« World Music Summer Quiz II (perg #149) | Entrada | World Music Summer Quiz II (perg #150) »

setembro 14, 2004

Correio da comunidade #1: As origens do Funaná

O Quiz que este espaço tem vindo a elaborar, além de fortificar os laços existentes nesta comunidade em que, por vezes, mais parece um fórum, tem servido para aprofundarmos os nossos conhecimentos e sermos, por vezes, surpreendidos por certos factos interessantes que desconhecíamos. Ao passar a diagonal por enciclopédias de músicas do mundo, por biografias de artistas, também eu me consciencializo da minha ignorância, de que vejo apenas a superfície de um poço profundo. Por vezes, as perguntas nem sempre são concretas, como também não é muito claro as histórias que se conta de certas tradições. Vem isto a propósito da questão 125 sobre o origem Funaná e de quem é o real embaixador deste estilo caboverdiano.

O Artur Fernandes, músico e professor, elaborou um interessante texto que, de certa forma, mais do que responder às divergências evidenciadas na questão pelos vários participantes, oferece-nos uma bela prosa de uma parte da história da música africana e portuguesa.


1. Na pergunta é referido o papel de marinheiros portugueses no transporte do instrumento.
Nestas coisas da tradição oral é muito difícil obter provas, mas sabe-se que o acordeão terá chegado ao Brasil (Rio Grande do Sul) na década de 50 do sec.XIX levado por emigrantes alemães e italianos (marcas Hohner e Paolo Soprani) e só terá chegado a Portugal na década de 90.
Quanto a Cabo Verde não há registos para além da oralidade (que cai muito facilmente no domínio da lenda).
Estas informações nunca referem marinheiros portugueses, mas sim franceses (até há algumas histórias de piratas)

2. Na primeira resposta do Vítor é referido a origem do Funaná a partir dos Coros da Igreja.
Efectivamente na patente da invenção do Acordeão (Demian - Áustria) são referidos os aspectos da portabilidade e do custo como vantajosos em relação ao orgão.
Mas na prática, como se tornou rapidamente num instrumento muito popular, associado à ruralidade, fica umbilicalmente ligado às danças tradicionais. O repertório do acordeão, logo desde início, são géneros coreográficos.
Ora bem, e como a dança era considerada uma coisa proscrita pela Igreja Católica, o instrumento é perseguido pelos padres (muitas vezes apreendido) e até porque o tocador no adro da igreja lhes roubava “clientes” para a Missa... (Este cenário foi comum em Portugal, França, Itália, País Basco, Brasil, etc).
Em Cabo Verde mais motivos houve para esta má relação entre Igreja Católica e Acordeão; A repressão por todas as manifestações de origem africana que a Igreja Católica fez em Cabo Verde, por isso, se faz o batuco em toalhas, e o ferro do funaná em vez de um reco-reco é uma faca de cozinha a raspar numa barra de ferro duma cama.
Também por isso, a prevalência da Morna e da Coladeira (urbanos e de influências europeias) em relação ao Funaná, Batuco, Kola San Jon, (rurais e de influências africanas). Esta situação só começaria a inverter-se depois da independência. O grande responsável pela “redescoberta” da música rural Cabo-verdiana é o precocemente falecido Katchass (Carlos Martins) dos Bulimundo, que começam a incorporar ritmos e harmonias do Funaná, Batuco, e outros. Mais tarde os Simentera continuam este percurso numa vertente acústica.
O Funaná é também um género coreográfico tipicamente africano de pares e bastante sensual (como o tango, mas muito mais explícito), é cantado em crioulo (geralmente o tocador da gaita). Os padrões harmónicos são modais contrariamente ao que seriam as harmonias tonais dos coros religiosos e os padrões rítmicos são sincopados, “uptime” e repetidos obstinadamente (África). Estas características, afastam a probabilidade do Funaná ter nascido a partir dos coros religiosos.
Eu sei de alguma bibliografia que refere esta relação, como também o facto do Funaná “ser música minhota tocada por cabo-verdeanos” – Nada mais errado – a única semelhança é tímbrica.

