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maio 31, 2004

CdT no RiR (10): Cobertura Exaustiva da Tenda Raízes

As fotos já estão, os textos integrais sobre cada actuação chegarão até ao final do dia. Para já, ficam as notas de Domingo:

Manecas Costa (9/10)

Terrakota (7.5/10)

Klezmatics (8.5/10)

Angelique Kidjo (7.5/10)

Publicado por Luís Rei às 11:58 AM

Cdt no RiR (9): A força soul / funk e o desenraizamento de Angelique Kidjo



A invasão de palco consentida por Angelique Kidjo © 2004 - agência zero

Há muito que Angelique Kidjo se libertou das suas raízes. À pop africana de cariz ocidental, junta-lhe uma combinação apimentada de soul, funk e ritmos cubanos. A estética é discutível. A sua energia em palco é inesgotável. Grande expressividade de movimentos. Tem indicutivemente swing. É pena a orientação musical.

Publicado por Luís Rei às 07:29 AM

Cdt no RiR (8): Klezmatics de anões a monstros



Frank London - Klezmatics © 2004 - agência zero

O som não ajudou, a falta de público - a ver Xutos - também não. Aos poucos a banda foi crescendo e arrancaram um final memorável. Os suspeitos do costume: Matt Dariau e Frank London.

Publicado por Luís Rei às 07:21 AM

Cdt no RiR (7): Terrakota é uma grande família



Terrakota © 2004 - agência zero

Em vésperas de lançamento de novo disco gravado no Senegal, os Terrakota fizeram retornar os ritmos jamaicanos reggae / dub à "mãe África. De Kingston à Núbia ou ao coração do Wassolou, corre sangue negro nas veias do grupo.

Publicado por Luís Rei às 07:17 AM

Cdt no RiR (6): Manecas Costa e a fome de palco



Manecas Costa © 2004 - agência zero

Manecas Costa até "comeu a relva", tal a fome de um palco português que sentia. Um concerto de raiva de um músico assaz rodado internacionalmente que agarrou de início uma plateia maioritariamente sub 16, que estava ali claramente para ver as principais atracções do Palco Mundo.

Publicado por Luís Rei às 07:07 AM | Comentários (1)

maio 30, 2004

CdT no RiR (5): Manu Dibango + Ray Lema ou a beleza serena de África



Ray Lema + Manu Dibango © 2004 - agência zero

Publicado por Luís Rei às 02:27 AM | Comentários (1)

maio 29, 2004

CdT no Rir (4): a excelência técnica de Thierry "titi" Robin



Thierry "titi" Robin © 2004 - agência zero

Thierry Robin, bretão, de alma cigana, é um músico de real excepção. Pertence à restrita casta de exímios improvisadores de cordas e de delicados artesãos que embelezam a sua arte com infinitos rendilhados. Além de exímio executante de alaúde, bouzouki e guitarra, que o coloca num pedestal semelhante ao do sueco Ale Möller, do grego Ross Daly, ou de um outro francófono - Patrick Vaillant –, Robin é um verdadeiro alquimista da composição, um Merlin dos tempos modernos, que consegue juntar, num único caldeirão, as músicas ciganas que vão de Espanha à Ásia Central, passando pelos Cárpatos e pelo Báltico. A sua poção mágica torna um qualquer Assurancetourix (o irritante bardo da aldeia gaulesa de Astérix) num tenor peso-pesado romano.
É notável como o flamenco, que parece um género musical confinado à Península Ibérica, é a locomotiva através do qual Robin e os seus músicos efectuam uma enriquecedora viagem sem freios, pela linha do Oriente. A guitarra e o alaúde de Robin, a divina voz cigana (de flamenco) do espanhol Pepito Montealegre, que chega a roçar o céu qwwalli e a fazer a devida vénia ao mestre Nusrat, quebram fronteiras terrestres. A combinação perfeita destes elementos com percussões afro-latino-americanas-e-arábico-andaluzes (com destaque para o cajon e “ocean drum”) de um talentoso instrumentista brasileiro Zé Luís Nascimento e com o acordeão de Francis Varis algo “brastchtiano”, contaminado quer pela delicadeza melódica da bal musette francesa (pouco), quer pelo desvario cigano dos balcãs (muito), constituem a fórmula de uma música que viaja livremente como o ar, através do tempo e da geografia. Fantástica a versão longa (de 10 minutos, pelo menos) de "La Petite mer" com que Thierry Robin encerrou a sua actuação.
Que “Titi” (o instrumentista, não a batata frita) regresse a um palco nacional o mais breve possível.


1 - Mehdi ( T. R. )
2 - Ton Deux Visage ( T.R.)
3 - Patchiv ( T. R. )
4 - Anita ( R. R. )
5 - An Sumia ( Frid Seadna - T. Robin)
6 - Ma Gavali-rumba ( T. R. )
7 - La Petite ( Joseph Seadna - T Robin)

Publicado por Luís Rei às 11:29 PM | Comentários (4)

Cdt no RiR (3): Havana Abierta, um equívoco cubano



Havana Abierta © 2004 - agência zero

São cubanos, mas poderiam passar por colombianos, mexicanos ou até mesmo espanhóis. Dos Havana Abierta pouco son, guagancó ou cha cha cha se escutou. Ao invés, não faltou funk, rock’n’roll e blues de uma formação que apostou tudo nos décibeis e na electricidade, em detrimento da pureza acústica. São gingões, têm um estilo que mescla as facções surf e hip hop. Até aqui, nada em contrário. Só que o som… é, talvez, o reflexo do isolacionismo em que a Ilha de Fidel continua mergulhada. Sente-se que a banda pensa que está a fazer uma verdadeira revolução, que são uns rapazes inovadores, mas a verdade é que a banda que quer chegar aos grandes palcos do rock, não passa de uma simples banda de bar de covers. Um equívoco. [3/10]

Publicado por Luís Rei às 11:24 PM

CdT no RiR(2): At-tambur impressionam na abertura do segundo dia



At-tambur © 2004 - agência zero

Não podia ter começado da melhor forma o segundo dia de actividades da Tenda Raízes do Rock In Rio, com os At-tambur. Privados de uma das antigas “estrelas” da companhia – Sérgio Crisóstomo, que já não tocou no Intercéltico do Porto – os At-tambur recrutam não um, mas dois seguríssimos valores que expandem a “folk” tingida de tons jazzy, com tiques clássicos. Fransisca Fins, a nova violinista que integra a Sinffonieta de Lisboa, é f-a-b-u-l-o-s-a. Excelente técnica, completo entrosamento com os restantes elementos. Faz esquecer Sérgio Crisóstomo. Ele que era até há bem pouco tempo, a par de Tiago Costa Freire (flautas doces) uma das referências maiores deste projecto. Se ao At-tambur juntarmos ainda a Celina “vai-a-todas” Piedade, temos aqui um super-grupo. O seu acordeão enche o palco. Apenas e só o seu acordeão. Que isto fique bem claro.
Na Tenda Raízes, ao ar livre, propensa a maior informalidade, os At-tambur despiram o fato e a gravata, arregaçaram as mangas das camisas pretas e brindaram-nos com a “folk” europeia e tudo à volta, mais solta e agressiva. Nunca “Arabesca” havia soado de forma tão potente e eléctrica (apesar de os instrumentos do grupo serem exclusivamente acústicos). Nunca “Sueca” soou tão hedningarniana. “Dulcima” (nome provisório de um tema que irá figurar no novo disco) foi o doce açucarado de uma actuação extremamente feliz e pouco recomendável a hipoglicémicos. É a bússola cujo ponteiro aponta o caminho certo da renovação da tradição, sem complexos. Há canção, tensão, suavidade. Um verdadeiro carrocel de emoções. Falta apenas a Margarida Simas perder uma certa timidez em palco e deixar uma certa postura angelical. [8.5/10]

Publicado por Luís Rei às 07:11 PM | Comentários (3)

As Crónicas da Terra no RiR (1): a breve incursão de sexta-feira



Rao Kyao © 2004 - agência zero

Sou um mesmo gajo do contra. Enquanto que na blogosfera se multiplicaram os blogues e os bloguistas a dizer que não iam ao Rock in Rio, as Crónicas encontram-se neste preciso momento no Parque da Bela Vista.
Durante os cinco dias de festival que faltam vou estar atento, sobretudo, ao palco Raízes. Ontem fiz uma rápida incursão. Perdi Ensemble Kaboul e Daby Touré. Vi um pouco do espectáculo de Rão Kyao. O suficiente para dizer que o novo álbum dedicado ao pão, vinho e azeite revela um flautista mais enraizado na música tradicional e clássica oriental. Há menos tiques da portugalidade fácil, mais espiritualidade indiana, capaz de evocar a quietude e misticismo de Hari Prasad Chaurasia.

Publicado por Luís Rei às 07:08 PM | Comentários (1)

maio 27, 2004

Hoje e amanhã: Dose dupla de dub-reggae-ska em Setúbal e Évora com Sloppy Joe e Mercado Negro.



Onde está Marta?


Duas das mais importantes propostas de inspiração em ritmos jamaicanos e filosofia rastafari apresentam-se hoje e amanhã em Setúbal e Évora: Sloppy Joe e Mercado Negro.

Os Sloppy Joe surpreendem pela habilidade e elasticidade vocal de Marta Ren (a fazer justiça ao nome de baptismo do primeiro disco – “flic flac circus”) cantando em portugês, inglês ou francês e pela fineza e frescura pop com que a “big band” de metais ataca o frenesi ska.

Os Mercado Negro do ex-Kussondulola Messias “Jahsoba” levam a sério a mensagem de paz e harmonia dos rastafari. São terra, enquanto que os Sloppy Joe são ar e vento. Exploram as raízes africanas combinado sabiamente a experiência e a voz rouca de Bonga (em “Jah Está Contigo”) e intrumentos rústicos do continente-mãe – kissange, marimbas, etc – com destaque óbvio para o balafon do guinnense Kimi Djabate (em ”Sente o Coração” e “Comboio Pra Terra Prometida").

