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abril 29, 2004
Entrevista a Manecas Costa: "resistir é (con)vencer"

2003 foi o ano internacional de Manecas Costa. Apareceu na capa da “bíblia” Folk Roots (edição de Julho) e esteve com “Paraíso di gumbe” na lista dos 20 melhores discos desse ano. Álbum gravado na Guiné Bissau e editado pela etiqueta do programa “Late Junction” da BBC Radio 3. A produzi-lo esteve a experiente Lucy Duran, autora de um outro programa desse canal, “World Roots”, que contou com a ajuda dos engenheiros de som Jerry Boys.
A viver há treze anos nos arredores de Lisboa, Manecas Costa sente-se amargurado com a falta de interesse dos média e do público em geral que têm ignorado a sua repentina ascensão internacional. Além disso, o disco “Paraíso Di Gumbé” mal se vê nas lojas. E de concertos, nem se fala. 2004 reserva-lhe apenas uma actuação (em solo português) no "Rock In Rio".
Falámos com Manecas Costa num ensaio de preparação para uma digressão em Espanha, o Retorta fotografou a banda guineense.
Apesar da sua pequena extensão de terra, a Guiné Bissau possui uma cultura musical muito diversificada, derivado das várias etnias que lá habitam. No entanto, há uma identidade nacional comum que trespassa toda a sociedade: o gumbé. O que é para ti o gumbé?
O gumbé é a forma de todas as etnias da guiné Bissau se encontrarem. Esta para a guiné Bissau como o reggae para a Jamaica. A história diz que os escravos jamaicanos trouxeram-no para cá. A Guiné tem praticamente uma mistura de estilos. Temos na Guiné praticamente tudo o que o Mali divulgou - djembe, kora, toncoro. - porque existe etnia muçulmana na Guiné Bissau (Mandingas, Fula). Isso fez com que a próprio músico da Guiné Bissau sinta uma mistura enorme. Na altura do projecto África Livre, já tocava músicas que têm a ver com o Senegal, com a Guiné Conacri. Coisas que ouvíamos na rádio. Bissau foi muito influenciado pela Guiné Conacri.
Na altura da guerra, o país sempre sofreu com cortes de energia. Apesar dos portugueses terem levado gira-discos, quando faltava luz, se estávamos num baptizado, num casamento ou numa reunião de amigos, tínhamos de inventar algo. Cortávamos um barril de vinho ao meio púnhamos água e a cabaça e continuávamos a festa. Não precisavas da energia elétrica, apenas de umas velas para ter o espaço minimamente iluminado. É a luta do gumbé com o gira-discos. É natural que se tenha tornado moda. A cabaça (tina), acompanhada de palmas, começou na cidade e a estender-se para o meio rural. Quando um Balanta toca broska sentes o gumbé e a marcação. O gumbé acabou por ter influência nos estilos mais rápidos. Foi a consequência de naquela altura não se poder cantar em crioulo. Era proibido. Foi uma luta de querer mostrar aquilo que era nosso. Vem premiar o José Carlos Schwartz, elogiar a coragem de valores como Ernesto Dabo, como Diogo Castro Fernandes. Eles é que incentivaram que era importante cantar numa língua nacional. Havia música mas não havia coragem de se fazer essa música. Tínhamos de ouvir fado, Beatles, etc.

O teu ensino de guitarra foi autodidacta e através de imitação de acordes das músicas que tocavas na rádio. Que músicas eram essas?
Tudo isso que estou a dizer. Fado, Beatles. Tínhamos uma rádio que emitia para todo o país. Era uma forma de nos fazer chegar tudo o que era bom ou mau. Não havia televisão, não havia nada. Essa rádio era uma forma de nos estarmos em contacto com o mundo. Mal vínhamos da escola, eu e o meu irmão íamos para ao pé do rádio e ouvíamos de tudo. Discos pedidos, etc.
“Paraiso Di Gumbe”, além de mostrar composições modernas, procura a pureza dos ritmos de Bissau. É também uma espécie de álbum de recolha. Daí ter sido fundamental gravar na Guiné Bissau?
O país tem uma cultura diversificada, muitas etnias, muita música. Cada etnia tem a sua forma de estar, a sua língua, o seu instrumento. Só temos que aproveitar a riqueza de cada etnia. Com “Paraíso Di Gumbe”, quis ir buscar várias formas de tocar de cada etnia. Os tambores que utilizei, não se encontram em lado nenhum. São tambores da guiné: Sabaró, Kutiriba, Bombolom, Droma. Os temas que tem mais a ver com aquele ambiente humano, sem a cadência metrónoma. O importante era deixar a música correr.
Este disco pretende acordar as pessoas. Quero mostrar o país que existe. Deu-me um orgulho imenso gravar na Guiné Bissau, por ser a primeira pessoa a trazer um estúdio móvel e a gravar no país. Espero abrir mais portas porque existem mais Manecas na Guiné Bissau.
“Paraíso Di Gumbe” une também diferentes etnias como a Banjak e a Balanta (da qual tu pertences). Que diferenças existem entre ambas?
O Manjak é mais voz. É do norte do país. Gumbe era cantado mais para pessoas que iam à missa e já tinham a noção do que era um gira-discos. O Manjak identifica-se mais com o tambor de água, com palmas. O Balanta identifica-se mais com o corno. Celebra-se o carnaval todos os dias. É a nossa forma de estar. Vais a uma festa de broska e vês as pessoas a cantar alegremente, com guitarra na mão. Isto simboliza alegria, fim do colonialismo, do medo. Implica irmandade, amizade, namoro. É muito da forma africana de comunicar que não é conhecida.

Uma das referêrencias de broska, é o Tio de Broska que a Folk Roots aborda e que pertencem à tua étnia (Balanta). Quem é ele?
O Tio de Broska é um grupo muito tradicional. Vejo nesse grupo uma simplicidade total e que ninguém olha para eles. Quando se fala em Guiné, só se fala de coisas más: golpes de estado, guerra, etc. Não há ninguém que possa pegar neles?
Como é que correu o processo de gravação na Guiné? Foi difícil levar montar o estúdio móvel e gravar o disco?
Uma das coisas bonitas que aconteceram foi a procura do sítio para gravar. A Lucy Duran e os Jerry Boys – aprendi muito com eles. Eles queriam um espaço onde havia uma ligação espiritual com o mar. Nós gravamos precisamente num bar / discoteca que fica nos arredores da cidade de Bissau. A preocupação deles era fugir ao barulho citadino e trabalhar num sítio inspirador.
Era como se a natureza entrasse pelos microfones e fosse gravada no disco?
Temos a ilha à frente do estúdio, sai-se da porta do estúdio e vê-se o mar. Gostei também de ver os Jerry Boys à procura do melhor som, colocando almofadas em sítios estratégicos para abafar o som. Foi impressionante. Ganhou-se muito com este projecto, porque trabalhei com pessoas muito experientes.
De quem partiu esta ideia de gravar o disco em Bissau?
Foi minha. Sempre quis gravar um disco na Guiné Bissau. Sei que a Lucy é das pessoas que sempre gosta de ir ao país de origem do artista que está a produzir. Já tinha esta ideia e aí houve um casamento de vontades. Nunca soariam assim se tivesse gravado este disco em Portugal ou em Inglaterra.
No disco, a harpa venezuelana substitui a kora? Como é que isso aconteceu?
Na altura queria gravar kora, mas começamos a ver o tema que escolhemos e, com a afinação do instrumento, sentimos que não era aquilo que queríamos. Achamos que a harpa podia resultar e resultou. Há um casamento de tambor de água da minha guitarra e da harpa venezuelana. Aquilo acabou por ter um certo impacto no projecto, porque uma das primeiras coisas que os média querem fazer é noticiar uma coisa nova.

