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junho 09, 2004

Ainda a polémica "Mariza no RiR"


O texto que escrevi sobre o concerto da Mariza no RiR, provocou uma série de reacções, aqui e no Forum Sons, pelo que decidi publicar uma nova posta, como resposta a vários leitores.

Não posso deixar de concordar com algumas críticas que a Valeria aponta à Mariza, que não são de agora. Tem sido feitas várias vezes sempre que se noticia por aqui algum feito desta moçambicana que outrora cantava zouk e agora canta fado. É curioso que, assim que acabei de “postar” este texto, pensei que não faltaria muito para a Valéria vir dizer mal da Mariza. E a profecia concretizou-se.

Vamos por pontos:

1 . Nunca gostei muito dos discos da Mariza. Prefiro muito mais qualquer disco da Mafalda Arnauth ou da Cristina Branco, aos dois discos dela até agora editados. Anteriormente, já tive ocasião de comentar a minha indignação sobre o facto de a Mariza ser tão apreciada em Inglaterra – a Lucy Duran do programa World Routes da BBC radio 3, quase que tinha orgasmos a falar bem da Mariza – e haver um (quase) completo desconhecimento em todos os meios (Rádio, revistas da especialidade como Folk Roots, Songlines, etc) acerca da Mafalda e da Cristina. No concerto de Domingo compreendi porque é que a Mariza tem um peso muito maior lá fora, sobretudo em Inglaterra, e as outras não, apesar de editarem discos muito mais interessantes. Um aparte: dificilmente escuto um disco dos Xutos e Pontapés, mas tenho de concordar com quem afirma que eles continuam a ser a melhor banda portuguesa de rock em cima do palco. Dá gosto ver toda aquela cumplicidade entre os elementos da banda e entre o colectivo e o público.

2. No texto que escrevi, penso que se encontra implícito uma mudança radical de opinião no princípio e no fim do concerto. Durante uma hora e meia ela vergou-me. Se tivesse visto os 15 / 20 minutos iniciais do espectáculo, provavelmente concordaria com a opinião da Venon e da Valéria em que diz “que ela é tão cativante como um sumo de laranja “sun quick”, ou que ela é uma “artista de plástico”. Nessa fase inicial estava a uns 100 metros do palco e não estava a gostar nada mesmo de uma certa atitude arrogante de quem tem o “rei na barriga”. Como tinha passe de jornalista, fui para o fosso dos fotógrafos que separa o palco do público. Já nessa posição, não gostei mesmo nada dela quando se referiu a um NOVO tema que iria publicar no próximo disco: “Nem às paredes Confesso” :D
Mas, ao fim de hora e meia, rendi-me totalmente à Mariza. Porque foi perdendo a arrogância e tornando-se ela própria. Porque emocionou o público e emocionou-se com ele. Entregou-se a 100%. Esteve em cinco encores e acredito que por vontade dela estaria ali a noite toda. Foram quase duas horas (atenção que os concertos quer na tenda raízes quer no palco mundo por norma não excederam uma hora) com momentos de pura magia. Por isso, Venon, houve muitas cabeças, mesmo muitas cabeças naquela noite que pensaram de forma diferente. O facto de se assistir ao concerto integral e estar-se na primeira fila, não é o mesmo do que ver-se parte do espectáculo e a 100 metros do palco (não sei se foi esse o teu caso). Não sei como foi o concerto dela com o Carlos do Carmo, ontem no Casino Estoril. Se não tivesse visto o de domingo e se tivesse visto só este, provavelmente teria uma opinião semelhante à vossa.

3. A Valéria, mais uma vez, diz que “0 sucesso de Mariza ,é o mesmo de qualquer banda de covers do Elvis ou dos Beetles. O reportório é rei e senhor. Porque ele já faz parte do imaginário do publico. Difícil é fazer sucesso com o original, com o "novo"”. Eu pergunto: quantas bandas ou cantores existem por aí que interpretam covers de artistas conhecidos, que animam noites baseado no repertório e que ninguém as conhece e que não passarão nunca do circuito dos pequenos bares?