Sloppy Joe e Mercado Negro hoje no Campus do Instituto Politécnico de Setúbal (22h00); amanhã no Hipódromo de Évora (22h00)

Restantes datas da tournée de Sloppy Joe:

Dia 29 Maio – Castelo da Maia – Bar Tertúlia Castelense (24h00)
Dia 5 Junho – Braga – Bar Insólito (01h00)
Dia 11 Junho – VN Gaia – Hard Club (23h00)
Dia 23 Junho – Aveiro – Cais da Fonte Nova (22h00)

Publicado por Luís Rei às 04:59 PM

maio 26, 2004

Oi Va Voi no Festival Cosmopolis

De acordo com a última edição do Blitz, os britânicos Oi-Va Voi que tornam a música klezmer mais pop e (ainda) mais dançável apresentam-se no Festival Cosmopolis que decorre em Lisboa em 24 e 27 de Junho e onde pontifica a violinista e vocalista Sophie Solomon (autora de um outro excelente projecto, Solomon & Socalled, cujo disco ) . Façamos figas para que seja verdade, pois na agenda dosite da banda, ainda não é feita qualquer referência à data portuguesa.

Publicado por Luís Rei às 02:50 PM

Savina Yannatou antecipa o FMM de Sines e vai ao Festival Med de Loulé

A mesma publicação dá ainda conta de um outro evento – Festival Med – criado pela C.M. de Loulé (também ainda não consta qualquer informação de programação no site da edilidade)para a animação do Euro 2004 e que, por isso, ocorrerá entre os dias 10 e 19 de Junho. Destaque para a antecipação do espectáculo da grega Savina Yannatou (dia 16), que voltará no mês seguinte a Portugal para participar no FMM de Sines.

Aqui fica o programa completo:

Dia 10 - Luís Represas (Já não bastava ouvi-lo a toda a hora na TSF...)
Dia 11 - Vitorino e José Carvalho
Dia 12 - Carlos Núñez (já perdemos a conta que Núñez, à semelhança de Junkera visitou Portugal)
Dia 14 - Sud Sound System
Dia 15 - Les Boukakes (Argélia. Estiveram no Festival Islâmico de Mértola no ano passado)
Dia 16 - Savina Yannatou
Dia 17 - Vá-de-Viró e Bustafi (Croácia)
Dia 18 - Yeni Turku (Turquia), Tucanas, Moçoilas, A Banda Alhada, Ó Questrada
Dia 19 - Nour-eddine (Marrocos)

Publicado por Luís Rei às 02:36 PM | Comentários (3)

Xuaco Amieva no IIIº Intercéltico de Vizela

Ainda de acordo com o semanário Musical Blitz (ainda não existe qualquer informação no site da CM de Vizela), a 2 e 3 de Julho realiza-se a III edição do Intercéltico de Vizela dominado por formações oriundas do país vizinho e que já figuraram no cartaz de Sendim: Xuacu Amieva (Astúrias), Balbarda (Castela), Xista de Coruxo (Galiza) e os portugueses Imbolc (que garantiram a sua presença neste festival devido ao facto de terem ficado em 2º lugar no I Concurso Arribas Folk de 2003).

Publicado por Luís Rei às 02:00 PM | Comentários (1)

maio 21, 2004

Dazkarieh apresentam novo álbum, hoje à noite, na Comuna

Os Dazkarieh que se encontram em fase de conclusão de um novo álbum que promete ser menos univeral e mais centrado na actualização do legado lusitano, apresentam-se hoje ao vivo em Lisboa, no teatro A Comuna (à Praça de Espanha), por volta da meia noite.

Datas seguintes:

23 Maio - Zebreira, Castelo Branco - 21:30

29 Maio - Auditório Lurdes Norberto, Linda-a-Velha - 21:30

17 Junho - Ruínas do Convento do Carmo, Lisboa - 21:30
(Apresentação do novo disco)

07 Julho - Vila Nova de Cerveira

Publicado por Luís Rei às 04:50 PM | Comentários (15)

maio 20, 2004

Rough Guide to Fado

Finalmente, o fado é bem tratado pela editora World Network que publica os famosos Rough Guides. Depois de há uns anos ter feito uma primeira incursão por terras lusitanas em que compilou quase exclusivamente material da editora Movieplay, eis que nos chega uma nova colecção de fado bem mais abrangente e pertinente, que será editada em meados de Junho: Amália, Cristina Branco, Joana Amendoeira, Ana Moura, António Bernardino, José Afonso, Vicente da Câmara, Tristão da Silva, Alfredo Marceneiro, Ana Sofia Varela, Filipa Pais, António Chainho, Artur Paredes, Hermínia Silva, Fernando Maurício, Maria da Fé, Carlos Zel, Maria Teresa de Noronha, Carlos do Carmo, João Pedro, Kátia Guerreiro e António Zambujo.
É pena que, contudo, não inclua nomes como o de Mafalda Arnauth, Mariza e de Célia Barroca.

Publicado por Luís Rei às 06:19 PM | Comentários (5)

David Darling & The Wulu Bunun: Formosa e selvagem

David Darling & The Wulu Bunun
“Mudanin Kata”
(Riverboat / Megamúsica)

Este homem – David Darling - foi à Ilha Formosa (Taiwan) e gravou um disco que é um hino à primavera e à beleza selvagem, à (pouca) pureza que o mundo de hoje nos reserva. “Mudanin Kata”, mais do que um registo arqueológico de captar as riquíssimas polifonias vocais da tribo aborígene Bunun da aldeia de Wulu, resulta numa feliz combinação de um virtuoso instrumentista avant-garde de Violoncelo, com essas tais vozes que nos recordam os Pigmeus da África Central e os sons de uma natureza virgem (aves, muitas aves, insectos e até gorilas). Contrariamente a projectos como Baka Beyond, Darling não transporta estas vozes para um território ocidental que lhe é familiar, deixa-se contagiar pelos cânticos de trabalho e de caça - mantras que parecem budistas - desta tribo tocando violoncelo de forma o mais low profile possível. Não há fusão. Somente justaposição de ideias, de sons que se encontram unidos no universo astral. É uma daquelas obras que ficava muito bem alinhada no catálogo da Winter & Winter. “Mundanin Kata” é, a par do projecto “Lambarena”, a experiência mais bem sucedida de união entre o universo da música clássica / erudita e vasta área da música tradicional. Bate aos pontos qualquer Yo Yo Ma, Nigel Kennedy ou projectos como “Mozart to Egypt”. (9/10)

PS: David Darling e 23 cantores da tribo Bunun iniciam hoje (até ao final do mês) uma digressão inglesa de seis datas; Brighton, Bristol, Kendal, Salisbury, Liverpool, London.

“We chose to do the recording in a valley, far away from the village, as this would enable us to reduce outside interference and take full advantage of the natural sounds of the surroundings. Aside from cornfields and a small wooden hut, the only thing visible in the distance was an endless stretch of mountains and a blue sky dotted with white clouds. We set up a microphone in the shade of a tree, and the sounds of the birds and insects that accompanied us from dawn until well through the afternoon became part of the music. We recorded all of the singing and part of the cello accompaniment in our valley recording spot, then used a forest location to record David’s solo. After returning to the studio in the United States, we recorded more layers of cello music until the cello was able to become an integral part of the final product – a vehicle of sorts to bring the voices to the other end of the universe.”

Shu-Fang Wang (a produtora)

Publicado por Luís Rei às 04:55 PM

maio 19, 2004

Lhasa de Sela, de 7 a 10 de Julho em Lisboa, Coimbra, Aveiro e Porto

Já se sabia que a diva Lhasa de Sela, autora dos excelentes "La Llorona" e "Living Road" vinha ao nosso país para actuar em quatro sítios diferentes. Finalmente são divulgadas as datas e os locais dos concertos:

Dia 7 de Julho - Lisboa - Forum Lisboa - Entidade promotora: EGEAC

Dia 8 de Julho - Coimbra - Teatro Académico Gil Vicente - Entidade
promotora: TAGV

Dia 9 de Julho - Aveiro - Teatro Aveirense - Entidade promotora: TA

Dia 10 de Julho - Porto - Jardins do Palácio de Cristal - Entidade
promotora: Culturporto

Publicado por Luís Rei às 06:40 PM | Comentários (3)

Tom Zé, Femi Kuti, Rokia Traoré, Savina Yannatou no FMM de Sines

Conforme é possível verificar no site oficial do Festival de Músicas do Mundo de Sines, o programa deste ano é, provavelmente, o mais forte até agora apresentado.

Dia 29 de Julho

Ronda dos Quatro Caminhos volta a apresentar o projecto "Terra de Abrigo", depois do concerto duplo do CCB em Janeiro deste ano.

A seguir sobe ao palco o projecto polaco Warsaw Village Band. Uma das mais interessantes propostas da folk do norte da Europa que pega em sonoridades medievais e constrói um futuro subversivo palmilhado lado a lado com os Hednignarna.


Dia 30

O regresso a Portugal da grega Savina Yannatou, depois de há uns anos ter passado pelo CCB. Vem na melhor altura com o álbum "Terra Nostra" na manga. A folk grega e mediterrânica em diálogo que desagua na mesma foz da música erudita e do jazz.

David Murray regressa a Sines (é a terceira vez que lá vai) e traz consigo Pharoah Sanders para apresentar o Creole Project III "que funde as estruturas harmónicas do jazz com os ritmos do “Ka Drum” de Guadalupe (Índias Ocidentais Francesas) e a riqueza do falar crioulo".

Ainda na Sexta-feira, um dos tesouros mais bem guardados do que resta do tropicalismo. seis anos depois da Expo 98 e de um concerto a meias com David Byrne, vamos pegar no rastilho certo para um mundo que está prestes a explodir: Tom Zé.

Dia 31

Septeto de Roberto Juan Rodriguez, ou a música klezmer interpretada por um percussionista cubano, inventando o conceito de "salsa-klezmer".

Do Mali, Rokia Traoré que tinha estado há quatro anos atrás no Cais do Gás (em Lisboa) regressa no seu melhor momento de forma. "Bownboï", o seu último álbum considerado como o segundo melhor da zona africana pelas Crónicas da Terra impulsionou-a para uma carreira que extravasa o restrito circuito das músicas do mundo. Rokia é actualmente considerada uma espécie de Joni Mitchell africana.

O final em beleza com o afrobeat nigeriano de Femi Kuti. Apesar de não ser tão inventivo como o seu falecido pai Fela, Femi é o herdeiro natural da consciência política e social de um dos maiores mitos da música africana.

