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janeiro 05, 2004
Balanço de 2003: o ano dos blues
2003 foi o ano internacional dos blues. Em Portugal tal facto passou quase incólome entre os média portugueses. Quase, porque Nuno Ferreira no Público lembrou-se da efeméride. Um texto que vale a pena ser lido através do link que abaixo se apresenta, enquanto se aguarda impacientemente pela audição do disco de Corey Harris, "Mississipi to Mali" e pela série de Martin Scorsese em DVD "...Presents the Blues" que, por certo (a avaliar pela dificuldade de licenciamento dos DVDs), nunca irão ser distribuidos em Portugal.

Cem Anos Depois, Os Blues Continuam nas Margens
Por POR NUNO FERREIRA
Terça-feira, 23 de Dezembro de 2003
Oficialmente declarado pelo Congresso dos Estados Unidos o Ano dos Blues,
2003 termina com um balanço de eventos, festivais e, sobretudo, o lançamento
de sete filmes produzidos por Martin Scorsese, mas a música, essa, continua
a ser o parente pobre do espectro da música popular norte-americana.
Nos últimos anos, entre os negros e os brancos não têm faltado novos e
revigorantes nomes de jovens artistas a manter o género vivo. O country
blues acústico reminiscente do Delta blues recebeu na década de 90 o sopro
refrescante de Alvin Youngblood Hart, Koko Taylor, Eric Bibb, Corey Harris,
Kelly Joe Phelps, Guy Davis, só para citar alguns. O blues rock eléctrico
recebeu novos e entusiastas seguidores, como Derek Trucks, Jonnie Lang,
Kenny Wayne Shepherd, Mike Welch ou Bernard Allison (filho do lendário
guitarrista Luther Allison). O naipe de nomes femininos dos blues foi
enriquecido com a voz portentosa de Shemekia Copeland, filha do falecido
guitarrista texano Johnny Copeland, ou a voz sexy da muito branca Susan
Tedeschi.
O problema, no entanto, está na exposição e divulgação. Os blues são um dos
mais fundamentais géneros da música popular americana; influenciaram a
country e o bluegrass, estiveram na génese do rock'n'roll, mas continuam a
não ter um canal de televisão próprio - a country, por exemplo, tem a
Country Music Television (CMT) - e a usufruir de pouca divulgação nas rádios
americanas.
Os blues não passam nos maiores canais musicais como a MTV ou VH1 e não
geram as receitas de géneros que ajudaram a fundar, como o rock ou mesmo o
rap. No ano passado, nomes como Norah Jones e a banda The White Stripes, só
para citar dois casos de artistas que vão beber directa ou indirectamente
aos blues, estiveram meses a fio nas tabelas de tops. O mesmo não aconteceu
com nenhum músico de blues.
Origem do jazz, pop, rock...
As comemorações do centenário procuraram, um pouco por todos os Estados
Unidos, promover os blues através de uma súmula de eventos, programas nas
rádios e nas televisões, festivais e iniciativas nas escolas. Mas o facto de
a classe política ter declarado, em resolução oficial, que havia que
comemorar os blues em 2003 não significou que o seu estatuto e situação se
tenham alterado.
"Os blues são, provavelmente, o género musical menos reconhecido dentro do
espectro da música popular americana e, no entanto, serviram de base a tudo
o que hoje é considerado música pop e rock. Já se celebrou tanto o jazz e o
rock'n'roll; é tempo que o avôzinho de todos eles receba agora a mesma
exposição", disse à "Christian Science Monitor" Robert Santelli, historiador
e director executivo do projecto "Year of the Blues".
De facto, sem os blues não teríamos tido o jazz nem o gospel nem a soul
music nem o rithm'n'blues nem o rock'n'roll. "Podemos dizer que os blues
estão na origem de praticamente todas as formas de música popular que
nasceram na América no século XX", conclui Robert Santelli. Sem a partilha
musical entre os brancos das montanhas do Sul e os negros que ora plantavam
algodão ora trabalhavam nos caminhos-de-ferros, a country não teria evoluído
da música dos colonos anglo-saxónicos para o que é hoje. O que seria da
country se o branco Jimmie Rodgers não tivesse trabalhado lado a lado com os
negros nos caminhos-de-ferro? O que é o banjo, afinal, senão um instrumento
de origem africana?"
Os blues eram e sempre foram um género musical criado, amado e mantido pelos negros, mas é indiscutível a paixão e o fascínio que a música sempre gerou
na sociedade branca, mesmo quando existia a segregação racial no Sul dos
Estados Unidos. Bill Monroe, a lenda do bluegrass, sempre reconheceu a
influência dos blues na construção de diversos temas seus. O primeiro êxito
de Elvis Presley, que na juventude era atraído para a zona negra de Memphis
como que atraído por um íman, foi "That's All Right Mama", do cantor de
blues Artur Crudup.
