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agosto 29, 2003
ONDE ESTAVA LULA PENA?

Nunca gostei de festivais itinerantes, espalhados por diversas cidades. Pelo menos, dos exemplos que temos, ou tivemos, no nosso país. Os Encontros Musicais de Tradição Europeia, apesar de terem apostado em programas que privilegiavam a ousadia e a qualidade dos artistas (Mari Boine, Hedningarna, Taraf de Haidouks, Marilis Orionaa, Mestre Ambrósio), nunca conseguiram impor-se verdadeiramente. Por várias razões. Dificilmente um evento desta natureza, que depende do investimento de várias Câmaras Municipais, consegue ganhar consistência e progressivamente conquistar cada vez mais público. Nos Encontros Musicais de Tradição Europeia todos os anos caiam e eram adicionadas localidades ao cartaz. Mudavam-se à pressa certos locais de eventos. Ainda me lembro de ter andado, durante mais de uma hora em Oeiras, à procura do local onde os Hedningarna deveriam ter tocado. Só no dia seguinte soube que eles tinham actuado em Paço d’Arcos (ou terá sido Algés?). Além disso, a promoção do festival sempre deixou muito a desejar. Várias foram as edições cujo programa era divulgado em cima das datas dos espectáculos. Claro que as Câmaras Municipais sempre foram os principais agentes do caos. Ora agora queriam, ora depois já não queriam. Como é costume, cada vez tentavam pagar menos por semelhante ou melhor qualidade. E a logística? Alguns dos palcos, além de um PA sofrível, nem camarins de apoio aos artistas tinham.
Depois desta frustrante experiência, a Etnia mostrou com sucesso como se realiza um festival de média dimensão com uma muito boa programação: O Multimúsicas de Lisboa que, infelizmente não durou mais do que três edições. Mudam-se as cores políticas, muda-se a vontade de continuar a apostar neste tipo de eventos que reúnem muita ‘freakalhada’, muitos fumadores de charros. Enfim...
O Festival Sete Sóis Sete Luas, que aposta num modelo semelhante aos dos Encontros Musicais de Tradição Europeia, com a única diferença de se estender a outros países europeus (Espanha, Itália e Grécia), parece sofrer das mesmas maleitas já aqui referidas. É um evento que ninguém dá por ele. Anualmente, muda alguns dos locais nacionais no seu cartaz que, na maior parte dos casos, permanecem fora do limitado circuito (Lisboa e Porto) dos repórteres de jornais. Os únicos artigos que anulamente leio sobre o “Sete Sóis”, prendem-se única e exclusivamente com reportagens em Pontedera (Itália). Por que será?
No Sábado passado tive uma experiência semelhante aquela de há uns anos em Oeiras e que me impossibilitou de ver os Hedningarna, numa altura em que tinham acabado de lançar o álbum “Kaksi”. Estava em Alcoutim e desloquei-me a Monte Gordo (é este o local que está referenciado no site www.7sois7luas.com) para ver a Lula Pena que, parece, tem estado a trabalhar num novo álbum de arranjos electrónicos. Só que, num Sábado à noite e em Agosto, Monte Gordo parece-se com o Centro Comercial Colombo durante os fins-de-semana de Dezembro que antecedem o Natal. Anda-se na principal avenida ziguezaguendo, contornado múltiplos obstáculos que se atravessam a todo o momento na nossa direcção. Depois desta tortura, o palco nem vê-lo. Não o encontrei na principal avenida. Somente me deparei músicos andinos, vários acrobatas de circo e new agers celtas que vendiam Cds a dez euros. Onde estava então Lula Pena ? No Casino? No Campo de Futebol? No parque de campismo? Em algum Cine-Teatro situado fora da principal zona turística e prestes a ser demolido? Se calhar seria mais fácil encontrar Wally. Ainda entrei em alguns bares na esperança de encontrar ‘flyers’ que indicassem o local exacto do concerto, mas nada. Nessa altura já deveria passar das onze e, provavelmente, se tivesse havido concerto, já deveria estar a acabar. Será assim tão difícil à organização do evento colocar o nome da sala na programação do festival? O mais engraçado é que os promotores do evento até são italianos, o que impossibilita afirmar ser esta mais uma organização “à portuguesa”. Ai estes latinos...