Na reportagem que a Folk Roots elaborou durante a gravação do disco, leio que te querias libertar do “som de Lisboa”. Que som é esse? “zouk”? “kizomba”?
Sim. Quis evitar o zouk, porque a música da Guiné é muito rica. Penso que muitos dos projectos africanos que estão radicados em Lisboa perdem autenticidade ao querer por as pessoas a dançar. Mas isso é lá com eles. Não podemos ser todos iguais. A minha intenção é a de explorar ao máximo os ritmos que não são conhecidos: broska, gumbe, kussundé, djambadon, kundere. Há ritmos na Guiné que eu não conheço. Não se fez ainda nada para os recuperar.
Não existem discos de recolha?
Não há discos editados, mas existem gravações da Rádio Nacional. Cada vez que vou à Guiné, vou também recolher informação. Só eu sozinho a fazer isso, é complicado. Vivo cá em Portugal, mas não estou a tocar em Portugal propriamente. Vou ao Rock In Rio e é uma excepção.
A que é que se deve essa ausência em palcos portugueses?
Acho que deveria haver mais interesse ao nível dos empresários de espectáculos, ao nível de programação das grandes salas como o CCB ou a Culturgeste. Vivo cá há 13 anos e acho que deveria ter uma oportunidade de apresentar o projecto ao nível do país, da comunidade e, se calhar, de trocar experiências com músicos locais.
O álbum tem tido uma grande projecção internacional. Concertos não te faltam na Europa. Mas o disco passou completamente despercebido em Portugal, onde praticamente não tocas. Vais este ano actuar apenas no Rock In Rio. Que leitura fazes deste “quadro”?
Como diz o meu amigo Vasco, é um país em que a própria música portuguesa irá acontecer, mas não está a acontecer actualmente. Para conseguir um espectáculo numa sala como a do CCB, tenho de trabalhar muito lá fora primeiro. Tem que haver pessoas com interesse em nós, em divulgar a música africana de expressão portuguesa. Porque os francófonos estão bem inseridos. Quando o Youssou N’Dour num espectáculo diz “Merci”, ele é pago para isso. É pago por divulgar pelo mundo a língua francesa.

Não haverá também uma certa dificuldade de integração dos guineenses na sociedade portuguesa? Olhando para outros bons músicos como o Kimi Djabate, o Maio Coope, parece-me que vivem muito guetizados. Coisa que não acontece com os cabo-verdianos.
Penso que uma das coisas bonitas dos cabo-verdianos é terem tido um projecto cultural. Grupo como Tubarões, Voz de Cabo Verde, músicos como Luis Morais, Paulinho Vieira, deram alma à música de Cabo Verde e tiveram apoio do seu governo. Na Guiné Bissau, depois da independência, houve mais atrapalhação do que ajuda em criar um projecto. Isto tem a ver com a criação de uma rede, de informar as pessoas sobre o que vai acontecer.
A divulgação música africana em Portugal, conforme está a ser feita actualmente, dando ênfase sobretudo ao zouk e derivações programadas, não prejudica um projecto como o teu?
Acho que até a Renascença e a Rádio Comercial deveriam passar mais músicas de qualidade, como a Cesária, o Ali Farka Touré ou o Toumaní Diabaté. Há discos que poderiam ser passados uma vez por outra. Eu pergunto porque é que não há programas que passem estas músicas. Isto entristece-me.
Existem coisas estranhas na RDP África que eu tenho de respeitar. Não sei se passam a minha música ou não. Às vezes, ouves coisas que desvalorizam a música africana. Estamos a falar de uma música que não se sabe o que é em termos poéticos, de arranjos e de produção. Passam porque têm de passar. Deveria haver uma pré-selecção mais exigente na programação musical. Hoje toda a gente canta e quer aparecer na RDP África. Apesar de tudo é uma rádio que acaba por ser útil à nossa comunidade.
Quando gravaste este disco, houve também a intenção de sair fora do universo dos ouvintes da RDP África. Este seria um disco para apreciadores de músicas do mundo. A grande questão é a de que deves ter chegado à conclusão que há poucos apreciadores de músicas do mundo.
Sem dúvida. As pessoas não sabem que sou capa de revista em Inglaterra. Não sabem que este disco foi editado no Japão. O que me entristece bastante é ter aprendido a língua portuguesa, viver cá, ter casado cá, ter os meus filhos a viver cá e não tocar cá.
O meu nome está a ser feito lá fora. Seria extremamente importante haver empresários em Portugal que pesquisassem novos artistas e ajudassem a construir. Penso que a Lusofonia ganha muito com a Cesária, com a Mariza e comigo.
Em Portugal os políticos não incentivam os músicos a tornarem-se maiores. Será isso?
Sim. Ainda bem que falas isso. E os media também não. A minha produtora perguntou-me como é possível nunca ter sido chamado para ir ao programa do Herman.
Isso acontece com outros músicos da Lusofonia, como por exemplo o Guto Pires.
Quando a Lucy estranha com isso, fico mais triste.
Penso que houve alguns erros no processo de distribuição do disco. Se calhar, a Harmonia Mundi não seria a distribuidora mais indicada para o distribuir em Portugal.
Concordo plenamente. Como sou músico, não gosto de me meter no trabalho das editoras, mas acho que a BBC já chegou a essa conclusão. Não funcionou bem em Portugal.
Tens consciência de quantos discos vendeste cá?
Não. Penso que não deve passar dos 2 ou 3 mil discos. Vendi mais discos do outro projecto, “Fundo di Mato”, que tinha algumas kizombadas.
A questão é que esse disco foi dirigido ao público africano e apareceu nas discotecas africanas.
Exactamente. Isso e o facto de o “Paraíso Di Gumbé” ser um disco que dá palco. Tenho feito centenas de viagens. Não paro praticamente.
Quando menos esperares, “a bolha rebenta”.
Oxalá. A própria Lucy diz que a cidade e o país onde vives e onde crias os teus filhos deveria ter outra atenção para comigo. O exemplo da Cesária ensinou-nos que o português deixa a coisa ir. Penso que, acima de tudo, a Cesária deve estar um pouco revoltada com a mentalidade fechada deste país. Já ouvi um jornalista perguntar à Madonna se ela conhecia música portuguesa e ela respondeu com outra pergunta: - Cesária Évora? Ele teve que lhe dizer que ela era de Cabo Verde, ao que ela respondeu que, então, não conhecia música portuguesa.
Há que acreditar mais. Tem que haver pessoas informadas que escrevam sobre estas músicas, como o Luís.
Eu também sou um "pregador no deserto"... talvez o meu mérito seja o de poder começar uma pequena bola de neve.
O próprio Salif Keita disse-me há pouco tempo para não desaminar. Para continuar a lutar. Para falar com as pessoas certas. Isto não é crime nenhum. Isso aconteceu com toda a gente. Tem que haver, sobretudo, também nos músicos locais, interesse em criar intercâmbio, uma vez que estamos a cantar numa língua comum. Vejo muitos músicos portugueses ir a África. Dificilmente os africanos tocam cá. Em França já não existe esse tipo de mentalidade.
Inglaterra, França, são países completamente distintos. Aí existe imprensa escrita especializada, programas de rádio de autor, rádios que passam exclusivamente músicas do mundo, circuitos de música ao vivo consistentes e com programação regular.
O programa da Lucy pára a Inglaterra.

Na Guiné Bissau de 70, altura em que aprendias a tocar guitarra pela rádio, os músicos eram considerados bandidos. Como é que isso pode ter acontecido numa terra que tem etnias griots (nascem, vivem e morrem músicos)?
