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junho 22, 2004

O açafrão e a pimenta dos Dazkarieh



Dazkarieh, Ruinas do Carmo, 17 de Junho

O poder da televisão. Ainda há cerca de um mês os Dazkarieh haviam tocado na Comuna, numa sexta-feira à noite para não mais de cem pessoas. Com “spots” a passar insistentemente no meio das transmissões do Euro 2004, as Ruínas do Convento do Carmo acabaram por ser um espaço pequeno de mais para receber tanta gente. E, quem foi, não deu por mal empregue nem o tempo, nem o dinheiro. Pelo contrário. Os Dazkarieh esforçaram-se por fazer um concerto de encher a vista e o ouvido. Foi, sem dúvida, o melhor dos três que até hoje presenciei.

A capa do primeiro disco não engana. Há, nos Dazkarieh, uma mistura de inúmeras cores e especiarias que fazem da sua música uma mostra de acepipes típicos de várias cozinhas. De África, ao subcontinente Indiano, até à América Latina. Por vezes, excessivamente condimentados e tão picante que o nosso poder gustativo perde sensibilidade. A confecção mais simples, à base de um fio de azeite, um dente de alho e uma folha de louro, revela-se a melhor opção, quando se quer realçar o sabor dos alimentos. Mas, gabe-se todo o poder inventivo do chef Vasco Casais que explora ingredientes de todo o mundo, por conta própria, por vezes com uma certa ingenuidade e entusiasmo em excesso, acabando por criar, aqui e ali, combinações algo redundantes. Deixemos os tachos e as panelas e vamos à música.

O “harmonium” que usualmente os Sufis usam na sua música devoção qawwali marca um início contemplativo, como que a apelar aos deuses protecção e orientação para a hora e meia que se segue. Mais terreno, o bouzouki de Vasco em “Abour Safar” (do disco homónimo de estreia) conduz-nos ao Báltico. Logo de seguida, as odaliscas Mónica e Carolina exibem toda a sensualidade das danças do médio oriente, a partir de ritmos nubianos que colidem com tiques de flamenco (cajon e guitarra), cantares que evocam os ciganos das balcãs num tom que ainda (infelizmente) não perdeu os tiques “Dead-Can-Dancianos”, apimentados uma dispensável gaita de foles (“Dazambra”). Em território celta, “Naco” revela um apreciável contingente do “Andanças”, que se organiza em roda para a “dança do círculo”. Momento chave em que se dá o primeiro contacto com um de vários músicos convidados: o violinista ucraniano Denys Stetsenko. Se a música dos Dazkarieh peca somente pela sua desmesurada ambição em querer unir todo o mundo em apenas hora e meia, Denys, Celina Piedade, Júnior dos Terrakota, Pulga e Carlos Mil-Homens, foram as cartas certas do baralho para que essa premissa dos Dazkarieh não fosse assim tão descabida.

Elegante e elástico, Denys foi a estrela maior. Do seu violino inflamado saíram solos rasgados em território celta (“Naco”), em ritmos quebrados dos balcãs(“Búlgara”), no acompanhamento do flamenco estonteante de Pulga (palmas) e Carlos Mil-Homens (Cajon), em “Buleria”. Celina foi igual a si própria. Não lhe fica mesmo nada mal o epíteto de vai a todas. Tudo soa bem no seu acordeão Saltarelle. Quer as danças da tradição europeia, quer os devaneios afro-latinos que pretendem repescar ambientes andinos (“Andina”), mas que acaba por derivar numa espécie de “funana” sul americano, quer num semi-forró (“Brazil”), de um qualquer sanfoneiro nordestino (de preferência, um Jackson do Pandeiro). Mais discreto, Júnior trouxe o seu balafon para solar em “Zahrany”. Louve-se o amor que os Terrakota têm pelas tradições africanas mandinga e wassolou, mas notou-se em Júnior a falta de uma técnica mais apurada, como por exemplo, a do guineense Kimi Djabaté do projecto Tama Lá. Louve-se o trabalho e a atitude do colectivo Dazkarieh: o Vasco, tecnicamente bom em bouzouki e (agora mais intensamente) em flauta transversal; o Filipe que com o seu sorriso desconcertante parece gozar mais ao sentir a receptividade do público, do que propriamente a fazer o seu papel de percussionista; o calo do Nuno Patrício; a versatilidade do contra-baixista que chega a fazer deste instrumento um hit gardon húngaro e se desdobra no harmonium e nas tablas.

Apesar da necessidade de focarem melhor a objectiva, de forma a não terem uma imagem mais abrangente mas tremida, a noite das Ruínas do Convento do Carmo deixou no ar o sentimento de que vamos ter em Julho um muito bom disco distribuído nos dias 13 e 20 com o Blitz. Já só faltam três semanas.


Alinhamento

1 – Intro
2 – Abour Safar
3 – Dazambra
4 – Gaitas
5 – Naco
6 – Zahrany
7 – Rosa de Lava
8 – Naty
9 – Búlgara
10 – Buleria
11 – Sansorgui
12 – Troll
13 – Andina
14 – Miu’ra

Encore

15 – Brazil
16 – Miafarê Boi

Publicado por Luís Rei às junho 22, 2004 05:42 AM

Comentários

...é pena não comentarem a participação de outros musicos convidados para alem dos que aqui ja referiste....

