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junho 08, 2004

Cdt no RiR (22): Mariza e a terapia do fado



Mariza © 2004 - agência zero

Mariza é um ícone da pop que canta fado. Cresceu desmesuradamente nestes dois últimos anos. A tenda Raízes, uma das mais discretas de todo o festival, foi pequena demais para receber tamanho monstro mediático. O seu concerto foi, de longe, o mais concorrido dos 23 que ocorreram durante os seis dias de festival neste palco. Mas, o mais extraordinário na sua actuação, foi a forma como conquistou de imediato uma assistência que se dividia entre a classe média-alta de meia idade e uma considerável chusma de imberbes sub 24, habitues de festivais rock. Por esta avalanche de pessoas pouco comum neste pacato local e por toda a empatia e ambiente que se gerou entre a Diva e a plateia, ela merecia ter estado no Palco Mundo, a sós com o seu trio e não apenas no dueto com Daniela Mercury em versão electrónica de “Garota de Ipanema”, conforme havia acontecido na noite anterior.
É muito fácil embirrar-se com Mariza. Começou por comunicar de forma excessivamente teatral com a plateia, falando formalmente e com a voz colocada, como se estivesse a ler um texto para um documentário, por exemplo, ao contar a sua história de moçambicana que veio viver para a Mouraria com apenas três anos. Exibiu gestos excessivamente expressivos. Atacou algum do repertório mais óbvio de Amália. Trocou de vestido durante uma “guitarrada” em que brilharam os músicos que a acompanham: Luís Guerreiro em Guitarra Portuguesa, António Neto em Guitarra Acústica e o (também) moçambicano Fernando de Sousa em baixo acústico. Levou uma cadeira para o centro do palco, afastou a saia, colocou a perna em cima do assento e mostrou a meia de riscas lilás e preta, numa pose de dançarina de cabaret, ao abordar a vida da primeira fadista, Maria Severa. Comentou o seu penteado. Reconfortou a plateia com frases feitas: “- vocês são o melhor público do mundo”; “- Lisboa é a cidade mais bonita do mundo”. Gozou com Britney ao parecer auto-vangloriar-se dos seus poderosos dotes vocais: “- sem tretas. Isto não foi playback”, após uma arrancada de fazer calar o ruído dos aviões que muito frequentemente utilizavam o corredor aéreo da Bela Vista. Gritou “Portugal, Portugal, Portugal” em apoio à selecção. Apesar de tudo, Mariza conseguiu superar todos estes gestos que parecem tirados de um manual de como construir uma figura proeminente do show business. Como uma dama que se liberta dos espartilhos de fino aço, da pose, e se torna mais autêntica e mais genuína, Mariza deixou-se contagiar pela sede que a plateia tinha de ouvir fado. Inúmeras foram as vezes que a cantora parava a meio de uma canção para ouvir aqueles que a escutavam, como por exemplo, em “Oiça Lá Ó Senhor Vinho”. A cumplicidade foi tal que Mariza parecia estar do lado de lá e a assistência sob o domínio dos holofotes a acompanhar o trio. Foram momentos extremamente humanos e emotivos que levaram as lágrimas aos olhos de quem estava de apoio ao palco. Fascinante a forma como duas, três ou quatro mil almas sorveram o fado até à última gota. Num país em crise, com falta de auto-estima, Mariza devolveu-lhes o orgulho e serem portugueses. Ao quinto, repito, quinto encore, remata em beleza com as palavras “Lisboa Menina e Moça” comummente interpretadas por Carlos do Carmo. Mais emotivo era difícil. A fadista não irá esquecer-se desta noite tão depressa. [8.5/10]