Naquela altura, meados de 70, os músicos eram aqueles que podiam ter mais namoradas. Era natural que faltassem às aulas e não fizessem os estudos. A própria sociedade começa rejeitar esse comportamento. É uma sociedade onde toda a gente se conhece. Se eu faltar a uma disciplina o meu colega diz aos pais e aquilo começa a circular na praça. O músico aparece neste quadrante como uma pessoa que não se quer definir e que não tem responsabilidade. Os amigos dos meus pais, começaram a pressionar: “- Cuidado com os teus filhos”, diziam. Contudo, os meus pais apoiaram-nos a (a mim e ao meu irmão Nélson), sentiram que havia alguma coisa que lhes dava mais segurança. Podíamos faltar a alguma disciplina mas tínhamos boa nota. Quem nos passou a música, foi a nossa avó da parte da minha mãe que tocava na altura. É aquilo que referiste há pouco: muitas vezes, a música é uma questão de família.
A própria educação política na Guiné Bissau, a partir do Luís Cabral também fomentou isso. Começaram a ver grupos como Caça Cobra, Super Mama Djombo, com grandes níveis de popularidade. A elite política sentia-se incomodada com isso.
Porquê? Será que os políticos sentiram que os músicos tinham mais popularidade do que eles?
Exacto. Foi aí que se começou a dizer coisas do tipo: “- aqueles bandidos não fazem mais nada do que tocar aí umas mornas”. Consideravam a música como um trabalho indigno ou um não-trabalho. A arte não foi valorizada e a música não foi prioridade dos sucessivos governos. Isto foi muito bem fomentado. Primeiro acabou-se com o Chiado Bissau que vendia instrumentos musicais. Os grupos começaram a morrer. Queima-te um amplificador e não tens como o arranjar, como fazer a manutenção do equipamento. Parte-te uma corda e tens de mandar vir de fora. Se tens um familiar em Portugal, ele manda-te a corda. Há um vôo por semana para a Guiné. O músico acaba por não conseguir ganhar um estatuto na sociedade.
Isso contrasta com a política de outros países africanos que apostam forte na música, como por exemplo o Mali. Aí o governo chega a oferecer guitarras aos músicos.
O Mali tem um projecto cultural como o Senegal e a Guiné Conacri. Na altura da Bembeya Jazz, a Guine Conacri teve aquele presidente Sekou Touré que fez muito pela música. Foi um grande investimento. Apostaram nos músicos.Eles é que podiam projectar internacionalmente a imagem positiva do país. Exactamente por isso, muita gente não sabe que a kora vem da Guiné Bissau, pensa que vem do Mali.
Como já referi anteriormente, existem outros bons músicos guineenses a viver em Portugal, mas parecem-me um pouco guetizados. Porque não criar uma rede de trabalho entre eles?
Vou ter um concerto a 19 de Maio em Inglaterra, com o Mori Kante. Vamos ver o que vai acontecer no futuro. Tem que haver mais músicas, mais valores que queiram apresentar músicas com valor. Tenho conhecido muita gente com interesse em ir à Guiné Bissau, pesquisar, gravar música, fazer documentários. É uma das coisas que vou tentar ver agora, há-que aproveitar o facto de o meu nome estar a ser respeitado lá fora.
Relativamente aos músicos que estão cá, deverá haver um interesse da parte deles em gravar maquetas e, porque não apresentá-las à Lucy. Ela é muito exigente. Tudo o que é “máquina” não consegue ouvir. Há uma doença em que as pessoas gravam no seu quarto, recorrendo muito a teclados. Quando começas a por muito teclado... “oh my god!”.
Há um novo governo na Guiné Bissau. Tens esperança que o cenário mude? Que a imagem do teu país deixe de ser aquela a que te referias à pouco – dos golpes de estado, da corrupção, da pobreza? Que os músicos e outro tipo de artistas possam ser os principais embaixadores e impulsionadores de uma nova imagem?
Há que ter esperança. A Guiné precisa de um projecto político, de um projecto cultural em que o próprio orçamento do estado tenha uma fatia em que a arte beneficie dela. Para a Guiné evoluir não pode contar só com políticos. Nos outros mandatos viu-se que houve erros enormes. Espero que a Guiné comece a ganhar uma nova imagem e que a comunidade internacional sinta que existe boa qualidade de vida, um projecto verdadeiro e objectivo em que os próprios filhos da terra poderão sentir-se protegidos, onde haverá justiça, saúde, educação, energia, sobretudo pouca corrupção. O partido que ganha as eleições tem que ter um compromisso sério, não só com a sua gente como também com a comunidade internacional que olha para este país como um dos mais pobres do mundo. O seu projecto político tem que trazer algo de novo. A esperança é a última a morrer.
O que é que esperas do novo ministro da cultura?
Espero que incentive os jovens a tocarem e a convidar-me para apresentar este projecto em Bissau, para levar paz, amor e harmonia. Por ser um disco que neste momento está a projectar uma imagem positiva do país que não existe. A verdade tem que se dizer A partir daqui, criar mecanismos, um intercâmbio de cooperação com países como Portugal ou Inglaterra, onde a Guiné Bissau esteja inserida. Fazer recolhas, construir um estúdio de gravação na Guiné Bissau.
Será que não podes fazer isso? Não gostavas de, daqui por uns anos, montares o teu estúdio em Bissau e fazeres as tuas recolhas?
Estou a pensar nisso. Mas não pode ser já. Estou a construir a minha carreira. É meu sonho incentivar os jovens, levar valores de Portugal a gravar. E porque não fazer um festival de música como acontece em Dakar. Temos sol, praia, fruta. A Lucy e os Jerry Boys pediram-me calma. Estou em início de carreira. Não me interessa estar a andar muito depressa. Vamos ver o que vai acontecer.
Publicado por Luís Rei às 01:46 PM | Comentários (4)
abril 22, 2004
Entrevista com Cibelle: “Vamos fazer um som?”

Cibelle é sexy e emotiva. A paulista radicada em Londres regressa ao nosso país, depois de ter passado pelo Sons em Trânsito, no final do ano passado, num concerto extremamente acidentado. A redenção está marcada amanhã em Lisboa (Santiago Alquimista) e depois de amanhã em Vila Nova de Gaia (Hard Club). Um Duplo espectáculo inserido no Galp Lounge Tour. Deixo-vos uma concersa em duas partes gravada em Novembro de 2003, entre Lisboa e Aveiro.
Como é que conheceu o Suba?
A história é engraçadíssima. Até vou fazer um cigarro em homenagem a essa história. Sabe, esses cigarros de enrolar? Como não tem químico, o cigarro não fica aceso. Aí, eu tinha ido ver uma “jam session” e estava esperando um amigo que estava mega atrasado. Fui ao backstage cumprimentar os músicos, o cigarro não estava aceso. Aí tinha uma cara muito grande, todo de preto, não tinha cara de brasileiro e tinha um zipper (isqueiro). E aí falei: -me empresta o fogo”. O cigarro apagava-se e continuava: “- me empresta o fogo de novo”. Aí começámos a conversar. Acabei de fumar o cigarro, despedi-me dele e fui ver o “show”. O meu amigo não chegava e eu precisava de companhia, por amor de Deus. Aí olhei para o lado e ele estava na escada. Eu falei: - “desce!”. Ele desceu e vimos o “show” juntos. Aí o meu amigo apareceu e comecei a falar com ele, olhei para o lado e o Suba tinha sumido. Estava de costas para o palco e entra um samba rock com teclados distorcidos, exactamente a sonoridade que eu estava buscando para fazer o meu disco. Estava quase a assinar por uma gravadora que acabei não assinando para ficar com o Suba. Tinha já um monte de música. Pensei: quero que esse cara que está no palco produza o meu disco. Olhei para o palco e era o cara do isqueiro. Fui para a beira do palco, o baixista chamou o meu amigo para cantar, o meu amigo me puxou para cima do palco, ele deu-me o microfone e eu comecei a cantar. O Suba olhou para mim, sorriu, ao sair do palco ele agarrou o meu braço e disse: “- Olha, não estou tentando te cantar, não é paquera, mas você pode passar em minha casa amanhã para a gente fazer um som?”. “- Claaaro”, disse. E aí grudámo-nos. A gente achou companhia um no outro. Não havia muita gente ainda com essa mentalidade musical. Me sentia super perdida. Ia na jam session com a banda daquela época e queria que o cara tocasse um som louco. Pedia-lhe que ele fizesse um barulho na guitarra, mas o cara queria groovar. Adoro groove, mas só groovar...
