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novembro 27, 2003
Ojos de Brujo: United Colors of Flamenco
Sons em Trânsito, Teatro Aveirense, 22Nov03
“Incendiaram o palco”. “Deitaram aquilo abaixo”. Lugares comuns que tão bem se aplicam a um projecto que, desde o segundo “round”, agarrou uma plateia e um balcão bastante distinto da noite anterior, composto por estudantes espanhóis do Erasmus, Galegos, rastas, freaks e hippies da tribo “Manu Chao”, etc. Os Ojos de Brujo trouxerem consigo uma verdadeira legião de fãs, conhecedores dos dois discos (“Vengue” e “Bari”) e das letras de algumas canções. Arrepiante a explosiva ovação final. O caso não é para menos. Há muito que não me lembrava de assistir a um espectáculo tão intenso, do primeiro ao último minuto. Sem qualquer tipo de quebra. Partindo sempre de uma base de flamenco e sucedâneos - bulerias, rumbas catalãs (o farol que os ilumina), os Ojos de Brujo parecem barco à deriva em mares tão difusos quanto complementares de funk, hip hop, dub, reggae, à procura da rota marítima para o berço da civilização cigana (a Índia). Lá vêm eles pela milésima vez com mais uma fusão inconsequente. O tempo de Transglobal Underground e de Loop Guru já passou, podiam dizer vocês. Só que, nos Ojos de Brujo, tudo parece perfeito. A alma cigana encontra-se bem presente. Ramon (o guitarrista e uma das principais figuras do projecto) é um músico grande, grande. Toca com o nervo e o virtuosismo daqueles ciganos de leste que animam festas durante dias seguidos. Parte uma corda da sua guitarra e toca como se nada tivesse acontecido. Acompanha com as mãos e todo o corpo, os ritmos demolidores que saem do arrebatador despique de três cajons e de momentos de percussão vocal carnática (que Trilok Gurtu popularizou entre os seguidores da movimentação “asian underground”) em “Zambra”. Já a carismática Marina desdobra-se, ora em pura cantora rumbera, ora em inquieta “rapper”. Uma panfletária de espírito zapatista. Denuncia as injustiças do sistema capitalisa e luta pelos direitos dos sem-abrigo e dos “sem papeis”. É ela o principal elo de ligação entre a nobre tradição andaluz e a cultura de rua, bem amplificada por um baixista tão “swingante” quanto “afunkalhado” (saído picante escola de Kiedis) e por um eficaz MC e domador de pratos. É, aliás, este domínio da cultura de “la calle” numa “Barcelona Zona Bastarda”, onde fervilham tantos e tantos interessantes projectos, que faz dos Ojos de Brujo uma das mais intensas e bem sucedidas propostas de fusão. Excelentes em palco, bons em estúdio.
Publicado por Luís Rei às novembro 27, 2003 03:31 AM
Comentários
e, por falar em flamenco, o concerto de Vicente Amigo foi EXCELENTE!
Publicado por: Ana [Lua] às dezembro 1, 2003 05:56 AM