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abril 08, 2004

não há celtas como os do Porto

Por razões de ordem pessoal, não pude estar presente no verdadeiro e genuíno Intercéltico do Porto. No Rivoli e no Terço – não tanto no Coliseu – sempre se respirou um ambiente único, numa festa que regularmente extravasou o palco principal e se estendeu às celebrações paralelas que ocorreram formalmente ou informalmente noite fora. Há momentos de Intercéltico (apesar de haver outros Intercélticos em Portugal, basta esta palavra para designar o do Porto) e de outros festivais internacionais, como Kaustinen na Finlândia ou Falun na Suécia (e muitos outros haverá certamente como o de Gucca na Sérvia, mas estes foram aqueles que tive a oportunidade de presenciar), que nunca esquecerei e que me fizeram desinteressar pelos penteados de cabelo das estrelas do pop / rock e das electrónicas e pela frieza da indústria musical, para abraçar a pureza e o calor humano de boa parte dos músicos que se movem nesta área, sejam europeus, asiáticos, africanos ou americanos. Um desses momentos teve como actores os Dervish, durante a sua primeira presença em Portugal, por alturas de apresentação do seu segundo disco “Harmony Hill”. Bela noite aquela em que quatro músicos se juntaram numa mesa de um bar da Ribeira e só pararam de tocar por volta das seis da manhã (altura em que me pus a caminho de Lisboa), depois de terem repleto a mesa de garrafas de cerveja e os cinzeiros de beatas de cigarro e de cinza (será que as restrições ao consumo de tabaco em pubs recentemente aprovadas na Irlanda não terão efeitos nefastos na produção musical?). Tudo isto para dizer que (não) estive no Intercéltico durante os três dias de espectáculos que ocorreram no Centro Cultural de Belém. Vamos aos factos.

O CCB não é definitivamente um local que proporcione a troca de afectos. É frio e distante. É aquele sítio tipo que faz lembrar o filme de Agnés Jaoui, “o Gosto dos Outros”.Vai-se para ser-se visto não para ver e ouvir música. É natural que no fim de um concerto – tendo na memória a entrevista de Carlos Vaz Marques a esta realizadora francesa – haja um diálogo deste tipo:
- Gostaste dos Kíla?
- De quem?
- Dos Kíla, o grupo irlandês que viemos ver...
- Ah! Nada mesmo.
- Eu também não. Mas, o que é que isso interessa?

Aposto que boa parte dos que foram as estes concertos são mais consumidores de espectáculos do CCB do que propriamente de música tradicional. Nunca iriam a um destes três concertos se estes se realizassem no Coliseu, no São Luiz ou no Teatro da Trindade.

Apesar de haver quem se irrite com a terminologia celta, o facto é que este rótulo, para o bem e para o mal, vende. Mas, no CCB, sobretudo na noite dos Kíla deverá ter havido bmuito boa gente enganada. Provavelmente, estariam à espera de algo mais dentro do espírito new age e das inenarráveis compilações “Celtic Twilight”. Causou-me um certo espanto não ter visto por lá nenhum fotógrafo da Caras ou da Lux.

A primeira noite, dominada pelo psicadelismo dos irlandeses Kíla, foi um exemplo de um concerto que não deveria ter ocorrido neste palco. Se há quem, à porta de um bar, é convidado a ir a casa trocar os ténis pelos sapatos, os Kíla deveriam ter sido obrigados a vestir fato de gala e a pedir à assistência que não ousasse sequer tentar um passo de dança, nem tão pouco tossisse. Contrariamente àquilo que se vê na foto promocional publicada em quase todos os jornais, os Kíla foram iguais a si próprios – aspecto típico de feios-porcos-e-maus – , incitaram a minoria do “andanças” à dança e foi o que se viu. Os seguranças engravatados a tentar impedir o fluxo da assistência ao palco e a banda a desautorizar a autoridade e a quebrar as regras de etiqueta do local.

Musicalmente, o projecto de Rónan Ó Snodaigh está irrepreensível. Apesar de terem esboçado um rude manifesto de intenções, a partir de 95 com “Mind The Gap” e de terem passado pelo Cantigas do Maio mostrando tanta vontade em inovar quanto atabalhoamento na forma como entravam e saiam de palco e no cruzamento de diversas sonoridades além Irlanda, só recentemente é que o projecto ganhou consistência, acertou em cheio nos temperos afro-latinos e na fusão electro-acústica. Voaram de space shuttle em direcção à Lua, prolongando até aos 10 minutos a rebelião irlandesa através de versos exclusivamente cantados em gaélico, uillean pipes, flautas típicas (tin e low whistle) e um bodhran omnipresentes num território rock psicadélico miscigenado de percussões afro-árabes, baixo eléctrico, bateria, mandolim com overdubs, metais suaves, saltério planante... Mais do que justificado o regresso de um projecto que é, actualmente, o mais interessante da nova geração irlandesa.

Gostei dos Múszikás e passei um bocado ao lado do Kepa. Aprecio apaixonadamente a música magiar, cigana e judaica da Transilvânia, sempre tive uma grande consideração por este projecto húngaro. Marta oferece-nos o Céu, os violinos de Éri, Porteleki e Sipos fazem-nos dançar com o fogo a diferentes velocidades. O “hit gardon” (antigo violoncelo percutido) de Hamar e as flautas exóticas (que pena não tocarem fuyara) acentuam o sotaque magiar de uma música única, cujas csárdás foram exemplarmente dançadas pelo par de dançarinos. Há vida, há sangue a ferver nas veias, intercalado pelo esvaziamento do corpo, mente e espírito, próprio de uma aula de yoga. Só que, estilisticamente, os Múszikás pararam no tempo. Continuam a ser uma réplica daquilo que se pratica numa tanchás (casa de dança húngara). Já cá vieram uma série de vezes, intra e extra Intercéltico. Há cinco anos que não editavam um disco. Fizeram-no recentemente, mas o registo é... ao vivo. Nada de novo, portanto. Não seria mais pertinente terem trazido a Ökrös Ensemble do mago cigano Fodor Sándor “Neti”?

Quanto a Kepa... enfim. O duplo registo ao vivo tem coisas extremamente interessantes. Boa conjugação da tradição basca da trikitixa e da txalaparta com orquestrações clássicas e vozes búlgaras, só que aquilo que apresentou no CCB foi a versão portátil de “K”. É claro que Kepa não precisa destes subterfúgios para ter a audiência na mão. A forma empolgada, sentida, virtuosa com que pega no seu instrumento é suficiente. Só que assistimos a um remake do concerto da Fábrica da Pólvora do ano passado. Genialidade a espaços. Refúgio em arranjos pop. Quebras constantes e irritantes de tempo com a orquestração das palmas vindas da plateia. Assim não, Sir Kepa.

Publicado por Luís Rei às abril 8, 2004 04:02 AM