Publicado por Luís Rei às 12:34 PM
agosto 07, 2003
OS TEMAS DE ‘OUMOU’ (2):
OS TEMAS DE ‘OUMOU’ (2): ‘DUGU KAMALEMBA’ (THE WOMANISER; THE SKIRT-CHASER)
This is a song about polygamy. Often the men who take than one wife are the womanisers. They try to seduce anything in a skirt. This was my first real open criticism of polygamy.
Oh the youth of Mali, Oumou Sangare is greeting you. Listen hard to what I have to say, be careful of the skirt chaser, they’ll marry you with all the sweet words of the world.
In Mali, the first wife is usually chosen from within the extended family. So he’ll say to her, the first wife, you are my sister! Even if I marry a second wife, you’re the best because we’re equal, we’re of the same blood. Then he brings a second wife into the home, and he says to her, you’re my favourite, why? You will make me beautiful children. The first onewas given to me by my family, but you are my own choice. The he marries a third wife, and to this new one he says, you are the lucky one in this household. So now there are three wives ar home. The he marries a fourth, and to her he says, you are the very last, and the best. The others are old now, you’re the youngest, that’s it, now I will never marry again! Of course this is true, since he can only have four wives by Muslim law. So this fourth one thinks she’s the best. Then all four wives bicker with each other. The womaniser always has fights at home among the wives.
Publicado por Luís Rei às 03:03 AM
OS TEMAS DE ‘OUMOU’ (1):
‘MAGNOUMAKO (AGONY)
Magnoumako means extreme suffering, agony. I wrote this song about my mother. About how she wept, how she was marginalized by society, how she was ignored, how she struggled. How can African woman hear this song without crying?
Women pass their entire lives suffering, they become pregnant in suffering, give birth in suffering, the child crawls in suffering, the mother suffers the upbringing of the child all on her own, then the child turns into a well-brought up adult, the mother is told to stay out of the child’s affairs, not to interfere with this marriage. Any money he earns goes straight the father not the mother. If she wants even a penny of it, she has to beg her husband. She has done everything for this child, but all the rewards and honour go to the father.
My mother was her own, struggling to make ends met, to bring us up well. Her tears were always running. There were six of us in one room. Sometimes at night she would look at us, and she’d begin to weep, because she had no means to feed us the next day… This is what I describe in the song. Then I address all the women of Africa, I say, you tighten your belt, you endure the pain, you become lost in dark thoughts, but hold on with both hands, because one day, there will be light in your life.
My mother can’t listen to this song, if it’s playing on the radio she says, OK turn it off now!! That’s enough!!! (Oumou Sangare entrevistada por Lucy Duran)
Publicado por Luís Rei às 02:44 AM
OUMOU SANGARE: A 'CANTORA-PÁSSARO' VOA

Oumou Sangare vai editar um novo disco no próximo dia 29 de Setembro, intitulado ‘Oumou’. Uma retrospectiva em duplo CD que contém doze dos melhores temas dos três álbuns editados pela World Circuit (‘Ko Sira’, ‘Moussoulou’ e ‘Worotan’) e mais oito temas inéditos. É uma verdadeira alegria ouvir de novo os pássaros a cantar.
O RETRATO. Oumou Sangare é a principal figura do wassolou, região do sul do Mali que significa também um estilo musical próprio e distinto do universo dos Griots.
As mais notáveis vozes do Wassoulou como Sangare ou mesmo Nahawa Dumbia, não nasceram em berço de artistas. São cantoras por opção própria e demarcam-se dos músicos profissionais da corte (os Griots) ao aprofundar problemas sociais próprios de uma sociedade islâmica.