Publicado por Luís Rei às 06:33 PM | Comentários (2)

"Tocadores" em documentário. com Lia Marchi

ÉVORA- 19 de Maio pelas 17h (Entrada livre)
Universidade de Évora
Auditório 4
Colégio Luis Verney
informações: 266 732 504 (Associação pédexumbo)

ÁGUEDA- 20 de Maio pelas 21h30
Fórum municipal da juventude
Praça Conde de Águeda
informações: 264 603 164

1ª Parte:
Exibição dos documentários Tocadores - Brasil Central (24') e Tocadores
Litoral Sul (25') e realização de palestra.

Sinopse: O homem simples do campo, o seu amor pela música, pelos instrumentos, pela terra e pelas tradições são os condutores para um registro poético e leve que retrata artistas e artesãos da música de tradição oral dos estados de Goiáse Minas Gerais (Brasil Central) e São Paulo, Paraná e Santa Catarina (Litoral Sul).

2ª Parte:
Palestra ministrada por Lia Marchi, coordenadora do projecto, abordando os
seguintes temas: o rico universo da música de tradição oral e os artistas
populares, homens e mulheres que são seus conhecedores e mantenedores; os
desafios de realizar o projecto e a pesquisa; as características e a
diversidade das regiões do Brasil na vida e na arte dos tocadores; a
preservação das tradições e a produção artística; enfrentamentos e
continuidades pós pesquisa.

Publicado por Luís Rei às 01:01 AM

maio 18, 2004

Hedningarna, Teada e Tucanas no Raízes do Atlântico

Já se conhece o programa do V Festival Raízes do Atlântico que se realiza anualmente no Funchal e que decorrerá entre os dias 19 e 25 de Julho.

O programa é o seguinte.

Dia 19: Téada da Irlanda, uma das grandes revelações da folk das ilhas britânicas.

Dia 20: Homenagem ao Xaramba na Madeira com Borracheiros do Porto da Cruz e Tuna de Instrumentos Tradicionais do Gabinete de Expressão Artística da Madeira e ainda os marroquinos Nass Marrakech

Dia 21: os madeirenses Banda D’Além + Madeira Camerata

Dia 22: as mui percutivas e respigadoras Tucanas e os madeirenses inventivos Melian

Dia 23: simplesmente Hedningarna, seguramente a melhor noite do festival.

Dia 24: a instituição Xarabanda A Cappella (com o Coro do Porto Moniz)

Programas paralelos:

Ciclo de Cinema para ver como a música tradicional é retratada em película, de 19 a 25 de Julho. Eis os filmes a serem exibidos no Teatro Municipal (às 16 e às 19h): “Lisbon Story”, de Wim Wenders, sobre o Fado; “Buena Vista Social Club” de Wim Wenders sobre a música cubana; “Underground”, de Emir Kusturica, que retrata os grandes agrupamentos ciganos da Europa de Leste; “World Festival of Sacred Music”, de Ryan Harper, um documentário sobre várias tradições musicais de todo o Mundo que têm a ver com ritos e religiões;”The saddest music in the world”, de Guy Maddin, com Maria de Medeiros; “Rock that Uke”, de Sean Anderson, sobre o Ukulele nos USA.

Conferência sobre o instrumento madeirense Rajão pelo prof. Manuel Morais da Universidade de Évora (dia 19, às 18h30).

Entre 22 a 24, DJing Café do Teatro com DJ Yggdrasil (eu mesmo :)), a partir da meia noite

Publicado por Luís Rei às 10:57 PM | Comentários (1)

Luar na Lubre na TVGalicia, hoje à noite

A TVGalicia (www.crtvg.es) exibe hoje um concerto de Luar na Lubre realizado no passado dia 12 de maio, no Palácio de Congressos em Santiago de Compostela, a propósito do lançamento do mais recente disco desta formação da Corunha, “Hai Un Paraiso”. É pelas 23h50.

Publicado por Luís Rei às 06:19 PM | Comentários (1)

Chieftains, Bottine Souriante, Núñez, Stivell e Seivane no Festival da Ortigueira – Galiza

Já está disponível a programação de um dos mais emblemáticos festivais folk galegos.

Dia 9 – Escola de Gaitas de Ortigueira; Os Cempés; Kíla (Irlanda); Alan Stivell (Bretanha)

Dia 10 – Karma (Bretanha); Capercaillie (Escócia); Susana Seivane; La Bottine Souriante (Quebeque)

Dia 11 – Nova Galega de Danza, Quempallou, Kevren Bres Sant Mark (Bretanha); Carlos Núñez, Chieftains.

Publicado por Luís Rei às 06:17 PM

maio 17, 2004

Hedningarna em dois festivais, num espaço de uma semana




Hedningarna em Sendim e no Funchal durante o mês de Julho

Confirmam-se as suspeitas. Os fino-suecos Hedningarna apresentam-se em dois festivais portugueses no espaço de uma semana. No último fim de semana de Julho, actuam no Intercéltico de Sendim (Trás-os-Montes). A 22 do mesmo mês participam em mais uma edição do Raízes do Atlântico que se realiza anualmente no Funchal. O último álbum ainda é "Karelia Visa" lançado em 1999.

Deixo-vos um texto-entrevista elaborado há cinco anos atrás, na fase de lançamento deste disco.

Regresso a Kalevala

A idade não perdoa. De regresso ao passado, Hedningarna estão agora mais mais maduros. Karelia Visa denuncia uma expedição a território careliano em busca de "rune songs" e de uma sonoridade mais acústica.
A Carélia é uma espinha atravessada na garganta de muitos finlandeses. Representa o prejuízo de guerra que estes Nórdicos tiveram de pagar aos russos em 45, como consequência da aliança com os Alemães durante a II GGM. Daí que ao lermos o título Karelia Visa possamos pensar que os Hedningarna reivindicaram um visto específico para penetrar em território da Ex-União Soviética. Local onde fizeram o trabalho de recolha deste disco. Em entrevistas que deram, os Hedningarna fazem questão em não se envolver em questões políticas. Contudo, o álbum além de nos oferecer uns Hedningarna renovados, lança o repto da defesa da língua minoritária de raízes fino-ugricas. Björn Tollin refere que "entrámos na Carélia porque conhecíamos gente de ascendência finlandesa que representam uma pequena percentagem da população." Os tentáculos do enorme polvo russo ainda mexem e "muitas crianças descendentes de finlandeses falam apenas russo". Daí que não seja de estranhar haver "um movimento na Carélia que tenta proteger a língua" de Elias Lönnrot, para quem este álbum representa "uma forma de dizer que a sua cultura está bem viva". Extremismos à parte, Anita Lehtola reconhece que "existe um movimento finalndês que pede a união da Carélia Russa ao nosso país". Só que "os Hedningarna não têm nada a ver com isso".
Afinal, para Töllin "'Visa' significa 'laulu'. Por sua vez designa voz, canção. Karelia Visa é o nome do disco, o que quer dizer que estas são canções da Carélia."
Embora as canções medievais da Carélia estejam bem documentadas nas bibliotecas, o grupo realizou trabalho de campo. Isto é, escutou a velha arte do canto 'kalevaliano' pela voz de senhoras idosas (de oitentas e muitos anos) que ainda preservam esta tradição.
Töllin comenta que "esta experiência fez com que a Sanna e Anita conseguissem compreender melhor os textos arcaicos. Quando fomos para estúdio sentiram uma vibração mais próxima das velhotas". Por sua vez Anita refere que a experiência "foi muito profunda. De certa forma, senti-me a regressar a casa. Mexeu muito comigo lidar com aquelas pessoas e viver no seu ambiente durante alguns dias. É inexplicável."
Para suportar a magia e o arcaísmo das vozes, os Hedningarna edificaram uma sonoridade etérea, que se pôde sentir em Copenhaga na apresentação ao vivo do álbum. "O Anders Stake pretendia fazer um disco mais acústico e a sua ideia foi um pretexto para Karelia Visa. Contámos com um novo produtor que aprofundou este lado acústico e vocal", comenta Bjorn Töllin.
Muitos poderão pensar que os Hedningarna pegaram na estrutura sonora do primeiro disco. Para Anders Stake esta viagem é "o reflexo daquilo que sentimos actualmente ao fazermos música".
Afinal, o ir em frente sempre foi apanágio dos Hedningarna. Como Stake conclui, "se olhar para os nossos álbuns, verifica que há sempre algo que os diferencia. O Kaksi é mais rock, o Trä mais pop e o Hippjokk mais techno. Agora voltámos à folk."

Publicado por Luís Rei às 06:43 PM

Segue-me à Capela em digressão de promoção

O grupo vocal Segue-me à Capela que recria com personalidade recolhas do nosso cancioneiro popular efectuadas por Michel Giacometti e GEFAC, vão estar em digressão para promoção do disco homónimo que acaba de ser lançado em edição de autor. Eis as datas:

Maio

Dia 23 – Fnac, Cascais Shopping (18h30); dia 31 – Fnac, Santa Catarina (17h00) e Gaia Shopping (22h00);

Junho

Dia 5 – Fnac, Chiado (18h30) e Auditório Municipal do Barreiro (21h30); dia 19 – Fnac, Almada (17h00); dia 20 – Colombo (17h00)

Publicado por Luís Rei às 06:24 PM | Comentários (1)

maio 14, 2004

Metrô: "Achei Bonito"

Alguém foi hoje ao Speakeasy ver os brazucas Metrô? Fantástica aquela vocalista quarentona com alma e feições de criança tão doce quanto rebelde. O nome dela? Virginie Boutaud. Se a Virginia Astley ou a April March sambassem, seriam provavelmente como a Virginie. Bossa nova adocidada e samba puro e duro. Mas há muito mais do que isso: punk sem bateria (só guitarras), charme frances gainsbourgiano, cacófonia, improviso, muito experimentalismo com ecos de Mutantes a espaços, free jazz. Um concerto informal, como se fosse para um grupo de amigos, em que Virginie pega em Pedro D'Orey (ele que chegou a ser volcalista da banda) para um dueto memorável. Um excelente regresso após 17 anos de ausência.

