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outubro 20, 2004
O problema da World Music em Portugal é...
... os hipermercados disfarçados de lojas culturais dominarem o mercado e terem apenas tarefeiros a atender os clientes;
... os hipermercados disfarçados de lojas culturais estarem à espera que o público não "invente" títulos e fique satisfeito com aquilo que lhe é dado nos expositores;
... os preconceitos e a "guettização" do género por se interessa por música - clássica, jazz, electrónica - seja consumidor, jornalista ou radialista;
... haver radialistas na emissora que eu ajudo a sustentar ao pagar a minha conta de electricidade, cheios de graçola, que anunciam o espaço de músicas do mundo da seguinte forma: "... vem aí o espaço X com a música que só a Raquel gosta...";
... não serem distribuídos nem 50% de bons discos no nosso país;
... haver apenas uma editora que realmente faz um trabalho satisfatório de promoção dos seus discos;
... os promotores das multinacionais não saberem o que fazer com as parcas edições que lançam;
... a Real World não editar mais discos para levar com mais frequência os jornalistas ao seu "campus" em Bath;
... só ser possível efectuar entrevistas por telefone, por e-mail ou em Portugal, porque não há budget de promoção para mais;
... o WOMEX parecer-se mais com a feira do Relógio.
Publicado por Luís Rei às outubro 20, 2004 04:47 AM
Comentários
...e porque a educação para a Arte em Portugal é considerada superflua, "fabricando" assim gostos enviezados, que fazem de certas cantoras pimba, êxitos de vendas.Neste inicio de século, PortugaL regrediu na Musica, em todos os sentidos.Esqueceram-se que o "ouvido", também se educa, e afinal, o publico recebe sempre aquilo que se lhes dá.Se lhes dessem musica de qualidade, a triagem acabaria por se fazer naturalmente. Contudo o marketing do pimba impera, e até agora passou também a servir pseudo-vedetas do Fado, que arvorando-se em inovadoras, não fazem mais do que repetir os fados de há 40 anos, repetindo também, os mesmos processos vocais e orquestrais "à letra" com a agravante de não terem qaulidade vocal nem interpretativa, para o fazerem. Como a cultura musical neste país é o que é,não se distingue a qualidade da aberração, e a honestidade de processos, da fraude artistica.
Estranhamente, nos anos 60,70 e 80, havia uma qualidade inequivoca na musica portuguesa, e o publico, supostamente menos culto da altura ( agora sabemos que não o era!), aderia à musica e sabia distinguir o trigo do joio.Tinham a sensibilidade para entenderem um poema do Ary cantado num Festival da Canção.Afinal, verifica-se agora, que a Cultura nesses tempos, era mais acutilante do que agora. Regredimos. Não há duvida de que este fenomeno, deveria constituir um "case study", para os Sociologos, Musicologos e Antropologos deste país, que deveriam tentar responder à questão:-Havendo na actualidade, maior numero de alfabetizados, maior numero de jovens na Universidade, porquê esta regressão no "gosto" musical dos portugueses?
Publicado por: valeria mendez às outubro 20, 2004 02:17 PM
A questão não é tão simples. O que não faltam são pessoas com grande educação e péssimo gosto musical. Dentre meus músicos preferidos, há dezenas de semi-analfabetos e apenas um com doutorado. O precisamos ter é mais diversidade, para que as pessoas conheçam mais coisas e "abram" seus ouvidos.
Publicado por: Paulo Eduardo Neves às outubro 20, 2004 11:18 PM
Concordo com todos os diagnósticos que foram feitos tanto no post, como nestes dois comentários e acrescento que falta dinamismo, coragem e mais empenho por parte de músicos, estúdios, pequenas editoras, distribuídoras e discotecas. Mas faço a ressalva do "perigo" de se cair no carolismo (característica tão cara aos portugueses), ou seja, é necessário criarem-se estruturas. Concluíndo: para se exigir condições (ao estado e ao mecenato) é necessário mostrar-se trabalho.
É toda a arte (sim, uns são mais filhos que outros) que está em jogo... e que melhor cartão postal de um país que a sua própria cultura?
Vamos tentar tratá-la melhor, com mais dignidade e com menos visão mercantilista da coisa... se vender, melhor, mas não é isso o mais importante.
p.s.: isto já dava um início de um post..:)
Abraço e continuação de bom trabalho!
Publicado por: Cigano às outubro 21, 2004 01:49 AM
O Paulo não me percebeu. Queado falei em Edfucação referia-me a Cultura Musical. No meu tempo eu tive até ao 11º ano uma cadeirita de 1h semanal chamada Canto Coral/Educação Musical, que para mim fez toda a diferença.Ouviamos pela primeira vez Chopin, Bach, Lizt...os nossos ouvidos ficavam mais familiarizados com os sons. Hoje essa cadeira acaba no 6º ano de escolaridade. Isto diz tudo, ou quase tudo...
Publicado por: valeria mendez às outubro 21, 2004 07:10 PM
as generalizacoes sao sempre motivo de cuidado. os tarefeiros dos hipermercados na verdade nao sao uma classe que exista realmente e a verdade é que ja me aconteceu mais do que uma vez pedir um cd num hipermercado, esperar q o "tarefeiro" me olhasse com ar de quem acabou de perceber japones e de ele me levar afinal, satisfeito no cumprimento do seu dever, ao preciso lugar onde se encontrava o dito. ja conheceste tarefeiros ou é so um preconceito dificil de combater, que eu propria tinha, antes de me confrontar com a inverdade do meu julgamento? tambem nao quero generalizar que nao ha tarefeiros... diz-me tu.
Publicado por: joana às outubro 25, 2004 12:08 AM
Acho que a principal razão para a bestialização do gosto musical dos portugueses (com consequências directas na preservação e evolução da cultura musical do país) são as rádios e televisões.
Uma criança de 12/14 anos que diariamente veja uma mtv ou mcm e ouça uma rfm ou rádio cidade, dificilmente terá um horizonte musical que vá além das anastácias, dos robins williams e dos bleckaidepís. Certamente achará que fazer música é vestir biquinís provocantes e pôr-se aos pinotes em frente às câmaras, a fazer playback por cima duma gravação (que nem sequer tem que ser da voz do "artista" em questão). Dançar é, claramente, a principal função dum músico moderno, visto que os intrumentos musicais são já peças de museu e de iluminuras antigas...
Nota-se já que existe uma geração (entre os 30 e 40 anos) filha deste fenómeno de estupidificação comercial e mãe novas gerações que nem fazem sequer a mínima ideia de quem poderá ter sido o Ary dos Santos (se jogador do benfica ou do sporting!).
Publicado por: Luís Pedro às outubro 25, 2004 02:28 PM