Publicado por Luís Rei às junho 8, 2004 01:45 AM

Comentários

Mas que raio de surdez invadiu esse publico, que não viu diante de si, uma "Fadista de Plástico", fabricada, até aos trapos "Rôlianos" que enverga, passando pela exploração, sem preocupações de criação, de temas célebres de Amália e Carlos do Carmo. É muito fácil, fazer seguir o publico com o "Oiça lá ó sr, vinho" trecho de Alberto Janes, do reportório amaliano. O sucesso de Mariza ,é o mesmo de qualquer banda de covers do Elvis ou dos Beetles. O reportório é rei e senhor. Porque ele já faz parte do imaginário do publico. Dificil é fazer sucesso com o original, com o "novo". E de novidade, Mariza apenas apresenta o penteado e os vestidos ( se bem que mantenha o classicismo amaliano! Até nisto!). A orquestração é a mesma, as pausas ( tão aleatórias, porque o artista deve criar!), neste caso até são as mesmas que se podem ouvir nos discos de Amália. Um artista pode servir-se do reportório dos seus idolos. Mas deverá criar. De referir por exemplo, António Variações ou Dulce Pontes, que ao interpretarem o "Povo que lavas no rio", deixaram o seu cunho, a sua criação bem patentes.Apresentaram a sua criação, o seu caminho. Unicos. No caso de Mariza, dir-se-ia que, estávamos perante uma caricatura amaliana de péssimo gosto. A voz, essa, apesar de bonita e potente, pecou pelos excessos de "gritos" sem côr, resultado, de novo, da tentativa de querer vingar, à custa de um repórtório, a que o publico estava já habituado, nos tempos gloriosos de Amália. Enfim...Mais uma prova, de que, ser-se artista, hoje em dia, depende muito da máquina promocional que se tem.

Publicado por: Valéria Mendez às junho 8, 2004 04:48 AM

não concordo nada. um fadista não tem que inovar sempre. Até chegar a Amália, inovar no fado era considerado heresia. havia 3 ou 4 fórmulas que se repetiam e toda a gente cantava as mesmas letras.

pode ser-se um bom fadista a cantar só clássicos.

agora, concordo que a Mariza tem uma encenação preparada a fingir que é espontãnea. O espectáculo é feito para ser visto uma vêz. Já a vi umas quantas vezes e a coisa é sempre a mesma, o pé na cadeira, a meia às riscas, o puxar pelo público no sr. vinho, o vir para o meio da plateia cantar e dizer que era assim que se fazia na Lisboa de antigamente...

mas isso não impede que a Mariza tenha uma voz do caraças e que eu me arrepie sempre em algumas das arrancadas que faz. ela canta bem, e não é por ter tiques de estrela que isso passa a ser mentira.

... e a história do vestido parece-me muito bem. acabar com aquela cultura miserabilista da coitadinha sempre de luto. o fado é mais do que cantar histórias de marinheiros estropiados que se perderam no mar. a Mariza passa uma imagem excelente, do fado e de uma disposição de estar na vida que rompe com o cânone tradicional. e pelo caminho aproveita para promover estilistas portugueses.

Publicado por: pmatos às junho 8, 2004 12:40 PM

Perante este concerto, não tive outra alternativa senão render-me à evidência: a Mariza é uma fadista autêntica e de grande valor. O discurso marcado por cepticismo que já aqui foi encomendado, também já foi meu.
Mas a verdade é que o bom fado serve-se ao vivo e a cores. Os discos são sempre registos imprescindíveis, mas só compreendo o fado quando o testemunho. E no dia deste concerto, o fado foi muitíssimo bem tratado... Deixem lá essa tradicional conversa da malvada "indústria musical" de lado e façam o favor de apreciar.

Publicado por: André Chêdas às junho 8, 2004 12:59 PM

Assisti no RIR até aguentar show da Mariza. Não foi a primeira vez que a escutei ao vivo, mas peço sempre que seja a última. Não me diz nada como cantora e MUITO MENOS como fadista. E isto só prova como os olhos ou a cabeça são únicos, porque tu, Ygg estavas lá, no mesmo espaço. Só fui para passar tempo até ao Alejandro Sánz. No caso da Sra. nem a inovação nem a cópia são o problema. Nem sequer consigo imaginar o que será cativante nela, porque eu acho-a tão cativante como um sumo de laranja Sun Quick. Não há nada que me faça sequer sorrir nas suas interpretações, ou que passem a barreira de qualquer outro intérprete de fado, qualquer umzinho que não tenha mais pretensões do que ter sido a Amália, a Beatriz ou o Marceneiro.