4. Ainda a Valéria, refere-se à máquina de promoção que ela tem por trás. Que máquina é essa? A editora dela é holandesa e muito pequenina – World Connection. Será que eles têm dinheiro para pôr anúncios na tv ao novo disco da Mariza? Fazer cartazes para afixar em todas as ruas de Amesterdão? Claro que não têm. Quanto muito têm bons conhecimentos pessoais, como organizadores de festivais, directores de revistas da especialidade, radialistas, etc. Mas se eles têm todos esses conhecimentos, aquilo que fizeram com a Mariza também podiam tê-lo feito com outros artistas do seu catálogo, como por exemplo a cabo-verdiana Teté Alinho ou a galega Uxia. De que vale uma boa máquina de promoção se o artista não tiver “appeal”? Quantos artistas mediáticos não são triturados por essa máquina promocional?


5. O ódio e o preconceito são inimigos da lucidez.

Publicado por Luís Rei às junho 9, 2004 04:04 PM

Comentários

Não sabia que havia polémica sobre Mariza. Julguei-me o único ser no Mundo que não comprava os seus cd's (mas há quem persista em oferecer-mos), que desligava a tv sempre que a senhora aparecia, que não ia aos espectáculos dela aqui na província (na minha aldeia há poucos espectáculos), enfim, sempre me pensei um verdadeiro alien nesta coisa do fado, cantado por ariza. Sempre que me falam da senhora, contraponho com a grande fadista que é Mísia. izem-me os inteligentes: "isso não é fado"!!!
(cont)

Publicado por: nikonman às junho 9, 2004 04:49 PM

Há dias, ao falar com uns amigos alemães, contei-lhes que em Portugal tinha nascido uma estrela do fado, que iria gravar uma música com Sting, que era muita cativante em termos de imagem, etc...! Disseram-me eles: Do fado só conhecemos Amália e Mísia. Na Alemanha vende-se Mísia. E os seus espectáculos esgotam as salas. (aproveitei para dizer que tinha visto Mísia, em Bona e Berlim).
Pronto. Isto é só para manifestar o meu contentamento por saber que não estou sozinho no Mundo. E vou ver quem é que também não "tem ouvidos" para Mariza.

Publicado por: nikonman às junho 9, 2004 04:55 PM

Ao NIKONMAN- a minha concordância com tudo o que disse, em especial sobre a MISIA, que é uma fadista que nunca precisou de utilizar o reportorio de AMALIA , para vingar!Aliás,MISIA,é apreciada por um vasto publico, assim como por criticos musicais,que sabem do que falam.
Ao dign.mo EDITOR deste blog- Agradeço que,se incomode a comentar-me.E já que "me provocou"(he he he)cá vai:
Não é pelo facto de ter sido professora dum Conservatório de Musica, de gostar de Musica e de Fado, em particular, de ter assistido a 54 recitais de AMALIA um pouco por todo o mundo, de ter frequentado a casa de AMALIA e haver conversado sobre esta temática, com gente como david Mourão Ferreira, Alain Oulman, etc, e de ser também fadista com carteira profissional, que me considere capaz de "ditar" opiniões. O que eu digo,são opiniões,e elas valem o que valem.
a) Realmente o NEM ÀS PAREDES CONFESSO é um tema NOVISSIMO! Mas que grande inovação, e que grande sentido de pesquisa teve a "nossa " Mariza!!! Saberá ela quantos fadistas e cançonetistas gravaram esse tema de Max e Artur Ribeiro? Valha-lhe(à Mariza) nem sei quem !?
b)O que me irrita na novel fadista, não é que cante temas dos outros! O qu me irrita é que os apresente com a bandeira de grande "desoberta", e que nem sequer tente ser ela mesma. Até as suspensões, são copiadas fielmente dos discos antigos! Em Inglaterra a PRIMAVERA (David Mourão Ferreira-Pedro Rodrigues) foi apresentada por ela num show, como se fôra um original.Caramba! É preciso ter cara de pau.Esse tema foi grava do pela primeira vez no Café Luso, um Album ao vivo duma AMALIA com trinta anos!!!
c)Continuo afirmando(por experiencia propria!) que o reportorio é rei e senhor. Até eu, uma vez na Venezuela, perante uma plateia de emigrantes de mais de 2.ooo pessoas, consegui pôr muita gente a chorar, quando cantei esses temas.Coma diferença que os cantei do meu jeito, e sempre enunciando os criadores e autores, fazendo do concerto um pouco de pedagogia...
d)Desculpar-me -á a imodestia, mas "ofereça-me" você, as salas onde Mariza tem oportunidade de cantar, e depois provar-lhe-ei o que é possivel fazer com a SAUDADE , mesmo com a minha pobre e indefinida voz! Dificil é fazer sucesso com originais, em que o artista deverá ele proprio ser o unico "motivador" da plateia, sem ter a SAUDADE a servir de "isco"!
e) Mariza tem uma bonita voz. Conseguiu um estatuto(reafirmo-à custa de empurrões- e que empurrões!!!) Terá ela assim tanto medo de CRIAR, que precise de anunciar o NEM ÀS PAREDES CONFESSO, com o ar de quem descobriu a pólvora?