Publicado por: Fly às junho 22, 2004 09:46 PM

que outros músicos convidados???
Não referi apenas a prestação de outros músicos: o guitarrista que safou bem, sobretudo em temas mais "aflamencados" e a vocalista em que se realça a interpretação de temas em português, se bem que foram os que mais me custaram a digerir...

Publicado por: yggdrasil às junho 23, 2004 01:17 PM

A primeira sensação que tenho é que há uma evolução constante e um amadurecimento no som dos Daz, fruto por certo, de muito trabalho e investigação dos músicos. Achei este concerto mais sólido do que o de à dois anos no Carmo, mantendo-se o espírito celebrativo da vida. O som está mais denso e potente, assim como o gosto do risco e da experimentação, aproximando-os do círculo Mustradem (Djal, Dédale).

Para mim, um dos factores chave para este notável crescimento é o guitarrista Ricardo Gouveia, que eu já conhecia do projecto “Igarapé”, exímio tocador de cordas. Por ele passa toda a musica da banda, tocando além de guitarra, bouzouki, cavaquinho e baixo eléctrico.

A banda também ganhou com a entrada de Pedro Roxo, contabaixista, um musico experimentado, eclético, que já foi Bailia e que também orbita o círculo das musicas improvisadas (leia-se turma Nuno Rebelo).

Nas vocalizações, os Daz também estão diferentes, a estreante vocalista Helena, tem um registo totalmente diferente de Marie Beatriz Lúcio, com um timbre mais quente, combinando bem com Nuno Patrício, notando-se que pode evoluir ainda mais.

É dificil destacar um momento no excelente concerto nas ruínas, mas foi bom sentir ao vivo o espírito Dazkarieh em, entre outros, “Miafâre Boi”, para mim uma síntese perfeita do som da banda, diálogo entre bouzouki e violoncelo (Hugo Fernandes).

Depois do concerto, ainda houve tempo para um baile jam à porta do Convento do Carmo, com muita gente a conviver, a tocar e a dançar. Haja paz para continuar sempre neste espírito.

Um bem haja ao Dazkareih e à Bigorna.

nfontes

Publicado por: nfontes às junho 23, 2004 04:36 PM

Luis, já tens as fotos disponíveis.

Publicado por: Mário às junho 23, 2004 05:03 PM

Excelente complemento à minha crónica, Nuno. De facto, fui um pouco injusto com o guitarrista (e tocador de bouzouki - já que o vasco está agora mais empelhado na flauta transversal) Ricardo Gouveia ao não ter falado dele.

ah, esqueci-me, de facto, do Hugo como convidado.

Publicado por: Yggdrasil às junho 23, 2004 05:06 PM

Obrigado Mário

Publicado por: Yggdrasil às junho 23, 2004 05:24 PM

No concerto dos Dazkarieh do dia 17 de junho no Convento do Carmo,estiveram presentes como convidados,Celina Piedade no Acordeão,Denys Stetsenko no Violino,Carlos Mil-Homens no Cajon,Junior no Balafon e Percussão,João Fião na Percussão,Mónica e Carolina nas Danças e Hugo Fernandes no Violoncelo.

Publicado por: Pedro às junho 23, 2004 11:09 PM

Desculpem esqueci-me do Pulga que tambem foi convidado e acompanhou com palmas o Carlos Mil-Homens.

Publicado por: Pedro às junho 23, 2004 11:12 PM

Desculpem esqueci-me do Pulga que tambem foi convidado e acompanhou com palmas o Carlos Mil-Homens.

Publicado por: Pedro às junho 23, 2004 11:12 PM

Desculpem esqueci-me do Pulga que tambem foi convidado e acompanhou com palmas o Carlos Mil-Homens.

Publicado por: Pedro às junho 23, 2004 11:13 PM

hehehe,carreguei vezes demais no enter.
Desculpem o transtorno.

Publicado por: Pedro às junho 24, 2004 12:00 AM

Hello.

Im sorry but i cant read Portugeus that well.
But Im wonderling if i can buy a CD of Dazkareih.
I saw you playing in Lisboa in Chapito when i LIved there..

I hope to hear from you
Sanne

Publicado por: Sanne às agosto 2, 2004 07:47 AM

Temos que dar a conhecer Dazkarieh ás pessoas...há tanta qualidade e todo um tipo de sentimentos no trabalho deles que sinceramente eu bem pensei ao inicio que não fosse coisa feita em portugal...(infelizmente muita gente pensa assim, eu já fui uma delas), não há banda internacional que me dê a mesma sensação de alegria e de querer dançar senão esta banda...nunca me diverti tanto em algum concerto como no deles que teve lugar no chapitô.um abraço a quem quer que seja que me deu oportunidade de comentar sobre esta banda...apenas fabulosa.

Publicado por: Mélanie às dezembro 3, 2004 09:00 PM