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abril 22, 2004

Entrevista com Cibelle: “Vamos fazer um som?”


Cibelle é sexy e emotiva. A paulista radicada em Londres regressa ao nosso país, depois de ter passado pelo Sons em Trânsito, no final do ano passado, num concerto extremamente acidentado. A redenção está marcada amanhã em Lisboa (Santiago Alquimista) e depois de amanhã em Vila Nova de Gaia (Hard Club). Um Duplo espectáculo inserido no Galp Lounge Tour. Deixo-vos uma concersa em duas partes gravada em Novembro de 2003, entre Lisboa e Aveiro.

Como é que conheceu o Suba?

A história é engraçadíssima. Até vou fazer um cigarro em homenagem a essa história. Sabe, esses cigarros de enrolar? Como não tem químico, o cigarro não fica aceso. Aí, eu tinha ido ver uma “jam session” e estava esperando um amigo que estava mega atrasado. Fui ao backstage cumprimentar os músicos, o cigarro não estava aceso. Aí tinha uma cara muito grande, todo de preto, não tinha cara de brasileiro e tinha um zipper (isqueiro). E aí falei: -me empresta o fogo”. O cigarro apagava-se e continuava: “- me empresta o fogo de novo”. Aí começámos a conversar. Acabei de fumar o cigarro, despedi-me dele e fui ver o “show”. O meu amigo não chegava e eu precisava de companhia, por amor de Deus. Aí olhei para o lado e ele estava na escada. Eu falei: - “desce!”. Ele desceu e vimos o “show” juntos. Aí o meu amigo apareceu e comecei a falar com ele, olhei para o lado e o Suba tinha sumido. Estava de costas para o palco e entra um samba rock com teclados distorcidos, exactamente a sonoridade que eu estava buscando para fazer o meu disco. Estava quase a assinar por uma gravadora que acabei não assinando para ficar com o Suba. Tinha já um monte de música. Pensei: quero que esse cara que está no palco produza o meu disco. Olhei para o palco e era o cara do isqueiro. Fui para a beira do palco, o baixista chamou o meu amigo para cantar, o meu amigo me puxou para cima do palco, ele deu-me o microfone e eu comecei a cantar. O Suba olhou para mim, sorriu, ao sair do palco ele agarrou o meu braço e disse: “- Olha, não estou tentando te cantar, não é paquera, mas você pode passar em minha casa amanhã para a gente fazer um som?”. “- Claaaro”, disse. E aí grudámo-nos. A gente achou companhia um no outro. Não havia muita gente ainda com essa mentalidade musical. Me sentia super perdida. Ia na jam session com a banda daquela época e queria que o cara tocasse um som louco. Pedia-lhe que ele fizesse um barulho na guitarra, mas o cara queria groovar. Adoro groove, mas só groovar...


A par de Bebel Gilberto, Nina Miranda, Joyce, Célia Vaz, entre outras, Cibelle é mais uma das vozes femininas brasileiras que opera a partir da Europa. É editada pela editora belga Ziriguiboom e vive em Londres há cerca de ano e meio. Com pouco mais de 20 anos foi descoberta pelo produtor e músico jugoslavo Suba. No disco dele vocalizou alguns temas de “São Paulo Confessions”. Quis a infelicidade que Suba sucumbisse em 1999 a um incêndio que ocorreu no seu estúdio. Cibelle recompôs-se da tragédia e lança quatro anos mais tarde aquele que é o seu álbum de estreia, simplesmente “Cibelle”. É o Brasil multicolor contaminado de sonoridades difusas – da bossa ao downtempo e ao post rock - e ruídos acústicos e electrónicos, criado entre São Paulo e Londres.

O facto de ter assinado um contrato com uma editora europeia foi determinante na sua mudança do Brasil para Londres?

Sim. É bom morar perto do “local de emprego”. Mas isso não significa que vou fazer a minha vida na Europa. Não sei. Sabe lá Deus onde é que, de futuro, eu vou morar. Por enquanto estou em Londres. Ali tenho amigos. Uma família de amigos.


Há uma série de artistas brasileiros que se lançam a partir de Londres. Será esta cidade um mercado para a música brasileira que o Brasil não consome?

Não sei. Não tenho muita certeza se o Brasil não consome ou não consumiria esta música. Acho que consumiria. O problema é que o Brasil está muito dominado por aquele pop ultrapassado e preparado para vender e as pessoas não estão educadas para ouvir outras coisas. Tem mercado. Mas não vejo que eu meu trabalho pudesse ser lançado de outra forma.


Não há uma linha continua no disco. Há pedaços de temas que se encaixam entre si. Como é que ocorre o vosso processo de criação?

Ouço muito tipo de música. Quando vou criar algo não pergunto: “- vamos fazer um samba”; “- vamos fazer uma bossa; pergunto: “- vamos fazer um som?”. O que tiver perto a gente usa. Deixamos a música acontecer, sozinha. Deixo um monte de coisas entrar num funil. Na hora de “fazer um som” acaba saindo o que você gosta.

