« GALANDUM GALUNDAINA: "QUE SEIA UN EISITO I 1 PURMEIRO DE MUITOS I BUONOS, CHENOS D'ALMA" | Entrada | O RETRATO DE MARI BOINE »

julho 30, 2003

FESTIVAL RAÍZES DO ATLÂNTICO: UMA SEREIA EM MAR AGITADO


O Funchal recebeu, durante toda a semana que passou, a quinta edição do Festival Raízes do Atlântico. Como tantos outros, sofre as agruras dos orçamentos municipais ou governamentais disponíveis que, atendendo à conjuntura actual, tendem a ser mais curtos. Quem não tem cão caça com gato. Além de um nome de luxo – Cesária Évora – o evento contou com a participação de um grande contigente madeirense – Encontros da Eira, Pipi Noir e Xarabanda – e de um projecto a capella de Sintra (agradável surpresa estes Officium) que trabalha boa parte do espólio madeirense recolhido pelo projecto de Rui Camacho (Xarabanda).

A excelência da folk europeia


Na última noite, os catalães L’Ham de Foc exibiram todas as credenciais de um projecto a jogar nitidamente na liga dos campeões europeus da folk europeia, em contraste com os escoceses Mac Umba, divertidos mas tecnicamente limitados a militar na 2ª divisão B.
Custa a acreditar que os festivais do continente não tenham “pegado” nestes valencianos. Além de terem dois álbuns tão interessantes quanto complexos (“Cançó de Dona i Home” de 2002, bem melhor que “U” de 1999), a banda também é grande, muito grande, ao vivo. Num festival de entrada gratuita, repleto de espectadores acidentais, foi notório o enorme respeito por quem estava em cima do palco. Coisa que raramente acontece nos festivais de maior dimensão e de bilhetes (bem) pagos. Momentos houve, de pausa, em que se escutou... silêncio. Nem se ouvia tão pouco o vizinho do lado a falar. Nem as crianças a brincar ou a chorar. Nada. Foi bonito de se sentir. Para isso contribuiu o extremo profissionalismo dos músicos e dos técnicos de som e de luzes que conseguiram transformar metal em ouro, graças à simpatia de ambos e de uma notável disciplina em palco a fazer lembrar projectos indianos Ghazal, cujos mestres de cítara indiana acordavam diariamente os protagonistas por volta das três da manhã, para estes praticarem o instrumento.
A receita parece ser simples. À beira do mediterrâneo procura-se um ponto de contacto entre o contemporâneo e o medieval, colocam-se todos os ingredientes provenientes de Creta, do norte de África, da Pérsia, da folk italiana, albanesa e búlgara num único caldeirão. Serve-se tudo em bandeja de prata, num banquete que requer mais talheres do que uma refeição imperial. É impressionante a forma como os vários instrumentos vão desfilando ao longo de uma hora de êxtase. Há cordas para todos os gostos: alaúdes, sanfona, cavaquinho, mandola, cítara, saltério, bouzouki. Há “vientos” (como eles dizem): gaita galega, búlgara, dolçaina, didgeridoo, clarinete e outro tipo de aerofones aparentados com a bombarda bretã e o duduk arménio. Há também muita percussão: darbuca, bendir, pandeireta, menuda, tamborina de cordas e tablas. Excelente os cinco minutos de fama de Diego López, a sós com as tablas. Mas é em Efrén López e Mara Aranda que gira todo o universo dos L’Ham de Foc. Ele é a artéria que bombeia o sangue para toda a criação. Ela, a alma que ilumina esta viagem do fantástico à intemporal pangeia mediterrânica. Quando é que é mesmo o próximo concerto dos L’Ham de Foc?

Samba com whisky

A seguir, os Mac Umba tinham por missão oferecer-nos a boda de um peculiar “casamento” entre as gaitas escocesas das terras altas e a percussão brasileira em andamento de samba. Humanamente são do melhor que há. Tecnicamente, não escondem a limitação harmónica e rítmica. Pobres em cima de um palco, ricos a animar uma festa de rua.

Mais música menos palavra

Na passada quinta-feira, a instituição madeirense Xarabanda, que tem feito um trabalho incansável de recolha e de formação de novos músicos, não gostou da forma como a organização os recebeu. Um dos interlocutores, Rui Camacho, fez estalar o verniz. Queixou-se do som da organização, da falta de apoios monetários para as bandas madeirenses (só faltou chamar-lhes cubanos), a um repórter mais habituado a transcrever declarações dos intervenientes e da assistência, do que propriamente a escrever um parágrafo que seja de análise ao concerto. É verdade que houve problemas de som, mas Rui Camacho terá de olhar primeiro para a forma caótica como é montado um espectáculo dos Xarabanda. Gabo-lhes o mérito de apresentaram uma verdadeira orquestra de cerca de uma dezena de violas de arame e rajões, tocados por alunos da sua associação. Há (novas) vozes femininas apreciáveis, um bom mestre de cerimónias (Roberto Moniz). Mas é intolerável a forma como se perde tempo a entrar e sair do palco em cada canção, quebrando toda a possível dinâmica de um espectáculo pensado para ir crescendo momento a momento. Como é possível não sair de nove ou dez músicos em cima do palco um rasgo mais ousado de criatividade, quebrando a linearidade como denominador comum?
No final, a machadada final na nossa paciência. Com todo o respeito pela Dona Isabel Gonçalves, que é uma das fundadoras dos Xarabanda... mas não deveria esta senhora tocar percussão e cantar apenas fora dos palcos? Assim é difícil que o mar passe a ponta de São Lourenço, como deseja Rui Camacho. Vai continuar a bater e a voltar para trás.

Publicado por Luís Rei às julho 30, 2003 12:32 AM