A par de Bebel Gilberto, Nina Miranda, Joyce, Célia Vaz, entre outras, Cibelle é mais uma das vozes femininas brasileiras que opera a partir da Europa. É editada pela editora belga Ziriguiboom e vive em Londres há cerca de ano e meio. Com pouco mais de 20 anos foi descoberta pelo produtor e músico jugoslavo Suba. No disco dele vocalizou alguns temas de “São Paulo Confessions”. Quis a infelicidade que Suba sucumbisse em 1999 a um incêndio que ocorreu no seu estúdio. Cibelle recompôs-se da tragédia e lança quatro anos mais tarde aquele que é o seu álbum de estreia, simplesmente “Cibelle”. É o Brasil multicolor contaminado de sonoridades difusas – da bossa ao downtempo e ao post rock - e ruídos acústicos e electrónicos, criado entre São Paulo e Londres.
O facto de ter assinado um contrato com uma editora europeia foi determinante na sua mudança do Brasil para Londres?
Sim. É bom morar perto do “local de emprego”. Mas isso não significa que vou fazer a minha vida na Europa. Não sei. Sabe lá Deus onde é que, de futuro, eu vou morar. Por enquanto estou em Londres. Ali tenho amigos. Uma família de amigos.
Há uma série de artistas brasileiros que se lançam a partir de Londres. Será esta cidade um mercado para a música brasileira que o Brasil não consome?
Não sei. Não tenho muita certeza se o Brasil não consome ou não consumiria esta música. Acho que consumiria. O problema é que o Brasil está muito dominado por aquele pop ultrapassado e preparado para vender e as pessoas não estão educadas para ouvir outras coisas. Tem mercado. Mas não vejo que eu meu trabalho pudesse ser lançado de outra forma.
Não há uma linha continua no disco. Há pedaços de temas que se encaixam entre si. Como é que ocorre o vosso processo de criação?
Ouço muito tipo de música. Quando vou criar algo não pergunto: “- vamos fazer um samba”; “- vamos fazer uma bossa; pergunto: “- vamos fazer um som?”. O que tiver perto a gente usa. Deixamos a música acontecer, sozinha. Deixo um monte de coisas entrar num funil. Na hora de “fazer um som” acaba saindo o que você gosta.
É global, não é regional?
É global e cosmopolita.
O que é que uma paulista sente ao cantar um tema como “Ela é Carioca”, uma canção do Rio de Janeiro?
Adoro o Rio.
Em Portugal dificilmente vemos um músico do norte, sobretudo do Porto, a cantar uma canção de Lisboa.
É mal visto?
Não será mal visto, mas é pouco comum.
Acho que no Brasil não tem esse problema. Isso é tão individual. Eu adoro o Rio. Acho lindo. Não sei se conseguiria lá viver muito tempo, pois estou acostumada com o estresse. É um outro ritmo.
Será o Rio mais dominado pela acústica do violão, com um estado de alma bem vincado e São Paulo mais electrónico, pela tentativa de exploração de novos ritmos que chegam sobretudo do nordeste?
Está mudando com o Moreno Veloso, com Los Hermanos. Não gosto de misturar com música electrónica. Você já está gravando no Pro Tools, no software. Não tem mais fita. Tenho uma maneira de filosofar. Fico imaginando quando não tinha guitarra eléctrica se não rolou um rebuliço e um inglês que nunca tinha ouvido: “ooooh! Guitarra eléctrica! Bacano!”. Aí passa uns anos e a guitarra eléctrica banaliza-se, é considerada acústica. Se você retroceder 400 anos no tempo, não seria acústico segundo a mentalidade daquele tempo. Os seus sintetizadores, filtros, pedais, etc, são mais um instrumento. É música. Pronto. O que está pedindo entra. Se vier de um teclado analógico, de um melotrom – primeiro sampler que existiu, de fita – é música. Uma coisa que não gosto é usar o computador para imitar um instrumento que existe. Já que você pode ter esse instrumento, você usa ele. Agora se você não tem como conseguir esse instrumento, não dá para pagar a uma orquestra, aí você usa. No Brasil é super difícil você achar um Hammond. Na Europa é mais fácil. Em geral usa-se um filtro. Tem umas orquestrinhas no disco e nenhuma delas soa como se fosse orquestra de verdade. Tem som abafado, tem chiados, tudo de propósito porque gosto de barulho. Gosto do som da minha pulseira. No “show” às vezes uso ela. Bato com a pulseira no microfone que tem um pedal que faz eco. Adoro.
A sua forma de compor é estar em estúdio a experimentar sons?
Tem de tudo.
Qual a sua relação com a parte técnica do violão?
Estou voltando a tocar. O meu baixista incentiva-me a tocar violão. Toco para mim quietinha quando cantava no chuveiro... estou começando a trazer o violão para o palco. Mas faço um monte de coisas. Gosto de poesia, de filmar, de editar, de fotografar. Na música tudo isso me influencia.
Para o Iemanjá fiz a música no violão. O “Waiting” tinha vindo pela primeira vez para a Europa, comprei um mini-disc, cheguei ao Brasil e não tinha comida na “geladeira”, fui no supermercado e levei o gravador comigo. Adorei e gravei o som do “freezer” e a máquina registadora da moça. No dia seguinte, o Paul perguntou-me o que é que tinha para eles e eu disse-lhes que tinha o som de um “freezer” e de uma máquina registadora e que queria fazer uma música com isso. Aí ele fez a linha de baixo, eu peguei uma poesia e comecei a cantar por cima. Cantei uma vez só.
Entre a música que está a ser construída até ao final vai uma distância grande?
Não está na fase da produção a dizer “- Coloca-se aqui um hammond, ali um ruído xpto”, não?
Tudo isso acontece ao mesmo tempo. Fazemos uma maqueta bem bagunçada. Primeiro vestimos os temas com sons, criamos efeitos, damos uma aura àquela música. Aí perguntamos qual o baixista que tem a ver com essa música e chamamos o tal amigo e deixamos o cara criar também. O Apollo dirigiu um take, eu também dirigi outro take, o terceiro take era do baixista e no final a gente picava o take inteiro juntava os três e jogava no disco. Ele fez isso com a maioria das coisas. Era a diversão da gente. Sempre o incentivei a gravar os samplers de pedaços de vinil que a gente botou no disco.
Para mim, Suba foi uma espécie de pai espiritual desta geração de músicos brasileiros que lidam com novos sons, sem perder a panóplia de raízes.
