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março 02, 2004

Cuba sobrevive a Bush e continua a legislar

O segundo disco a solo da cubana Omara Portuondo é editado daqui por dois meses. As Crónicas da Terra há muito que ouviram cinco temas em avanço. É o prenúncio para mais um "papa-prémios", à semelhança do que aconteceu com “Buenos Hermanos” do ilustre Ibrahim Ferrer que, no passado dia 20 de Fevereiro, comemorou o seu 77º aniversário.

Costuma-se dizer que “quem não tem cão caça com gato”. Impedido de voltar a colaborar com músicos cubanos, em virtude das restrições impostas pela administração norte-americana republicana relativamente à cooperação entre cidadãos americanos e naturais de países “hostis”, Ry Cooder há muito que é uma carta fora do baralho para a editora britânica World Circuit. Rei morto, rei posto. Nick Gold, o grande patrão da, talvez mais emblemática de músicas além “anglófilas”, coadjuvado pelo brasileiro Ali Siqueira (cujo curriculum vitae compreende créditos de produção em discos de Tribalistas, Caetano Veloso e Carlinhos Brown), tomou conta da produção. Facto que não é novidade para este visionário.

Menos etéreo, mais terra a terra, os cinco temas escutados apresentam uma cantora de registo elástico, versátil, doce e intimista na interpretação de vários estilos. Da nebulosa “santeria exótica” de travo africano, passado por serenas e límpidas guarijas e boleros mexicanos, até ao ritmado son de Santiago de Cuba, de onde é natural o avô que todos nós gostaríamos de ter: o mestre Ibrahim.

Sem duetos vocais, sem convidados especiais de grande envergadura, o universo gira à volta de Omara. Este disco é a prova definitiva da sua maturidade como intérprete. Chamem-lhe diva cubana, por favor. Mas como não há grande artista sem um exímio “alfaiate”, os pormenores de produção amplificam toda a beleza que emana destes clássicos revisitados que soam a seda: a guitarra eléctrica de Manuel Galban a recuperar ambientes dos anos 50 / 60, quando este se encontrava à frente dos Los Zafiros e que Marc Ribot muito bem resgatou com os seus Cubanos Postizos; a doçura acústica da guitarra de sete cordas do brasileiro Swami Jr e do tres de Papi Oviedo; a gestão das orquestrações de cordas e dos clarinetes que surgem nos sítios certos, a espaços. E nem é preciso Orlando “Cachaito” Lopez puxar dos galões de inventivo contra-baixista, passando pela parte do disco que se encontra disponível, o mais discreto possível. Cuba sobrevive a Bush e continua a legislar.

Publicado por Luís Rei às março 2, 2004 06:27 PM

Comentários

Saudações virtuais nem sempre são fáceis de se lançar. Aceite um BRAVO, em capslock.

;-)

Pelo menos, fujo das hard-news à brasileira

Espero poder 'voltar' outras vezes

Publicado por: Marko Ajdaric às abril 22, 2004 07:41 AM