« ONDE ESTAVA LULA PENA? | Entrada | FESTA DO AVANTE: SEXTA-FEIRA, 5SET03 »

setembro 05, 2003

A CLASSE ECONÓMICA DE KEPA JUNKERA


Finalmente escrevo sobre o concerto de Kepa Junkera que ocorreu no passado fim de semana, na Fábrica da Pólvora. Não há dúvida que a Internet veio revolucionar a forma como se comunica e se informa. Poucas horas após o evento já circulava pela lista de discussão das Crónicas da Terra várias opiniões ao concerto do Kepa, muito tempo antes de qualquer jornal poder exibir o seu artigo (curiosamente, coisa que não vi em nenhuma publicação).
Daí que, passado quase uma semana e após várias críticas e refutação de críticas de assinantes e das opiniões veiculadas em blogs como a Janela Indiscreta e o Juramento Sem Bandeira, a minha visão acaba por ser muito redutora e complementar. No entanto, há muitos aspectos extra do concerto-de-sábado-à-noite que merecem ser abordados. Vamos por pontos.

1. Foi um concerto em crescendo, que não acrescentou nada àquilo que já tínhamos visto em outros palcos. Começou morno, acabou menos morno. Kepa continua a exibir todo o seu virtuosismo, mas desta vez houve menos gozo (além de o ouvir) em vê-lo tocar. Na Fnac, nos showcases que deu por altura do lançamento de Bilbao 00:00h, foi muito mais acutilante e imprevisível. Tocava com muito mais nervo. Sozinho, com a sua trikitixa, oferecia-nos um espectáculo simples, mas cheio de vitalidade e espontaneidade. Um regalo para os nosso olhos e ouvidos. Aquilo que se viu no Sábado, parece ter sido mais um (entre tantos outros) concerto de um músico cansado, acompanhado por outros músicos (à excepção da dupla de percussão basca - txalaparta - Oreka TX. Vale a pena ler o que o Vítor Junqueira escreveu sobre eles) senão cansados, vulgares, que se limitaram apenas a encher o palco e a música. Apesar de ter logo aos primeiros acordes o público consigo, Kepa abusou da interacção com o público. Momentos houve de uma certa graça quando ele, ao fazer de maestro, conseguia coordenar as palmas do público com o ritmo do baixo e da bateria (outro facto bastante comentado na lista de discussão). Mas devia tê-lo feito com brevidade. A sua acção arrastou-se, o que quebrou, de certa forma, o crescendo que se sentia no concerto de Kepa, enquanto belíssimo instrumentista.


2. A Fábrica da Pólvora tem sido palco em outros anos de espectáculos menos conseguidos de outros nomes que já tocaram por diversas vezes em Portugal. Estou a lembrar-me, por exemplo, do espectáculo do ano passado dos Rádio Tarifa. Não gostei mesmo nada. Além do vento insuportável que batia nos microfones, a guitarra eléctrica estava demasiado alta, comparativamente com o resto dos instrumentos. Em Maio deste ano, em Mértola, voltei a conciliar-me com a Rádio Tarifa. Por que será?

3. É certo que as Câmaras Municipais não nadam em dinheiro. Ao programarem concertos, tentam fazê-lo pagando o mínimo cachet possível. As bandas, porque necessitam de vender concertos para sobreviverem, aceitam.

4. Como o Nuno Barros dizia na lista de discussão, trazem ?uma versão portátil? daquilo que habitualmente fazem. Eu digo que se trata de uma versão económica. Há quem prefira em Portugal tocar apenas duas vezes por ano e cobrar três ou quatro mil contos por concerto. São opções. Mas a realidade dos músicos mais rodados da folk europeia é bem contrária. É obrigatório tocar, no mínimo, 200 a 300 vezes por ano, tendo de suportar um pouco de tudo: más condições técnicas, maus cachets, público que não sabe ao que vai, etc, etc, etc. Um desgaste tremendo que facilmente origina noites menos conseguidas.

5. Apesar da actuação de Kepa Junkera ter sido a que foi. A possível. Pena é que não tivesse havido interesse de nenhum jornal em cobrir o evento. Além de Kepa ser uma das principais figuras da folk europeia, acabou de lançar um duplo álbum ao vivo, denominado K que é, seguramente, o melhor disco da trilogia marítima Bilbao 00h00-Maren -K. Porque é o consumar do espírito exploratório dos dois anteriores álbuns. Onde há mais coesão e menos desequilíbrios. É estranho que isso aconteça a quem já recebeu elogios rasgados por diversos órgãos de imprensa nacional em Bilbao 00h00. Provavelmente, a editora ainda não enviou o disco para as redacções, nem marcou entrevistas.

6. Na lista de discussão, argumentou-se a falta do bandolim e do contra-baixo como uma das razões de um concerto menos conseguido nessa noite. Argumentou-se ainda que os músicos que tocam em Espanha são os mesmos que tocaram em Portugal. Isso poderá acontecer em alguns casos, no entanto, há concertos e concertos de Kepa. Depende da classe. Se é económica (como acima foi referido) ou se é executiva (como aconteceu nas três noites de Bilbao, onde K foi gravado). Quem o viu no sábado ficou com uma pálida ideia do que é o duplo álbum K.


O instrumento Alboka

7. Pelo que me foi possível escutar de K (alguns temas sacados no Soulseek), existe uma séria tentativa de criação de uma orquestra étnica (bem conseguida em muitos casos), como ponto interessante de disfarçar a limitação da trikitixa enquanto instrumento reconhecida pelo intérprete. Brilhantes os metais dos canadianos Bottine Souriante em Herrik Shaw. Interessante o duelo trikitixa vs mandolin com Patrick Vaillant (que tem habitualmente tocado em duo com um outro intérprete de concertina, o italiano Riccado Tesi). Onírico, a conjugação das vozes búlgaras (que talvez tenham demasiado protagonismo ao longo dos dois discos), com o Grupo coral basco Donostia e a Orquestra de Cordas Alos Quartet. Destaque ainda para a sonoridade da alboka de Ibon Koteron, mais um instrumento tradicional basco. Aerofone pastoril, constituído por dois chifres de vaca, com um conjunto de buracos entre eles e que produz uma sonoridade drone, tão ressonante quanto a sanfona. A propósito de Alboka, vale a pena conhecer um outro colectivo basco que se apresenta com o mesmo nome do instrumento. A escutar os álbuns de Alboka, Bi Beso Lur e Lorius.

Publicado por Luís Rei às setembro 5, 2003 03:12 PM