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março 30, 2004
Entrevista a Celso Fonseca: Bossa Nova Marginal
Celso Fonseca, carioca, compositor, arranjador, cantor e produtor, regressa a Lisboa na próxima sexta-feira, dia 2 de Abril (Bar Musicais ao Jardim do Tabaco) para apresentar o seu mais recente trabalho, “Natural”. Um disco editado em 2002 pela etiqueta belga Crammed que complementa a interessante movimentação de artistas brasileiros praticamente desconhecidos no seu páís de origem (Bebel Gilberto, Vinicius Cantuária, Arto Lindsay, Nina Miranda, Lilian Vieira, Joyce) que, a partir da Europa ou dos Estados Unidos, vão renovando a música local.
São cada vez mais os intérpretes brasileiros da nova bossa nova a gravar e a editar fora do Brasil. Muitas vezes, certos discos, são editados muito mais tarde no Brasil do que na Europa ou nos Estados Unidos. Isso não é um pouco estranho?
Em parte sim. Depende um pouco do trabalho. Este disco foi gravado no Brasil, mas foi feito para ser lançado na Europa, Estados Unidos e Japão.
Será que existe dois tipos de consumidor de bossa nova. O interno e o externo?
Acho que no Brasil, pelo facto do nosso mercado musical não ser segmentado, é muito difícil ouvir este tipo de música que eu faço. Não toca nas rádios.
É uma música marginal?
Sim. Underground. A música que se convencionou chamar de MPB, hoje em dia é underground. Acho que a música brasileira tem esse talento para ser uma música muito rica harmonicamente. Sempre foi desde os anos 20, 30, pré bossa nova. Já era muito rica ritmicamente, harmonicamente, melodicamente. Isso fez parte do inconsciente colectivo brasileiro durante muitos e muitos anos. A partir de um determinado momento houve uma ruptura com isso e este tipo de música passou a ser marginal.
Mas os músicos mais respeitados no Brasil continuam a ser Caetano Veloso, Tom Jobin, Jorge Ben...
Respeitados, sem dúvida, mas sem serem executados. Você não ouve Jorge Ben, Chico Buarque nas rádios mais populares. A MPB está restrita a um nicho muito pequeno. Você tem artistas relativamente novos como Chico Cesar, Zeca Baleiro que fazem a ponte mas também não são artistas populares como foram Chico Buarque, Jorge Ben durante determinada época.
O próprio Chico Science também era um músico que funcionava para um pequeno “gueto”.
Até ao momento em que ele morreu ele era quase desconhecido, confinado a um guetto. Aos interessados nesse tipo de fusão que ele fazia. Ele era um artista excepcional. Na verdade o mercado opta por um molde globalizado de música internacional, pop, descartável. Deixou-se de se investir em carreiras em detrimento do imediatismo.
O Brasil não conhece, mas tem havido uma movimentação interessante de artistas que a partir da Europa e dos Estados Unidos renovam a música brasileira.
Acho que a bossa nova é uma música muito rica, não precisa de modernização porque ainda é moderna. Acho que muitas pessoas fazem essa fusão na tentativa de chegar mais perto das gerações mais jovens. Não acredito muito nessa história de “é bom porque é electrónico”. A música é boa porque é boa. Acredito que a bossa nova é uma música muito rica e presta-se a todo o tipo de experimentações. Cada um tem a sua maneira de a experimentar.
Em “Natural” há várias formas de abordar a bossa nova. Desde a guitarra clássica de toque curto em modo solitário, à contaminação de ruídos e beats electrónicos e à inclusão de um outro tipo de guitarra, com um certo cheiro ao deserto africano.
Tenho muitas influências de pop, samba, bossa nova. Mas o mais importante para mim é a canção. A canção é a base de tudo, é o que fica, seja qual género fôr. É a canção que tem a melodia reconhecível, bonita, com acordes e estrutura bem feita. Tem letras interessantes. Tento o máximo possível aproximar-me da canção. Isso, para mim, é o mais importante.
Apesar de para si o mais importante ser a canção, há um trabalho de produção elaborado ao pormenor de música para música. Um berimbau aqui, uma batida ali. O facto de apresentar diferentes soluções nos arranjos de cada canção, não terá a ver com a sua veia de produtor.
Sou muito curioso nesse sentido. Tento experimentar o máximo possível com várias coisas. Tentei não utilizar muita electrónica. Tem muita manipulação do som que não é electrónica. Muitas vezes é a minha unha na corda do violão fazendo ruído. Passo por um filtro e aquilo passa a ser uma outra coisa. Quase como se fosse mais um instrumento. Mas isso para mim não é o mais importante. O mais importante são as composições e as canções. Costumo falar o tempo inteiro que eu procuro o mais simples. Não existe nenhuma preocupação em inovar. Não estou fazendo nada de novo. Simplesmente, estou pegando em coisas que vêm de trás, mas sem perder o rumo no futuro. O futuro para mim é você poder continuar com essa tradição da música atemporal. Isso é que é ser moderno. Não é moderno nós fazermos uma música que daqui por seis meses ninguém se lembra mais. Para mim, o João Gilberto é das coisas mais modernas que eu conheço.
Considera a sua bossa nova mais positivista, mais descontraída do que a do tempo do João Gilberto?
Desde o começo, a bossa nova tinha um pouco a promessa de felicidade. Cada vez mais o mundo precisa um pouco mais de beleza e de delicadeza. É isso que eu tento fazer com a minha música. Sou uma pessoa diurna, solar, adoro morar no Rio de Janeiro e isso reflecte-se na minha música.
Publicado por Luís Rei às março 30, 2004 06:51 PM
Comentários
fabuloso!! conheço. grande bossa nova, ai, ai, jobim!!, experimentem o bossa nova lounge
Publicado por: rui coias às abril 1, 2004 05:43 PM
Agree: muito boa novidade, com outras sonoridades, vem do Brasil já há muito tempo.
:)
Publicado por: venon às abril 8, 2004 04:16 PM
Excelente violonista, Celso Fonseca faz uma bossa chic e nova. Sua canção " Slow motion Bossa Nova " tornou-se um hit nas FMs adultas do Brasil, depois de veiculada num comercial com Giselle Budchen.
Publicado por: leticia linney às junho 20, 2004 02:54 PM