Acho que ele foi muito importante porque chegou e fez. Enquanto todo o mundo estava dizendo que queria fazer, mas ninguém deixava fazer... tem gente no Brasil que não me deixava editar este disco. Só que ele conseguiu lançar pela Crammed. Foi um processo colectivo. Sabe a história do macaquinho? Tem várias ilhas distantes, separadas. Os macacos em cada ilha não se conhecem e não são da mesma raça. Aí, o macaco apanha uma colher e começa a bater de uma certa forma. Os outros não viram, mas passado algum tempo descobrem também uma colher e começam a fazer igual. É uma questão de mente colectiva. Tinha montes de gente na mesma época começando a sentir essa necessidade sonora, em São Paulo, em Pernambuco, no Rio e agora está borbulhando. Lá e cá.
Apesar de ter sido descoberta pelo Suba e de ele ter sido um dos percussores desta movimentação, a sua morte precoce impediu-o de ver o resultado final do seu disco e até mesmo de assistir à edição do disco “Tanto Tempo” de Bebel Gilberto.
Se o Suba ainda fosse vivo, onde é que a Cibelle estaria artisticamente? Será que ele se identificava com este disco?
Estaria a fazer um dueto com ele. Ele sempre falou que Suba era ele, o João Parahyba do Trio Mocotó e eu. No próximo disco iria cantar todas as faixas com ele e no seguinte seria eu a solo com ele me produzindo. Ele brincava e dizia-me que dentro de cinco anos eu não iria querer ver a cara dele e que íamos acabar parando no terceiro disco.
Como é que conheceu o Suba?
A história é engraçadíssima. Até vou fazer um cigarro em homenagem a essa história. Sabe, esses cigarros de enrolar? Como não tem químico, o cigarro não fica aceso. Aí, eu tinha ido ver uma “jam session” e estava esperando um amigo que estava mega atrasado. Fui ao backstage cumprimentar os músicos, o cigarro não estava aceso. Aí tinha uma cara muito grande, todo de preto, não tinha cara de brasileiro e tinha um zipper (isqueiro). E aí falei: -me empresta o fogo”. O cigarro apagava-se e continuava: “- me empresta o fogo de novo”. Aí começámos a conversar. Acabei de fumar o cigarro, despedi-me dele e fui ver o “show”. O meu amigo não chegava e eu precisava de companhia, por amor de Deus. Aí olhei para o lado e ele estava na escada. Eu falei: - “desce!”. Ele desceu e vimos o “show” juntos. Aí o meu amigo apareceu e comecei a falar com ele, olhei para o lado e o Suba tinha sumido. Estava de costas para o palco e entra um samba rock com teclados distorcidos, exactamente a sonoridade que eu estava buscando para fazer o meu disco. Estava quase a assinar por uma gravadora que acabei não assinando para ficar com o Suba. Tinha já um monte de música. Pensei: quero que esse cara que está no palco produza o meu disco. Olhei para o palco e era o cara do isqueiro. Fui para a beira do palco, o baixista chamou o meu amigo para cantar, o meu amigo me puxou para cima do palco, ele deu-me o microfone e eu comecei a cantar. O Suba olhou para mim, sorriu, ao sair do palco ele agarrou o meu braço e disse: “- Olha, não estou tentando te cantar, não é paquera, mas você pode passar em minha casa amanhã para a gente fazer um som?”. “- Claaaro”, disse. E aí grudámo-nos. A gente achou companhia um no outro. Não havia muita gente ainda com essa mentalidade musical. Me sentia super perdida. Ia na jam session com a banda daquela época e queria que o cara tocasse um som louco. Pedia-lhe que ele fizesse um barulho na guitarra, mas o cara queria groovar. Adoro groove, mas só groovar...
Publicado por Luís Rei às 03:30 PM | Comentários (10)
abril 21, 2004
Viagem à Suécia antiga com Quarteto Polaris e Simon Stålspets
Convocam-se todos os adeptos da nova e velha folk nórdica, com especial predominância para a “older fiddler tradition” da região sueca de Dalarna, para uma série de bailes em que as polskas e as valsas do norte serão rainhas. Os anfitriões são António Jorge, Sérgio Crisóstomo (sim, o “violinista voador” dos At-Tambur), Hugo Fernandes, Gonçalo Ruivo e, claro Herr Stålspets. Um músico da nova geração de renovadores da folk sueca que integra um dos mais interessantes projectos de aproximação ao jazz – os Kalabra. Ambos vão tocar composições suas e de Máts Éden, “raposa velha” da geração de 70 / 80 que integra os Groupa, um das mais antigas e carismáticas propostas de renovação do legado tradicional nórdico de pendor experimental e ambiental.
Não os percam, hoje no Auditório Municipal da Guarda, esta sexta no Mercado da Ribeira em Lisboa, dia 28 de Abril na Casa América Latina (Lisboa), 1 de Maio no Cineteatro da Lousã e a 3 de Maio, novamente em Lisboa, no espaço 7às 9 do CCB.
Mais informações em ardosia.com.pt
Publicado por Luís Rei às 06:11 PM | Comentários (4)
abril 20, 2004
Sugestão aos bloggers do blogspot com caracteres marados
Em blogues do Blogger tenho visto que há quem se debata com o problema de caracteres marados, sobretudo na acentuação das palavras. Caso do Audições e dos Uxu Kalhus. A todos aqueles que se encontram em idênticas circunstâncias sugere-se que a partir do motor de edição do blogger alterem o "encoding" para western (ISO-8859-1), a partir de Settings --> Formating --> Encoding.
Publicado por Luís Rei às 12:33 PM | Comentários (1)
abril 19, 2004
Talvin Singh, Mercedes Peón, Daara J e Lenine no WOMAD de Cáceres
Ainda não é oficial. Ainda não está disponível nem aqui, nem acolá. Mas já circula entre os promotores de espectáculos o cartaz do WOMAD de Cáceres que se realiza entre 5 e 8 de Maio. Como era de esperar, a mítica Plaza Maior e restante zona medieval da cidade estarão reservadas apenas para workshop e concertos a meio da semana. Os maiores motivos de interesse ocorrem pela madrugada fora de sexta para sábado e de sábado para domingo no recinto hípico, à entrada desta cidade da Extremadura espanhola. Zona de passagem obrigatória para quem vem de Badajoz em direcção a Cáceres.
Assim sendo, o programa é o seguinte:
Dia 5, quarta-feira: Sevara Nazarkhan e Carmen Linares
Dia 6, quinta-feira: Moreno Veloso, Paquito D’Rivera & Hermanas Marquez
Dia 7, sexta-feira: D’Gary, Mercedes Peón e Talvin Singh (DJ set)
Dia 8, sábado: Dhira, El Bicho, Tinariwen, Daara J e Lenine.
Publicado por Luís Rei às 02:26 PM | Comentários (1)
Maldito calendário
Afinal, parece que nenhum dos organizadores tem culpa na sobreposição de datas do Intercéltico de Sendim e do FMM de Sines. Enquanto que o festival alentejano realiza-se desde 2000 na última semana de Julho, o transmontano sempre se realizou no primeiro fim de semana de Agosto, altura que coincide com o início das Festas locais de Santa Bárbara.
Maldito calendário de 2004 que, além de nos ter reduzido drasticamente os feriados, ainda nos prega mais esta partida: a de fazer coincidir o último fim de semana de Julho com o primeiro de Agosto.
Publicado por Luís Rei às 01:57 PM
abril 15, 2004
Sendim ou Sines, eis a questão?
Quem é habitual cliente de Festivais de Músicas do Mundo de Verão terá este ano de optar ou por Sines ou por Sendim. É que as festividades na cidade alentejana ocorrem entre 29 e 31 de Julho e na vila transmontana, entre 30 de Julho e 1 de Agosto.
