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agosto 15, 2004
Festival Raízes do Atlântico

Os irlandeses Téada
Apesar de o cartaz ter sofrido alterações nada agradáveis de última hora (a não inclusão de Hednignarna conforme estava previsto), o “Raízes do Atlântico” atingiu a maturidade na forma como se relaciona com os madeirenses e, sobretudo, com os turistas estrangeiros de meia idade que se encontravam, noite após noite, em número considerável. O espaço do auditório do jardim esteve sempre repleto, sobretudo na noite das Tucanas. Quem chegava em cima da hora, tinha a tarefa dificultada de ver os espectáculos nas melhores condições. Na impossibilidade de se conseguir lugar sentado, os restantes amontoavam-se como podiam, atrás uns dos outros, tornado-se difícil ver-se um espectáculo em perfeitas condições. A questão que coloca é a seguinte: como será a partir daqui? Haverá um novo conceito de festival? Explorar-se-ão nos espaços e outras localidades além Funchal, como por exemplo, a sala do Casino do Funchal, o Engenho e o espaço da praia de Porto da Cruz? Mudar é preciso.
Os madeirenses
Como tem sido apanágio deste festival, o contigente madeirense apresenta-se em número considerável garantindo mais de 50% do cartaz. Já que dificilmente actuam no continente e fora do país, que façam o gosto ao dedo, pelo menos, na terra onde nasceram. Os nomes repetem-se, mas o repertório e direcção artística (sobretudo de Xarabanda e Banda d’Além) renovam-se. É pena que não haja músicos da craveira de Vítor Sardinha ou intérpretes estrangeiros do conservatório local que possam oferecer um cariz mais experimental da música e dos instrumentos madeirenses.
Os Xarabanda, encarregues de encerrar esta edição, foram uma agradável surpresa. Apresentaram-se com o Coro do Porto Moniz (muito bom o momento das vozes masculinas, menos bem com todo o coro). A revisão do legado madeirense continua algo redondo e previsível, se bem a direcção artística melhorou consideravelmente. Há ainda gente nova com valor a cantar e a feliz integração de um acordeonista Sérvio – Slodoban Sarcevic - que poderá no futuro dar maior audácia criativa ao projecto liderado por Rui Camacho. Ele que esteve também muito bem ao demarcar-se da reivindicação de mais (ainda mais?) apoio monetário aos projectos de música tradicional madeirenses proferida por Jorge de Sousa dos Encontros da Eira. [4/10]
Com o discurso reaccionário proferido várias vezes durante o espectáculo deste projecto da Camacha, que se dá ao trabalho de contabilizar à unidade o número de CDs vendidos até ao momento (13.794 – treze mil, setecentos e noventa e quatro), ficámos com a sensação de os músicos locais serem uns mendigos e das mouriscas serem seriamente perseguidas pelo lápis azul. Musicalmente, o Encontros da Eira é o projecto mais conservador. Tal como outros projectos congéneres, há sangue novo a correr, mas parece amordaçado pela intenção de não mexer uma virgula que seja ao seu repertório. [6.5/10]
Mantendo a mesma intenção em desenterrar e polir semelhante arqueologia musical, a Banda D’Além é contudo mais ambiciosa, sobretudo em disco. Neste espectáculo convidou um quinteto de cordas. Belíssimo a versão que criaram do Bailinho da Madeira, justificando plenamente o apoio monetário que eventualmente recebem Governo Regional (não sei quanto será, nem estou minimamente interessado em saber). Contudo, Mário André é para o bem e para o mal um líder que comete alguns excessos. Há nele um certo espírito do açoriano Zeca Medeiros, tornando-o algo dramático, assaz expansivo. Às vezes, ele transmite uma certa vitalidade ao espectáculo que falta, por vezes, aos seus músicos, outras vezes (a maior parte) acaba por criar tempos mortos, prolongando a actuação para além dos limites do razoável (1h45m, quando estava estipulado 1h). [6/10]

Banda D'além
Falar de Melian é falar de uma verdadeira salganhada auditiva que, na maior parte das vezes, não tem pés nem cabeça. Há bons músicos (como por exemplo o violoncelista húngaro Lásló Szapesi), momentos interessantes, sobretudo acústicos e instrumentais (quando o violoncelo e viola de arame se juntam), mas tudo descamba quando tentam ser uma banda ethno-gotic-metal. Sofia Relva é um equívoco. Na ânsia de protagonismo, puxa pelas cordas vocais como uma cantora de hard rock, dá voltas e voltas ao auditório. Ficava-lhe melhor o papel de Aimee Lee numa Chuva de Estrelas ou numa Operação Triunfo. Deixe lá os rapazes trabalharem. [3/10]