Nova oportunidade para ver os Metrô ao vivo num show case da FNAC Colombo, hoje à noite, pelas 21 horas. Obrigatório, caso não pretendam ir a Fausto ou a Jan Garbarek.

O desenvolvimento, mais logo!

Publicado por Luís Rei às 12:27 PM | Comentários (7)

Fausto no Pessoal e Transmissível

Hoje, às sete da tarde, a TSF repete uma conversa recente de Carlos Va Marques com Fausto.

Publicado por Luís Rei às 12:15 PM

maio 13, 2004

Agenda de fim de semana

Amanhã, oportunidade única de ouvir ao vivo o álbum “Opera Mágica do Cantor Maldito”. Depois dos concertos de Sines e de Montemor-o-Novo, Fausto regressa à capital – Aula Magna – numa das suas raríssimas aparições ao vivo. A não perder.

No mesmo dia, o norueguês Jan Garbarek regressa ao nosso país e apresenta-se no Grande Auditório do CCB. Traz consigo a percussionista Marilyn Mazur, autora de um álbum que gostaria de conhecer melhor, "All The Birds". Do que escutei há uns tempos no programa "Late Junction" da BBC Radio 3, o disco promete.

Sábado, pelas 10 da noite, a melhor nova banda ao vivo da área tradicional, Uxu Kalhus, “monta a sua tenda no Chapitô”, para mais um aimado bailarico em que as danças tradicionais europeias e lusitanas surgem contaminadas de riffs de guitarra heavy e ritmos afro-jamaicanos. Vá, mesmo que não saiba dançar!

Tenho curiosidade em conhecer a formação brasileira Metrô. Há tradição carioca, há electrónica, há experimentalismo e informalidade na forma como gravaram o seu último disco. Hoje no Speakeasy, amanhã na FNAC do Colombo, pelas 21 horas.

Se vivesse perto de Oliveia de Azemeis, não perderia amanhã no Latex os Sloopy Joe. Espero pelo final do mês para o ver em Setúbal. E vejam lá se tocam mais do que 35 minutos.

Na Galiza:

Quem vive no Minho, facilmente poderá deslocar-se à cidade galega de Lugo. Aí realiza-se o primeiro festival de folk homónimo. Amanhã, dia 14: Mutenrohi (Galiza) y Gwenlann (Bretaña); Sábado, 15: Aïsha (Catalunya) y N.O.R. (Extremadura); Domingo, 16: Tannahill Weawers (Escocia); Segunda, 17: Xosé MAnuel Budiño (Galiza). Destaques óbvios para os escoceses e para Budiño.

Mais informações Concello de Lugo

Publicado por Luís Rei às 03:17 PM | Comentários (3)

Certezas

"Lorius" dos bascos Alboka é um grande, grande disco de folk europeia, não apenas de folk basca. Perfeira a forma concilia o legado do "euskera" - inevitáveis as sonoridades de trikitixa, alboka e txalaparta - e vai visitando a escandinávia, as balcãs, a ocitânia, o flamenco do sul de Espanha. O álbum Reconcilia-me com Márta Sébestyén. Lembra os inebriantes tempos de "Prisioner's Songs".

Faytinga coloca o pequeno e jovem país do corno africano, a Eritreia, no mapa das músicas do mundo, apesar de este não constar ainda na enciclopédia Rough Guide. Um voz profunda de África com um timbre agudo oriental (será Índia, será Japão?) muito especial. Uma jóia africana tão delicada quanto Rokia Traoré.

O disco de Segue-me à Capela é lindíssimo e mostra a Luís Varatojo como se pode tratar bem a tradição portuguesa mais e menos óbvia (quase) despida de instrumentos. Obrigado Cristina Martins.

Quando mais se escuta "Living Road" de Lhasa, mais se gosta. Há quem pretenda ir aos quatro concertos que a diva dará em Portugal. A ideia não é descabida de todo.

Lila Downs regressa em grande forma com "One Blood". A amostra que se pode escutar no sampler da edição de Maio da revista Global Ryhthm é divinal.

Prometo desenvolver em breve alguns destes pontos.

Publicado por Luís Rei às 02:49 PM

maio 10, 2004

Será pedir muito?

Ter a oportunidade de ver um décimo dos nomes que se seguem em festivais de músicas do mundo nacionais?

Marc Ribot Y Los Cubanos Postizos; Ibrahim Ferrer; Ali Farka Toure; Cordel do Fogo Encantado; Alamaailman Vasarat; Frifot; Groupa; Lila Downs; Ferhill; Malinky; Linda Thompson; Richard Thompson; June Tabor; Brass Monkeys; Incredible String Band; Planxty; Jim Moray; Alasdair Roberts; Mahala Rai band; Mostar Sevdah Reunion; Spaccanapoli; Tony Allen; Shakti

Publicado por Luís Rei às 11:28 PM | Comentários (5)

naifada na perna

Ainda não ouvi o disco do projecto A Naifa, mas espero fazê-lo brevemente. Aprecio o trabalho que Aguardela tem feito com o seu projecto Megafone. No entanto fico triste que neste meio continue a haver artistas que antes de olharem em redor, criticam o que supostamente não acontece e deveria acontecer.

Na entrevista dada ao Diário Digital, Luís Varatojo afirma o seguinte:

«A música portuguesa é rica e viveu diversas fases. Mas paradoxalmente perdeu-se o seu rasto. Há um legado importante do qual não existe registo. Temos um folclore muito rico, mas infelizmente na maior parte dos casos é explorado na sua forma mais simples e quase brejeira, para turista ver. Gostávamos de pegar nessas raízes tradicionais e transportá-las para uma certa noção de modernidade e de cruzamento com outras culturas musicais»

Que legado importante é esse, do qual não existe registo? Será que o conceito de inovação na música tradicional (que não seja simples e brejeiro para turista ver) terá obrigatoriamente de passar pela inclusão de electrónica? explorar electro, dub, downtempo, etc? Conhecerá Luís Varatojo projectos / artistas como At-Tambur, Uxu Kalhus, Dazkarieh, Mandrágora, Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, Marenostrum, Realejo, Segue-me À Capela, Moçoilas, Janita Salomé?

Publicado por Luís Rei às 12:45 PM | Comentários (10)

PULP FUSION: filhos da fruta

Vários
"Pulp Fusion" - Vol1 a Vol4

Nestas quatro compilações poderia encontrar-se boa parte do sumo sonoro que proporcionasse maior virilidade às imagens captadas por Quentin Taratino em “Cães Danados”, “Pulp Fiction” ou “Jackie Brown”. Sem aditivos nem conservantes, sem ficção mas muito real, a colecção “Pulp Fusion” é mais um importante documento que confere a importância da música negra dos anos 70 em toda a sua amplitude, como fonte de pilhagem sonora de grupos rap e hip hop dos anos 80 e 90 como NWA, Eric B & Rakim e Onyx. À semelhança de outras compilações do género (“Africafunk”, “Club Africa”, “Racubah” ou “Oulele”), “Pulp Fusion” poderá ser um dos guias espirituais de projectos inseridos nas novas correntes de dança soul, jazz, funk, como Soul Ascendants, Faze Action ou Cinematic Orchestra. Mas se as quatro compilações acima referidas concentram-se mais no funk de ida-e-volta entre África e o Novo Continente, a série “Pulp Fiction” assume as múltiplas fusões entre o funk que cresceu nos “guettos” americanos e aí adquiriu múltiplas ramificações.

Além das omnipresentes e gordas linhas de baixo, “Pulp Fiction” dispersa-se por ritmos latinos de salsa e funk’n’flute (para perceber melhor a influências dos “guettos” espânicos no funk, soul, disco é obrigatório conhecer a compilação “Barrio Nuevo”), absorve influências do jazz, como be bob de Dizzy Gillespie, a facção mais electro de Herbie Hancock, ou o calor tropical dos brasileiros Azymuth. Apresenta-nos uma Tina Turner indomada na fase quanto mais-me-bates-Ike-mais-mais-selvagem-fico em “Bold Soul Sister” de 74. Desdobra-se na soul, quer através do pricadelismo de Minnie Riperton e de (outro brasileiro) Emir Deodato, quer por um formato sexy conduzido pela antiga mulher de Miles Davis, Betty Davis.

“Pulp Fiction” oferece-nos funk do bom, do puro, dos anos 70, numa riqueza híbrida que contempla ainda traços sonoros influenciados pela estética cinéfila Spaghetti Western, através de Booker & The MG’s.

Publicado por Luís Rei às 03:08 AM

BEBEL GILBERTO: ainda falta "Tanto Tempo" para Junho

Bebel Gilberto lançará um novo disco, daqui por um mês. Álbum produzido por Marius de Vries (já trabalhou com Bjork e Rufus Wainwright) e que conta com uma série de convidados de luxo, como Carlinhos Brown. A editora é a mesma de "Tanto Tempo" (a Crammed / Ziriguiboom) e, contrariamente ao que seria de esperar, este disco não terá distribuição em Portugal pela Megamúsica (a habitual representante desta editora belga no nosso país). É a Universal que irá editar um disco que promete ser um dos maiores lançamentos de Verão. Resta saber se esta brasileira fará a habitual tripla da imprensa nacional musical. Isto é, capa no Blitz, DNA e Y, na mesma semana.
Deixo-vos com um artigo / entrevista que escrevi para a Visão, há cerca de quatro anos, poucos dias antes de Bebel Gilberto apresentar "Tanto Tempo" ao vivo no CCB.


Filha de João e Miúcha, Bebel carrega consigo o peso do apelido Gilberto.
A sua carreira musical já tem mais de uma década, mas só este ano editou o seu primeiro álbum que lhe trouxe reconhecimento internacional, dando aso aos trocadilhos que o título Tanto Tempo pode deixar transparecer. É que, a sua vivência no Brasil como artista, não foi nada pacífica. Conforme conta, «o Brasil não perdoa. Existia uma enorme pressão há minha volta, porque sou filha de João Gilberto. As pessoas perguntam: “- o que é que ela vai ser?” Aí, já botam cinco lentes de aumento para ver se você está sendo fiel à música do seu pai. Se eu fosse mais rock, pegavam no meu pé. Ou se optasse por outra carreira como a de jornalista, também eram capaz de pegar no meu pé. Adoro o Brasil, mas os brasileiros não incentivam os filhos de artistas a seguirem a carreira dos pais.»