É assim tão difícil a ambos os promotores conversarem previamente e acertarem datas distintas, avançando ou recuando uma semana?
Publicado por Luís Rei às 01:59 PM | Comentários (8)
Hedningarna, La Musgaña, Milladoiro, Llangres no Intercéltico de Sendim
De acordo com Mário Correia do Sons da Terra (um dos organizadores do evento), o cartaz do 5º festival Intercéltico de Sendim, que decorrerá em Tierras de Miranda entre os dias 30 de Julho e 1 de Agosto já se encontra confirmado e fechado:
Dia 30 de Julho de 2004 (Palco do Recinto Principal)
Marenostrum (Portugal-Vencedores do Arribas Folk)
Fred Morrison (Escócia)
Milladoiro (Galiza)
Dia 31 de Julho de 2004 (Palco do Recinto Principal)
Llangres (Astúrias)
La Musgaña (Castela/Leão)
Hedningarna (Suécia)
Animação de Rua e Palco do Largo da Igreja (30,31 Julho,1Agosto)
Los Yerbatos (banda de gaitas e grupo de danças-Astúrias)
Pauliteiras de Valcerto (é pauliteiras e não pauliteiros)
Encontro de Musiqueiros
Missa Intercéltica (1 de Agosto de 2004)
Santarén Folk (Castela/Leão)
Publicado por Luís Rei às 01:48 PM
abril 14, 2004
Festival Cantigas do Maio suspenso
As poucas esperanças que tínhamos na realização do Cantigas do Maio esvaíram-se. O festival encontra-se suspenso durante este ano e dificilmente voltará a ter o mesmo formato. O Homero e a Luísa, dois dos principais mentores do projecto que trouxeram tão boa música ao nosso país durante mais de uma década, privilegiando a autenticidade e a descoberta de desconhecidos intérpretes (portugueses, por vezes), demitiram-se da direcção da Associação José Afonso. A Helena da actual direcção, revela-se um pouco céptica relativamente aos apoios que outras Câmaras Municipais do distrito de Setúbal e não só possam dar ao evento de forma a garantir o mesmo padrão de qualidade a que o Cantigas do Maio nos habituou. É preciso deixar a nuvem negra passar e, enquanto houver força, não desistir.
Publicado por Luís Rei às 06:39 PM | Comentários (9)
Tenda Raízes (RIR) fechada
Foi finalmente preenchido o único dia – 28 de Maio - que estava em aberto da Tenda Raízes do Rock In Rio. Destaque para o regresso dos afegãos Mahwash + Ensemble Kaboul, além do compositor e multi-instrumentista Daby Touré da Mauritânia e de Rão Kyão.
Recordamos o alinhamento dos restantes dias:
Dia 29 de Maio: At-Tambur (Portugal), Havana Abierta (Cuba), Thierry Robin (França - Bretanha), Manu Dibango & Ray Lema (Camarões - Congo);
Dia 30 de Maio: Manecas Costa (Guiné-Bissau), Terrakota (Portugal), The Klezmatics (EUA), Angelique Kidjo (Benin);
Dia 4 de Junho: Faltriqueira (Espanha - Galiza), Trio Madeira Brasil (Brasil), Gaiteiros de Lisboa (Portugal), Souad Massi (Argélia);
Dia 5 de Junho: Regis Gizavo (Madagáscar), Javier Ruibal (Espanha – Flamenco), Joyce & Quarteto (Brasil), Nguyên Lê (Vietname - França);
Dia 6 de Junho: Tucanas (Portugal), Amparanóia (Espanha - Andaluzia), Trio Curupira & Hamilton de Holanda (Brasil), Mariza (Portugal).
As Crónicas querem ver, finalmente, Manecas Costa, Faltriqueira, Souad Massi, Amparanóia e Joyce.
Publicado por Luís Rei às 06:05 PM
Hedningarna satisfazem duas vezes
De acordo com o site At-Tambur, o Intercéltico de Sendim que se realiza nesta tierra de Miranda, no princípio de Agosto, poderá incluir no seu cartaz grandes nomes da folk espanhola e nórdica: La Musgaña, Milladoiro e Hedninarna. A confirmar-se este cartaz e o de um outro festival que ocorrerá em Julho (não, não é o de Sines), iremos ter o grupo fino-sueco no nosso país em dois eventos distintos, em menos de um mês.
Publicado por Luís Rei às 06:03 PM
Calexico a solo
Já não há nada a fazer. Goraram-se as expectativas de termos Amparanoia (alinhados para a tenda raízes do Rock In Rio) como participantes do concerto de Calexico. Grupo andaluz que irá fazer a primeira parte dos espectáculos de Londres e de Madrid destes americanos sulistas. Pormenor sem a mínima importância. Obrigatório vê-los a 28 em Gaia (Hard Club) e a 29 em Lisboa (Santiago Alquimista). Os bilhetes custam 18€ e encontram-se à venda nos locais habituais.
Publicado por Luís Rei às 06:01 PM | Comentários (1)
De Budapeste a Novi Sad.
Há ciganos magiares, sérvios e romenos à solta nos blogues No Mundo e Lua. Vale a pena ler e ver as reportagens.
Publicado por Luís Rei às 06:00 PM
abril 13, 2004
onde é que eu vou estar a 8 de Maio?
No Womad de Caceres, obviamente, para ver os tuaregues Tinariwen do Mali / deserto do Sara. Quem se sentiu tocado pelo disco do Festival do Deserto não os deve perder.
"Tinariwen are a hard rockin' blues band - they are nomadic Touaregs from the Malian Sahara desert. The band was formed in a refugee camp in Libya in the early eighties and their gutsy rebel songs caught the imagination of their dispossessed kinsmen who were in conflict with the Malian government of the time. As time passed conflicts were resolved and the band consolidated their line-up and sound which, though based on a traditional rock format of guitars bass and drums, also included the sultry flavours and hypnotic, stirring groove of their own musical heritage with collective vocal choruses and percussive, pulsing handclaps." (fonte: Sasamusic
Publicado por Luís Rei às 06:44 PM | Comentários (11)
abril 08, 2004
não há celtas como os do Porto
Por razões de ordem pessoal, não pude estar presente no verdadeiro e genuíno Intercéltico do Porto. No Rivoli e no Terço – não tanto no Coliseu – sempre se respirou um ambiente único, numa festa que regularmente extravasou o palco principal e se estendeu às celebrações paralelas que ocorreram formalmente ou informalmente noite fora. Há momentos de Intercéltico (apesar de haver outros Intercélticos em Portugal, basta esta palavra para designar o do Porto) e de outros festivais internacionais, como Kaustinen na Finlândia ou Falun na Suécia (e muitos outros haverá certamente como o de Gucca na Sérvia, mas estes foram aqueles que tive a oportunidade de presenciar), que nunca esquecerei e que me fizeram desinteressar pelos penteados de cabelo das estrelas do pop / rock e das electrónicas e pela frieza da indústria musical, para abraçar a pureza e o calor humano de boa parte dos músicos que se movem nesta área, sejam europeus, asiáticos, africanos ou americanos. Um desses momentos teve como actores os Dervish, durante a sua primeira presença em Portugal, por alturas de apresentação do seu segundo disco “Harmony Hill”. Bela noite aquela em que quatro músicos se juntaram numa mesa de um bar da Ribeira e só pararam de tocar por volta das seis da manhã (altura em que me pus a caminho de Lisboa), depois de terem repleto a mesa de garrafas de cerveja e os cinzeiros de beatas de cigarro e de cinza (será que as restrições ao consumo de tabaco em pubs recentemente aprovadas na Irlanda não terão efeitos nefastos na produção musical?). Tudo isto para dizer que (não) estive no Intercéltico durante os três dias de espectáculos que ocorreram no Centro Cultural de Belém. Vamos aos factos.
