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maio 03, 2004

Välkommen Till Sverige

Reisaren é o resultado do diálogo entre dois músicos nórdicos de eleição, que trabalham sob uma matriz musical oriunda dos vales noruegueses de Setesdal. O notabilizado Ale Möller (mandola e flautas) dos projectos suecos Nordan e Frifot, e o norueguês, Gunnar Stubseid (harding fele).
Reisaren, mais do que uma prova de virtuosismo e criatividade por parte destes dois músicos, demonstra, acima de tudo, uma exemplar forma de entrosamento de duas fortes personalidades do folk nórdico que, sem recorrer a grandes inovações estéticas, edificam um registo de excelência, em que a capacidade comunicativa, o olhos nos olhos entre estes dois músicos, é a base do ir mais além.

Kalabra e Sälta (quarteto entretanto já extinto) são dois grupos da nova geração, cujos elementos, de vinte e poucos anos, são na sua maioria oriundos da Real Academia de Estocolmo.
Apesar dos dois elementos Ulrika Bodén (voz e flauta) e Sebastian Printz-Werner (percurssões) serem comuns a ambos os projectos, estes seguem caminhos distintos, mas com a mesma finalidade. São duas propostas distintas para dar novas tonalidades à engrenagem sueca.
Os Sälta são mais um daqueles grupos que aborda a temática da infelicidade e do desamor, tão característico das baladas medievais nórdicas. Seja o Rei que vai à bruxa e fica a saber que tanto ele como a mulher morrerão em breve, estando como consolação duas cadeiras no céu para os acolher; ou simplesmente a história do cavaleiro que pega no seu cavalo com o objectivo de conquistar riqueza, acabando por não conseguir mais do que a roupa que traz vestida.
Ambientes de tragédia, misturados com alguma ironia e muito bem condimentados pela também cândida voz de Ulrika Bodén, que canta como um anjo num Inferno. É aqui que o potente e cavernoso piano preparado de Risto Holopainen, se de dar expressividade, não sendo alheio a certas trocas de olhar com trabalhos mais antigos de Nick Cave, como From Her To Eternity ou First Born Is Dead. A ideia é excelente e dá, certamente, uma nova cara às muitas que a folk actual sueca possui. Contudo, existe ainda uma certa fragilidade na abordagem da improvisação e na construção de algo mais sólido e seguro. De qualquer forma, esta é mais uma obra de peso, que revela um futuro bastante promissor a este quarteto.

Já nos Kalabra que integra Simon Stalspets, Ulrika aborda de forma mais alegre e descontraída a felicidade e os prazeres da vida. As canções, escritas por membros do grupo, exprimem sensações de se estar enamorado, ou as das habituais baladas medievais com final feliz. É exemplo disso a história de uma pequena que desafia os seus medos (e de seus pais) e segue um monstro que simboliza o amor inacessível e proibido. Quando acorda de manhã, encontra um príncipe a seu lado.
Musicalmente, os Kalabra dão um seguimento mais pop à vertente folk-jazz iniciada por Ale Möller. O alto e barítono saxofone de Amanda Sedwick, o marcado e "afunkalhado" baixo de Erik Metall, as percussões a tocar o Afro (que têm o dom de nos fazer lembrar o nosso Zé Salgueiro), acompanhados por uma série de instrumentos da tradição nórdica, como as longas flautas de madeira sem buracos (que os Hedningarna também usam), a nyckelharpa, o berimbau e o bouzouki (da família dos bandolins), dão corpo ao compromisso existente entre o jazz e a intemporalidade do folk, que tanto pode evocar os "Kulnings/Callings" (cantos para a recolha dos animais de pasto) de outrora, como apostar na escrita contemporânea.
Kalabra, um disco que sofre de problemas semelhantes ao de Sälta, mas que, tal como este, nos convida a estarmos atentos ao evoluir deste projecto, porque a renovação da folk nórdica irá passar certamente por aqui.

Ainda no Jazz, Dan Gisen Malmquist é um clarinetista que tocou outrora com Ale Möller nos Filarfolket e que actualmente participa na Avadå Band. O seu perfil, de meio trintão a caminho dos quarenta, dá-lhe para exibir uma postura mais calma e despretenciosa, assente na fusão entre o jazz e a música tradicional mais ligeira. Ambos os discos possuem a capacidade de nos surpreender, trasportando-nos por diversos ambientes. Desde algo que evoca a lamechice de um Kenny G e da música de hotel, passando pelas gélidas sonoridades pejadas de mistério que os Groupa tão bem sabem fazer, até canções charmosas a que Karin Parrot exemplarmente se encarrega de dar voz. Ela, que parece ter saído de um filme sobre a Segunda Guerra Mundial, canta com uma sensualidade "Lili Marlene" num cabaret parisience, decorado a vermelho.

Vattenringar, álbum inicialmente editado em 92, totalmente instrumental e não tão inventivo quanto Nattljaus serviu de tubo de ensaio para este recente disco, que se mostra verdadeiramente ambicioso na procura de ambientes melodicamente ricos e com uma grande dose de sentimentalismo à mistura. É um daqueles discos que vai entrando a pouco e pouco na nossa sensibilidade.

