« [audioblog] Rádio Mali | Entrada | [entrevista] Warsaw Village Band: a barbárie da Masóvia »

novembro 12, 2004

As Danças Ocultas no Pulo do Lobo

pulsar.gifDesde o início se percebeu que, ao recuperarem a concertina, as Danças Ocultas iriam dignificar o instrumento. Dar-lhe o valor que merece. É de homem. Fazer apenas e só música a partir deste instrumento e explorar, consequentemente todas as suas características, como se fosse um construtor que sabe qual o tipo de pele e de madeira a utilizar. Exercitar o som do ar do fole como se fosse percutido. Integrar uma concertina-baixo construída para o efeito. Vaguear por um repertório universal, que tanto tem de tradicional como de clássico ou pop. Que tanto soa a Portugal, como a Norte da Europa, Norte de África ou América Latina.

Ao elegerem o italiano Riccardo Tesi como uma das suas influências – que boa memória tenho de um espectáculo deste italiano com o francês Patrick Vaillant no Raízes do Atlântico e do consequente belíssimo texto de Fernando Magalhães – as Danças Ocultas, mais do que tentar reinventar qualquer legado tradicional, assumem-se como alquimistas na arte do improviso. À semelhança dos polacos Kroke e de outros colectivos nórdicos (Accordion Tribe obligé), são mestres na arte de jogar com a imprevisibilidade, com o espaço e com o meio ambiente. Com a suavidade e a força, com o silêncio e a cacofonia (se bem que quase nunca cheguem a este extremo), a tristeza e a alegria, o ser introspectivo e o ser expansivo. Todas as semelhanças e os contrastes do universo numa ambivalência perfeita extraída dos foles.

“Pulsar” é muito mais do que “Ar” (o seu anterior registo). É pular o Pulo do Lobo, com todos os riscos inerentes. É saber dar um salto seguro para a frente, sabendo o chão em que se vai pisar. É, de facto, um regresso extremamente feliz este das Danças Ocultas. De longe, o melhor álbum do quarteto de concertinas de Águeda. Espero que desta vez não os comparem aos Madredeus. Quem o voltar a fazer, nunca conseguirá perceber que as Danças Ocultas fizeram mesmo um grande e distinto disco. E que é o único projecto da folk lusitana, além intérpretes de fado, com a consistência necessária para poder varrer a maior parte dos festivais de folk e de jazz da Europa e restante mundo ocidental.

[continua]

Publicado por Luís Rei às novembro 12, 2004 01:46 PM

Comentários

Viva Luis.
Gostei tanto do ensaio que já comprei o disco.
É mesmo muito bom!

Publicado por: Mário às novembro 13, 2004 03:42 PM

pular o Pulo do Lobo :)

Publicado por: cristina às novembro 15, 2004 02:26 PM

É um senhor disco, lá isso é.

Há muito tempo que não passava por aqui, o teu tasco está em grande forma.

Publicado por: ps às novembro 20, 2004 01:05 PM