna, as fugazes Värttinä, a contestatária sami Mari Boine, ou o electro yoiker Wimme Saari. Ambos constituem uma pequeníssima ponta de um extenso iceberg da efervescência musical que se vive em muitas aldeias / vilas nórdicas onde não tocar um instrumento ou não cantar, o que quer que seja, é uma anormalidade. A velha história volta a repetir-se. Kimmo Pohjonen é, à semelhança de tantos outros músicos folk, uma individualidade que nasceu em berço de músicos tradicionais (o seu pai era acordeonista) numa aldeia musical – Viiala – que está para o fole cromático, como as aldeias de Jarvella e de Kaustinen estão para o violino e para o kantele (o instrumento nacional na Finlândia).
Apesar de ter apenas gravado e editado três projectos em nome próprio (“Kielo” (98), “Kluster” (2002) e “Kalmut” (“2003”), Kimmo Pohjonen, em apenas seis anos, chegou a contribuir para a gravação de mais de 65 álbuns de músicos finlandeses dos mais diversos quadrantes: Heikki Leitinen (inevitavelmente), Maria Kalaniemi, Pinnin Pojat, a estrela de rock Alanko Saatio, o violinista Arto Järvellä, etc, etc, etc. Lembro-me agora das palavras de Kari Reiman, violinista dos Värttinä e antigo companheiro de Pohjonen nos Ottopasuuna (muito bons os dois álbuns que este colectivo gravou, em especial “Suokaasua”), que toca habitualmente numa dezena de projectos ao mesmo tempo: “a única forma de um músico ser profissional na Finlândia é ter a possibilidade de tocar com muita gente”, de estar continuamente em palco. Actualmente, Pohjonen parece-me bem mais afastado da cena musical local, sobretudo daquela que privilegia o formato acústico, ou seja, do núcleo duro que o nomeou como o músico folk finlandês mais inovador durante três anos sucessivos (entre 96 e 98).
Kimmo Pohjonen amadureceu individualmente e tem continuado a desenvolver projectos paralelos com outros músicos provenientes do outro lado do Atlântico. Casos da KTU (Kluster Tu), simbiose entre o acordeonista-lutador-de-wrestling e Samuli Kosminen (que o acompanha no projecto que os portugueses vão ter oportunidade de ver ao vivo nesta mini-digressão de três espectáculos), com Trey Gunn e Pat Mastelotto dos King Krimson, e da estreita colaboração do mesmo projecto Kluster com a orquestra norte-americana Kronos Quartet.

Cortar com o passado
Dado o seu passado de estudante da Sibelius Academy no Departamento de Música Popular, orientado pelo alquimista Heikki Leitinen e, tendo tido a oportunidade de o entrevistar há quase dez anos atrás, quando ainda se encontrava no projecto Ottopasuuna, impõe-se a seguinte questão: Considera-se hoje em dia ainda um músico folk, ou mais um músico experimental? Ao que Kimmo responde: “Penso que, de uma certa forma, nessa altura dos Ottopasuuna já estava mais concentrado em procurar o meu próprio som, em fazer um trabalho inovador através da música experimental. Penso que as raízes estavam lá e que, de uma certa forma, esse será sempre o meu ‘background’. Hoje estou mais interessado num certo tipo de som, de avant garde, de música improvisada e de electrónica. Quero explorar o acordeão, a minha voz, quero criar sonoridades que nunca ouvi antes”.
O Método de ensino de Heikki Leitinen
Mas, o método de ensino de Heikki Leitinen sempre foi inovador. Encoraja os alunos, primeiro, a absorverem a folk e, segundo, a tentarem desenvolvê-la, experimentando-a, improvisando com outros instrumentos e outras músicas, numa tentativa de alargar as fronteiras da música popular. Nos anos 80, nasceram na Sibelius Academy projectos como as Niekku de Anna-Kaisa Liedes e de Maria Kalaniemi que experimentavam a folk e que fizeram com que Kimmo Pohjonen tivesse mudado do Departamento clássico para o de música popular. Entre a Academia de Sibelius Academy e o Instituto de Música Folk da aldeia de Kaustinen, muitos outros projectos inovadores foram tomando forma. Como, por exemplo, Suden Aika das vozes rúnicas de Tellu Virkkala, de Sanna-Kurki Suonio e de Liisa Matveinen (ex-Niekku). Intérpretes que têm colaborado sistematicamente com Heikki. “Penso que a influencia que o Heikki Leitinen tem no desenvolvimento da folk finlandesa é tão grande que, tudo o que disse, é totalmente verdade”, afirma Kimmo Pohjonen. “Ele é uma espécie de guru para mim, sempre. Toquei em muitos projectos com ele e sempre fui muito influenciado por ele. Hoje em dia, estou um bocado afastado deste movimento, mas estarei sempre ligado afectivamente ao Heikki. É uma pessoa que nunca se pode subestimar.”
O que é que difere o seu trabalho de hoje em dia com o do passado e das suas múltiplas colaborações com músicos folk? A abordagem mais electrónica e experimental? “Hoje em dia, apenas tento improvisar o máximo possível e, claro, inovar as raízes e a perspectiva cultural. Tentar por algo que seja meu. Tento explorar também o som, inventar novos sons, novas coisas. O mais importante para mim é mesmo explorar o som, encontrar novos níveis, novas dimensões. Tentar encontrar algo que não existe.”
No entanto, no trabalho de Kimmo, há ainda muito ecos da tradição milenar da região de Carélia, sobretudo ao nível vocal. Os seus “mantras” parecem “spellings” das canções rúnicas usadas para curar feridas, mordidas de cobras, ou mesmo problemas de amor. “É possível”, considera Kimmo. “Ouvi muitas das cassettes com antigos poemas do Kalevala e material rúnico. É muito possível que haja esse tipo de infuência. No entanto, tento encontrar a minha própria voz. De facto ouvi muito material vocal, mas o meu trabalho tanto pode soar a Finlândia, como a Tanzânia, onde tive a oportunidade de estudar. Soa a mundo. Hoje em dia tento concentrar-me mais a criar o meu próprio som, na minha própria voz”.
[continua]
(c) fotos: Rui Silva
Publicado por Luís Rei às dezembro 1, 2004 02:48 PM