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maio 17, 2004

Hedningarna em dois festivais, num espaço de uma semana




Hedningarna em Sendim e no Funchal durante o mês de Julho

Confirmam-se as suspeitas. Os fino-suecos Hedningarna apresentam-se em dois festivais portugueses no espaço de uma semana. No último fim de semana de Julho, actuam no Intercéltico de Sendim (Trás-os-Montes). A 22 do mesmo mês participam em mais uma edição do Raízes do Atlântico que se realiza anualmente no Funchal. O último álbum ainda é "Karelia Visa" lançado em 1999.

Deixo-vos um texto-entrevista elaborado há cinco anos atrás, na fase de lançamento deste disco.

Regresso a Kalevala

A idade não perdoa. De regresso ao passado, Hedningarna estão agora mais mais maduros. Karelia Visa denuncia uma expedição a território careliano em busca de "rune songs" e de uma sonoridade mais acústica.
A Carélia é uma espinha atravessada na garganta de muitos finlandeses. Representa o prejuízo de guerra que estes Nórdicos tiveram de pagar aos russos em 45, como consequência da aliança com os Alemães durante a II GGM. Daí que ao lermos o título Karelia Visa possamos pensar que os Hedningarna reivindicaram um visto específico para penetrar em território da Ex-União Soviética. Local onde fizeram o trabalho de recolha deste disco. Em entrevistas que deram, os Hedningarna fazem questão em não se envolver em questões políticas. Contudo, o álbum além de nos oferecer uns Hedningarna renovados, lança o repto da defesa da língua minoritária de raízes fino-ugricas. Björn Tollin refere que "entrámos na Carélia porque conhecíamos gente de ascendência finlandesa que representam uma pequena percentagem da população." Os tentáculos do enorme polvo russo ainda mexem e "muitas crianças descendentes de finlandeses falam apenas russo". Daí que não seja de estranhar haver "um movimento na Carélia que tenta proteger a língua" de Elias Lönnrot, para quem este álbum representa "uma forma de dizer que a sua cultura está bem viva". Extremismos à parte, Anita Lehtola reconhece que "existe um movimento finalndês que pede a união da Carélia Russa ao nosso país". Só que "os Hedningarna não têm nada a ver com isso".
Afinal, para Töllin "'Visa' significa 'laulu'. Por sua vez designa voz, canção. Karelia Visa é o nome do disco, o que quer dizer que estas são canções da Carélia."
Embora as canções medievais da Carélia estejam bem documentadas nas bibliotecas, o grupo realizou trabalho de campo. Isto é, escutou a velha arte do canto 'kalevaliano' pela voz de senhoras idosas (de oitentas e muitos anos) que ainda preservam esta tradição.
Töllin comenta que "esta experiência fez com que a Sanna e Anita conseguissem compreender melhor os textos arcaicos. Quando fomos para estúdio sentiram uma vibração mais próxima das velhotas". Por sua vez Anita refere que a experiência "foi muito profunda. De certa forma, senti-me a regressar a casa. Mexeu muito comigo lidar com aquelas pessoas e viver no seu ambiente durante alguns dias. É inexplicável."
Para suportar a magia e o arcaísmo das vozes, os Hedningarna edificaram uma sonoridade etérea, que se pôde sentir em Copenhaga na apresentação ao vivo do álbum. "O Anders Stake pretendia fazer um disco mais acústico e a sua ideia foi um pretexto para Karelia Visa. Contámos com um novo produtor que aprofundou este lado acústico e vocal", comenta Bjorn Töllin.
Muitos poderão pensar que os Hedningarna pegaram na estrutura sonora do primeiro disco. Para Anders Stake esta viagem é "o reflexo daquilo que sentimos actualmente ao fazermos música".
Afinal, o ir em frente sempre foi apanágio dos Hedningarna. Como Stake conclui, "se olhar para os nossos álbuns, verifica que há sempre algo que os diferencia. O Kaksi é mais rock, o Trä mais pop e o Hippjokk mais techno. Agora voltámos à folk."

Publicado por Luís Rei às maio 17, 2004 06:43 PM