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dezembro 04, 2003
KIMMO POHJONEN: Clube de combate

Sons em Trânsito, Teatro Aveirense, 28NOV03
O início não poderia ser mais prometedor. Uma viagem de cerca de meia-hora ao centro da terra, à galáxia mais próxima, ao fundo do oceano. Composições sobre compisições que davam a sensação de se tratar de um espectáculo "ad infinitum", sem pausas. A música (?) que sai do fole cromático, amplificado e “loopado”, “samplado” e percutido pelo islandês Samuli Kosminen é feita de contrastes, como o universo visto pela sabedoria oriental milenar que ambos parecem advogar, ou não fossem trajados como verdadeiros samurais, sem sabre. A sua música (?), dizia, oferece-nos o céu e as trevas, granadas e cravos, o sol e a lua, a inquietação e a tranquilidade, a tradição e a improvisação, o yin e o yang. É feita de terrorismo sonoro e de harmonia, de momentos de uma interpretação plena de virtuosismo da folk finlandesa, que descamba de imediato em ruído sónico e em vozes possuídas por demónios, amplificadas por espasmos físicos do músico que tornam a sua actuação tão arrebatadora quanto arriscada. Se há algum nome para descrever violência física, sonora e visual, esse nome já sabem qual é. A sua irreverência, enorme capacidade em andar como um trapezista numa corda sobre um abismo, traz-nos ao nosso imaginário o momento em que num longínquo ano de 80 e tal, Adolfo Luxúria Canibal rasga inconscientemente com uma lâmina uma das pernas. Com Kimmo não foi tão grave. No entanto, não evitou uma lesão no tornozelo que o impediu de realizar espectáculo seguinte em Moscovo. No site dele lê-se: “Dec 6: Moscow Russia - B2 (cancelled due to injury)”.
Mas um concerto de Kimmo Pohjonen é muito mais do que ver um experimentador do acordeão secundado por um manipulador sonoro. O som “surround” e o jogo de luzes adquirem especial importância. Os strobes apontados à assistência violentam-nos. Sentimo-nos como se estivéssemos a desfrutar de um espectáculo de Fura dels Baus (o “Suz o Suz” na Estufa Fria). Leva-se com visceras e mais visceras na cara, ficamos com a roupa toda molhada, mas saímos dali satisfeitos. Kimmo não vai tão longe. Mas a sua atitude em palco, combinado com os sons que extrai do seu acordeão e os efeitos visuais, proporcionam-nos a sensação de termos sido linchados, sem necessidade de limparmos um pingo de sangue ou de reparar uma costela que seja. Quando é que é o próximo combate?
Publicado por Luís Rei às dezembro 4, 2003 06:23 AM