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agosto 05, 2003

SIMENTERA: Beleza Tranquila

Quem os viu em palco no Festival de Músicas do Mundo de Sines, achou-os mornos. Também tive essa sensação quando os vi num ‘showcase’ realizado no Womex de Berlim, em 99. Podem não ser um projecto orientado para tocar ao vivo, mas os Simentera são autores de quatro belíssimos álbuns: ‘Raíz’ (1995), ‘Barro e Voz’ (1997), ‘Simentera’ (2000) e ‘Tr’adicional’ (2003). Qual deles o melhor?


Copyright © 2003 Achim Lewandowski

MÁRIO LÚCIO, compositor e arranjador dos Simentera, é peremptório em afirmar que a Simentera não é um colectivo constituído por “grandes músicos”. Ao invés são “músicos grandes”. É, de facto, notável o colectivismo destes cabo verdianos, em que as individualidades se diluem num todo comum: “Quando assumimos a ideia de grupo, queríamos que houvessem nove músicos em palco e não apenas quatro. Cada um dos elementos toca vários instrumentos, canta como solista e faz coros. É um trabalho participativo desenvolvido ao longo dos anos. Queremos que todos desenvolvam as suas potencialidades e que, ao mesmo tempo, sejam uma unidade indissociável. Tivemos de fazer um trabalho mental, espiritual e técnico. Quando estamos em palco, há uma comunicação muito forte. Há tolerância e entre-ajuda, solidariedade. Se alguém falhar o outro está ali para cobrir”, revela Mário Lúcio.
Este é o espírito visível em todos as edições fonográficas dos Simentera que, apesar de não serem exuberantes em palco, resulta muito favoravelmente em disco. Sente-se que, Mário Lúcio ao fazer os arranjos, sabe bem o que quer: extrair toda a beleza serena e etérea dos diferentes ritmos e melodias de Cabo Verde (morna, coladera, funana, samba local) e da delicadeza dos instrumentos acústicos, deixando para segundo plano quaisquer excessos de protagonismo de determinado solista. Nem os convidados em “Tr’adicional” tiveram grandes honras de brilhar individualmente. Antes, foram integrados como mais um elemento dos Simentera.

’TR’ADICIONAL’, o quarto álbum, acentua o espírito colectivista dos Simentera. A ‘máquina’ encontra-se bem oleada. Por vezes não sabemos quem está a cantar – será Teté Alinho? E Terezinha Araújo? Ou Maria de Sousa? Existe ainda um entendimento impar entre o grupo e os artistas convidados: os senegaleses Toure Kunda, o camaronês Manu Dibango, o brasileiro Paulinho da Viola, além de Maria João e Mário Laginha. Sem vedetismos em excesso, o mais importante para Mário Lúcio era o de colocar estas estrelas a tocar como músicos dos Simentera. Além disso, procurar aquilo que a história ofereceu de comum entre os representantes da uma cultura lusófona. “Se somos da mesma cultura, podemos tocar a mesma música se pusermos as lembranças a funcionar”, sustenta Mário Lúcio a propósito dos artistas convidados são nitidamente ofuscados pelo colectivo já referenciado e que cujo ‘swing’ que trazem encaixa perfeitamente na estética Simentera. A ideia de Mário Lúcio é a de que “não há um destaque a quem quer que seja. O Manu Dibango toca connosco, como se fosse um saxofonista dos Simentera”.
Conforme é possível constatar no título do disco, a história universal tirou (“Tr’) e acrescentou (“adicional”) valores à cultura de Cabo Verde. Apesar do flagelo social que constitui a escravatura e que roubou à terra um sem número de gente, a música foi a grande beneficiada com esta miscigenação triangular entre África, Europa e América. “Fomos ao encontro de uma parte da nossa cultura. Quando fomos à procura de um camaronês, estamos a trazer não só um convidado especial mas uma parte da nossas raízes. Quando vamos buscar a Maria João e o Mário Laginha... temos as mesmas raízes ainda que façamos música em estilos diferentes. Paulinho da Viola é parte da nossa identidade. O Brasil tem muita influência na música de Cabo Verde. Ajuda a nossa música a desenvolver-se. É uma referência muito actual”.


Copyright © 2001 Achim Lewandowski

”A VIDA COMO UM TODO”. Todos os músicos dos Simentera vivem e trabalham em Cabo Verde, em áreas de elite: da medicina à advocacia. Não há no colectivo uma total dedicação à música que executam e recolhem em todo o arquipélago. Mas o porta-voz do grupo recusa que a actividade musical seja secundária. “É paralela e também um ganha-pão”, revela. “Assumimos a vida como um todo. As oito horas de trabalho diário, a actividade dos Simentera, o tempo para estar com a família e o trabalho comunitário local”.

O ESTATUTO DE MÚSICO INTERNACIONAL. Ao longo de quase uma década de trabalho, alguns elementos dos Simentera têm sido prejudicados por manterem esta actividade, como a não progressão na carreira, dado que o grupo frequentemente desloca-se em digressão à volta do mundo por um ou dois meses. Antes de partirem, visitam o Ministro da Cultura e o Primeiro Ministro que alerta os serviços para serem mais flexíveis com a justificação das faltas. No entanto, esta é uma luta que os Simentera travam há oito ou nove anos e que “ainda não foi conquistada. Lutamos para que haja uma legislação que favoreça o estatuto de músico internacional. Este, tal como um atleta, também é um embaixador do seu país e deve ser reconhecido como tal”, afirma Mário Lúcio. Ele apenas pretende que “o músico de projecção internacional e que tem de sair do país no âmbito do seu trabalho artístico, não deverá ter de pedir autorização ao seu serviço para se ausentar. Bastaria comunicar atempadamente a sua ausência com um prazo de tempo estabelecido”. Apesar de tudo, os Simentera tem tido “quase sempre a colaboração do governo, seja este de esquerda ou de direita”. Só que, ainda não há legislação que lhes dê o estatuto pretendido.

'Tr'adicional' é uma edição da francesa Melodie. É distribuído em Portugal pela Megamúsica.

Publicado por Luís Rei às agosto 5, 2003 03:38 PM

Comentários

Acabei de comprar o Tr'adicional e gosto tanto que queria saber as letras para as poder ensinar aos meus alunos. Alguem me poderia ajudar a transcreve-las? Por favor enviem mensagem com o titulo "letras dos Simentera"...detestaria apaga-la por engano ;-) Obrigada!

Publicado por: elsa às fevereiro 5, 2004 10:36 PM

olà
queria saber onde posso encontrar as letras dos simentera

obrigadissimo

Publicado por: alessandro às setembro 20, 2004 08:27 PM