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setembro 12, 2003
FESTA DO AVANTE: DOMINGO, 7SET03
RONDA DOS QUATRO CAMINHOS. Entre o céu e o inferno.
Ver a Ronda dos Quatro Caminhos apresentar ao vivo o disco .Terra de Abrigo. é já motivo mais do que suficiente para nos deslocarmos à Quinta da Atalaia. No entanto, é pena que, devido a questões puramente logísticas e de organização, um espectáculo que em circunstâncias normais seria sublime, acabou por se tornar numa frustrante experiência.
É admirável a forma como a Ronda conseguiu com .Terra de Abrigo. abanar a toda a sua estrutura e os tiques de música .pumba. (expressão inventada por António Pires do Blitz) à volta do ressoar dos bombos e das omnipresentes chulas. Não foi um prédio que caiu e outro que se ergueu dos escombros de uma certa acomodação tradicional-urbana de banda de bar, que se vinha a notar nos últimos discos. Remodelou-se, porém, uma nova fachada, com materiais semelhantes, mas com outras cores bem mais vivas. Não sendo tão ambiciosos no espectáculo como foram no disco . faltaram outras vozes como a Katia Guerreiro e Amina Alaoui, além de uma maior aproximação à música árabe-andaluz . a Ronda cumpriu aquilo que lhe competia fazer. Trouxe para o palco uma orquestra clássica . a Sinfonienta de Lisboa . para proporcionar ao cante alentejano uma maior aproximação entre o céu e a terra. Um puro exercício de levitação que a Ronda arbitrava. Aqui e ali, lá impunha as marcas do passado. Lá vinham as chulas e a dispensável voz de João Oliveira que, apesar de tudo, se conseguia tolerar.
Completamente inexplicável foi a decisão da organização da Festa em programar um concerto destes no pequeno palco do Auditório 1º de Maio. Será que o palco 25 de Abril estaria assim tão inacessível a um projecto responsável por um dos melhores discos de 2003 na área da música tradicional? Apesar de tudo, deu-se um milagre de física. Sessenta pessoas em palco, bem aconchegadas entre si, não foram suficientes para partir o estrado. A bancada da assistência também não caiu por acaso. No meio dos palavrões e dos encontrões (por sorte não chegaram a vias de facto) que alguns membros da assistência de meia-idade iam trocando entre si, devido a questões mínimas do deixa ou não deixa passar lá para cima, não se conseguia escutar NADA. Primeiro, porque estes singelos cidadãos . aptos de imediato a criticar a .malta jovem. do seu mau civismo, seja por que razão for . perturbaram, com um burburinho ensurdecedor, durante mais de um quarto de hora (tempo que demoraram a chegar os Seguranças), todos aqueles que estavam no interior do recinto. Segundo, porque o som também tinha as suas debilidades. As vozes demasiado elevadas, a orquestra demasiado baixa. Além disso, quem estava cá atrás . não se podia ir para a frente dado que a assistência deixou-se ficar sentada, não se levantando para permitir aqueles que ficam engalfinhados na entradas, pudessem também ir lá para dentro . levava com um som enrolado, de lata. Resta-nos a expectativa de vermos este espectáculo numa sala apropriada para a dimensão do projecto, com condições técnicas decentes e com um público minimamente educado. Tenho esperança que isso aconteça no CCB, no princípio do próximo ano.
REALEJO. A menina dança?
A seguir à Ronda, foram os Realejo que, apenas com cinco elementos, encheram e de que maneira o palco do Auditório 1º de Maio. Parece que Fernando Meireles concretizou aquilo que deixara subentender no tema final do primeiro disco .Sanfonia. (a .Cantiga 216.) e que desenvolvera a espaços no álbum seguinte, .Cenários.. O Realejo deixou a carapaça de frágil projecto folk de câmara, para se tornar numa banda de dança semi-acústica. A filiação Blowzabella continua a mesma. A inspiração subversiva dos Hedningarna assume-se de vez. A portugalidade no meio das composições de folk europeia para Sanfona também continua bem vincada, sobretudo nas mãos de Amadeu Magalhães. A grande surpresa que os Realejo agora apresentam é a ausência do violoncelo de Ofélia Ribeiro e a inclusão de um baixista que não se limita a marcar passo. Ele torna a música do Realejo muito mais .swingante.. Houve quem dissesse que o Realejo parecia os Shooglenifty. As raízes de ambos são bem distintas. Contudo, o projecto de Coimbra ganhou uma certa cavalgada rítmica, semelhante à desses escoceses. Pena é que o espectáculo não tenham durado mais do que uns míseros trinta e tal minutos. Soube a muito pouco.
GALANDUM GALUNDAINA E CRISTINA PATO. A desorientação à portuguesa
Houve, por parte da organização, uma tentativa desenfreada de cortar a direito, apesar dos atrasos habituais que vinham de trás. Esta não deixou a Ronda fazer o encore (o que motivou assobiadelas por parte da assistência), limitou o tempo de actuação do Realejo que acabaram de tocar às 17h25. A ideia era que não houvesse nenhuma actividade durante o discurso de Carvalhas que começou às 18h. Até aqui tudo bem. Horários são para cumprir e há que cortar a direito para recuperar o tempo perdido. O próximo concerto nesta sala começava às 19h30. Só que, a essa hora e, até às 20h30, não houve direito ao programado concerto de Galandum Galundaina. Houve sim sound checks dos músicos que vinham a seguir aos mirandeses. O facto de estes só começarem a tocar uma hora depois do previsto, alterou substancialmente aquilo que tinha programado: ver Galandum até pouco depois das 20h e ir para o palco 25 de Abril assistir a parte substancial de Cristina Pato. Tive azar. Se o Auditório 1º de Maio manteve nos três dias atrasos de uma hora, o 25 de Abril foi sempre certinho. Acabei por ver uns dez ou quinze minutos do primeiro e mais uns dez da segunda. Tive pena de ter perdido o resto de Galandum, porque exibiram a sua habitual genuinidade. O falar mirandês, a raça bruta das gaitas, do tamboril, dos bombos e das flautas pastoris. Levaram também consigo uma sanfona para interpretarem romances (dado inédito). Não tive pena nenhuma da Cristina Pato e arrependi-me de ter vindo para cima. A menina que ainda é muito verde (não de cabelo, que desta vez exibia a cor natural, mas de cabeça . isso notava-se no discurso dela) é bem pior em palco do que nos discos. Já sabia que fazia um misto de rock com folk galego. Só que há folk rock e folk rock. Resentidos e Siniestro Total são uma coisa, aquilo que Cristina Pato apresentou é outra. Bem distinta. Rock FM dos anos 80, pesado, xunga e sensaborão, ao serviço dos solos da gaiteira. Imaginem o cruzamento entre os Def Leppard e o Carlos Núñez. Prefiro mil vezes a Susana Seivane.
Publicado por Luís Rei às setembro 12, 2003 06:28 PM