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janeiro 09, 2004

Colecção única de fado do Início do Sec. XX:
A CML quer comprá-la a um coleccionador inglês, por 1249000 Euros

Do Público:

Uma Colecção Única
Por F.M.
Quinta-feira, 08 de Janeiro de 2004

A colecção de Bruce Mastin inclui cerca de 5000 registos áudio, em
discos de 78 rotações, mais de metade já identificados como gravações
das primeiras décadas de fado, em estado óptimo de conservação, que o
britânico terá comprado há mais de 50 anos num armazém português (ver
PÚBLICO de 2-05-2003).

Outros exemplares do espólio incluem gravações, também do início do
século XX, de teatro de revista, música popular, discursos e dois
discos contendo uma reprodução da Proclamação da República
Portuguesa, em 1910, gravada no ano seguinte.

Entre os três milhares de exemplares de discos de 78 rotações
gravados na primeira década do século passado, as primeiras de sempre
do fado, contam-se as vozes de Reinaldo Varela, José Bastos, Isabel
Costa, Almeida Cruz, Eduardo de Souza, Rodrigues Vieira, Delfina
Victor e Maria Victoria. Igualmente importantes do ponto de vista
musical e etnográfico são registos, mais tardios, de Maria Alice,
Manassas de Lacerda, Avelino Baptista, Estêvão Amarante, Madalena de
Melo, Maria Emília Ferreira, Júlia Florista e Maria do Carmo Torres,
bem como dos mais conhecidos Ercília Costa, Berta Cardoso, António
Menano, Edmundo de Bettencourt, Armandinho e Alfredo Duarte, o
popular Alfredo Marceneiro.

Para Londres seguirá um administrador da Empresa de Gestão de
Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), braço da Câmara Municipal
de Lisboa que gere vários equipamentos da cidade, entre os quais a
Casa do Fado, em Lisboa; dois técnicos da EGEAC para analisar o
material discográfico; José Moças, da Tradisom, editora que, diz,
fará a organização, digitalização e edição desta colecção de "peças
únicas" com apoio do Ministério da Cultura, e o seu advogado, José
Sardinha.

José Moças, que parte no domingo, diz que o coleccionador inglês não
vai baixar o preço - um milhão, duzentos e quarenta e nove mil euros.
Mas segundo lhe foi comunicado pela CML e o Ministério da Cultura, "a
decisão política está tomada".

"A Câmara Municipal de Lisboa, que tem interesse em comprar o
espólio, incumbiu-nos de o analisar e dar um parecer global sobre o
processo", disse ontem Maria Louro, um dos três administradores da
EGEAC.

Em aberto está também a hipótese de a Câmara Municipal de Coimbra
participar numa "joint venture", com consequente participação
financeira, dado o acervo incluir exemplares de fado de Coimbra, diz
Moças. Dada a diversidade do espólio, outras entidades poderão também
estar interessadas. "Não é só a questão da aquisição. A concretizar-
se a compra, tem que haver um objectivo e um investimento para o
manter", acrescenta Maria Louro. "A proclamação da República, por
exemplo, não interessará à Casa do Fado..." (ver caixa).

Especialistas prontos para estudar espólio

Os especialistas vão à residência e ao escritório do coleccionador
inglês - locais onde está o espólio e situados perto um do outro a
cerca de 70km de Londres.

"Na maioria são discos das duas primeiras décadas, aquelas que não se
encontram em lado nenhum", diz José Moças, e cuja "lista
pormenorizada" já enviou à Câmara de Lisboa. "Todos os sítios que
tenho contactado, arquivos nos EUA, em Inglaterra, seja onde for,
ninguém tem nada. Escusamos de andar à procura porque não há",
garante o representante da Tradisom com mal disfarçado entusiasmo. "O
que há em Portugal são discos em muito más condições e dispersos por
vários coleccionadores que ainda por cima nunca quiseram abrir mão de
nada".

Se o negócio se concretizar, mal o espólio de Bruce Mastin aterre em
Portugal, a Tradisom iniciará um trabalho de investigação, com
duração prevista de cinco anos (para a sua totalidade, três para os
espécimes de fado), por uma equipa "já constituída" de especialistas.

Já houve várias reuniões sobre o assunto, nomeadamente com João
Morais, chefe de gabinete do ministro da Cultura, Pedro Roseta, e com
Paulo Cunha e Silva, director do Instituto das Artes (IA). "O papel
do IA será dar apoio e um parecer técnico [através do gabinete de
música]. Estão a decorrer negociações entre o coleccionador inglês e
a Câmara de Lisboa e o IA está atento às negociações", disse ontem o
gabinete de imprensa.

Para o Ministério da Cultura, as negociações entre a câmara e o
proprietário do espólio são "um dado adquirido": "Neste momento não
há qualquer verba reservada no ministério para a colecção porque é
certo que será a autarquia a comprá-la. O ministério está a
acompanhar o processo através do IA", garantiu fonte do gabinete de
Roseta.

A compra permitirá que a génese do fado gravado seja ouvida pela
primeira vez em Portugal. A história desta música juntará assim
algumas pontas soltas. Mas não todas. José Moças identificou
entretanto outras arcas do tesouro: novas gravações inéditas, na
posse de coleccionadores brasileiros e americanos, de fado também do
início do século XX, de actuações de fadistas portugueses no Brasil e
EUA.

Publicado por Luís Rei às janeiro 9, 2004 06:15 PM

Comentários

Nem tudo está mal em Portugal, afinal. Ainda há esperança.

Publicado por: José Cid às janeiro 11, 2004 01:25 AM

como luso descendente residente no brasil acompanho o dia a dia de portugal pela rtpi e fico triste como este orgao oficial da comunicacao trata da cultura, principalmente o fado, que para nos que vivemos fora de portugal e o elo vivo que mantem na nossa imaginacao este fenomeno cultural que e o fado. esta oportunidade deve ser aproveitada pelos portugueses para trazer de volta todo este acervo que nao poderia ter saido. a quantia pedida pelo colecionador deve estar acima do seu valor, mas esta oportunidade nao deve ser desperdicada. com este acervo bem administrado portugal tera oportunidade de resgatar esta epoca com muitos dos seus interpretes desconhecidos pela maioria . desculpem a falta de acentos e cedilhas pois estou com pane em meu computador, sds armando faria

Publicado por: armando faria às janeiro 25, 2004 11:53 AM