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novembro 06, 2004

[audioblog] Rádio Mali

As Crónicas iniciam aqui uma rúbrica que esperemos seja para continuar: a disponibilização de um programa de rádio em streaming. Deixo-vos um especial de 18 minutos gravado inicialmente como maqueta de proposta de rádio em 2001. Programa que faz uma contextualização histórica, social, económica e cultural da música no Mali, apresentando os seus principais intérpretes: Salif Keita, Toumani Diabaté, Ballaké Sissoko, Kandia Kouyaté, Oumou Sangaré, Ali Farka Touré e Afel Bocoum.

Premir para ouvir o programa


Leia o guião:

O Mali possui, provavelmente, uma das mais ricas e antigas tradições musicais do mundo. Uma história com mais de mil anos de existência.
É apenas no Sec. XIII que os músicos ganham um estatuto especial ao tocarem para o primeiro imperador do Mali, o rei caçador Soundjata Keita.

Desde há 700 anos até hoje, os músicos de etnia Mandinga - do qual faz parte o rei fundador Keita – têm cantado a história do país e das notáveis personalidades que o compõem. Estes músicos de apelido Kouyaté, Diabaté e Sissoko são considerados os Griots. Artistas nascidos em berço musical, com um destino profissional traçado no código genético: o de animar a corte com canções épicas e de louvor acerca de actos heroícos dos guerreiros e caçadores ancestrais.

Salif Keita

Descendente do rei que fundou o maior império da África Ocidental até ao Sec.XV, Salif Keita tornou-se na década de 80 uma figura incontornável da música Africana e principal embaixador do Mali em França. O nobre Salif Keita notabilizou-se pela fusão entre a música tradicional da etnia Mandinga e a pop europeia.

O seu percurso artístico não foi fácil. Ao nascer albino, Salif enfrentou a ira dos supersticiosos. Ser albino no Mali, além de significar má sorte, pode ser causa de assassinato. Como se isso não bastasse, a família Keita não aprovou o facto de Salif ter-se tornado músico, pela simples razão de esta actividade estar confinada aos Griots, também conhecidos por Jelis. A música é uma profissão que se encontra hierarquicamente abaixo das actividades de professor e diplomata, que Salif Keita teria necessariamente de abraçar.
Se na Europa Salif Keita é um símbolo maior do afro-pop, no Mali notabilizou-se por ser um dos primeiros a contrariar a organização social vigente, mostrando que um músico no Mali não tem necessariamente de nascer em famílias Griot.


Toumani Diabaté & Ballake Sissoko

Toumani Diabaté e Ballake Sissoko são primos e fazem parte de duas famílias Griots, que ao longo destes 700 anos exerceram a profissão de músicos no Mali. Ao começarem a tocar assim que saíram do berço, Toumani e Ballake herdaram dos antepassados a técnica e o sentido de improviso para tocar Kora - O instrumento de eleição dos animadores da Corte. Espécie de cruzamento de harpa com alaúde, que possui entre 21 e 25 cordas. Os dois intérpretes gravaram há dois anos atrás “New Ancient Strings”. Um disco para duetos de Kora que já tinha sido registado nos anos 70 pelos pais Toumani e Ballake, respectivamente Sidiki Diabaté e Djelimadi Sissoko. “New Ancient Strings” é um registo carregado de simbolismo. Reflecte a identidade nacional do Mali e representa toda a riqueza histórica da música que ao longo de sete séculos encantou os reis de etnia Mandinga.


Kandia Kouyate

Na geração actual de artistas que não nasceu Griot, muitos são aqueles que têm-se insurgido contra os músicos hereditários da corte que tocam para a classe nobre. A não Griot Oumou Sangaré é uma das varias vozes que os acusa de louvar apenas os poderosos e ignorar as pessoas comuns.

