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julho 15, 2003

LILA DOWNS: NA LINHA DA MORTE

LILA DOWNS: NA LINHA DA MORTE

Nasceu no outro lado da fronteira. No lado de lá da linha. Lugar que maioria dos mexicanos deseja alcançar. A razão pela qual muitos deles perderam a vida.

Filha de um professor de arte e pintor norte-americano e de uma indígena mexicana de etnia Mixteca, Lila Downs é uma espécie de Manu Chao no feminino. Antes da glória de “Burn It Blue”, tema gravado em dueto com Caetano veloso para a banda sonora do filme “Frida”, editou o álbum “La Linea” (o seu terceiro disco).

Mais um manifesto anti-globalização, “La Linea” põe a nú a política económica global da NAFTA, a imigração precária num mundo de (apenas e só) livre circulação de bens financeiros e as situações desumanas que se vivem em solo mexicano. Aborda as questões da exploração do trabalho feminino nas “maquiladoras”, a falta de direitos civis dos mais de 10 milhões de indígenas que aí vivem, o infortúnio daqueles que pagam com a vida o facto de tentarem passar a fronteira entre o México e os EUA.

Além de um discurso inflamado pela defesa dos pobres e excluídos, Lila Downs exibe uma abrangência sonora notável, centrada sobretudo no universo latino-americano. Sem nunca esquecer as suas raízes índias – ela própria veste-se a rigor e vive numa comunidade mixteca – Lila Downs, ora exibe a sensualidade serena de excelsas vozes hispano-americanas como Susana Baca e Toto La Momposina, ora revela o seu lado negro de tragédia e dramatismo inspirado em Lhasa, ao qual não falta a referência à lenda de “La Llorona”.

Entre arranjos jazz e pop tão sofisticados como aqueles que moldam “Eco de Sombras” de Baca, Lila Downs apresenta várias facetas em “La Linea”. A clássica, rígida e sóbria, centrada na cultura popular mexicana, em cumbias e boleros. E a experimentalista e irreverente, ironizando a má sorte daqueles que tentam passar a linha com rancheras (“El Bracero Fracasado”), decompondo o intervencionismo de Woody Guthrie, revestindo todo o dramatismo das suas palavras com ritmos de hip hop e reggae, dando uma leitura afro-cubana - num jeito semelhante ao dos norte-americanos Pink Martini - a “Perhaps, Perhaps, Perhaps”. Uma obra tão interessante, quanto desequilibrada.

Lila Downs estará em Portugal, no próximo sábado, dia 19 de Julho, para abrir o ciclo “Noites no Palácio” (Jardins do Palácio de Cristal, Porto). A 25 do corrente mês, apresenta-se no festival “Tom de Festa (em Tondela)

Publicado por Luís Rei às julho 15, 2003 11:30 PM

Comentários

Tudo o que tenha a ver com Lila Downs, Susana Baca, Chavela Vargas, Violeta Parra, Athaualpa Yupanqui e os que se lhes assemelharem, me interessa.Obrigada pelas preciosas informações.

Publicado por: Fernanda Sampaio às agosto 4, 2004 04:27 PM

Conheci a Lila Downs faz pouco tempo, mas acabei gostando muito dela, já que ela é uma forte representante feminina da boa música, além de ser uma ativista dos direitos humanos e divulgar sempre a cultura nativa mexicana riquíssima.

Publicado por: Isa dos Anjos às setembro 14, 2004 01:41 PM

Assisti essa semana um show pela Tv Cultura, adorei, principalmente por ela trabalhar fazendo o resgate de canções nativas, e muito bem trabalhadas musicalmente, e o elogio se estende aos músicos que são fantásticos também.

Publicado por: Alba Franco às dezembro 22, 2004 06:54 PM