É global, não é regional?

É global e cosmopolita.

O que é que uma paulista sente ao cantar um tema como “Ela é Carioca”, uma canção do Rio de Janeiro?

Adoro o Rio.

Em Portugal dificilmente vemos um músico do norte, sobretudo do Porto, a cantar uma canção de Lisboa.

É mal visto?

Não será mal visto, mas é pouco comum.

Acho que no Brasil não tem esse problema. Isso é tão individual. Eu adoro o Rio. Acho lindo. Não sei se conseguiria lá viver muito tempo, pois estou acostumada com o estresse. É um outro ritmo.

Será o Rio mais dominado pela acústica do violão, com um estado de alma bem vincado e São Paulo mais electrónico, pela tentativa de exploração de novos ritmos que chegam sobretudo do nordeste?

Está mudando com o Moreno Veloso, com Los Hermanos. Não gosto de misturar com música electrónica. Você já está gravando no Pro Tools, no software. Não tem mais fita. Tenho uma maneira de filosofar. Fico imaginando quando não tinha guitarra eléctrica se não rolou um rebuliço e um inglês que nunca tinha ouvido: “ooooh! Guitarra eléctrica! Bacano!”. Aí passa uns anos e a guitarra eléctrica banaliza-se, é considerada acústica. Se você retroceder 400 anos no tempo, não seria acústico segundo a mentalidade daquele tempo. Os seus sintetizadores, filtros, pedais, etc, são mais um instrumento. É música. Pronto. O que está pedindo entra. Se vier de um teclado analógico, de um melotrom – primeiro sampler que existiu, de fita – é música. Uma coisa que não gosto é usar o computador para imitar um instrumento que existe. Já que você pode ter esse instrumento, você usa ele. Agora se você não tem como conseguir esse instrumento, não dá para pagar a uma orquestra, aí você usa. No Brasil é super difícil você achar um Hammond. Na Europa é mais fácil. Em geral usa-se um filtro. Tem umas orquestrinhas no disco e nenhuma delas soa como se fosse orquestra de verdade. Tem som abafado, tem chiados, tudo de propósito porque gosto de barulho. Gosto do som da minha pulseira. No “show” às vezes uso ela. Bato com a pulseira no microfone que tem um pedal que faz eco. Adoro.

A sua forma de compor é estar em estúdio a experimentar sons?

Tem de tudo.

Qual a sua relação com a parte técnica do violão?

Estou voltando a tocar. O meu baixista incentiva-me a tocar violão. Toco para mim quietinha quando cantava no chuveiro... estou começando a trazer o violão para o palco. Mas faço um monte de coisas. Gosto de poesia, de filmar, de editar, de fotografar. Na música tudo isso me influencia.

Para o Iemanjá fiz a música no violão. O “Waiting” tinha vindo pela primeira vez para a Europa, comprei um mini-disc, cheguei ao Brasil e não tinha comida na “geladeira”, fui no supermercado e levei o gravador comigo. Adorei e gravei o som do “freezer” e a máquina registadora da moça. No dia seguinte, o Paul perguntou-me o que é que tinha para eles e eu disse-lhes que tinha o som de um “freezer” e de uma máquina registadora e que queria fazer uma música com isso. Aí ele fez a linha de baixo, eu peguei uma poesia e comecei a cantar por cima. Cantei uma vez só.

Entre a música que está a ser construída até ao final vai uma distância grande?
Não está na fase da produção a dizer “- Coloca-se aqui um hammond, ali um ruído xpto”, não?

Tudo isso acontece ao mesmo tempo. Fazemos uma maqueta bem bagunçada. Primeiro vestimos os temas com sons, criamos efeitos, damos uma aura àquela música. Aí perguntamos qual o baixista que tem a ver com essa música e chamamos o tal amigo e deixamos o cara criar também. O Apollo dirigiu um take, eu também dirigi outro take, o terceiro take era do baixista e no final a gente picava o take inteiro juntava os três e jogava no disco. Ele fez isso com a maioria das coisas. Era a diversão da gente. Sempre o incentivei a gravar os samplers de pedaços de vinil que a gente botou no disco.

Para mim, Suba foi uma espécie de pai espiritual desta geração de músicos brasileiros que lidam com novos sons, sem perder a panóplia de raízes.

Acho que ele foi muito importante porque chegou e fez. Enquanto todo o mundo estava dizendo que queria fazer, mas ninguém deixava fazer... tem gente no Brasil que não me deixava editar este disco. Só que ele conseguiu lançar pela Crammed. Foi um processo colectivo. Sabe a história do macaquinho? Tem várias ilhas distantes, separadas. Os macacos em cada ilha não se conhecem e não são da mesma raça. Aí, o macaco apanha uma colher e começa a bater de uma certa forma. Os outros não viram, mas passado algum tempo descobrem também uma colher e começam a fazer igual. É uma questão de mente colectiva. Tinha montes de gente na mesma época começando a sentir essa necessidade sonora, em São Paulo, em Pernambuco, no Rio e agora está borbulhando. Lá e cá.