Aos 17 anos já tinha gravado um EP e um disco de samba no Brasil baseado em temas de Geraldo Pereira, trabalho que não guarda muito boas recordações. «Fui chamada para ser ‘crooner’, por isso não houve o meu envolvimento artístico, já que até dirigiram o meu jeito de cantar.»
Apesar disso, Bebel Gilberto é actualmente uma das vozes de maior projecção de um cenário pós-bossa nova, que ela considera ser simplesmente pop. A sua música reflecte uma vivência errante dividida entre o Rio de Janeiro, Nova Iorque e Londres.
«Mudei-me para Nova Iorque em 91», diz. «Fui para lá para começar do zero, conhecer o país onde nasci e vivi até aos três anos. Achei que isso podia ficar meio perdido na minha história. Quando lá cheguei, conheci o Arto Lindsay, o David Byrne e o Beco Dranoff e comecei a trabalhar com músicos que viviam ou que iam lá gravar os seus discos. Participei no “Circulando” do Caetano Veloso, colaborei com o Towa Tei (DJ japonês que pertenceu ao projecto Dee Lite), que me fez ver que essa coisa meio ‘dance’ poderia ser ‘bacana’». Aí, Bebel, além de ter encontrado a «liberdade para fazer o que queria», ganhou confiança e foi acumulando experiência e ideias durante quase uma década, que agora podem escutar-se em Tanto Tempo. «Ao ouvir grupos como Everything But The Girl, Style Council, Sade e Matt Bianco, sentia que eles botavam um perfume brasileiro nas músicas que faziam. Senti que havia um grande envolvimento de artistas estrangeiros pela nossa música.»
Ao compor em Nova Iorque, ao trabalhar com gente ilustre da dança como a dupla norte-americana Thievery Corporation, o brasileiro DJ Soul Slinger, o jugoslavo Suba e os ingleses Smoke City, Bebel não tem dúvidas que o seu álbum Tanto Tempo «é um disco feito por uma brasileira, pensado com a cabeça de quem vive fora do Brasil.» Quando Bebel misturou a simplicidade da guitarra com a electrónica, estava consciente que «se você faz uma coisa totalmente acústica não vai a lado nenhum, a não ser que queira imitar o que aconteceu há 30 ou 40 anos».

o novo Brasil

À semelhança de Bebel Gilberto, outras vozes femininas brasileiras têm contribuído, através da Europa ou Estados Unidos, para uma saudável revolução da pop dançável cantada em português.
Nina Miranda, voz dos Smoke City residente em Londres e que participou em Tanto Tempo de Bebel, reflecte na música que faz o sangue brasileiro, por parte do pai e inglês, por parte da mãe. As letras que exibem o seu lado bilingue, o trip hop britânico condimentado pelo omnipresente tropicalismo, são características de distinção na sonoridade dos Smoke City.
Zuco 103 é o nome de um projecto germânico-holandês que mistura a sua a canção pop brasileira, com uma estrutura rítmica electrónica, minada de influências dançáveis e algo jazzísticas, que vão hip hop ao drum’n’bass. A figura central do grupo que actuou este Verão no festival Cosmopolis, é a carioca Lilian Vieira. Vive há mais de uma década em Amsterdão. Por não conseguir exercer na Holanda a sua profissão de enfermeira, viu na música e no circuito de bares brasileiros uma forma de sobrevivência.
A história de Leila Pantel é semelhante à de Lilian. Há mais de uma década que vive em Hamburgo. Era actriz, mas a língua impossibilitou-a de trabalhar em teatro, na Alemanha. Continua a fazer o circuito de bares de bares com o seu Trio Bossa Nova, através do qual apresenta clássicos de Joyce e Hermeto Pascoal. Foi através do tema Foto Viva e dos Mo Horizons, que se tornou conhecida na Alemanha. Este projecto do alemão Ralf Droesemeyer, une azimutes electrónicos, com uma notável orquestra de bons músicos de soul, funk e jazz, que também interpretam as sonoridades quentes de África e da América Latina.

Publicado por Luís Rei às 02:49 AM | Comentários (2)

maio 07, 2004

WOMAD DE CÁCERES HOJE E AMANHÃ

O WOMAD continua hoje e amanhã em Cáceres. Há cerca de 10 projectos para escutar em duas longas noites nesta cidade da extremadura espanhola que se situa a pouco mais de 300 quilómetros de Lisboa e do Porto. A programação é a seguinte:

Hoje, dia 7

21:30 – Bebe
22:00 – El Combo Linga
23:15 – Tinariwen
00:45 – Kíla
02:30 – Mercedes Peon
03:45 – DJ Talvin Singh

Amanhã, dia 8

21:30 – Dhira
22:30 – Kiko Veneno
00:00 – Lenine
01:30 – Daara J
03:15 – El Bicho

Publicado por Luís Rei às 04:24 AM

maio 06, 2004

Terrakota mais logo no Santiago Alquimista

E apresentam novo álbum gravado nos estúdios do Youssou N'Dour (no Senegal): "Humus Sapiens".

Publicado por Luís Rei às 07:01 PM

Assim que o tempo permitir...

A saga da discografia essencial continua com os seguintes títulos:

Lhasa – La Llorona; Virginia Rodrigues – Sol Negro; Caetano Veloso e Gilberto Gil – Tropicália 2 ; Master Musicians of Jajouka – Brian Jones Presents the Pipes of Pan at Jajouka; Mari Boine – “Eagle Brother”; Hedningarna – “Kaksi”; Värttinä – “Oi Dai”; Chico Science – “Afrociberdelia”; Muzsikás – “Prisioner’s Song”; Peter Gabriel – “Passion”; Kathryn Tickell & Friends – The Northumberland Collection; Lo Jai – Musiques Traditionnelles du Limousin; Garmarna – Vittrad; Milladoiro – As Fadas de Estraño Nome; Klezmatics – Jews With Horns; Altan – Island Angel; Waterson: Carthy – S/T; Blowzabella – Vanilla; Fela Kuti – He Miss Road

Publicado por Luís Rei às 03:43 PM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (31)
NJAVA - "VETSE"

Njava
Vetse
Hemisphere / EMI

Quem viu há uns anos os Njava ao vivo no Festival Cantigas do Maio, deve ter sentido que esteve na presença de um dos melhores grupos africanos em palco, notabilizando-se quer pelo calor e intensidade das vozes e danças de transe e circuncisão por parte de “Monika” e “Lala”, quer pelo virtuosismo de “Dozzy” que através do Marovany (caixa quadrada de madeira com dois sets de cordas dispostos paralelamente) criava sonoridades tão rápidas, fluídas e cintilantes quanto água a jorrar da fonte. Este quinteto constituído por dois irmãos e três irmãs serve-se da tradição do sudoeste de Madagascar para evocar a memória do pai Njava, que morreu num confronto étnico e que defendia a união das diferentes tribos daquela ilha situada perto da costa moçambicana. A residir na Bélgica, o colectivo Njava consegue o que, por exemplo, os Tarika não conseguem: manter a sua música completamente enraízada na tradição local, livre de instrumentos eléctricos, com uma linguagem moderna e uma sonoridade exótica, pura, alegre e sedutora aos ouvidos ocidentais. Vetse é, dois anos depois, a versão mundial do álbum Njava From South-Madagascar que foi editado em 97 pela Suchi Records somente no Japão. Se a edição nipónica inclui uma “sushi remix” de Jiboty, já esta edição mundial apresenta dois temas inéditos (Halatsà e Belina). Tanto um como outro álbum fazem parte da lista dos grandes álbum de world music dos anos 90.

Publicado por Luís Rei às 03:09 PM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (30)
MESTRE AMBRÓSIO - "FUÁ NA CASA DE CABRAL"

Mestre Ambrósio
"Fuá Na Casa De CaBRal"
Sony Music

Se Chico Science correspondia à renovação da música nordestina a partir de elementos exteriores como funk e hip hop, os Mestre Ambrósio partem de toda uma panóplia riquíssima de ritmos como o maracatu, coco de roda, baque solto, baque virado, forró, chote e siranda para dar uma visão mais enraizada do mangue beat (género musical apelidado pelos brasileiros do sul à nova música enraizada que vem do nordeste).
Ao segundo álbum, os Mestre Ambrósio aprofundam as suas raízes locais, numa amálgama sonora essencialmente construída à base de inúmeras percussões (pandeiro, alfaias, chocalhos, preacas, reco-reco, agogô, zabumba, caxixi, caixa com hit-hat top 13”, bombo 12”, etc), alimentada por uma rabeca de sonoridade vetusta, um fole de 8 baixos folião que comanda o forró pé de calçada (vertente urbana do forró pé da serra), além da guitarra e baixo responsáveis pelo formato híbrido de tradição e modernidade.
O universo dos Mestre Ambrósio é grande como o Brasil e profundo como a Amazónia. Entre os ritmos trazidos pelos escravos africanos, dilui-se a harmonia portuguesa e respira-se o ambiente misterioso da Mata Norte, complementado com uma dose lúdica e encenada do Cavalo Marinho - folguedo do norte de Permanbuco composto por dança, poesia, teatro que comporta várias personagens e cujo mestre de cerimónias é… Mestre Ambrósio.
Neste disco há um maior risco por parte da banda não só em assumir um lado mais popular, como também na exploração de outras paisagens (Chamá Maria é um misto de tango com melodias ciganas de leste) e inclusão de três temas já editados no álbum de estreia em versões que conseguem ter nova amplitude (Usina, Se Zé Limeira Sambasse Maracatu, Pé-de-Calçada). Quanto ao humor e sátira de Siba, continua irreprenssível. Tentem escutar a história de como Cabral descobriu o Brasil e logo se arrependeu.