No final dos anos 80, a dissolução do regime militar corrupto e a severa recessão económica que fez do Mali o quarto país mais pobre do mundo, levou a que os Griots começassem a evitar as canções épicas de louvor. Nesta revolução musical, destaca-se o nome de Kandia Kouyate. Além de cantar a história dos Mandinga, é uma das primeiras vozes Griot a abordar outros assuntos, para além do louvor aos actos heróicos que dominou as canções da corte até ao período de colonização francesa. À semelhança de músicos que não nasceram griots, as canções de Kandia Kouyate têm uma temática politico-social bastante vincada. A cantora apelidada de “a perigosa” critica a guerra entre estados e tribos. Avisa os jovens dos males da droga e do álcool. E apoia crianças do sexo feminino a irem à escola, mesmo contra a vontade do pai.

Kandia Kouyate é uma verdadeira diva no Mali. A sua conta bancária que o diga. Há que referir que o sistema de estrelato em África é bastante diferente do Ocidental. Em vez de angariar fortuna pelos royalties dos milhões de discos que vende, ou pelas extensas tournées que faz à volta do mundo, Kandia Kouyate amealhou o seu pé de meia a tocar em festas privadas para a elite política.
Os homens mais importantes de África já lhe ofereceram um pouco de tudo: dinheiro, jóias, casas, carros e até mesmo um avião privado.


Oumou Sangare

Oumou Sangare é a principal figura do wassolou, região do sul do Mali que significa também um estilo musical próprio e distinto do universo dos Griots.

As mais notáveis vozes do Wassoulou como Sangare ou mesmo Nahawa Dumbia, não nasceram em berço de artistas. São cantoras por opção própria e demarcam-se dos músicos profissionais da corte ao aprofundar problemas sociais próprios de uma sociedade islâmica.
Oumou Sangaré e todas as outras cantoras wassoulou são vulgarmente apelidadas de cantoras-pássaro. Na região do wassoulou acredita-se que certos pássaros podem comunicar a sua visão do mundo aos humanos. E Oumou Sangaré tem feito um trabalho notável nesse sentido, tendo sido recentemente distinguida pela UNESCO com um prémio musical.
Oumou Sangaré é um verdadeiro fenómeno no Mali. Uma artista de garra que fala ao ouvido dos homens aquilo que nenhuma outra mulher havia feito antes. Através da música, ela tem uma acção social preponderante, lutando pelos direitos civis das mulheres.

Poligamia, arranjo de casamentos, compra de noivas e excisão são alguns dos assuntos tabu abordados por Sangare nas suas canções. A cantora que admira a sociedade ocidental pelo facto de as mulheres poderem tomar decisões próprias e terem acesso à educação, não limita a sua acção social à música. Oumou Sangare já não grava um disco há mais de cinco anos, porque actualmente tem tido um papel activo na redes de trabalho com mulheres do Mali, auxiliando-as por exemplo a entrar no mundo empresarial.

Sobre a possibilidade de Oumou Sangare ser confrontada com o exílio pelo facto de a sua acção ser demasiado progressista para uma sociedade islâmica, a cantora expressa-se através de uma parábola. Afirma que na língua nativa da tribo Fula, a palavra Mali significa hipopótamo. Segundo a cantora, este mamífero pode sair da água e partir em busca de comida, mas regressa sempre ao seu habitat.


Ali Farka Touré

Ali Farka Touré representa o blues Africano com sabor a terra. A música profunda e hipnótica de Touré reflecte além da riqueza cultural, as debilidades económicas e sociais do Mali. País que durante os anos 70 mergulhou numa crise agrícola, resultante da interferência das grandes empresas multinacionais que ditaram as regras do jogo: a especialização agrícola em função dos mercados internacionais e a redução de culturas de autosubsistência. Esta política abanou o regime militar corrupto de Mousa Traoré, que acumulou enorme divida externa. O Fundo Monetário Internacional viu-se obrigado a agir, aplicando fórmulas de austeridade e privatizando empresas.