Oumou Sangaré e todas as outras cantoras wassoulou são vulgarmente apelidadas de cantoras-pássaro. Na região do wassoulou acredita-se que certos pássaros podem comunicar a sua visão do mundo aos humanos. E Oumou Sangaré tem feito um trabalho notável nesse sentido, tendo sido recentemente distinguida pela UNESCO com um prémio musical.
Oumou Sangaré é um verdadeiro fenómeno no Mali. Uma artista de garra que fala ao ouvido dos homens aquilo que nenhuma outra mulher havia feito antes. Através da música, ela tem uma acção social preponderante, lutando pelos direitos civis das mulheres.
Poligamia, arranjo de casamentos, compra de noivas e excisão são alguns dos assuntos tabu abordados por Sangare nas suas canções. A cantora que admira a sociedade ocidental pelo facto de as mulheres poderem tomar decisões próprias e terem acesso à educação, não limita a sua acção social à música. Oumou Sangare já não gravava um disco há mais de sete anos, porque tem tido um papel activo na redes de trabalho com mulheres do Mali, auxiliando-as, por exemplo, a entrar no mundo empresarial.
Sobre a possibilidade de Oumou Sangare ser confrontada com o exílio, pelo facto de a sua acção ser demasiado progressista para uma sociedade islâmica, a cantora expressa-se através de uma parábola. Afirma que na língua nativa da tribo Fula, a palavra Mali significa hipopótamo. Segundo a cantora, este mamífero pode sair da água e partir em busca de comida, mas regressa sempre ao seu habitat.
Publicado por Luís Rei às 02:20 AM | Comentários (1)
agosto 05, 2003
SIMENTERA: Beleza Tranquila
Quem os viu em palco no Festival de Músicas do Mundo de Sines, achou-os mornos. Também tive essa sensação quando os vi num ‘showcase’ realizado no Womex de Berlim, em 99. Podem não ser um projecto orientado para tocar ao vivo, mas os Simentera são autores de quatro belíssimos álbuns: ‘Raíz’ (1995), ‘Barro e Voz’ (1997), ‘Simentera’ (2000) e ‘Tr’adicional’ (2003). Qual deles o melhor?

Copyright © 2003 Achim Lewandowski
MÁRIO LÚCIO, compositor e arranjador dos Simentera, é peremptório em afirmar que a Simentera não é um colectivo constituído por “grandes músicos”. Ao invés são “músicos grandes”. É, de facto, notável o colectivismo destes cabo verdianos, em que as individualidades se diluem num todo comum: “Quando assumimos a ideia de grupo, queríamos que houvessem nove músicos em palco e não apenas quatro. Cada um dos elementos toca vários instrumentos, canta como solista e faz coros. É um trabalho participativo desenvolvido ao longo dos anos. Queremos que todos desenvolvam as suas potencialidades e que, ao mesmo tempo, sejam uma unidade indissociável. Tivemos de fazer um trabalho mental, espiritual e técnico. Quando estamos em palco, há uma comunicação muito forte. Há tolerância e entre-ajuda, solidariedade. Se alguém falhar o outro está ali para cobrir”, revela Mário Lúcio.
Este é o espírito visível em todos as edições fonográficas dos Simentera que, apesar de não serem exuberantes em palco, resulta muito favoravelmente em disco. Sente-se que, Mário Lúcio ao fazer os arranjos, sabe bem o que quer: extrair toda a beleza serena e etérea dos diferentes ritmos e melodias de Cabo Verde (morna, coladera, funana, samba local) e da delicadeza dos instrumentos acústicos, deixando para segundo plano quaisquer excessos de protagonismo de determinado solista. Nem os convidados em “Tr’adicional” tiveram grandes honras de brilhar individualmente. Antes, foram integrados como mais um elemento dos Simentera.