Publicado por Luís Rei às 03:06 PM | Comentários (5)

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (29)
RICHARD THOMPSON - "MOCK TUDOR"

Richard Thompson
Mock Tudor
Capitol / EMI

Richard Thompson é como um escritor que, há medida em que vai envelhecendo, vai apurando o seu estilo, a sua forma de se exprimir e contar histórias. Depois de Industry, que abordava um tema já tão batido no cinema inglês, como a falência da revolução industrial, a decadência das cidades e as vidas que influenciou, Mock Tudor é um álbum conceptual, de memórias e visões do local onde Thompson nasceu: Londres. Descrições cronologicamente divididas em três partes, correspondendo aos 50 anos de vida e às experiências de vida quer nos subúrbios, quer no centro da cidade.
Musicalmente, Richard Thompson, tal como Billy Bragg, continua igual a si próprio, continuando a fazer um misto de rock e folk simples e directo, não cedendo a quaisquer inovações estéticas. Tom Rothrock e Rob Schnapt, os produtores que haviam trabalhado com Foo Fighters e Beck, parecem não ter tido grande margem de manobra. Thompson sabe o que faz e fá-lo com um misto de nervo e serenidade, intensidade e personalidade, alma e chama, sentindo e fazendo sentir as palavras que canta. Algo que nos faz recordar os bons velhos tempos dos Talking Heads, era Psycho Killer. É este o segredo de quem parece nunca envelhecer. Junte-se à belíssima Suzanne Vega.

Publicado por Luís Rei às 02:57 PM

maio 04, 2004

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (28)
LUAR NA LUBRE - "CABO DO MUNDO"

Luar Na Lubre
Cabo Do Mundo
Warner

Contrariando quem pensa que o facto de se assinar por uma multinacional poderá desvirtuar a criatividade de um projecto em função dos números de vendas e da imposição a prazo de álbuns feitos de encomenda, os galegos Luar Na Lubre apresentam-se em Cabo Do Mundo mais maduros e personalizados. Se o terceiro álbum (e primeiro para a Warner) Plenilúnio já era uma obra de antologia do folk da melhor casta Celta que se faz no país vizinho, Cabo Do Mundo segue-lhe os passos, como que a dizer que não basta inovar para criar um clássico. É sobretudo na cristalização da energia e fluidez que emana da excelente execução instrumental, plena de altos e baixos extremamente bem entrosados entre violino, flauta, bódran e bouzuki; e da subtileza vocal de Rosa Cedron acompanhada por finas orquestrações como seda, que reside toda a magia do grupo. Uma magia que parece ser uma dádiva de Druídas.
Apesar de terem os pés bem assentes na Galiza, os olhos e a alma dos Luar Na Lubre encontram-se voltados para o mar que congrega o universo musical do atlântico norte, o mesmo que acolhe os Milladoiro ou uns Berroguetto, mas sem estar tão apegada ao peso instituição que os primeiros carregam e sem enveredar por experimentalismos progressistas. Cabo Do Mundo é a confirmação de que os Luar Na Lubre são uma das bandas galegas da actualidade.

Publicado por Luís Rei às 03:29 PM | Comentários (2)

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (27)
MARLUI MIRANDA - "2 Ihu Kewere: Rezar"

Marlui Miranda
2 Ihu Kewere: Rezar
Pau Brasil / Dargil

Há mais de 20 anos que Marlui Miranda, etnóloga e compositora brasileira, pesquisa e interage com tribos de índios do Amazonas. Quatro anos antes de 2 Ihu Kewere: Rezar, editou Ihu Todos os Sons, uma réplica sonora algo experimental da grande selva visualizada maioritariamente por músicos da nossa civilização e que contou com a colaboração de, entre outros músicos brasileiros e não só, Gilberto Gil. 2Ihu Kewere: Rezar é, segundo as próprias palavras da autora, uma «catequese sonora ao inverso» criada no sentido de permitir uma saudável absorção da religião cristã. Algo que poderia servir de Missa aos Jesuitas no Sec. XVI, «por forma a traduzir os conceitos cristãos para o sagrado campo indígena». Gravado pela Orquestra Jazz Sinfónica e o Coral Sinfónico do Estado de São Paulo, esta Missa Kewere além de possuir uma base litúrgica cristã é “incendiada” pela força dos cânticos indígenas carregadas de misticismo, num duelo equilibrado entre o céu e a terra.

Publicado por Luís Rei às 03:10 PM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (26)
PATRICK STREET - "LIVE FROM PATRICK STREET"

Patrick Street
Live From Patrick Street
Green Linnet

A tradição irlandesa por ser a que tem maior exposição no contexto das músicas do mundo, pode bem apresentar sinais de desgaste e de uma certa saturação, pelo facto de ser pouco dada a inovações. No entanto, a par de novas bandas como Dervish e North Cregg, os veteranos Patrick Street mostram o porquê de baladas e jigs e reels continuarem a possuir ao fim de tantos anos a semelhante espontaneadade, beleza e força, quando abordados pelas almas gémeas de Kevin Burke, Jackie Daly, Andy Irvine e Ged Foley. Three Slides ou os sets iniciados por Jack The Bridge e McDermott’s Reel são exemplos de momentos onde vêm ao de cima todos os mecanismos que conferem uma cumplicidade constante dos quatro, visível nos frequentes golpes de rins provocados pelas mudanças de ritmo destas danças, intercalando baladas dominadas pela carismática voz de Kevin Burke e suas histórias tradicionais e de humor insólito. Notável é sobretudo a versão de Music For Found Harmonuim (que o falecido Simon Jeffes compôs para a Penguin Café Orchestra), domada inicialmente pela guitarra de Ged Foley, sem o habitual virtuosismo em acordeão de Daly, que surge apenas no desenvolvimento do tema.

Publicado por Luís Rei às 03:02 PM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (25)
IBRAHIM FERRER - "BUENA VISTA SOCIAL CLUB PRESENTS"

Ibrahim Ferrer
Buena Vista Social Club Presents Ibrahim Ferrer
World Circuit / Megamúsica


A música cubana nas suas múltiplas ramificações (son, bolero, guarija, etc) tem vivido dias de ouro, apesar de todas as imposições da administração repúblicana norte-americana, com múltiplos artistas de mais de 70 anos que nunca tinham saído da Ilha de Fidel Castro a dar a volta ao mundo em sucessivas “tournées”. O “boom” teve origem quando há alguns anos atrás Ry Cooder decidiu gravar com Ibrahim Ferrer, Ruben Gonzalez, Afro-Cuban All Stars, entre outros, o álbum Buena Vista Social Club. À semelhança do que já havia acontecido com Ali Farka Touré (do Mali) no álbum Talking Timbuktu, Ry Cooder trouxe uma maior amplitude instrumental, mais refinada aos ouvidos dos Europeus e Norte Americanos. Se Talking Timbuktu tinha anteriormente sido considerado um dos melhores discos de world music de então, esta nova aventura de Ry Cooder render-lhe-ia um Grammy, milhões de discos vendidos e até um documentário realizado por Wim Wenders. Tanto assim é, que a World Circuit, editora de Ali Farka Touré e outros artistas africanos de primeira linha como Oumou Sangaré, instalou-se demoradamente em Cuba e foi explorando o filão latino-americano com edições de Ruben Gonzalez, Afro-Cuban All Stars, não se esquecendo também dos clássicos fechados no baú do sótão, como Estrellas de Areito e Los Zafiros.
Quanto a este álbum a solo de Ibahim Ferrer com chancela de Buena Vista Social Club, tudo soa grandioso reflectindo a preocupação da editora em fazer uma grande produção. O som continua expandido e refinado, mostrando que não são precisas descargas (jam sessions) para se continuar a inovar dentro da música cubana, pairando no ar um pouco do génio de Arsénio Rodriguez, o pai do son cubano. Há secções de cordas, há secção de metais a soar de mansinho, há guitarras eléctricas cruas e que transpiram algum psicadelismo tropical, tudo muito sentido porque é a voz opulenta e algo noir de Ibrahim Ferrer que deve fazer-se ouvir e sentir. Um álbum onde se dá uma simbiose perfeita entre o presente, o passado, revelando que ainda há muito sumo para espremer no futuro.

Publicado por Luís Rei às 02:55 PM

"Arranja-me um emprego"...

... na capital catalã, por quatro meses. O programa do Barcelona Forum 2004 da arrasa com qualquer concorrência. Deixo-vos a agenda de parte dos 141 dias de actividades em que se prevê a realização de cerca de 450 espectáculos.

Maio

9 - Mariem Hassan Y Leyoad; Macaco; Carmen Liñares + Alim Qasimov

10 e 11 - Orchestra Baobab

12 e 13 – Rabih Abou Khalil, Susheela Raman

14 - Gilberto Gil; Mariem Hassan Y Leyoad

15 – Susheela Raman; Amp Fiddler

19 – Magreb Sound System

20 a 22 – Incredible String Band

27 - Stanley Beckford

28 – Thomas Mapfumo & Blacks United; Angelique Kidjo

29 - Stanley Beckford

30 – Thomas Mapfumo & Blacks United

31 – Bugge Wasseltoft

Junho

1 – Bugge Wesseltoft

3 – Si*Se

4 e 5 – Keziah Jones

7 – Lucky Dube

8 - Spaccanapoli

9 – Lucky Dube; Spaccanapoli

10 – Spaccanapoli; Groove alla Turca: Burhan Öçal & Jamaalade Tacuma

11 e 12 - Groove alla Turca: Burhan Öçal & Jamaalade Tacuma

14 – Kepa Junkera i Gnawas d'Agadir

15 - Kepa Junkera i Gnawas d'Agadir; Souad Massi

16 e 17 – Esma Redzepova; Souad Massi

18 - Mystic Revelation of Rastafari; Mardi Grass

19 – Mardi Grass; Rasha

20 – Rasha

21 – Fernanda Abreu

22 – Fernanda Abreu; Bidinte

23 e 24 – Bidinte

28 e 29 – Sevara Nazarkhan; Boukman Ekesperians; Lila Downs

30 – Boukman Ekesperians; Lila Downs; Shooglenifty

Julho

1 de Julho– Lila Downs; Shooglenifty; Nuevo Mester de Juglária

2 – BB King Blues Festival; Nuevo Mester de Juglária; Joe Bataan meets Marc Ribot y los Cubanos Postizos; Pietra Montecorvino

3 - Joe Bataan meets Marc Ribot y los Cubanos Postizos; Pietra Montecorvino; Maria Salgado