Publicado por: Valeria Mendez às junho 10, 2004 02:13 AM

" O ÓDIO E PRECONCEITO SÃO INIMIGOS DA LUCIDEZ" -Nada mais verdadeiro. ODIO nunca senti por ninguem! Preconceituosa, não sou. Nem posso ser! Até porque já fui vitima dele( Quem me conhece ,sabe do que falo!) E se as minhas críticas servirem para a Mariza( se por acaso ela as "ouvir") repensar tudo, ficarei imensamente feliz. Nada me move contra ela! Nem a costumada invejinha, tão tradicional em certos meios-Eu já estou com 40 anos(feitos há dias!), canto esporádicamente, vivo numa Ilha, o que por si só, me impede de desenvolver uma carreira, passei na minha juventude, por processos de regularização da minha saúde e identidade, que me impediram de ter uma vida "normal".Ambição não tenho, nem posso ter-Canto porque sou feliz quando o faço. E canto, tanto numa tasca rodeada de pescadores, num qualquer programa da SIC, ou num sítio todo chique, sempre com o mesmo objectivo-Fazer-me sentir momentos de felicidade. Uma CARREIRA é incompatível com estas premissas!( Tenho proximamente marcados três deslocações ao estrangeiro- Canárias, Itália e LIbano. Só nas Canárias é que vou receber um humilde cachet. O resto são espectaculos com fins humanitários...(Percebe o que lhe digo?)

Publicado por: Valeria Mendez às junho 10, 2004 02:30 AM

Eu fado não gosto muito, mas só queria dizer que os Xutos merecem todas as homenagens. Há anos que os discos já não me despertam grande interesse, mas quem faz o "Cerco" e se bateu pelo direito a fazer a sua música como eles fizeram, merece o meu respeito eterno e mesmo gravar mais 40 discos fraquitos.

E depois é um GRUPO como já não há!

Publicado por: Mário às junho 10, 2004 07:12 PM

CLARO que os XUTOS merecem todas as homenagens.PORQUE SÃO ORIGINAIS-Criaram algo de novo, e nunca à sombra de ninguém!

Publicado por: Valeria Mendez às junho 11, 2004 12:59 AM

Perdi a conta à quantidade de shows que eu já assisti dos Xutos. Não me lembro de nenhum fraco, sem entusiasmo, sem garra e sem ganas de fazer vibrar "a malta" que lhes dá este relevo, que os torna numa instituição. Contudo, também perdi a conta ao tempo que deixei de ouvir os trabalhos "novos" da banda. A energia e a empatia que transmitem é irreconhecível na maioria das bandas com estes anos às costas.

