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abril 07, 2004
Tama La: griots em Portugal
Mercado da Ribeira (Lisboa), 27 de Março
José Duarte poderia ter ido ao Mercado da Ribeira à procura de “swing”. Decerto que encontraria um enorme filão à conta do projecto Tama La de Kimi Djabaté. O som era assaz sofrível, o palco pequeno demais para oito músicos, o concerto começou mais de uma hora após o horário previsto o que obrigou a uma sessão de baile africano forçado com aquela musiquinha feita de teclados chungosos. Mas o que é que isso importa quando temos os Tama La a servirem um repasto de música afro-mandinga modernizada de muito bom gosto? Kimi é grande. De ascendência griot, Kimi nasceu numa aldeia de músicos da Guiné Bissau - Tabato. Aos três anos já “mexia” no balafon, mas apenas aos oito iniciou o estudo mais sério do instrumento com o seu pai, Braima Djabate. À semelhança do que acontece com os Terrakota, Kimi não usa o balafon no chão, utiliza um suporte de sintetizador, para poder tocar de pé, cantar e saltar (constantemente), imprimindo uma força contínua genuína, antípoda de forçada, em tudo o que faz. Ao seu lado, um guitarrista da mesma família, Mamadi Djabate, abre espaços ao “groove” funk instalado através de solos que parecem saídos das grandes orquestras da África Ocidental – Baobab e Bembeya Jazz. O rapaz tem “dedos de diamante”. À melodia afro, junta-se a orgânica europeia de alguns dos elementos, numa fusão que roça a perfeição: a voz secundária da italiana Chiara Picotto, admirável como canta na língua mandinga, injecta uma dose de frescura; o alemão Johannes Krieger (um dos trompetes da Tora Tora Big Bang) adiciona-lhe a alegria saudosista das grandes bandas de jazz errante, que salpicam sonoridades latino-americanas. Lá atrás, Hugo Menezes (a sua nacionalidade é portuguesa, mas o seu DNA deve ser de um negro latino-americano), vai solando ora em djembe ora em congas, fazendo-se ouvir mais alto que o baterista Marte Antunes.
Kimi Djabate, a par de Maio Coope (do projecto Djumbai Jazz) e de Manecas Costa (entrevista pronta a sair nas Crónicas), são valores seguríssimos da música guineense que procuram a inovação, quer da música da África Ocidental mandinga, quer do estilo gumbe “made in” Guiné, adicionando-lhes novos temperos europeus sem descaracterizar a raiz, demarcando-se contudo do “som de Lisboa” (conforme designação de Manecas) que domina os espaços africanos nocturnos da Capital. Acabam por não agradar nem a “gregos nem a troianos”, ora porque fogem ao arquétipo dominante, ora porque vivem “guetizados” e não conseguem chegar ao público português, que – comparativamente com os povos do norte e centro da Europa, sobretudo franceses, alemães e holandeses – sempre se revelou mais intolerante para com a música africana. Apesar de tudo, fica o aviso para os promotores de festivais de músicas do mundo. Para quê gastar desnecessariamente parte do orçamento com artistas de segunda ou terceira categoria, quando têm músicos desta estirpe ao virar da esquina? É preciso descobri-los.
Publicado por Luís Rei às abril 7, 2004 09:37 AM
Comentários
Boa Páscoa para toda a gente aí em casa.
Um abraço,
Francisco Nunes
Publicado por: Planície Heróica às abril 11, 2004 02:22 AM
Bom conhecer o seu blog! Apareça. Abração,
Antonio Jr
Salvador, Bahia
www.nosilenciodanoite.blig.ig.com.br
Publicado por: Antonio Jr às abril 12, 2004 08:49 AM