4 - Pietra Montecorvino; Maria Salgado

5 – Taarab Orchestra of Zanzibar

6 – Khaled; Taarab Orchestra of Zanzibar

7 – Bob Dylan

9 e 10 – Kroke

12 – Shakti; Richard Bona

13 - Keith Jarrett, Gary Peacock & Jack de Johnette

14 – bebel Gilberto

16 – marcos valle; Adriana Calcanhotto

17 - Marcos valle; Adriana Calcanhotto; Many Dibango I Ray Lema

19 – Cesária Évora e Mariza; Michael Franti & Spearhead; Kíla; Paco Ibañez

20 – Kíla; paco Ibañez

21 – DJ Krush

22 - Amic i Amat (Al Sadiq Ua-l-Habib), amb Maria del Mar Bonet

23 - La Mediterrània - Natacha Atlas + Naab; Ghorwane

24 - Ghorwane; Wayne Shorter, Herbie Hancock, Dave Holland, Brian Blade

24 - Wayne Shorter, Herbie Hancock, Dave Holland, Brian Blade

Agosto

2 – Tambors de Burundi

3 - David Murray & The Gwo-Ka Masters; Tambors de Burundi

4 e 5 - Tambors de Burundi

6 e 7 – Javier Ruibal ; Orquesta Nacional de Barbès

16 – 17 – Cool Hipnoise; Eliseo Parra

18 – Sapho

18 – 19 – Mercedes Peon

20 - Un llarg viatge d'Orient a Occident: The Master Musicians of Jajouka featuring Bashir Attar

20 – 22 – Kokani Orkestar; Fanfare Ciocarlia

20 – 21 – Tony Allen

23 – 25 – The Gift

23 – 27 - Tartit

24 – 25 – Faltriqueira

25 – 26 – Javier Muguruza

27 – 29 – Yat-kha

Setembro

3 – 4 – Basque Dub Foundation

6 - Bidaia

10 – 11 – Rossy

11 – Besh’o’Drom

13 – 17 – Musafir

14 – Bachianas Brasileiras

17 – 19 - Kristi Stassinopoulou

20 – 21 – Te Vaka

23 – 23 - Jonathan Richman

Publicado por Luís Rei às 05:27 AM | Comentários (4)

Unblocked: Music of Eastern Europe: A Leste da Europa

"Unblocked: Music of Eastern Europe" (edição Ellipsis Arts, distribuição Megamúsica) é um excelente cartão de visita em formato de triplo CD que documenta a música tradicional proveniente dos estados que formavam outrora a República da União Soviética. Um verdadeiro "melting pot" de culturas caracterizado por várias etnias, raízes linguísticas, alfabetos e religiões. Numa altura em que recebemos na União Europeia dez novos estados membros, é pertinente olharmos para a música de cada país. Mas, para já, começamos pelos nomes inscritos em "Unblocked".

Báltico


Lituânia: Lithuanian Suite

Letónia: Valdis Muktupavels; Klinci; Skandinieki; Ave Sol

Estónia: Helene Poeldaru: Linnamuusikud


Do Danúbio aos Cárpatos:

Eslovénia: Tolovaj Mataj; Katice

República Checa: Martin Hrbác; CeskoMOravská Hudební Spolecnost;

Eslováquia: Pavel Bielcik; Terchovská Musika Rozcutec

Hungria: Miskolc Romafolk; Zengö Group; Márta Sebestyén with the Ökrös Ensemble; Újstílus; Szaszcsavas band

Em breve, abordarei aqui cada projecto.

De referir que esta preciosa peça de colecção reúne ainda músicas de outros estados que (ainda) não fazem parte da Europa comunitária: Bielorússia; Ucrânia, Rússia, Croácia, Sérvia, Bósnia e Herzegovina, Macedónia, Albânia, Bulgária, Roménia e Moldávia.

Publicado por Luís Rei às 05:17 AM | Comentários (1)

maio 03, 2004

Välkommen Till Sverige

Reisaren é o resultado do diálogo entre dois músicos nórdicos de eleição, que trabalham sob uma matriz musical oriunda dos vales noruegueses de Setesdal. O notabilizado Ale Möller (mandola e flautas) dos projectos suecos Nordan e Frifot, e o norueguês, Gunnar Stubseid (harding fele).
Reisaren, mais do que uma prova de virtuosismo e criatividade por parte destes dois músicos, demonstra, acima de tudo, uma exemplar forma de entrosamento de duas fortes personalidades do folk nórdico que, sem recorrer a grandes inovações estéticas, edificam um registo de excelência, em que a capacidade comunicativa, o olhos nos olhos entre estes dois músicos, é a base do ir mais além.

Kalabra e Sälta (quarteto entretanto já extinto) são dois grupos da nova geração, cujos elementos, de vinte e poucos anos, são na sua maioria oriundos da Real Academia de Estocolmo.
Apesar dos dois elementos Ulrika Bodén (voz e flauta) e Sebastian Printz-Werner (percurssões) serem comuns a ambos os projectos, estes seguem caminhos distintos, mas com a mesma finalidade. São duas propostas distintas para dar novas tonalidades à engrenagem sueca.
Os Sälta são mais um daqueles grupos que aborda a temática da infelicidade e do desamor, tão característico das baladas medievais nórdicas. Seja o Rei que vai à bruxa e fica a saber que tanto ele como a mulher morrerão em breve, estando como consolação duas cadeiras no céu para os acolher; ou simplesmente a história do cavaleiro que pega no seu cavalo com o objectivo de conquistar riqueza, acabando por não conseguir mais do que a roupa que traz vestida.
Ambientes de tragédia, misturados com alguma ironia e muito bem condimentados pela também cândida voz de Ulrika Bodén, que canta como um anjo num Inferno. É aqui que o potente e cavernoso piano preparado de Risto Holopainen, se de dar expressividade, não sendo alheio a certas trocas de olhar com trabalhos mais antigos de Nick Cave, como From Her To Eternity ou First Born Is Dead. A ideia é excelente e dá, certamente, uma nova cara às muitas que a folk actual sueca possui. Contudo, existe ainda uma certa fragilidade na abordagem da improvisação e na construção de algo mais sólido e seguro. De qualquer forma, esta é mais uma obra de peso, que revela um futuro bastante promissor a este quarteto.

Já nos Kalabra que integra Simon Stalspets, Ulrika aborda de forma mais alegre e descontraída a felicidade e os prazeres da vida. As canções, escritas por membros do grupo, exprimem sensações de se estar enamorado, ou as das habituais baladas medievais com final feliz. É exemplo disso a história de uma pequena que desafia os seus medos (e de seus pais) e segue um monstro que simboliza o amor inacessível e proibido. Quando acorda de manhã, encontra um príncipe a seu lado.
Musicalmente, os Kalabra dão um seguimento mais pop à vertente folk-jazz iniciada por Ale Möller. O alto e barítono saxofone de Amanda Sedwick, o marcado e "afunkalhado" baixo de Erik Metall, as percussões a tocar o Afro (que têm o dom de nos fazer lembrar o nosso Zé Salgueiro), acompanhados por uma série de instrumentos da tradição nórdica, como as longas flautas de madeira sem buracos (que os Hedningarna também usam), a nyckelharpa, o berimbau e o bouzouki (da família dos bandolins), dão corpo ao compromisso existente entre o jazz e a intemporalidade do folk, que tanto pode evocar os "Kulnings/Callings" (cantos para a recolha dos animais de pasto) de outrora, como apostar na escrita contemporânea.
Kalabra, um disco que sofre de problemas semelhantes ao de Sälta, mas que, tal como este, nos convida a estarmos atentos ao evoluir deste projecto, porque a renovação da folk nórdica irá passar certamente por aqui.

Ainda no Jazz, Dan Gisen Malmquist é um clarinetista que tocou outrora com Ale Möller nos Filarfolket e que actualmente participa na Avadå Band. O seu perfil, de meio trintão a caminho dos quarenta, dá-lhe para exibir uma postura mais calma e despretenciosa, assente na fusão entre o jazz e a música tradicional mais ligeira. Ambos os discos possuem a capacidade de nos surpreender, trasportando-nos por diversos ambientes. Desde algo que evoca a lamechice de um Kenny G e da música de hotel, passando pelas gélidas sonoridades pejadas de mistério que os Groupa tão bem sabem fazer, até canções charmosas a que Karin Parrot exemplarmente se encarrega de dar voz. Ela, que parece ter saído de um filme sobre a Segunda Guerra Mundial, canta com uma sensualidade "Lili Marlene" num cabaret parisience, decorado a vermelho.

Vattenringar, álbum inicialmente editado em 92, totalmente instrumental e não tão inventivo quanto Nattljaus serviu de tubo de ensaio para este recente disco, que se mostra verdadeiramente ambicioso na procura de ambientes melodicamente ricos e com uma grande dose de sentimentalismo à mistura. É um daqueles discos que vai entrando a pouco e pouco na nossa sensibilidade.

Com os Trio Patrekatt entramos no forte universo das cordas suecas, que se encontram ao serviço das polskas, Scottis e valsas. Um universo demasiado híbrido, em que os músicos da "old fidler tradition" executam longas dissertações de violino, tendo por isso o dom de nos criar alguma sonolência.
Nos Trio Patrekatt de Markus Svensson (que também integra os Kalabra) tais danças são executadas através de duas nyckelharpas e um violoncelo, instrumento que vem introduzir alguma inovação a este universo. As nyckelharpas, mais recentes, muito mais melodiosas e de sonoridade mais aguda que as de tempos medievais, são confrontadas com a grave sonoridade do violoncelo que funciona quase como instrumento de resonância ou como se de cordas "drone" se tratasse. Aqui e ali observamos algumas tentativas de tornar as incontornáveis polskas mais universais e modernas, sobretudo quando os instrumentos são abordados de forma mais suja, como se fossem os finlandeses Apocalyptica em versão soft.

North Sea Music do escocês Aly Bain (Ilhas Shetland), da sueca Hanne Kjersti Yindestad e dos noruegueses Tellef Kvifte, Leiv Solberg e Henning Somemerro, é um disco que assenta na recuperação de composições que viajaram ao longo de séculos pelos países do mar do Norte.
Antes da rádio e da TV, a música e as palavras foram transportadas por mar. A língua inglesa falada nas ilhas Shetland (Escócia), ainda hoje possui muitos termos do norueguês. Tais marcas denunciam a ocupação deste povo nórdico até ao sec XV, reflectindo-se também musicalmente em "Wynadelpa", com Aly Bain a demonstrar através de harding fele (o violino tatuado norueguês) todas as semelhanças entre estes dois povos.
Norh Sea Music, uma súmula de reels, callings, polskas, baladas e valsas, que viajaram e foram sendo adaptadas de país para país, recebendo uma rica herança multi-cultural. "I´ll Give My Love a Cherry" é o exemplo de uma balada irlandesa que viajou com a emigração até aos Estados Unidos e que regressou ao país de origem com um certo aroma de blues.

