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março 18, 2004

Djumbai Jazz - a savana e o deserto

Galeria ZDB, 13 de Março

A imagem que tenho da música africana das comunidades imigrantes residentes em Portugal não é lá muito boa. Se, por um lado, a RDP África, à excepção de Nuno Sardinha e de alguns oasis de fim de semana, do tipo “A Hora das Cigarras”, encharca-nos com kizombadas, kuduros e outros ritmos plásticos, rarefeitos de sintetizadores primários, por outro lado, a oportunidade de se escutar música ao vivo em Lisboa é, na maioria dos casos, repleta de artistas cabo-verdianos que dão mais importância ao acessório (sumptuosos arranjos pop) do que propriamente à alma e à essência na interpretação de mornas e coladeras.

Depois de assistir à merecida ascensão internacional de Manecas Costa (o que é que este rapaz precisa para que, por cá, se olhe para ele?), fiquei agradavelmente surpreendido com os também guineenses Djumbai Jazz. Se outros grupos que optam por descarnar as raízes das suas tradições – Jovens do Hungu com o semba de Angola, ou Netos do N’Gumbe com o gumbe da Guiné Bissau – evidenciando fragilidades harmónicas, em detrimento do totalitarismo rítmico, os Djumbai Jazz conseguem equilibrar os dois pratos da balança. Maioritariamente constituído por músicos de origem griot, corre-lhes nas veias a música clássica, delicada e contemplativa da cultura milenar e nobre do império mandinga. Galisa é o principal encantador ao tecelar de forma virtuosa melodias de seda na sua kora. A ligação estética, melódica e técnica com tantos outros intérpretes – Toumani Diabaté, Ballaké Sissoko, Djeli Moussa Diawara, Mory Kante – é inevitável. Já na guitarra eléctrica de Sidi, reflecte-se o sol e a areia abrasadora e infinito espaço a céu aberto do deserto do Sahara, trazendo consigo toda a carga emocional dos blues dos nómadas – Tinawiren, Tartit - e do mestre Ali Farka Touré. Maio Coope, cantor e percussionista, vai dando uns safanões ao intimismo instalado, misturando e dançando ritmos frenéticos de gumbe, que o outro percussionista – Cabum – tão bem alimenta. Os elementos não estão sozinhos e há uma agradável interacção com outros músicos – Hugo Menezes em percussão, o irmão de Galisa, também Galisa (apelido familiar) inevitavelmente em Kora e Kimi Djabate. Este último, balafonista no projecto Tama La (necessário vê-los ao vivo urgentemente), salta, liberta largos sorrisos que se reflectem em toda a assistência, imprimindo um ritmo avassalador em “Ye Ke Ke”, próprio da highlife ganesa.

É uma pena estes rapazes estarem em Portugal. Vão para Londres, para Paris! Conheçam o Ian Anderson, a Lucy Duran e o Nick Gold. Aqui não se safam. E vocês merecem entrar no circuito europeu de festivais de músicas do mundo.

Publicado por Luís Rei às março 18, 2004 11:15 PM

Comentários

Ai, ai, as Crónicas da Terra a falhar os Lundum Ensemble no CCB. Não posso crer.

Publicado por: Rodrigo Nogueira às março 19, 2004 06:51 PM

Vão para Londres, para Paris... ou venham para Montréal, que isto aqui dá gosto! Nem me atrevo a comparações...

Um abraço ao Rei e aos imensos súbditos!

Publicado por: Luís Fernandes às março 19, 2004 09:45 PM