Os Marroquinos Nass Marrakech
Publicado por Luís Rei às agosto 15, 2004 05:58 PM
Comentários
Entre a chegada de outras terras, e a partida já daqui a dois dias para outros rumos, levando a minha canção para outros auditórios, chego aqui, e leio as suas críticas. Não há duvida QUE SÃO FUNDAMENTADAS, E ELABORADAS POR ALGUEM QUE SABE O QUE DIZ. Contudo, como é óbvio, não me caberá a mim falar dos meus colegas madeirenses, nem me ficava bem...Afinal, sou uma "marginal"... ( ! )
Publicado por: Valeria Mendez às agosto 22, 2004 02:33 PM
cara Valéria, compreendo que não queira falar sobre os músicos / bandas em questão, mas conhecendo a Madeira como conhece, é desde já convidada a opinar sobre locais e formatos alternativos para o festival raizes do atlãntico.
Publicado por: yggdrasil às agosto 24, 2004 03:23 AM
Foi com muito agrado que tive acesso a este blog e enfim, gostei de saber que, no mínimo, se discute temas como este. De resto, acho muito pertinente que se aborde temas como o da qualidade musical dos grupos da Região, isto se pensarmos que, até hoje, a crítica e os críticos musicais desta nossa ilha são tão medíocres e ocos (vejamos só os exemplos da imprensa escrita tipo “Salvador da Pátria” entre outros).
Em relação à opinião do nosso amigo de facto, foge ao que se diz ser normal na medida em que já consegue fazer uma análise cuidada e contextualizada em relação ao importante evento como O Festival Raízes do Atlântico.
Mas decerto que não deixa de ser, também, uma opinião muito criticável. Ou seja: Em relação ao tipo de reportório apresentado por todos os grupos da Madeira no dito festival é certo que os XArabanda e os Banda D´Além mostraram trabalho principalmente os primeiros, uma vez que estão numa fase de transformação salutar , facto que há muito tempo deveria ter acontecido. Até aqui tudo bem.
Agora, tomemos em atenção o objectivo de cada um dos grupos. Por certo que os Banda d´além é, como disse, o grupo mais vanguardista de todos mas, se calhar, o experimentalismo excessivo e um pouco sem nexo torna-se, deveras, entediante. Pois pergunto “Onde está o fio conduzir daquele trabalho?” Parece-me a mim que o reportório é “feito à pistola” e “em cima do joelho”. Já não bastará ouvir o Bate o Pé ou o Baile do Ilhéu nos grupos folclóricos?..... E ainda para mais cantado daquela maneira.
Mas, em relação aos Encontros da Eira, sou da opinião que musicalmente a coisa é diferente.
Creio que é um projecto (repito musicalmente falando) muito mais coerente. A sua música, embora creia que seja limitada por certos elementos que, claramente já estão ali a mais (como é o caso do Sr. Jorge se Sousa), este projecto segue uma linha de criação mais coerente, sem grandes aventuras, é verdade, mas muito mais ponderado.
Todavia, em relação à parte que não tem nada a ver com música, temos que convir que a situação caricata protagonizada pelo sr. Sousa foi lastimável (embora todos nós saibamos que na nossa Região ainda não se possa dizer o que se pensa (pelo menos se for contra o sistema), foi no mínimo lamentável Talvez tivesse a ver com o seu estado de espírito nesse dia… Como diz o ditado “In vino veritas”…
Enfim perdeu uma oportunidade de estar calado. Facto, aliás que deveria de acontecer mais vezes. Sim porque o discurso desse senhor é sempre o mesmo.
Publicado por: Jb74anos às outubro 26, 2004 10:26 PM
e assunto o discurso de ontem , terá de ser o de hoje, o de ontem e do amnhã.
Publicado por: Antonio Gouveia às novembro 20, 2004 04:23 PM
Julgo que a crítica aos Melian foi totalmente desmedida!Sempre gostei imenso da banda, e considero a avaliação medíocre dado o facto de conhecer Sofia Relva como cantora lírica, numa caminhada longe do rock, quanto mais hard rock. A banda é composta por grandes músicos, por vezes com melodias a mais, mas no seu todo, excelentes executantes, que não seriam inesquecíveis sem aquela vocalista!
Publicado por: João às novembro 29, 2004 07:17 PM
O que aqui me chama são as críticas sobre o senhor Jorge de Sousa dos Encontros da Eira. Penso que tudo o que o Jorge tem feito pelos Encontros da Eira não passa despercebido a ninguém.
É lógico que ter um dirigente assim faz dor de cotovelo a muito gente.
É claro que não poderá ter a qualidade musical de outros elemnentos do grupo, pois vem de outra escola. Sobre o que ele disse ou diz, acho muito bem pois tem sido nesta pacata terra aquele que mais tem reivindicado para a música tradicional da Madeira e lógiamente para o grupo que é mui digno fundador e presidente de Direcção.
Acho que falar assim do Jorge é uma injustiça.
Cunmprimentos
Publicado por: António Gouveia às dezembro 11, 2004 06:13 PM
Os Encontros da Eira já contam com demasiadas digressões pelo País e estrangeiro para que se diga "dificilmente actuam no continente e fora do país, que façam o gosto ao dedo, pelo menos, na terra onde nasceram".
A análise que faz de todas as bandas, apesar de, como todas, discutível, é devidamente fundamentada e, logo, merece toda a atenção e respeito.
Não deixo de saleintar que não podemos criticar um grupo por não ser experimentalista ou outra característica que nos apraza pessoalmente, quando o projecto que publicamente referem ter é de outra qualquer índole. Este é o reparo que deixo à sua crítica.
Quanto aos apoios, monetários e não só, reflectem tão só a revolta pelos "rios de dinheiro" gastos pelo projecto "Madeira Região Europeia" em espectáculos de artistas estrangeiros. Porquê? Não por qualquer sentimento anti-estrageiros, já que a grnade maioria foi de qualidade indiscutível, mas porque poucas ou nenhumas verbas são aplicadas na criação de projectos, infraestruturas e afins, que deixem na Região o cunho Europeu que se quer celebrar.
Publicado por: Nuno às janeiro 8, 2005 04:01 PM