Diálogo, e do mais harmonioso que é possível, é coisa que acontece no projecto Swap dos suecos Ola Bäckstrom e Carina Normansson (violinos) e dos britânicos Karen Tweed e Ian Carr (acordeão e guitarra), quatro músicos que se têm notabilizado nos seus países de origem. Ola Bäckstrom, pelo seu trabalho a solo, Carina Normansson pela coordenação de uma "spelemmanslag" da região de Dalarna e Karen Tweed e Ian Carr pelas suas múltiplas colaborações em projectos britânicos de primeira água, como a banda de Kathryn Tickell e os Poozies.
Neste disco que reúne composições de ambos os lados do mar do Norte, salta ao ouvido a forma quase perfeita como reels irlandeses se encontram em sintonia com as polskas suecas, num trabalho onde o desenraízamento das origens musicais, se encontra ao serviço de uma banda sonora que balança incessantemente entre as ilhas britânicas e a Escandinávia. Mais um trabalho memorável em que comunicação e entrosamento falam mais alto, oferecendo uma outra dimensão ao sangue musical que corre nas veias destes quatro músicos.

Habituados que estamos ao cruzamento da música de raíz nórdica com todo o tipo de manifestações sonoras, Bazar Blå é mais um novo projecto sueco que propõe um novo alargamento da fronteira da polska e da composição para nickelharpa (violino com um sistema de chaves sueco). Numa modalidade comparável à dos Väsen (não tão enérgica), a música dos Bazar Blå divaga entre a sumptuosidade e delicadeza da folk sueca, assaz marcada pelos rasgos criativos da nickelharpa de Johan Hedin, cuja interpretação navega entre o rústico e o clássico. Sonoridade essa suportada pelo baixo de Björn Meyer oferece uma cadência mais jazzística e, sobretudo pela amplitude universal das percussões - caxixi, tabla, darbouka, bendir, djembe, entre outras - de Fredik Gille. Mais um feliz cruzamento entre a melodia nórdica, o jazz e os ritmos do mundo.

Emma Härdelin (vocalista dos Garmarna), Kjell-Erik Eriksson (violinista dos Hoven Droven) e Janne Strömstedt (órgão) trocam-nos as voltas neste trio. Longe do som duro e sombrio que caracteriza os outros grupos de que fazem parte, os elementos dos Triakel apostam na simplicidade e doçura das canções recuperadas dos antigos baús dos seus avós. Hinos, baladas, valsas e polskas cantadas que gravitam em torno da frágil mas extremamente harmónica voz de Emma, cujas palavras suecas escorregam tão bem nos nossos ouvidos como se de uma faca aquecida em manteiga se tratasse. O violino e o órgão, esses, escutam-se lá muito atrás, de mansinho, para não perturbar esta diva precoce. Por isso mesmo, se este álbum nos oferece Emma na maior candura, deixa-nos a amarga sensação do não ir mais além pelo lado instrumental (visceral), que estávamos habituados sobretudo em Garmarna.

Publicado por Luís Rei às 06:29 PM | Comentários (2)

daqui a pouco no espaço 7 às 9 do CCB

Daqui a pouco sobe ao palco do espaço 7 às 9 do CCB o quarteto Polaris em que pontifica o violinista Sérgio Crisóstomo (dos At-Tambur), acompanhado do “mandolinista” e flautista sueco Simon Stålspets (informação sobre o cardápio de hoje aqui).

Fez na passada sexta-feira oito dias que tive a oportunidade de os ver ao vivo, no Mercado da Ribeira, para animar mais um dos bailes que ocorrem semanalmente neste espaço (no último estiveram os Monte Lunai). Dado o difícil repertório – polskas, mazurkas, valsas nórdicas – para ser dançado em pares e em roda, a maior parte dos convivas demorou a acertar o passo ou, muito simplesmente, deixaram-se ficar sentados. Ouviam-se desabafos dos “habitués” do Andanças porventura mais habituados com as sonoridades dançáveis da geografia britânica, bretã e galega, “- oh não! Mais outra polska!”. Ao que parece, o duo Crisóstomo (violino) e Stalspets (mandola) também não estava minimamente a esforçar-se para ser a correctíssima banda de baile. Esqueceram-se dos dançarinos e afagaram o ego um do outro. Houve quem não gostasse. Como baile a sua prestação foi duvidosa, mas como concerto foi fenomenal. Crisóstomo encarnou a pele de um violinista da região de Dalarna. Com toque intrincado, hipnótico, sereno e fervoroso, desenhando a geografia norueguesa (plena de altos e baixos dos fiordes). Stalspets, discípulo de Ale Möller e da escola Frifot (o que de melhor existe na tradição sueca), tornou com a sua mandola deu um pendor mais épico e telúrico às danças suecas. Ambos encaixaram-se perfeitamente um no outro e ofereceram-me uma viagem sensorial, de regresso ao belíssimo festival de Falun de 97. Aí revivi um exemplar concerto de uma dupla de excelência da folk nórdica – o inevitável Möller e o norueguês Gunnar Stubseid.

Não me contive e fui ao baú buscar algumas das relíquias nórdicas. (continua no post seguinte - Välkommen Till Sverige.

Publicado por Luís Rei às 05:19 PM

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (24) - Väsen - "Världens Väsen"

Väsen
"Världens Väsen"
Xource

Apesar dos Väsen estarem ainda fortemente ligados à música da velha tradição de cordofones sueca, sobretudo ao desenvolvimento de melodias para diferentes nyckelharpas, sejam elas de tempos medievais ou deste século, regista-se uma grande abertura na sua sonoridade e que coincidiu com a entrada do percussionista André Ferrari. A estrutura continua a ser a mesma de Väsen, Vilda e Levande, contudo, tal como no trabalho Prisme da violinista norueguesa Annbjorg Lien (no qual Roger Tallroth, guitarrista dos Väsen, foi produtor), os horizontes locais alargaram-se e de que maneira.
André Ferrari é um músico que tem uma paixão incomensurável pela cultura índia e que exibe penas no cabelo e traje a rigor quando em palco. Acaba por ser o elo de ligação do passado dos Väsen a algo muito mais ambicioso, como a exploração de ambientes e ritmos indissociáveis de celebrações espirituais, desenterrados nas antigas civilizações da América Latina. Estes novos ritmos e ambientes embelezam e dão outra dimensão à música dos Väsen, que outrora se pautava por contornos demasiado híbridos, perdidos nessa velha tradição sueca. É o que acontece em "Shapons Vindaloo", tema que Ferrari escreveu e que é um exercício criativo de percussão, acompanhado pelos restantes elementos. Em praticamente todas as composições se nota o trabalho deste músico que vem ornamentar de forma mais pomposa as difíceis "polskas", dando-lhes contornos mais universalistas.
Pese algumas "divagações" que estravazam as raízes musicais dos Väsen, este disco é como que um grandioso rio onde vários e distintos afluentes vão desaguar. Todas as diferentes águas, transmutam-se e tornam-se numa só.

Publicado por Luís Rei às 01:21 PM | Comentários (3)

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (23) - Marc Ribot Y Los Cubanos Postizos - "S/T"

Marc Ribot Y Los Cubanos Postizos
"Marc Ribot Y Los Cubanos Postizos"
Atlantic, Warner

A evolução das diferentes franjas sonoras da ilha de Fidel também passa por cubanos postiços que se aventuram numa réplica "fake" da obra de Arsénio Rodriguez. O pai do son cubano que deixou importantes impressões digitais durante os anos 40 e 50, através da sua big band. Marc Ribot, outrora membro do ensemble downtown jazz nova-iorquino Longue Lizards e dono de um curriculum invejável no qual contam colaborações com Elvis Costello, Mariane Faithfull, John Zorn ou Tom Waits, faz-nos querer que Rodriguez inventou o rock'n'roll. Sob uma base rítmica mais tradicionalista, com um toque cool q.b., interpretada por gente com uma larga formação jazz, Ribot sucede-se em solos de guitarra eléctrica de sonoridade crua (característica em David Byrne), esticando até aos limites a simplicidade dos acordes de base. Marc Ribot com os Cubanos Postizos (re)constrói o lado mais nebuloso e criativo do son, onde se diluem diferentes escolas: do rock, passando pela música improvisada dos anos 80, até ao jazz.

Publicado por Luís Rei às 01:04 PM | Comentários (2)

DISCOGRAFIA ESSENCIAL (22) ESTRELLAS DE AREITO - "LOS HEROES"

Estrellas de Areito
Los Heroes
World Circuit / Megamúsica

No início de um novo milénio, grande parte das orquestras de son, salsa e cha cha cha cubanas mantêm uma sonoridade agarrada ao passado, devido (em parte) à exemplar longevidade dos seus intérpretes. Mas há vinte anos atrás um grupo de cerca de 40 virtuosos instrumentistas e cantores fez aquilo que poderá ser hoje a música cubana de amanhã. No fim dos anos 70, seguindo o exemplo dos nova iorquinos Fania All Stars - parada de estrelas não cubanas que se notabilizaram pelas réplicas de son que faziam - Juan Pablo Torres ergue as Estrellas de Areito. Um autêntico laboratório de descargas (leia-se jam sessions) que combinava três gerações de músicos de diferentes áreas: das charangas às latin jazz bands. E se a ideia era a de engendrar uma plataforma para dar largas à criatividade e ao virtuosismo, isso foi conseguido. Vinte anos depois, a World Circuit seduzida pelo rotundo êxito de "Buena Vista Social Club" apresenta-nos "Los Heroes", um duplo álbum onde habita um espírito de improviso notável. Se os Estrellas de Areito não atingiram o êxito que se pensava, conseguiram dar novas coordenadas e liberdade para "desbloquear" a interpretação quadrada daquilo que se dançava nas salas de Havana.

Publicado por Luís Rei às 01:00 PM