’TR’ADICIONAL’, o quarto álbum, acentua o espírito colectivista dos Simentera. A ‘máquina’ encontra-se bem oleada. Por vezes não sabemos quem está a cantar – será Teté Alinho? E Terezinha Araújo? Ou Maria de Sousa? Existe ainda um entendimento impar entre o grupo e os artistas convidados: os senegaleses Toure Kunda, o camaronês Manu Dibango, o brasileiro Paulinho da Viola, além de Maria João e Mário Laginha. Sem vedetismos em excesso, o mais importante para Mário Lúcio era o de colocar estas estrelas a tocar como músicos dos Simentera. Além disso, procurar aquilo que a história ofereceu de comum entre os representantes da uma cultura lusófona. “Se somos da mesma cultura, podemos tocar a mesma música se pusermos as lembranças a funcionar”, sustenta Mário Lúcio a propósito dos artistas convidados são nitidamente ofuscados pelo colectivo já referenciado e que cujo ‘swing’ que trazem encaixa perfeitamente na estética Simentera. A ideia de Mário Lúcio é a de que “não há um destaque a quem quer que seja. O Manu Dibango toca connosco, como se fosse um saxofonista dos Simentera”.
Conforme é possível constatar no título do disco, a história universal tirou (“Tr’) e acrescentou (“adicional”) valores à cultura de Cabo Verde. Apesar do flagelo social que constitui a escravatura e que roubou à terra um sem número de gente, a música foi a grande beneficiada com esta miscigenação triangular entre África, Europa e América. “Fomos ao encontro de uma parte da nossa cultura. Quando fomos à procura de um camaronês, estamos a trazer não só um convidado especial mas uma parte da nossas raízes. Quando vamos buscar a Maria João e o Mário Laginha... temos as mesmas raízes ainda que façamos música em estilos diferentes. Paulinho da Viola é parte da nossa identidade. O Brasil tem muita influência na música de Cabo Verde. Ajuda a nossa música a desenvolver-se. É uma referência muito actual”.

Copyright © 2001 Achim Lewandowski
”A VIDA COMO UM TODO”. Todos os músicos dos Simentera vivem e trabalham em Cabo Verde, em áreas de elite: da medicina à advocacia. Não há no colectivo uma total dedicação à música que executam e recolhem em todo o arquipélago. Mas o porta-voz do grupo recusa que a actividade musical seja secundária. “É paralela e também um ganha-pão”, revela. “Assumimos a vida como um todo. As oito horas de trabalho diário, a actividade dos Simentera, o tempo para estar com a família e o trabalho comunitário local”.
O ESTATUTO DE MÚSICO INTERNACIONAL. Ao longo de quase uma década de trabalho, alguns elementos dos Simentera têm sido prejudicados por manterem esta actividade, como a não progressão na carreira, dado que o grupo frequentemente desloca-se em digressão à volta do mundo por um ou dois meses. Antes de partirem, visitam o Ministro da Cultura e o Primeiro Ministro que alerta os serviços para serem mais flexíveis com a justificação das faltas. No entanto, esta é uma luta que os Simentera travam há oito ou nove anos e que “ainda não foi conquistada. Lutamos para que haja uma legislação que favoreça o estatuto de músico internacional. Este, tal como um atleta, também é um embaixador do seu país e deve ser reconhecido como tal”, afirma Mário Lúcio. Ele apenas pretende que “o músico de projecção internacional e que tem de sair do país no âmbito do seu trabalho artístico, não deverá ter de pedir autorização ao seu serviço para se ausentar. Bastaria comunicar atempadamente a sua ausência com um prazo de tempo estabelecido”. Apesar de tudo, os Simentera tem tido “quase sempre a colaboração do governo, seja este de esquerda ou de direita”. Só que, ainda não há legislação que lhes dê o estatuto pretendido.
'Tr'adicional' é uma edição da francesa Melodie. É distribuído em Portugal pela Megamúsica.
Publicado por Luís Rei às 03:38 PM | Comentários (2)