Apesar de ter sido descoberta pelo Suba e de ele ter sido um dos percussores desta movimentação, a sua morte precoce impediu-o de ver o resultado final do seu disco e até mesmo de assistir à edição do disco “Tanto Tempo” de Bebel Gilberto.
Se o Suba ainda fosse vivo, onde é que a Cibelle estaria artisticamente? Será que ele se identificava com este disco?

Estaria a fazer um dueto com ele. Ele sempre falou que Suba era ele, o João Parahyba do Trio Mocotó e eu. No próximo disco iria cantar todas as faixas com ele e no seguinte seria eu a solo com ele me produzindo. Ele brincava e dizia-me que dentro de cinco anos eu não iria querer ver a cara dele e que íamos acabar parando no terceiro disco.

Como é que conheceu o Suba?

A história é engraçadíssima. Até vou fazer um cigarro em homenagem a essa história. Sabe, esses cigarros de enrolar? Como não tem químico, o cigarro não fica aceso. Aí, eu tinha ido ver uma “jam session” e estava esperando um amigo que estava mega atrasado. Fui ao backstage cumprimentar os músicos, o cigarro não estava aceso. Aí tinha uma cara muito grande, todo de preto, não tinha cara de brasileiro e tinha um zipper (isqueiro). E aí falei: -me empresta o fogo”. O cigarro apagava-se e continuava: “- me empresta o fogo de novo”. Aí começámos a conversar. Acabei de fumar o cigarro, despedi-me dele e fui ver o “show”. O meu amigo não chegava e eu precisava de companhia, por amor de Deus. Aí olhei para o lado e ele estava na escada. Eu falei: - “desce!”. Ele desceu e vimos o “show” juntos. Aí o meu amigo apareceu e comecei a falar com ele, olhei para o lado e o Suba tinha sumido. Estava de costas para o palco e entra um samba rock com teclados distorcidos, exactamente a sonoridade que eu estava buscando para fazer o meu disco. Estava quase a assinar por uma gravadora que acabei não assinando para ficar com o Suba. Tinha já um monte de música. Pensei: quero que esse cara que está no palco produza o meu disco. Olhei para o palco e era o cara do isqueiro. Fui para a beira do palco, o baixista chamou o meu amigo para cantar, o meu amigo me puxou para cima do palco, ele deu-me o microfone e eu comecei a cantar. O Suba olhou para mim, sorriu, ao sair do palco ele agarrou o meu braço e disse: “- Olha, não estou tentando te cantar, não é paquera, mas você pode passar em minha casa amanhã para a gente fazer um som?”. “- Claaaro”, disse. E aí grudámo-nos. A gente achou companhia um no outro. Não havia muita gente ainda com essa mentalidade musical. Me sentia super perdida. Ia na jam session com a banda daquela época e queria que o cara tocasse um som louco. Pedia-lhe que ele fizesse um barulho na guitarra, mas o cara queria groovar. Adoro groove, mas só groovar...

Publicado por Luís Rei às abril 22, 2004 03:30 PM

Comentários

mas é na Aula Magna ou no Santiago Alquimista?? tenho visto anunciado sempre neste ultimo. onde é que viste a Aula Magna?

Publicado por: pmatos às abril 23, 2004 01:25 PM

Tens razão. É no Santiago Alquimista, Pedro. Desculpem a falha. Vou já rectificar.

Publicado por: Yggdrasil às abril 23, 2004 02:02 PM

Rei!

É páh! este fim de semana não posso (fds familiar...)

1 abraço

P.S-» depois dou-te um toque!

Publicado por: Miguel às abril 23, 2004 03:58 PM

fixe! já estava preocupado. vais lá estar luis?

Publicado por: pmatos às abril 23, 2004 04:50 PM

vou. tenho um bilhete a mais. se quiseres combinamos às 11 horas à porta do santiago e entras comigo.

Publicado por: yggdrasil às abril 23, 2004 04:57 PM

está combinado, então! vou com mais malta mas a gente passa pela bilheteira antes para comprar bilhetes. o Mike Stellar é primeiro?

Publicado por: pmatos às abril 23, 2004 05:22 PM

sim. estive a falar com ele e parece que isto é coisa para começar bem cedo. O melhor é combinarmos às 10h/10h30. manda-me por e-mail o teu nº de telemóvel.

Publicado por: yggdrasil às abril 23, 2004 05:35 PM

a seguir à Cibelle - se o horário previsto for cumprido - ainda será possível apanharmos o quarteto polaris no mercado da ribeira.

Publicado por: yggdrasil às abril 23, 2004 05:36 PM

Mas afinal como é que correu o concerto??

Publicado por: Vasco Sacramento às abril 26, 2004 05:03 PM

http://www.bodyspace.net/reportagens.php?rep_id=40

aqui esta o que li sobre o concerto em Gaia.

Publicado por: julia às abril 27, 2004 01:18 PM