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janeiro 27, 2004
o mundo utópico de Gilberto Gil

Gilberto Gil confirmou a sua presença no Festival Rock in Rio de Lisboa, para o dia de abertura do festival (29 de Maio). Ainda bem para nós. O Grão de Areira noticiou recentemente que o cantautor brasileiro encerrou o Fórum Social Mundial do Mumbai de guitarra na mão. O Blog da ATTAC aproveita ainda a ocasião para recuperar o discurso de tomada de posse de Gilberto Gil, enquanto Ministro da Cultura do governo de Lula da Silva, publicado na Folha Online.
Não podia concordar mais com as passagens do discurso que vos deixo. No entanto, resta-me perguntar se Gilberto Gil não terá sido tocado pelo dom utópico de Thomas Moore.
"Mas o mercado não é tudo. Não será nunca. Sabemos muito bem que em matéria de cultura, assim como em saúde e educação, é preciso examinar e corrigir distorções inerentes à lógica do mercado que é sempre regida, em última análise, pela lei do mais forte. Sabemos que é preciso, em muitos casos, ir além do imediatismo, da visão de curto alcance, da estreiteza, das insuficiências e mesmo da ignorância dos agentes mercadológicos. Sabemos que é preciso suprir as nossas grandes e fundamentais carências".
"Cultura, como alguém já disse, não é apenas "uma espécie de ignorância que distingue os estudiosos". Nem somente o que se produz no âmbito das formas canonizadas pelos códigos ocidentais, com as suas hierarquias suspeitas. Do mesmo modo, ninguém aqui vai me ouvir pronunciar a palavra "folclore". Os vínculos entre o conceito erudito de "folclore" e a discriminação cultural são mais do que estreitos. São íntimos. "Folclore" é tudo aquilo que não se enquadrando, por sua antiguidade, no panorama da cultura de massa é produzido por gente inculta, por "primitivos contemporâneos", como uma espécie de enclave simbólico, historicamente atrasado, no mundo actual. Os ensinamentos de Lina Bo Bardi me preveniram definitivamente contra essa armadilha. Não existe "folclore" o que existe é cultura."
"Não cabe ao Estado fazer cultura, mas, sim, criar condições de acesso universal aos bens simbólicos. Não cabe ao Estado fazer cultura, mas, sim, proporcionar condições necessárias para a criação e a produção de bens culturais, sejam eles artefactos ou mentefactos. Não cabe ao Estado fazer cultura, mas, sim, promover o desenvolvimento cultural geral da sociedade. Porque o acesso à cultura é um direito básico de cidadania, assim como o direito à educação, à saúde, à vida num meio ambiente saudável. Porque, ao investir nas condições de criação e produção, estaremos tomando uma iniciativa de consequências imprevisíveis, mas certamente brilhantes e profundas já que a criatividade popular brasileira, dos primeiros tempos coloniais aos dias de hoje, foi sempre muito além do que permitiam as condições educacionais, sociais e económicas de nossa existência."
"o papel [da cultura é o] de contribuir objectivamente para a superação dos desníveis sociais, mas apostando sempre na realização plena do humano".
Será que o mundo rico e civilizado estará interessado em reduzir esse fosso que separa o hemisfério norte do hemisfério sul? Será que os governos dominados por políticas neoliberalistas estarão assim tão interessados em educar e dar cultura ao povo?
Publicado por Luís Rei às janeiro 27, 2004 11:37 PM
Comentários
Eu nunca ouço Gilberto, eu BEBO a musica e as palavras de Gilberto! É um dos génios da Musica, ao lado ( a meu ver) de Oum Koulthoum ,de Fairouz, de Amália Rodrigues, de Edith piaf, de Sinatra, de Moustaki, de Brassens, de Maria Dolores Pradera, de Elis Regina, de Marlène Dietrich,de John Lennon, de Roberto Murolo e de muito poucos mais...
Publicado por: Valeria Mendez às janeiro 28, 2004 03:27 AM