Publicado por: venon às junho 11, 2004 04:08 PM

Apesar de gostar de Fado- mais de o cantar por casa do que propriamente de o ouvir- percebo que é um universo completamente á parte do resto do panorama musical português. Tem as suas estruturas, regras, e sociabilidades próprias. Tem, como em todos os meios pequenos, querelas, odiozinhos de estimação, invejas, mas também alianças, cumplicidades, e " partidarismos" muito próprios, que a nós, comuns dos mortais, nos passam completamente ao lado. Assisti com curiosidade há uns meses a uma sessão de fados numa tasca fina da minha cidade alentejana, que acabou com algumas das cantadoiras amuadas porque o guitarra portuguesa gostava demasiado de solar por cima das vozes, porque não respeitava o estilo tradicional... E soube de fonte segura que não é raro ver sessões do género a acabarem em discussão cerrada, e até batatada e arrepelos de cabelo. Sangue, suor, e lágrimas...
Ora, a Mariza, cantando fado, não pode escapar ás condicionantes do meio. Haverá sempre quem a critique, quem a acuse disto ou daquilo, quem a inveje, mas também a adore, venere, e imite. Acontece com ela, e acontece e acontecerá com todos os outros fadistas que derem á costa. É um meio socialmente complicado...
A Mariza canta muito bem, e tem uma presença marcante- quer se goste ou não do estilo. Apesar de não conhecer assim tão bem o seu trabalho, tive a oportunidade de assistir a um concerto seu em Madrid no Verão passado, e percebi que o seu trunfo é mesmo uma capacidade audaz de comunicar com o público (nesta situação num castelhano perfeito com que serviu aos madrilenos anedotas e gracinhas em catadupa). Apesar disso, fiquei muito desiludida com o repertório apresentado, parecia que estava a assistir a algo como "Os maiores clichés do fado português!". Aliás, inicialmente eu quase que não acreditei que pudesse ser verdade, que a tal artista, que até canta bem e que até tinha ganho o prémio não-sei-das-quantas da BBC, fizesse um espectáculo totalmente só sobre temas mais que mastigados e cuspidos do fado português- os fados mais cantados, mais gravados, mais ouvidos, mais vendidos, numa palavra, meus amigos- mais COMERCIAIS. E pior- as versões nem sequer eram novas, aliás, aquela canção rebatida- "Canção do Mar"- foi cantadinha exactamente como a costumamos ouvir pela boca da Amália Rodrigues. É triste, e para além das questões comerciais, não vejo outros motivos para tal acontecer... Os músicos que acompanham a Mariza são bons profissionais, versáteis, suponho que devem perceber que o que estão a fazer está a milhas de ser minimamente original no contexto do fado. De qualquer forma eu nem sei se esse será um dos objectivos do projecto. Se calhar não. Se calhar a ideia foi mesmo fazer algo simples, dejá vu, um produto generalista e exemplar do fado português, feito para estrangeiros e turistas (mesmo que portugueses no próprio portugal) com a formula mais batida possivel: fadista-com-vestidos-á-amália-acompanhada-pelos-mesmos-instrumentos-que-a-amália-canta-fados-da-amália.
E nós é que queremos complicar tudo.

Publicado por: erva-cidreira às junho 13, 2004 01:01 AM

À Mariza, valha-lhe a voz e, vá lá, o guarda-roupa.
Todo o demais, parece-me, terá de ser revisto.

Publicado por: mila às junho 14, 2004 02:43 PM

À Mariza, valha-lhe a voz e, vá lá, o guarda-roupa.
Todo o demais, parece-me, terá de ser revisto.

Publicado por: mila às junho 14, 2004 02:43 PM

Valeria voce tem de parar de ser INVEJOSA, e orgulhar-se do nome de PORTUGAL que Mariza, a cantar fado, leva pelo Mundo.

Publicado por: Miguel CC às junho 16, 2004 11:55 AM