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agosto 16, 2004

FMM De Sines: Warsaw Village Band



(c) CMS / Cameraman Metálico

bárbaros e pagãos

Três vozes intensas e misteriosas cantando em uníssono em polaco, num ritual de chamamento a longas distâncias, como faziam no passado os pastores polacos. Dois violinos crepitantes que gelam o Báltico, unindo a Polónia à Suécia da “old fiddler tradition”. Um violoncelo tenso e incisivo, que dá o “drone” hipnótico à folk da Warsaw Village Band. Um saltério menos onírico do que o dos suecos Frifot, mais ligado à terra e a grandes cavalgadas punk / hardcore. Uma “frame drum” tocado como se fosse um tambor xamânico dos Sámi e um “kit” de percussão simples, constituído por um bombo, um prato e (por vezes) ferrinhos, o quanto baste para que o som seco e rico em variações rítmicas – que fazem lembrar os ritmos das “brass bands” ciganas de leste - ganhe protagonismo. Há um nervo bárbaro e pagão aliado a um profundo conhecimento das tradições musicais da região da Mazóvia, com um desejo de inovar, que torna WVB numa das mais frescas e interessantes propostas da folk (em confronto com o rock e a dança) do norte e do centro da Europa sedento de inovação, alinhando-a à movimentação “ethno-punk”, ao lado de Hedningarna, Garmarna, Alamaailman Vasarat, Vasmalom e Besh’o’Drom.
Sem recorrer a quaisquer instrumentos electrificados ou electrónicos em palco (coisa que já não acontece em disco), a WVB tocou quase sempre como uma banda hardcore, extremamente rápida na execução e na duração das composições escolhidas a dedo de “People’s Spring” (2002) e de “Uprooting” (2004, álbum acabado de editar e sobre o qual publicarei futuramente uma entrevista com a banda). Arrebataram corações pouco sintonizados com a folk do Báltico, cumprindo plenamente o seu objectivo. O de chegar ao público mais festivo, à espera de se divertir, perdendo com isso o resto do repertório mais ascético e calmo. Curiosamente, foi num desses raros momentos contemplativos, apenas com a violoncelista e violinista (aqui, envergando um violino medieval “suka”) que a WVB se mostrou mais sedutora, quebrando o ímpeto repetitivo dos tiques punk (curiosamente, um dos percussionistas envergava uma t-shirt da banda hardcore D.R.I.) usados ao longo de quase todo o espectáculo. Apesar de tudo, a WVB merece voltar, de preferência em locais fechados, de forma a preocuparem-se mais com o público que os vai ouvir, não com aqueles que estão sedentos de queimar as calorias em excesso provenientes dos hamburgueres ou dos nacos com molho de natas e dos “sundays” que ingeriram ao jantar. [8.5/10]

Publicado por Luís Rei às agosto 16, 2004 06:47 AM