3. Quanto aos eventuais embaixadores do Funaná, efectivamente só podem ser os Ferro Gaita.
Como em outros países com músicas tradicionais por transmissão oral, o Funaná esteve quase a desaparecer no final dos anos 70 do sec. XX. Como referi atrás, foi muito importante o trabalho do Katchass nos Bulimundo para que o Funaná não morresse; Foi ele que “descobriu” o Kodé di Dona, que mais tarde viria a gravar para a etiqueta Ocora da Radio France.
É então que no decorrer dos anos 80 muitos tocadores voltam a fazer bailes de Funaná, depois de terem parado.
Com a evolução dos meios técnicos, muitos tocadores gravam CD’s: Bitori nha Bibinha, Sema Lopi e Julinho da concertina (este residente em Portugal) entre outros.
Até que aparecem os Ferro Gaita (finais da década de 90 a combinarem a Gaita e o Ferro com o Baixo eléctrico e a Caixa de ritmos (Drum’s machine) – à semelhança do que os Bulimundo já tinham feito, que se tornam rapidamente num fenómeno de popularidade. Na rádio em Cabo Verde, desde essa altura, passa mais Ferro Gaita que a própria Cesária. Há aqui que referir uma condicinante muito importante no sucesso dos Ferro Gaita (para além do seu mérito) o empresário deles, Augusto Veiga, é irmão do então 1º ministro Carlos Veiga, resultado – grande facilidade nos vôos inter ilhas nos TACV Airlines...
Um aspecto importante na cultura Cabo-verdiana é que todos são músicos! Toda a gente sabe dar um jeito num instrumento qualquer. E com o advento das gravações de CD, ter um CD gravado é quase como ter o Bilhete de Identidade. Assim hoje proliferam dezenas de CD’s de Funaná, com Ferro, Gaita, Baixo eléctrico, Caixa de Ritmos. Até o próprio Kodé di Dona, depois do “acústico” para a Ocora já gravou (salvo erro em 2001) Funaná Eléctrico. Neste aspecto Cabo Verde está “muito à frente” dos tocadores de concertina minhotos...
De referir que este movimento, a par do Batuco centra-se essencialmente na ilha de Santiago, em oposição à Morna e Coladeira mais centradas em S. Vicente. Este é mais um aspecto da rivalidade entre Mindelo (S. Vicente) e Praia (Santiago).

4. Quanto à questão de o Kodé ser o mais novo ou o mais velho, eu ouvi a explicação da própria boca dele, mas como nesse dia ele estava com muito grogue, não tocou nada de jeito e disse uma quantidade de baboseiras, é provável que seja então o mais novo.

Nota: Sempre que me refiro ao acordeão, trata-se efectivamente do Acordeão Diatónico.
(vulgo, erradamente, Concertina em Portugal)
Artur Fernandes

Publicado por Luís Rei às setembro 14, 2004 06:16 PM

Comentários

Excelente texto. Realmente as respostas estão gerando belas discussões. Aproveito então para deixar a sugestão: por que não criar um grupo de discussão associado a este blogue? Pode ser uma simples lista de discussão no Yahoo Grupos. Será uma ótima oportunidade de trocarmos experiências.

Publicado por: Paulo Eduardo Neves às setembro 15, 2004 06:06 PM

Caro paulo, esse grupo de discussão existe.

Pode inscrever-se nele através do seguinte link:

http://launch.groups.yahoo.com/group/cronicasdaterra/

Publicado por: yggdrasil às setembro 15, 2004 08:40 PM

Estou com meus alunos em aula de Literatura Africana. Encontramos o teu blog. Ja estamos lendo... Valeu... vc fará parte das referências bibliograficas.

Publicado por: Sylvia às outubro 26, 2004 12:07 AM