Com os Trio Patrekatt entramos no forte universo das cordas suecas, que se encontram ao serviço das polskas, Scottis e valsas. Um universo demasiado híbrido, em que os músicos da "old fidler tradition" executam longas dissertações de violino, tendo por isso o dom de nos criar alguma sonolência.
Nos Trio Patrekatt de Markus Svensson (que também integra os Kalabra) tais danças são executadas através de duas nyckelharpas e um violoncelo, instrumento que vem introduzir alguma inovação a este universo. As nyckelharpas, mais recentes, muito mais melodiosas e de sonoridade mais aguda que as de tempos medievais, são confrontadas com a grave sonoridade do violoncelo que funciona quase como instrumento de resonância ou como se de cordas "drone" se tratasse. Aqui e ali observamos algumas tentativas de tornar as incontornáveis polskas mais universais e modernas, sobretudo quando os instrumentos são abordados de forma mais suja, como se fossem os finlandeses Apocalyptica em versão soft.

North Sea Music do escocês Aly Bain (Ilhas Shetland), da sueca Hanne Kjersti Yindestad e dos noruegueses Tellef Kvifte, Leiv Solberg e Henning Somemerro, é um disco que assenta na recuperação de composições que viajaram ao longo de séculos pelos países do mar do Norte.
Antes da rádio e da TV, a música e as palavras foram transportadas por mar. A língua inglesa falada nas ilhas Shetland (Escócia), ainda hoje possui muitos termos do norueguês. Tais marcas denunciam a ocupação deste povo nórdico até ao sec XV, reflectindo-se também musicalmente em "Wynadelpa", com Aly Bain a demonstrar através de harding fele (o violino tatuado norueguês) todas as semelhanças entre estes dois povos.
Norh Sea Music, uma súmula de reels, callings, polskas, baladas e valsas, que viajaram e foram sendo adaptadas de país para país, recebendo uma rica herança multi-cultural. "I´ll Give My Love a Cherry" é o exemplo de uma balada irlandesa que viajou com a emigração até aos Estados Unidos e que regressou ao país de origem com um certo aroma de blues.

Diálogo, e do mais harmonioso que é possível, é coisa que acontece no projecto Swap dos suecos Ola Bäckstrom e Carina Normansson (violinos) e dos britânicos Karen Tweed e Ian Carr (acordeão e guitarra), quatro músicos que se têm notabilizado nos seus países de origem. Ola Bäckstrom, pelo seu trabalho a solo, Carina Normansson pela coordenação de uma "spelemmanslag" da região de Dalarna e Karen Tweed e Ian Carr pelas suas múltiplas colaborações em projectos britânicos de primeira água, como a banda de Kathryn Tickell e os Poozies.
Neste disco que reúne composições de ambos os lados do mar do Norte, salta ao ouvido a forma quase perfeita como reels irlandeses se encontram em sintonia com as polskas suecas, num trabalho onde o desenraízamento das origens musicais, se encontra ao serviço de uma banda sonora que balança incessantemente entre as ilhas britânicas e a Escandinávia. Mais um trabalho memorável em que comunicação e entrosamento falam mais alto, oferecendo uma outra dimensão ao sangue musical que corre nas veias destes quatro músicos.

Habituados que estamos ao cruzamento da música de raíz nórdica com todo o tipo de manifestações sonoras, Bazar Blå é mais um novo projecto sueco que propõe um novo alargamento da fronteira da polska e da composição para nickelharpa (violino com um sistema de chaves sueco). Numa modalidade comparável à dos Väsen (não tão enérgica), a música dos Bazar Blå divaga entre a sumptuosidade e delicadeza da folk sueca, assaz marcada pelos rasgos criativos da nickelharpa de Johan Hedin, cuja interpretação navega entre o rústico e o clássico. Sonoridade essa suportada pelo baixo de Björn Meyer oferece uma cadência mais jazzística e, sobretudo pela amplitude universal das percussões - caxixi, tabla, darbouka, bendir, djembe, entre outras - de Fredik Gille. Mais um feliz cruzamento entre a melodia nórdica, o jazz e os ritmos do mundo.

Emma Härdelin (vocalista dos Garmarna), Kjell-Erik Eriksson (violinista dos Hoven Droven) e Janne Strömstedt (órgão) trocam-nos as voltas neste trio. Longe do som duro e sombrio que caracteriza os outros grupos de que fazem parte, os elementos dos Triakel apostam na simplicidade e doçura das canções recuperadas dos antigos baús dos seus avós. Hinos, baladas, valsas e polskas cantadas que gravitam em torno da frágil mas extremamente harmónica voz de Emma, cujas palavras suecas escorregam tão bem nos nossos ouvidos como se de uma faca aquecida em manteiga se tratasse. O violino e o órgão, esses, escutam-se lá muito atrás, de mansinho, para não perturbar esta diva precoce. Por isso mesmo, se este álbum nos oferece Emma na maior candura, deixa-nos a amarga sensação do não ir mais além pelo lado instrumental (visceral), que estávamos habituados sobretudo em Garmarna.

Publicado por Luís Rei às maio 3, 2004 06:29 PM

Comentários

De facto sobre o post não posso dizer muito mas sobre o blog...enorme...fantástico!

Publicado por: RD às maio 3, 2004 06:48 PM

obrigado e devolvo o elogio à trompa que é uma referência no domínio da música feita em portugal.

Publicado por: yggdrasil às maio 4, 2004 01:39 AM