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abril 02, 2004
Antevisão do Intercéltico do Porto

Kíla z@zerostudio.net
Definitivamente, o palco do Coliseu do Porto já era. Esta edição do Intercéltico volta ao Rivoli, local onde conheceu, provavelmente o maior momento de glória destas catorze edições: The Chieftains de há onze anos atrás. Pode pensar-se que os Celtas estarão em vias de extinção. Certamente que a descentralização – Lisboa, Arcos de Valdevez e Montemor-o-Novo – acaba por reduzir a romaria habitual de inícios de Abril à invicta. Mas ver o Intercéltico sem ir ao Porto, é como comer uma caldeirada de Peixe na Serra da Estrela, ou uma Chanfana de Cabra em Sesimbra. Não faz lá muito sentido.
Mais do que ver um grupo irlandês, galês, escocês ou bretão, por muito interessante que seja, o mais importante sempre foi o ar que se respirou, sobretudo no Terço e nas Grutas dos Celtas. Assim como o importante num festival galego é podermos participar numa queimada.
O WOMAD de Cáceres nunca mais voltou a ser o mesmo desde que o retiraram da zona medieval desta cidade da Estremadura espanhola. Não se vive um festival na sua plenitude sem o ambiente que o rodeia. Ponto final, parágrafo.
Posto isto, resta tentar averiguar o que vale musicalmente a edição catorze deste festival.
Expandindo o território celta. Os Muszikás repetem a sua presença e voltam a servir de elo de ligação entre um universo marcadamente britânico e o centro / norte da Europa (como já havia sido efectuado também com os finlandeses Värttnä). Vale sempre a pena rever estes húngaros, por muitas actuações a que já tenhamos assistido. Não pela estrela da companhia, Marta Sebéstyen – quem já viu concertos com cantora substituta quase nem dá pela falta da senhora -, mas sobretudo pelos fulminantes arranques de Mihaly Sípos e constantes duelos mortíferos com Lásló Porteleki, pel via mais indomável da música judaica e cigana da Reserva Natural da Transilânia e dos Cárpatos.
O culto da Tradição. Este ano cabe aos Atlántica da Cantábria fazer o papel de “quanto mais festivo, mais purista”, epíteto usualmente reservado às formações irlandesas que fecham o festival. O projecto originalmente composto pelo espanhol Marcos Bárcena (boa voz e subtil no bouziki e na guitarra) e pela Inglesa Kate Gass (violino e tin whistle) assume que faz “música celta a partir da Cantábria”. Interpretam com rigidez canções, jigs e reels irlandeses entre temas populares da região montanhosa do norte de Espanha – “Ay Lere Leré” e “Vira Lá Montaña” – que requerem a participação vocal massiva da assistência. Picam o ponto ainda na Galiza, na região francesa da Ocitânia e num certo country /western nortea-americano (“Blue Moon of Kentucky”). A festa está garantida.
Os transgressores. Poucos são os projectos irlandeses que re-inventam a tradição local pouco dada a novas nuances. Os Kíla, a pouco e pouco, têm levado a água ao seu moinho. “Luna Park” corrige os erros e a imaturidade de discos anteriores como “Mind The Gap” e “Tog e Bo Gog”, de há mais de meados de 90.
Não são uns Hedningarna irlandeses, mas a sua folk electrificada pisa ritmicamente África e o universo árabe, apesar de harmonicamente ser mais celestial e menos terrena. Ideal para sonharmos com druidas e sacerdotisas que se escondem nas florestas sagradas. Está mais elegante e coerente, com um certo ar progressivo (sem vestígios de naftalina), fazendo corar de inveja os Dervish (se comparados com o tema que fecha “Spirit”). Resta saber se resolveram o problema de uma certa desorganização em palco que os afectou num Cantigas de Maio de há uma meia-dúzia de anos atrás.
Os portugueses. A avaliar pelos dois temas já disponibilizados do novo álbum que se avizinha, o Realejo deixou a estética mais clássica de câmara para assumir uma postura predominantemente dançável, sem perder os traços profundos da música tradicional portuguesa. Cavaquinho, gaitas de fole e sanfona, coabitam agora com ritmos “funk” marcados pelo baixo eléctrico, servindo de fundações às (agora) canções interpretadas pela agradável voz de Catarina.
Os At-Tambur, de promessa passaram a certeza. Sérgio Crisóstomo (violono) e Tiago Costa-Freire (flautas doces) são as estrelas da companhia e da boa prestação deles dependerá a da banda. Esperemos que continuem virtuosos na interpretação das danças europeias, mas que, sobretudo, se libertem de uma certa rigidez própria da formação clássica e explorem mais as coordenadas traçadas em composições como “Sueca”.
Os Frei Fado Del Rei irão passar em resumo cartoze anos de existência (curiosamente, tantos quanto as edições do Intercéltico). A sonoridade é épica e nobre. A voz de Carla Lopes própria de uma musa inspiradora dos grandes feitos, as cordas parecem torrões de açúcar prontos a serem devorados. Só que aqueles teclados... causam uma certa amargura.
Ver Programação do Intercéltico no Porto, em Arcos de Valdevez, Montemor-o-Novo e Lisboa, aqui
Publicado por Luís Rei às abril 2, 2004 02:54 PM
Comentários
O que eu vi (a modo de top) no Rivoli:
1. Kila (sem duvida com os problemas de palco resolvidos)
2. Realejo (pelo que nos foi dado a ver vem aí um grande disco)
2. Muszikas (iguais a si próprios num concerto genial)
4. At-Tambur (sem Sérgio mas muito bem substituido. Tiago Costa-Freire é absolutamente genial)
5. Atlántica (umas baladas em registo Eurovisão de fugir. Uma desilusão)
6. Frei Fado D'el Rei (simplesmente não me disse nada. A vertente Roldana Folk levada por alguns dos seus elementos é francamente mais interessante)
Publicado por: Nuno Morna às abril 6, 2004 07:01 PM
Um trabalho notável neste blogue.
Publicado por: Rui às abril 8, 2004 01:06 PM
Busco busco busco sem nunca encontrar paradeiro... entrei neste site e estou maravilhado...
Publicado por: Helder Pereira às abril 15, 2004 05:17 PM