Ciclicamente, a cultura de massas vampiriza e apropria-se de uma parcela ou
excerto de temas de blues, como quando a Levis usou uma canção de Muddy
Waters para um anúncio em 1999 e proporcionou à então já falecida lenda dos
blues o primeiro "hit" da sua carreira no Reino Unido.
A maioria dos músicos de blues, com as excepções dos consagrados como B.B.
King ou Buddy Guy, é mal paga, vende poucos discos e tem de realizar uma
média de 200 espectáculos por ano numa rede de clubes, festivais e, desde há
uns anos, cruzeiros que juntam aficionados e bluesmen durante vários dias
num navio a circular pelos portos das Antilhas.
Semelhanças com o fado
E em Portugal? Não é verdade que existem semelhanças, mesmo que ténues,
entre o fado e os blues, e que ambos são estruturas musicais populares e
simples que assentam na lamentação sobre a condição e o estado de espírito
de quem canta?
No nosso país contam-se pelos dedos os concertos de blues como o que John
Mayall & The Bluesbreakers deram em Novembro em Lisboa, Coimbra e Porto.
Anualmente, existe o festival Gaia Blues - que este ano extravasou do
auditório municipal para o Cais de Gaia, e trouxe até nós Deborah Coleman e
Saffire -; e realizou-se a primeira edição do "Coimbra em Blues", com nomes
do norte do Mississipi, como Elmo Williams & Hezekiah Early, ou o soul
bluesmen Little Milton.
Agora, à beira de 2004, os blues continuam, como sempre, a ser a música
popular americana das ruas e das franjas. "É um velho género musical, mas
continua tão vibrante como dantes", diz Santelli. "Começou por ser música
negra, mas, à medida que se foi espalhando, tornou-se verdadeira música
americana", salienta o historiador.
"Um Tesouro Histórico Americano"
Por N.F.
Terça-feira, 23 de Dezembro de 2003
Algures em 1903, numa desolada plataforma de uma estação de caminho de
ferro, em Tutwiler, no Estado do Mississipi, o compositor W. C. Handy
encontrou "um negro, com uma guitarra, a tocar a música mais estranha" que
ele alguma vez ouvira, "com a ajuda de uma navalha". A música, o ritmo, a
toada, ficou-lhe para sempre marcada na mente, e Handy, que hoje em dia
todos os manuais escolares apontam como o "pai dos blues", haveria de gravar
mais tarde, em Memphis, um tema semelhante ao que ouvira, chamando-lhe
"Yellow Dog Blues". Handy não inventou nada, é certo, mas foi o primeiro a
compor e publicar a música que agora conhecemos como os blues, e ainda hoje
os prémios mais prestigiados do género chamam-se "W.C. Handy Awards".
Um século depois daquele mágico encontro no Mississipi, o Congresso
americano proclamou 2003 o "Ano dos Blues", proclamando o género como "a
mais influente de todas as formas da música popular americana, cujo impacto
se ouve em todo o mundo na forma de rock'n' roll, jazz, rythm'n' blues,
country e até música clássica". O texto do Congresso classificou mesmo os
blues como "um tesouro histórico nacional, que necessita de ser preservado,
estudado e documentado para as gerações futuras".
Além dos concertos de celebração, dos habituais festivais, da produção de
documentários, programas nas rádios e televisões e exposições "on line" como
a "Year of the Blues Art Gallery", 2003 foi marcado pela edição, em DVD, da
colecção "Martin Scorsese Presents the Blues", um conjunto de sete filmes de
90 minutos cada coordenado pelo realizador de "A Última Valsa", e realizados
por ele próprio e também por Charles Burnett, Richard Pearce, Wim Wenders,
Clint Eastwood, Marc Levin e Mike Figgis.
"Os blues são ao mesmo tempo americanos e mundiais", disse Martin Scorsese a propósito deste seu projecto, no qual trabalhou ao longo de seis anos. "São
uma forma de contar histórias tão universal que inspirou pessoas em todo o
mundo e continua a influenciar música na América e no exterior. Espero que
esta série ajude a introduzir novos públicos para os blues e inspire os
jovens, quer gostem de rock ou rap, a comprender melhor a música que está
por detrás do que ouvem hoje."
Música
Publicado por Luís Rei às janeiro 5, 2004 03:18 AM
Comentários
Em Portugal temos os Nobody's Bizness, que até vão andando, o outro dia até apareceram na televisão.
Publicado por: José Cid às janeiro 5, 2004 04:17 PM
Queres conhecer o blues que é tocado no Brasil?
Veja, por favor, os seguintes sites:
www.usp.br/radiousp (procure "programas" e veja o "Blues Power".
www.natublues.com.br
www.bluesbr.com
www.sociedadeblues.com.br
www.riogandedoblues.da.ru
Publicado por: Caio Ávila às março 31, 2004 09:48 PM
Uma página opinativa de conteúdo qualificado.
Seria possível aconselhar alguma bibliografia literária ou cibernética acerca da música popular americana, denominada de country music?
Obrigado.
Publicado por: Fernando Bento às julho 30, 2004 01:58 PM