Publicado por: venon às junho 8, 2004 02:06 PM

Desculpar-me-ão a verborreia( e quero sublinhar que nada me move contra a Mariza/Pessoa, Deus me livre. Estamos aqui a criticar/analisar a Artista. O Sr. pmatos, diz que "uma fadista não tem de inovar...".Claro que não! Mas deve cantar na sua propria pulsação. E como deverá saber, o fado é uma canção de improviso,e as pausas, os melismas empregues são sempre pessoais,e raramente o mesmo artista se repete a si próprio.No caso de Mariza, tudo é mecanico-basta escutar um dsico da Amália, ver onde é que ela faz as pausas, e matemáticamente a novel fadista, faz as mesmas pausas, os mesmos melismas. Nem a Amália, cantava sempre da mesma maneira que tinha gravado.Não esperaria de Mariza uma inovação( é muito tenra no Fado para isso!), mas esperaria que fosse ela própria, isso sim!
Ao Sr.André Chêdas, adoraria que um dia assistisse a um concerto duma Beatriz da Conceição, por exemplo para "ver" o que é o fado, que nunca deverá ser formatado.O suceso de Mariza é o sucesso dum reportório amaliano, que o publico conhece e aprecia.É um exercicio de saudade, nada mais.Mas pelo menos, a jovem fadista poderia ser ela propria! Cantar o Lisboa menina e moça do reportorio de Carlos do Carmo, seguindo até à exaustão a fórmula do fadista, até na repetição das ultimas palavras do refrão, fazendo as mesmas pausas...não é sinal de talento, mas sim de "plágio artístico"
Ao Sr.Venon,só posso dizer que concordo consigo, e adianto que me dá mais prazer um sunquick geladinho num dia de praia tropical! (Nota final-O meu low-profile como fadista permite-me estas críticas, sem temer represálias, porque apesar de possuir carteira profissional de Fadista, não faço do Fado carreira. E represálias já as tive-Uma vez foi-me negada a participação num programa de TV, porque uma minha colega mais importante decidiu que se eu lá fosse, ela não iria... Enfim...Ossos do ofício!)

Publicado por: Valeria Mendez às junho 8, 2004 02:41 PM

Ora aqui está um debate interessante. Assim que tiver mais tempo (logo à noite) respondo a todos. Mas deixem-me apenas dizer-vos que tive reações ambíguas - penso que isso seja visível no texto - relativamente ao concerto da Mariza. Não gostei nada da atitude inicial dela - o fazer a pausa para deixar passar o avião, o perguntar se faz sentido haver fado no Rir, o facto de ela cantar o refrão em inglês do tema que gravou com o Sting. Há muita encenação, de facto. Mas há muito que não via uma vontade de dar tão grande de um artista em palco. Houve momentos verdadeiramente mágicos.

Publicado por: yggdrasil às junho 8, 2004 03:23 PM

Venon, apesar de ser nick masculino, é uma 'menina' aka Filipa.

Publicado por: venon às junho 8, 2004 04:35 PM

Bom, vou fazer tudo por assistir então a uma actuação da Sra. Beatriz da Conceição para que a possa ter como termo de comparação. Ainda assim, devo dizer à Sra. Valéria Mendez que, o (pouco) que conheço de fado se deve a bastas noites passadas na Baiuca de Alfama e outros cenários semelhantes. Quero com isto dizer que o ambiente a que associo e que, na minha opinião, representa condignamente o "Fado" no qual a minha avó me iniciou, é precisamente o da boémia lisboeta. O que eu acho notável é que, num mega festival que recebeu milhares de pessoas, a Mariza me tenha conseguido transportar para as mesas pequenas e gastas da Baiuca. Foi sem dúvida alguma uma grande surpresa.
No entanto, devo reconhecer que, sendo efectivamente um puto, ainda tenho muito a aprender, principalmente no que ao fado diz respeito. Entretanto, sirva-se um copo de vinho nesta mesa que a conversa está animada!

Publicado por: André Chêdas às junho 8, 2004 07:06 PM

Ainda acho a Festa! melhor do que o RIR.

Publicado por: venon às junho 8, 2004 09:10 PM

epá está bem, mas o Avante e o RIR nem se comparam! é a aldeia gaulesa dos comunistas europeus vs. o ultra liberalismo dos concertos, com mega estrelas a cantar e um cantinho onde se apregoa um mundo melhor e diferente, tudo lado-a-lado com stands da Axe e da SIC.

Publicado por: pmatos às junho 9, 2004 01:57 AM

Valeria Mendez , voce continua a atacar a MARIZA por qualquer blog que voce passe! Olhe que se um dia a cantarolar (sim, que voce Valeria nao canta! queria mas nao canta!) trinca a propria lingua, morre com o seu proprio veneno!

Mariza no RIR só pode ser comentado por quem lá esteve, e o espectaculo vai ficar na nossa memória por muitos anos.

Publicado por: Miguel C C às junho 16, 2004 11:47 AM