O CCB não é definitivamente um local que proporcione a troca de afectos. É frio e distante. É aquele sítio tipo que faz lembrar o filme de Agnés Jaoui, “o Gosto dos Outros”.Vai-se para ser-se visto não para ver e ouvir música. É natural que no fim de um concerto – tendo na memória a entrevista de Carlos Vaz Marques a esta realizadora francesa – haja um diálogo deste tipo:
- Gostaste dos Kíla?
- De quem?
- Dos Kíla, o grupo irlandês que viemos ver...
- Ah! Nada mesmo.
- Eu também não. Mas, o que é que isso interessa?
Aposto que boa parte dos que foram as estes concertos são mais consumidores de espectáculos do CCB do que propriamente de música tradicional. Nunca iriam a um destes três concertos se estes se realizassem no Coliseu, no São Luiz ou no Teatro da Trindade.
Apesar de haver quem se irrite com a terminologia celta, o facto é que este rótulo, para o bem e para o mal, vende. Mas, no CCB, sobretudo na noite dos Kíla deverá ter havido bmuito boa gente enganada. Provavelmente, estariam à espera de algo mais dentro do espírito new age e das inenarráveis compilações “Celtic Twilight”. Causou-me um certo espanto não ter visto por lá nenhum fotógrafo da Caras ou da Lux.
A primeira noite, dominada pelo psicadelismo dos irlandeses Kíla, foi um exemplo de um concerto que não deveria ter ocorrido neste palco. Se há quem, à porta de um bar, é convidado a ir a casa trocar os ténis pelos sapatos, os Kíla deveriam ter sido obrigados a vestir fato de gala e a pedir à assistência que não ousasse sequer tentar um passo de dança, nem tão pouco tossisse. Contrariamente àquilo que se vê na foto promocional publicada em quase todos os jornais, os Kíla foram iguais a si próprios – aspecto típico de feios-porcos-e-maus – , incitaram a minoria do “andanças” à dança e foi o que se viu. Os seguranças engravatados a tentar impedir o fluxo da assistência ao palco e a banda a desautorizar a autoridade e a quebrar as regras de etiqueta do local.
Musicalmente, o projecto de Rónan Ó Snodaigh está irrepreensível. Apesar de terem esboçado um rude manifesto de intenções, a partir de 95 com “Mind The Gap” e de terem passado pelo Cantigas do Maio mostrando tanta vontade em inovar quanto atabalhoamento na forma como entravam e saiam de palco e no cruzamento de diversas sonoridades além Irlanda, só recentemente é que o projecto ganhou consistência, acertou em cheio nos temperos afro-latinos e na fusão electro-acústica. Voaram de space shuttle em direcção à Lua, prolongando até aos 10 minutos a rebelião irlandesa através de versos exclusivamente cantados em gaélico, uillean pipes, flautas típicas (tin e low whistle) e um bodhran omnipresentes num território rock psicadélico miscigenado de percussões afro-árabes, baixo eléctrico, bateria, mandolim com overdubs, metais suaves, saltério planante... Mais do que justificado o regresso de um projecto que é, actualmente, o mais interessante da nova geração irlandesa.
Gostei dos Múszikás e passei um bocado ao lado do Kepa. Aprecio apaixonadamente a música magiar, cigana e judaica da Transilvânia, sempre tive uma grande consideração por este projecto húngaro. Marta oferece-nos o Céu, os violinos de Éri, Porteleki e Sipos fazem-nos dançar com o fogo a diferentes velocidades. O “hit gardon” (antigo violoncelo percutido) de Hamar e as flautas exóticas (que pena não tocarem fuyara) acentuam o sotaque magiar de uma música única, cujas csárdás foram exemplarmente dançadas pelo par de dançarinos. Há vida, há sangue a ferver nas veias, intercalado pelo esvaziamento do corpo, mente e espírito, próprio de uma aula de yoga. Só que, estilisticamente, os Múszikás pararam no tempo. Continuam a ser uma réplica daquilo que se pratica numa tanchás (casa de dança húngara). Já cá vieram uma série de vezes, intra e extra Intercéltico. Há cinco anos que não editavam um disco. Fizeram-no recentemente, mas o registo é... ao vivo. Nada de novo, portanto. Não seria mais pertinente terem trazido a Ökrös Ensemble do mago cigano Fodor Sándor “Neti”?
Quanto a Kepa... enfim. O duplo registo ao vivo tem coisas extremamente interessantes. Boa conjugação da tradição basca da trikitixa e da txalaparta com orquestrações clássicas e vozes búlgaras, só que aquilo que apresentou no CCB foi a versão portátil de “K”. É claro que Kepa não precisa destes subterfúgios para ter a audiência na mão. A forma empolgada, sentida, virtuosa com que pega no seu instrumento é suficiente. Só que assistimos a um remake do concerto da Fábrica da Pólvora do ano passado. Genialidade a espaços. Refúgio em arranjos pop. Quebras constantes e irritantes de tempo com a orquestração das palmas vindas da plateia. Assim não, Sir Kepa.
Publicado por Luís Rei às 04:02 AM
abril 07, 2004
Tama La: griots em Portugal
Mercado da Ribeira (Lisboa), 27 de Março
José Duarte poderia ter ido ao Mercado da Ribeira à procura de “swing”. Decerto que encontraria um enorme filão à conta do projecto Tama La de Kimi Djabaté. O som era assaz sofrível, o palco pequeno demais para oito músicos, o concerto começou mais de uma hora após o horário previsto o que obrigou a uma sessão de baile africano forçado com aquela musiquinha feita de teclados chungosos. Mas o que é que isso importa quando temos os Tama La a servirem um repasto de música afro-mandinga modernizada de muito bom gosto? Kimi é grande. De ascendência griot, Kimi nasceu numa aldeia de músicos da Guiné Bissau - Tabato. Aos três anos já “mexia” no balafon, mas apenas aos oito iniciou o estudo mais sério do instrumento com o seu pai, Braima Djabate. À semelhança do que acontece com os Terrakota, Kimi não usa o balafon no chão, utiliza um suporte de sintetizador, para poder tocar de pé, cantar e saltar (constantemente), imprimindo uma força contínua genuína, antípoda de forçada, em tudo o que faz. Ao seu lado, um guitarrista da mesma família, Mamadi Djabate, abre espaços ao “groove” funk instalado através de solos que parecem saídos das grandes orquestras da África Ocidental – Baobab e Bembeya Jazz. O rapaz tem “dedos de diamante”. À melodia afro, junta-se a orgânica europeia de alguns dos elementos, numa fusão que roça a perfeição: a voz secundária da italiana Chiara Picotto, admirável como canta na língua mandinga, injecta uma dose de frescura; o alemão Johannes Krieger (um dos trompetes da Tora Tora Big Bang) adiciona-lhe a alegria saudosista das grandes bandas de jazz errante, que salpicam sonoridades latino-americanas. Lá atrás, Hugo Menezes (a sua nacionalidade é portuguesa, mas o seu DNA deve ser de um negro latino-americano), vai solando ora em djembe ora em congas, fazendo-se ouvir mais alto que o baterista Marte Antunes.