É neste contexto que se pode perceber melhor a filosofia rural do músico agricultor Ali Farka Touré. Aos 72 anos considera-se cansado das digressões mundiais que o projectaram como uma das figuras mais carismáticas das músicas do mundo. Touré sente que as constantes viagens enfraquecem os laços que o blues tem com a terra de Niafunké. As acções declarações deste homem que tem a cargo mais de 50 bocas para alimentar, surpreendem o mundo ocidental. Ali Farka Touré aplicou todo o dinheiro que ganhou com a música em maquinas de exploração agrícola e considera o seu lado de produtor de alimentos mais importante que o de músico. É que, como ele próprio questiona, um músico não pode tocar de barriga vazia, pois não?


Afel Bocoum

Quando Ali Farka Touré decidiu abandonar os palcos do mundo Ocidental, apresentou o legítimo sucessor. Afel Bocoum, à semelhança do grande mestre do blues Africano com quem tocou durante trinta anos, é de etnia Sonrai, nasceu e vive em Niafunké e organiza programas educacionais de agricultura.

Pura e árida como a terra à beira do deserto do Sara, cristalina como a água do rio Niger, a musica de Afel Bocoum é um manual de boa vivência para os Africanos.

Se a música no Ocidente é no entender de Bocoum puro entretenimento, no Mali e em muitos países africanos, representa o media mais poderoso para alertar a população sobre problemas sociais. Num país onde a taxa de analfabetismo atinge os 70%, é natural que a grande maioria da população não vá ao cinema, não leia jornais, nem veja televisão. Sem acesso a estes meios, a música é eleita como a principal fonte de informação. É por isso que Afel Bocoum sente grande responsabilidade em falar a verdade, em cantar os valores em que o povo acredita numa língua compreensível.

Publicado por Luís Rei às novembro 6, 2004 12:28 AM

Comentários

OLá. E parabéns antes de mais nada. Estou a ver, perante as evidências, que cometi uma pequena injustiça ao não nomear o vgosso blog no meu artigo do Blitz. No entanto, se tudo correr bem há-de haver uma continuação.
Posso perguntar como é que estão a alojar o vosso audio?
E parabéns...
RMA

Publicado por: RMA às novembro 6, 2004 09:28 AM

Olá Rui. Obrigado pelo elogio e parabéns pelo artigo. Foi, aliás a tua prosa bem escrita e documentada que me espicaçou para introduzir audio (não é que nunca tenha pensado nisso, mas esse foi o empurrão definitivo). O alojamento do audio é gentilmente cedido pelo "Calexico" da Mono¨cromática.

Abraço

LR

Publicado por: Yggdrasil às novembro 6, 2004 01:45 PM

Olá Luís

Também tenho que pensar em alojar o nosso audio algures. O site da Loop:Recordings está cheio que nem um ovo, por isso ali não dá. Mas há-de-se arranjar uma solução. E olha, se o artigo te "espicaçou" então já cumpriu o seu objectivo. Abraços e continuação de bom trabalho!

paz

rma

Publicado por: RMA às novembro 6, 2004 02:26 PM

'Cheio que nem um ovo' é uma expressão engraçada.
Olá Rui Miguel. Se estiveres muito à rasca de espaço, posso arranjar qualquer coisa. Mudei de servidor há pouco tempo e ainda tenho muito espaço livre. Dispõe.

Publicado por: Calexico às novembro 6, 2004 03:59 PM

Cheio que nem um ovo é uma expressão típica da minha terra, coimbra! Caloexico suponho que sejas quem eu suponho que sejas. Tenho que te enviar um mail porque se calhar éramos homens (e ainda somos...!) para aceitar essa oferta! Grande abraço!

Publicado por: RMA às novembro 6, 2004 08:00 PM

A minha mais sincera noraboa polo especial sobre música de Mali. Gostei moito, moitísimo, do que lin e ouvín.

Publicado por: Martin Pawley às novembro 8, 2004 10:40 PM

epá, grande a ideia, a do audioblog! sabes que tenho este especial Mali nos meus mp3 desde há anos e vou lá escutá-lo de vez em quando?

publica mais, que sabe bem voltar aos tempos da XFM!
abraços!

Publicado por: pmatos às novembro 18, 2004 01:37 PM

Então Pedro, já estás em casa? ou continuas em França?

Publicado por: yggdrasil às novembro 18, 2004 02:02 PM