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dezembro 05, 2003
SUSHEELA RAMAN: entre o céu e o inferno
Sons em Trânsito, Teatro Aveirense, 29NOV03
Estiveram duas Susheelas Ramans distintas em palco. Uma etérea de voz límpida e deslumbrante, quando resgata os espirituais indianos. Uma outra terrena, roqueira e assaz vulgar, quando investe pela vertente pop/rock ocidental (de torcer o nariz a temas como “Woman” e à versão de Tim Buckley de “Song To the Siren” que, felizmente, não foi interpretada). Se, durante o festival, assistimos a boa parte de projectos bem melhores ao vivo do que em disco (Ojos de Brujo são o exemplo mais gritante), na actuação de Susheela deu-se o inverso. Não é que os músicos sejam maus, antes pelo contrário. Sam Mills, desde os 23 Skidoo, passando pelo projecto do indiano Paban das Baul e pelos Tama do Guineense Toumani Diakité, é um dos músicos de fusão que mais admiro. O baixo de Hilaire Prenda é também ele todo muito compassado e incisivo, fazendo lembrar o toque peculiar de Jah Wobble. O percussionista guineense, Djanuno Dabo (antigo companheiro de infância de Manecas Costa nos Africa-Livre e actual membro de Tama), é eficaz, apesar da sua sonoridade algo frágil, que tem mais a ver com a delicadeza da kora do que com a força bruta dos djembes. Possui um talento vocal escondido que foi utilizado somente uma vez no belíssimo “Sarasa”. Este homem devia ir mais vezes lá para a frente, assumir parte das despesas. Evoca as fusões norte-sul bem sucedidas, entre a sueca Ellika Frisell e Solo Cissokho, ou entre este músico senegalês e a norueguesa Kirsten Braten Berg.
Ambos exibiram uma certa agilidade sonora, vagueando por ritmos dub, ambientes klezmer, pela beleza acústica da sonoridade mandinga e pelas levitantes ragas (infelizmente a sonoridade de cítara indiana era pré-gravada e repetitiva).
Se Susheela se tivesse limitado à fusão Índia – Universo Mandinga, talvez tivesse tirado melhor proveito da sua actuação e causado bem melhor impressão. Só que, Susheela investiu por várias vezes por universos mais sinuosos, com poses de vocalista de banda de hard rock, totalmente desajustadas para com a música que interpreta. Nesses momentos, sentia-se que não tinha banda para o som que ambicionava apresentar. Aqui, o colectivo revelava todas as suas fragilidades. Além de se notar a ausência de um baterista (onde estavas Tony Allen?), ou de uma percussão mais forte (Dhol do Punjabi, por exemplo), faltavam também os metais e as guitarras estridentes (onde estavas Albert Kuvezin?). Levam trabalho de sobra para casa.
Publicado por Luís Rei às dezembro 5, 2003 11:53 AM