Kimi Djabate, a par de Maio Coope (do projecto Djumbai Jazz) e de Manecas Costa (entrevista pronta a sair nas Crónicas), são valores seguríssimos da música guineense que procuram a inovação, quer da música da África Ocidental mandinga, quer do estilo gumbe “made in” Guiné, adicionando-lhes novos temperos europeus sem descaracterizar a raiz, demarcando-se contudo do “som de Lisboa” (conforme designação de Manecas) que domina os espaços africanos nocturnos da Capital. Acabam por não agradar nem a “gregos nem a troianos”, ora porque fogem ao arquétipo dominante, ora porque vivem “guetizados” e não conseguem chegar ao público português, que – comparativamente com os povos do norte e centro da Europa, sobretudo franceses, alemães e holandeses – sempre se revelou mais intolerante para com a música africana. Apesar de tudo, fica o aviso para os promotores de festivais de músicas do mundo. Para quê gastar desnecessariamente parte do orçamento com artistas de segunda ou terceira categoria, quando têm músicos desta estirpe ao virar da esquina? É preciso descobri-los.
Publicado por Luís Rei às 09:37 AM | Comentários (2)
Arrumar a casa
Depois de resolvido o problema do modem e outras questões pessoais que não me permitiram actualizar conteúdos, segue o texto do concerto de Tama La que ocorreu a 27 de Março. Espero nas próximas horas publicar outras apreciações aos espectáculos do Intercéltico em Lisboa - Kila, Múzsikás e Kepa Junkera, além de outras duas actuações no Festival do Bloco: Tora Tora Big Band e Terrakota. Se o tempo deixar publicarei também amanhã uma entrevista com Manecas Costa, autor do álbum "Paraiso di Gumbe", acompanhada por uma reportagem fotográfica a um ensaio deste guineense efectuada pelo Mário Pires do blogue Retorta.
Para breve, conto também colocar a escrita em dia publicando outras entrevistas a Cibelle que regressa ainda este mês ao nosso país, aos catalães Ojos de Brujo que deverão marcar presença num grande festival de verão deste ano e ao virtuoso de violino e cavaquinho, o cabo-verdiano Bau.
Publicado por Luís Rei às 09:36 AM | Comentários (2)
abril 02, 2004
Viva a Cabovisão
Estou sem acesso à internet desde quarta-feira. Os senhores da Cabovisão consideram que os serviços de cabo não são tão prioritários como a água, luz ou gás e só (provavelmente) amanhã é que conseguirão resolver a falha de energia no meu modem. Facto tem impossibilitado a regular actualização de conteúdos e que explica o atraso na publicação da antevisão do Intercéltico. Agradeço a vossa compreensão.
Publicado por Luís Rei às 03:05 PM | Comentários (7)
Antevisão do Intercéltico do Porto

Kíla z@zerostudio.net
Definitivamente, o palco do Coliseu do Porto já era. Esta edição do Intercéltico volta ao Rivoli, local onde conheceu, provavelmente o maior momento de glória destas catorze edições: The Chieftains de há onze anos atrás. Pode pensar-se que os Celtas estarão em vias de extinção. Certamente que a descentralização – Lisboa, Arcos de Valdevez e Montemor-o-Novo – acaba por reduzir a romaria habitual de inícios de Abril à invicta. Mas ver o Intercéltico sem ir ao Porto, é como comer uma caldeirada de Peixe na Serra da Estrela, ou uma Chanfana de Cabra em Sesimbra. Não faz lá muito sentido.
Mais do que ver um grupo irlandês, galês, escocês ou bretão, por muito interessante que seja, o mais importante sempre foi o ar que se respirou, sobretudo no Terço e nas Grutas dos Celtas. Assim como o importante num festival galego é podermos participar numa queimada.
O WOMAD de Cáceres nunca mais voltou a ser o mesmo desde que o retiraram da zona medieval desta cidade da Estremadura espanhola. Não se vive um festival na sua plenitude sem o ambiente que o rodeia. Ponto final, parágrafo.
Posto isto, resta tentar averiguar o que vale musicalmente a edição catorze deste festival.
Expandindo o território celta. Os Muszikás repetem a sua presença e voltam a servir de elo de ligação entre um universo marcadamente britânico e o centro / norte da Europa (como já havia sido efectuado também com os finlandeses Värttnä). Vale sempre a pena rever estes húngaros, por muitas actuações a que já tenhamos assistido. Não pela estrela da companhia, Marta Sebéstyen – quem já viu concertos com cantora substituta quase nem dá pela falta da senhora -, mas sobretudo pelos fulminantes arranques de Mihaly Sípos e constantes duelos mortíferos com Lásló Porteleki, pel via mais indomável da música judaica e cigana da Reserva Natural da Transilânia e dos Cárpatos.
O culto da Tradição. Este ano cabe aos Atlántica da Cantábria fazer o papel de “quanto mais festivo, mais purista”, epíteto usualmente reservado às formações irlandesas que fecham o festival. O projecto originalmente composto pelo espanhol Marcos Bárcena (boa voz e subtil no bouziki e na guitarra) e pela Inglesa Kate Gass (violino e tin whistle) assume que faz “música celta a partir da Cantábria”. Interpretam com rigidez canções, jigs e reels irlandeses entre temas populares da região montanhosa do norte de Espanha – “Ay Lere Leré” e “Vira Lá Montaña” – que requerem a participação vocal massiva da assistência. Picam o ponto ainda na Galiza, na região francesa da Ocitânia e num certo country /western nortea-americano (“Blue Moon of Kentucky”). A festa está garantida.
Os transgressores. Poucos são os projectos irlandeses que re-inventam a tradição local pouco dada a novas nuances. Os Kíla, a pouco e pouco, têm levado a água ao seu moinho. “Luna Park” corrige os erros e a imaturidade de discos anteriores como “Mind The Gap” e “Tog e Bo Gog”, de há mais de meados de 90.
Não são uns Hedningarna irlandeses, mas a sua folk electrificada pisa ritmicamente África e o universo árabe, apesar de harmonicamente ser mais celestial e menos terrena. Ideal para sonharmos com druidas e sacerdotisas que se escondem nas florestas sagradas. Está mais elegante e coerente, com um certo ar progressivo (sem vestígios de naftalina), fazendo corar de inveja os Dervish (se comparados com o tema que fecha “Spirit”). Resta saber se resolveram o problema de uma certa desorganização em palco que os afectou num Cantigas de Maio de há uma meia-dúzia de anos atrás.
Os portugueses. A avaliar pelos dois temas já disponibilizados do novo álbum que se avizinha, o Realejo deixou a estética mais clássica de câmara para assumir uma postura predominantemente dançável, sem perder os traços profundos da música tradicional portuguesa. Cavaquinho, gaitas de fole e sanfona, coabitam agora com ritmos “funk” marcados pelo baixo eléctrico, servindo de fundações às (agora) canções interpretadas pela agradável voz de Catarina.
Os At-Tambur, de promessa passaram a certeza. Sérgio Crisóstomo (violono) e Tiago Costa-Freire (flautas doces) são as estrelas da companhia e da boa prestação deles dependerá a da banda. Esperemos que continuem virtuosos na interpretação das danças europeias, mas que, sobretudo, se libertem de uma certa rigidez própria da formação clássica e explorem mais as coordenadas traçadas em composições como “Sueca”.
Os Frei Fado Del Rei irão passar em resumo cartoze anos de existência (curiosamente, tantos quanto as edições do Intercéltico). A sonoridade é épica e nobre. A voz de Carla Lopes própria de uma musa inspiradora dos grandes feitos, as cordas parecem torrões de açúcar prontos a serem devorados. Só que aqueles teclados... causam uma certa amargura.
Ver Programação do Intercéltico no Porto, em Arcos de Valdevez, Montemor-o-Novo e Lisboa, aqui
Publicado por Luís Rei às 02:54 PM | Comentários (3)