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outubro 29, 2003

MÍSIA responde à crítica do The Guardian

Mísia, escreve-nos a propósito da crítica ao disco “Canto”, no Guardian, que fizemos questão de comentar , há alguns dias, neste blog:

Caro Yggdrasil
Obrigada pelo seu acertadíssimo comentário à estranha crítica do Guardian.
Não discuto os gostos pessoais do jornalista - eu também gosto da Mariza!
O que é lamentável é a ignorância desse senhor. O meu disco Canto NÃO é um disco de Fado, portanto as comparações não fazem sentido neste caso. Depois, este senhor não se informou acerca da importância da música de Carlos Paredes nem percebeu as características deste projecto (falo de perceber não de gostar), e por último falta descaradamente à verdade quando desinforma os seus leitores acerca da cronologia da minha carreira.
Numa altura em que o Fado não estava na moda já eu tinha enchido dois Queen Elisabeth Hall em Londres, ganho o prémio da Académie Charles Cros (também atribuido a Amália pelo seu disco Com que Voz) feito duas vezes o Jazz Festival de Montreux , colaborado com Bill T Jones, Isabelle Huppert, obtido uma excelente crítica na revista norte-americana BillBoard, esgotado o Tow Hall de Nova York, a Philarmonia de Berlim duas vezes, enfiiiiim!!!
Só que nessa altura o Fado não tinha interesse mediático que tem hoje (e ainda bem) e eu andava sozinha na travessia do deserto.
Este senhor não fez o trabalhinho de casa, eis tudo!
Talvez lhe conviesse ler a crítica excelente a este disco no Inrockuptibles, mas em França o interesse por músicas de outras culturas não é algo recente e eles sabem do que falam, independentemente de gostarem ou não de um disco.

Eu continuo o meu caminho....

"saudades" e obrigada de novo
mísia

É, de facto, verdade que Mísia foi a pioneira da divulgação do fado fora de portas. Enchia salas em Espanha e França quando toda a gente a ignorava entre portas. E, já o disse aqui, foi preciso aparecer a Mariza para os ingleses começarem a piscar o olho à música portuguesa. Nem os Madredeus conseguiram ter a projecção que a Mariza tem neste momento nas ilhas britânicas. Os ingleses. Porque os franceses, belgas e holandeses há muito que declararam proposta de casamento à Cristina Banco, à Mafalda Arnauth (que ninguém sabe quem são em Inglaterra – e quando souberem , lá vêem mais uma vez as inevitáveis comparações com a Mariza). No entanto, gostava de recuperar a resposta que dei nessa posta acerca do crítico do Guardian a Fadista Valéria Mendez, quando afirma que esse é um “texto próprio de quem não entende nada de fado, nem de música no geral. Mais um tonto que ainda não percebeu que Mariza não é mais do que uma fadista "de plástico", com uma grande máquina promocional atrás,que nem AMALIA algum dia possuiu.”

Apesar de concordar com ambas as opiniões, De saber que os franceses são muito mais sensíveis à música portuguesa, também não posso deixar de fazer o papel do “advogado do diabo” e ilibar Robin Denselow:

“Cara Valéria, compreendo o seu ponto de vista. Não deixa de ter razão naquilo que afirma, no entanto deixe-me refutar a sua opinião.

1. Seja fadista de plástico, tenha ela uma máquina de promoção forte por trás, a Mariza ajudou a abrir as portas em Inglaterra à música portuguesa. O que é um facto notável dado a carácter etnocêntrico do povo britânico.

2. Embora tenha achado um pouco triste o texto do Robin Denselow sobre a Mísia, prefiro que se fale com imprecisões do que se ignore. Não é fácil falar sobre música portuguesa para um inglês, em que a maior parte dos booklets não tem versão inglesa ou francesa e em que quase nada há escrito (praticamente só uns textos no Rough Guide) sobre nós.

3. Num suplemento como o Friday Review do Guardian, onde geralmente há espaço somente para cinco críticas a discos na área da pop, o jornalista Robin Denselow comete a proeza de escrever todas as semanas sobre, pelo menos, um disco de músicas do mundo. Em três meses este senhor escreveu sobre mais discos desta área (Javier Ruibal, Kristi Stassinopoulou, Mariza, Misia, Abyssinia Infinite, Rokia Traoré - que mereceu honras de capa no referido suplemento - June Tabor, Kekele, Oumou Sangare, Oi Va Voi, Festival in The Desert, Malouma, Terry Hall & Mushaq, Debabshish Bhatacharya and Bob Brozman, Susheela Raman, Manecas Costa, Yat-kha, Lo Jo, Ibrahim Ferrer) do que os todos os suplementos musicais em portugal juntos. Como sabe, estes têm muito mais espaço para crítica de discos. Tirando os portugueses ainda só vi na imprensa portuguesa textos escritos sobre o novo disco Susheela Raman.”

Yggdrasil

Publicado por Luís Rei às outubro 29, 2003 08:22 AM

Comentários

Em Inglaterra desconhecem por completo o que não é anglofono, e se alguma coisa descobrem adoptam a postura "isto é muito bom, mas o resto já não interessa tanto". Penso que a crítica ao disco da Misia reflecte um pouco essa atitude, infelizmente.

Publicado por: César Laia às outubro 30, 2003 01:37 PM