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outubro 26, 2003
DISCOGRAFIA ESSENCIAL (15)
MERCEDES PEÓN - "ISUÉ"

Mercedes Peón
Isué
Resistência / Sabotage
O mais interessante que a Galiza nos tem oferecido em termos de música folk, sempre foi dominado pelo lado depurado de interpretar a rica tradição de muñeiras, foliadas e alvoradas. Quer pelos Milladoiro que estão para a música galega como dos Chieftains estão para a irlandesa – uma instituição intocável pelo extenso trabalho até hoje produzido a quem se desculpa um álbum menos conseguido – quer pelos Luar Na Lubre que impõem uma perfeição onírica às entranhas da pura tradição local, sem terem necessidade de correr riscos.
Demarcando-se do terreno pantanoso de um dos maiores aventureiros galegos – Carlos Núñez – cuja brilhante técnica de gaita de foles tem sido abafada pelo mau gosto das suas composições, Mercedes Peón assume-se como uma das principais estetas da revolução da folk do Norte de Espanha, ao lado dos excessivamente progressistas Berrogüetto. Mas Peón vai muito mais além do que a banda do brilhante instrumentista Anxo Pintos.
“Isué”, o álbum de estreia da cantora, compositora, gaiteira, pandeireteira, dançarina e responsável por algumas recolhas de temas aqui incluídos, subverte a habitual rigidez de abordagem à música galega de forma brilhante, tornando-se num legítimo candidato ao estatuto de “Kaksi” ibérico. Partindo de uma base assaz regional, na qual se pode escutar que o “Galego que non fala a língua da sua terra non sabe o que tem de seu”, Mercedes Peón parte em busca do mundo que a rodeia: da confluência melódica arábico-mediterranico-balcânica em “De Seu”, ao transe rítmico tribalista e quente da África Negra e Muçulmana, às abrasadoras e misteriosas vozes xamânicas de gélidas latitudes, sem esquecer de arriscar numa experiência tecno-pop (“Sombra de Luz”) menos feliz e no tom festivo ska-folk algo gasto (“Adorno”), com alguns contornos saudosistas evocativos dos Pogues.
“Isué” é, para concluir, um puzzle que prima pela diversidade e Mercedes Peón é uma compositora-cientista em constante experimentação e refutação de teorias, nunca esquecendo a base de todo o seu trabalho: as recolhas que fez em solo Galego.
Publicado por Luís Rei às outubro 26, 2003 12:30 AM